19 de Setembro – Copacabana – Puno

O dia começou com muita chuva e granizo. Era com cada pedra! O pior é que a nossa manhã estava obrigatoriamente destinada para um passeio de barco até à Ilha do Sol, no Lago Titicaca. O tempo até que foi melhorando mas o sol, esse, nem vê-lo.
Dados os horários de transporte entre Copacabana – Puno – La Paz, acabámos por ver o dia inteiro que pretendíamos passar na Ilha do Sol reduzido apenas a uma manhã. Muito pouco, ainda para mais quando o ideal para se explorar o local é passar lá pelo menos uma noite. Opções forçadas, escolhas entre vários pontos de (muito) interesse que não são fáceis de se fazer.

Assim, ao desembarcarmos iniciámos imediatamente a nossa caminhada em direcção ao extremo sul da ilha, com os socalcos construídos pelos incas e algumas pré existências das suas casas. À chegada ao pequeno porto fomos logo confrontadas com (mais) um estoiranço das antigas: a “escalera del inca”, dezenas e dezenas de degraus para iniciar as hostilidades da caminhada, as suficientes para me por de língua de fora. Estava frustradíssima porque uns chilenos à nossa frente, com mais uns 10 anos no corpo do que eu, subiam descaradamente os degraus num ritmo tal que mais parecia que os saltavam de 2 em 2. Percebi depois, em conversa, que faziam maratonas. Ok! Já me sinto novamente em forma.

O passeio foi agradável, ainda que não tão bom para tirar fotos pelo tempo fechado. A excepção foi a passagem de umas quantas vicunhas a que se seguiu o disparar do gatilho da máquina fotográfica. O pior foi depois quando a dona dos bichos insistia em pedir uns quantos bolivianos pelas fotos surripiadas. Ficou a insistir, que tanta exploração do turista também já parece demais.
A Ilha do Sol, a maior do Lago Titicaca, com cerca de 14km2, foi o local onde o Sol nasceu. Foi aqui também que nasceram Manco Cápac, o primeiro imperador inca, e sua irmã e esposa Mama Ocllo, os quais seguiram daqui para fundar o centro do império inca em Cusco.
À frente da Ilha do Sol encontra-se a Ilha da Lua, bem mais pequena, onde se diz que eram guardadas as virgens escolhidas pelo sol. Há até quem diga que, espertos, os habitantes da 1.ª ilha terão feito um túnel subaquático ligando as duas ilhas para que pudessem contactar com as ditas virgens. Obviamente, até hoje não foram encontrados quaisquer vestígios nesse sentido. Existe, sim, uma série de cabos de alta tensão ligando aereamente as duas ilhas que dispõem hoje de todas as condições. O progresso impõem-se, assim, na paisagem.

De volta a Copacabana seguimos de imediato para Puno, no Peru. A viagem de autocarro dura cerca de 3 horas, num ritmo lento e demorado pela passagem na fronteira.
Chegámos a Puno já com a tarde a cair (no Peru é uma hora mais) e enquanto a Sofia fazia o telefonema da ordem para casa, um miúdo de 12 anos pedia-me insistentemente para me engraxar as botas que há dias andavam mais do que muito sujas (ora demasiado castanhas da terra, ora demasiado brancas do sal). Já várias vezes havia sido abordada pelos engraxadores para isso, profissão muito comum tanto na Bolívia como no Peru, sempre recusando. Mas desta vez lá aceitei enquanto escutava a conversa da mana com a mamã. Perguntei a Elvis – era este o nome do rapaz – quanto seria o serviço ao que me respondeu que deixaria à minha vontade. Passado um pouco lá me perguntou se gostava de futebol (acertou em cheio) e disse-me que a sua bola se havia furado, pelo que gostaria que lhe comprasse uma numa loja umas quantas ruas mais adiante. Acedi. Chegados à loja, várias “pelotas” em exposição mas uma chamou a atenção: uma vermelha, com o símbolo da nossa federação e com o nome do nosso país em letras bem visíveis. Óbvio que foi mesmo essa a bola com que o jovem peruanito ficou, para que não se esquecesse destas portuguesas. Incrível como num local tão distante o improvável pode acontecer. Note-se que a globalização, turismo à parte (e mesmo esse, apesar das massas, tem uma mentalidade diferente), não chegou aqui. Mesmo o futebol, que poderia ser um exemplo dessa globalização, parece não ganhar essa dimensão nesta parte da América do Sul. Aqui, tal como na Bolívia, tirando os jogadores e clubes da terra, dificilmente alguém conhece outro jogador para além de Ronaldinho e do Real de Madrid. Cristiano Ronaldo ou qualquer clube inglês são autênticos desconhecidos.

E Puno? É, claramente, um daqueles lugares de passagem obrigatória mas apenas porque se situa a meio caminho entre Cusco e o Titicaca e fica à beira do highlight maxi turístico que são as ilhas flutuantes de Uros, a 5 km de distância, as quais visitaríamos no dia seguinte. De resto, Puno tem uma rua com uns 400 metros de comprimento carregada de lojas de souvenirs e restaurantes para estrangeiros. Os preços aqui são um pouco mais caros que os do outro lado da fronteira. Isso no que aos turistas diz respeito, uma vez que vimos um placar à porta de um restaurante local anunciando para o jantar refeição completa (sopa, prato e sobremesa) a 0,40 cêntimos de Euro.
Surpreendente e inacreditável? Sim, como tudo por aqui.

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