Capadócia e Cristianismo

Não tenho a certeza de qual a primeira vez em que terei ouvido falar da Capadócia.
De tão mítica que é, fácil se torna que pertença ao nosso imaginário, por este ou aquele motivo. O difícil é saber porquê e donde vem a dita imagem.
O certo é que cantarolava a música “Jorge da Capadócia” sem nunca ter prestado grande atenção à sua letra. Jorge Ben Jor é o seu autor (inspirou-se na “Oração de São Jorge”), mas conhecia-a melhor ouvida pela voz de Caetano Veloso ou pela de Fernanda Abreu, que a recriou de uma forma muito funk.

“Jorge sentou praça na cavalaria
e eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
para que meus inimigos tenham pés, não me alcancem
para que meus inimigos tenham mãos, não me peguem, não me toquem
para que meus inimigos tenham olhos, e não me vejam
e nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal

armas de fogo, meu corpo não alcançará
facas, lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
cordas, correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge

Jorge eh da Capadócia, viva Jorge”

Talvez pensasse que o “Jorge da Capadócia” pudesse ser o próprio Jorge Ben Jor.
Mas, nada como uma ida ao próprio local para rever teses julgadas acertadas.
O dito Jorge não é mais do que o Jorge do Dragão. O São Jorge, patrono de Inglaterra, Portugal, Geórgia, Lituânia e até dos escoteiros. A lenda conta-nos que o nosso herói, guerreiro vindo da Capadócia, salvou uma princesa das garras de um dragão com a sua famosa espada.


E pela Capadócia, região no coração da Turquia muçulmana, em pleno Médio Oriente, continente asiático, não faltam pequenas igrejas escavadas nas rochas com frescos e pinturas representando a vida de São Jorge e, em especial, esta passagem, prestando-lhe, assim, homenagem que chega praticamente intacta até aos dias de hoje, tal é o grau de boa conservação de muitas dessas pinturas.
A essa boa conservação das pinturas muito contribui a escassa luz que dispõem estas pequenas igrejas rupestres, a maioria do século X, que muitas das vezes não chegam a ter mais de 10 m2. Daí que seja quase uma aventura conseguir entrar nas salinhas se se tiver o azar de apanhar com um dos imensos grupos de turistas que viajam pelo mundo e, por maioria de razão, pela Capadócia.


O Museu ao Ar Livre de Goreme é um bom local para se explorar estes exemplares. Considerado Património Mundial pela Unesco, neste local existem mais de uma dezena de igrejas, mosteiros, aos quais não faltam refeitórios, e crê-se que terá sido um dos principais centros religiosos do século XI. Estas igrejas são do período bizantino, marcadamente cristão, durante o qual a Capadócia se terá tornado um local de refúgio para os cristãos. Com a chegada dos Seljuks e dos Otomanos, um século mais tarde, a que correspondeu o natural declínio do cristianismo, este foi, ainda assim, tolerado pelos novos invasores.
Foi apenas em 1907 que um padre francês redescobriu estas igrejas e, umas quantas décadas depois, nos anos 80, deu-se o boom do turismo na Capadócia, ainda que não por motivos religiosos.
Fica, no entanto, à parte a vertente geológica, o registo da história do ponto de vista religioso daquele que é considerado como um dos mais antigos berços do cristianismo oriental.

Umas das muitas igrejas / caves nas formações geológicas do Museu ao Ar Livre de Goreme, Capadócia

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