Do Vitra Campus à Fundação Beyeler

Do Vitra Campus à Fundação Beyeler ou de Weil am Rhein a Riehen ou da Alemanha à Suiça.

Sempre a pé.

Basileia é uma meca arquitectónica e um parque de diversões para os apaixonados em arquitectura. Um dos pontos altos de uma visita à cidade suiça é a visita ao Vitra Campus, na cidade de Weil am Rhein, já na Alemanha. Confuso?

O Vitra Campus fica a meros 5 kms de Basileia, alcançáveis por transportes públicos como o autocarro (que pára à porta) ou o comboio (com paragem no centro de Weil am Rhein). Fácil, por isso, de lá chegar.

A Vitra é uma marca de mobiliário de design. Embora seja uma marca suiça, criada por suíços, tem a sua fábrica e Museu – o Campus – para lá da fronteira (qual fronteira?), já em território alemão.

Instalado numa zona rural, este Campus reúne um conjunto inacreditável de grandes arquitectos. É como se fosse a Legolândia dos amantes da arquitectura contemporânea, quer pela quantidade de projectos incríveis quer pela forma dos seus edifícios.

O Vitra Design Museum, aberto em 1989, apresenta exposições temporárias ligadas ao design num sentido amplo. Actualmente está patente “Night Fever. Designing club culture 1960 – Today”, dedicada aos clubes nocturnos e discotecas como epicentros da cultura pop, relacionando esta cultura com o design, desde o passado até aos dias de hoje, cultura esta que criou toda uma nova dinâmica urbana em algumas cidades. Numa instalação interactiva criada para esta exposição podemos envolver-nos no som e nas luzes de uma disco, através de quatro épocas e quatro estilos de música – pre-disco, disco, house e tecno.

Este edifício não engana. É de Frank Gehry.

O primeiro edifício do americano na Europa, esta justaposição de módulos de várias formas parece quase uma casinha de brincar. O branco da fachada dá-lhe luz e o interior é também inundado por uma luz natural que entra pelas suas aberturas.

Ao lado deste edifício dedicado ao museu do design a arquitectura de Gehry continua, agora materializada num outro edifício destinado a fábrica da marca Vitra.

Junto aos de Gehry, e num contraste bem vincado, encontramos um discreto edifício em concreto, estreito mas alongado, de Tadao Ando. É o Conference Pavilion, de 1993, e foi o primeiro projecto do japonês fora do seu país natal.

Entre Gehry e Ando, no meio de um bonito relvado fica a obra Balancing Tools, de Claes Oldenburg & Coosje van Bruggen. Esta escultura, de 1984, representa em grande escala as ferramentas de trabalho dos que se dedicam à criação do mobiliário, como o martelo, o alicate e a chave de fendas.

A criatividade segue solta.

O Airstream Kiosk é um atrelado a lembrar as carrinhas pão de forma. O original data de 1968 e a Vitra, depois de o adquirir, restaurou-o em 2011 e hoje mantém-no no seu Campus para que no Verão seja usado como restaurante. Não havendo Verão, antes uma Primavera chuvosa, fica ainda assim a sua esplanada cheia de cor.

O Vitra Haus é a flagship store da Vitra.

Vem descrito como um espaço de inspiração para a nossa própria casa e é-o mesmo. Aqui encontramos os objectos belíssimos que a marca tem vindo a criar, alguns dos quais se tornaram icónicos.

Este edifício é um projecto da dupla suiça Herzog & de Meuron construído em 2010 e é também ele uma inspiração e um hino à criatividade. Este é o centro da Legolândia de Weil am Rhein – este edifício convence-nos de que é possível desmontá-lo peça por peça para voltar a ser montado de uma outra forma, da forma que a nossa imaginação permitir.

Mesmo o interior, preenchido por objectos da Vitra, já se disse, é um espaço que nos faz sonhar, pelos cortes e grandes aberturas das janelas que deixam ver a contrastante realidade paisagística exterior.

Do último piso conseguimos ter uma perspectiva global do Vitra Campus.

Da Vitra Haus seguimos pela Promenade projectada por Álvaro Siza até ao seu edifício, passando pela Vitra Slide Tower. Com uma altura de 30 metros, este posto de observação criado por Carsten Höller apenas está acessível em dias de bom tempo, o que infelizmente não era o caso. É uma torre, um miradouro e também uma obra de arte. Quase que até um parque de diversões, pois quem caiba dentro da sua espécie de tobogã vai-se divertir a valer a descer esta instalação.

O edifício de Siza é o Factory Building, construído em 1994. As suas linhas rectas estão cá, mas ao invés do branco que lhe costumamos observar, desta vez é o tijolo que marca presença. Simples e equilibrado este edifício é bonito e como que um fiel da balança para a maioria das formas que tínhamos visto até aí aos seus colegas arquitectos. Ainda assim, tem um elemento que se propõe a quebrar esta simplicidade, como o é a ponte branca curvada que sai do seu telhado.

A Promenade de Siza, construída em 2014, é uma passagem pedonal que permite a qualquer um de nós caminhar pelo exterior do Campus e, assim, ter acesso cómodo aos seus edifícios (ainda que não ao espaço exclusivo das suas fábricas).

Bem distribuída, termina deixando-nos face a face com a Fire Station de Zaha Hadid. Construída em 1993, esta foi a primeira grande obra da malograda arquitecta iraquiano-inglesa, uma das minhas preferidas, já o sabe quem lê este blogue. É um conjunto de volumes de concreto que chegam a parecer estar dispostos de forma aleatória. Mais uma vez vem à ideia as peças de Lego. É quase como que uma escultura. Originalmente o propósito deste edifício era o de ser a casa dos bombeiros, daí o seu nome, mas hoje destina-se a eventos e exposições.

Ao lado da Fire Station de Zaha Hadid, que já estava ao lado de Álvaro Siza, está o Vitra Schaudepot de Herzog & de Meuron.

No Schaudepot está depositada a colecção que a Vitra foi acumulando ao longo dos tempos. São cerca de 7000 objectos de mobiliário, 1000 objectos de iluminação e o espólio de alguns designers. Alguns destes em apresentação. Destaque para as várias cadeiras expostas e para a reconstrução do escritório original de Charles Eames.

Este edifício de Herzog & de Meuron é muito simples e todo em tijolo, mas ao contrário do tijolo de Siza este é bem mais vivo. Linhas direitas, a sua forma é aquela geometria quadrada que a maioria das crianças se habitua a desenhar desde pequena para as casinhas, incluindo um comum telhado, mas sem janelas. É precisamente este despojamento da arquitectura espectáculo que o torna brilhante e, ainda assim, plenamente integrado com todos os outros edifícios deste Campus.

Visitado este Vitra Campus em Weil am Rhein, Alemanha, eis que chega então a altura de seguir até à Fundação Beyeler em Riehen, Suiça.

São 5 deliciosos quilómetros a pé que ligam os dois países e as duas instituições culturais através de um caminho rural pontilhado de obras de arte. A natureza como cultura como natureza.

Esta ideia transformada realidade em 2016 leva o nome de “24 Stops Rehberger-Weg”. Tobias Rehberger criou 24 marcas de sinalização que nos indicam o trilho correcto, impedindo-nos de perder em desvios. O que até não seria mau de todo. Se há turismo fora dos caminhos mais batidos é este. Passamos por campos de cultivo, pequenos anexos rurais de apoio, galinhas, um miradouro para o Vitra Campus, mais animais, outro miradouro para Basileia com a torre da Roche a evidenciar-se na paisagem, plantações de vinhas, o rio Reno que serve de fronteira entre a Alemanha e a Suiça, um parque verde imenso e, finalmente, a Fundação Beyeler.

Algumas fotos destas mimosas sinalizações:

A Fundação Beyeler, situada a cerca de 5 quilómetros do centro de Basileia, é um projecto de Renzo Piano. A sua arquitectura, à semelhança do que já tínhamos visto no Zentrum Paul Klee, em Berna, também da autoria de Piano, propõe-se a ser uma síntese da arte, da arquitectura e da natureza. E consegue-o. A integração entre estes três elementos é total.

Instalado no Parque Berower, ali perto das águas do Reno que correm tranquilas, as linhas deste edifício são companheiras do terreno. De forma elegante, o edifício está ligeiramente afundado e tem numa das suas frentes um lago. As enormes janelas e o seu tecto em vidro deixam entrar a luz natural de uma forma intensa e brilhante.

A arte exposta no interior deixa-se ver de fora e a paisagem exterior segue o mesmo caminho quando nos encontramos dentro da Fundação.

Este é o museu de arte mais visitado de toda a Suiça e a sua colecção de arte moderna e contemporânea inclui obras de Picasso e de Giacometti.

Por altura da minha visita a exposição temporária era dedicada a George Baselitz, uma retrospectiva das suas pinturas e esculturas a marcar os seus 80 anos.

Ernest Beyeler foi um coleccionador de arte que nos anos 80 decidiu criar um lugar para acomodar a sua vasta e rica colecção. Entusiasmado com a arquitectura do Pompidou decidiu escolher o mesmo arquitecto, Renzo Piano, para autor do projecto do seu novo museu. O local escolhido foi a sua terra natal, descobrindo terrenos livres no Parque Berower. Aqui existia já a Villa Berower, hoje administração da Fundação e restaurante. Entre este edifício barroco e o de Piano temos um bonito jardim com árvores, caminhos de água, esculturas de Alexander Calder e Ellsworth Kelly e lugares para se deixar estar. Ao seu largo redor a tranquilidade é total.

À entrada do autocarro que nos fará regressar a Basileia um sorriso enche-nos, recordando como foi acertada a escolha do caminho único para aqui chegar.

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