Museus de Berlim – Stasi

E, por fim, no que respeita a museus em Berlim, uma última referência para o Museu da Stasi.

Porque em qualquer visita a Berlim as marcas da sua história recente são presença constante, maxime o seu Muro e o folclore do Checkpoint Charlie, esta é uma boa proposta para se perceber ou recordar a política da antiga RDA. A visita ao Museu da Stasi faz-nos parecer que estamos num filme como o “Adeus Lenine” ou o “A Vida dos Outros”. Todo um mundo que – felizmente – parou no tempo.

A Stasi era o nome pelo qual todos designavam o Ministério da Segurança do Estado da antiga RDA. Com o fim da II Grande Guerra Mundial os comunistas alemães na liderança do país, mas sob direcção dos soviéticos, estabeleceram um regime ditatorial. O partido dominante, a SED, montou um sistema de poder baseado na força, em ameaças e privilégios em que a Stasi, o centro operacional deste sistema, tinha acesso a praticamente todos os aspectos da vida e do dia-a-dia de cada cidadão. O controlo era intenso e os cidadãos eram ensinados a conformarem-se e a contribuírem para este sistema. Quem o fizesse, era agraciado. Quem fosse visto como uma ameaça, seja pelo corte de cabelo, uso de roupa ou gosto musical de influências ocidentais ou qualquer outra conduta subversiva hostil ao socialismo, era reprimido.

O Museu da Stasi está hoje instalado naquele que era o seu antigo quartel general, nomeadamente na Haus 1, onde Erich Mielke, o então ministro, tinha o seu gabinete. Impressiona este quarteirão imenso de prédios enormes mas sem vida. Tirando o Museu e mais um ou outro espaço tudo está incrivelmente vazio. Não é fácil para qualquer povo conviver com a sua história macabra e neste caso os alemães ainda não conseguiram dar destino a esta área brutal que albergou os inúmeros serviços da Stasi. Os últimos habitantes destes prédios, onde ainda se veem cortinas com rendas, foram uns refugiados sírios.

No tempo da Stasi haveria também certamente cortinas. Mas os métodos de impedir olhares estranhos eram outros e mais rebuscados, como este de desenhar uma solução arquitectónica que barrasse a vista para a entrada da Haus 1 sem deixar de lhe dar um cunho modernista.

A exposição do Museu, na tal Haus 1, ilustra e explica a estrutura e o desenvolvimento das operações da Stasi. Os seus ficheiros com informações dos cidadãos chegaram ao número astronómico de 5,4 milhões. Diz-se que dispostos todos em fila, juntos, iriam de Berlim até Varsóvia e ainda retornariam para fazer mais meio caminho. Em 1989 a Stasi tinha oficialmente cerca de 91 mil funcionários, mas muitos mais cidadãos colaboravam com ela. Em proporção com o número de habitantes do país, a Stasi foi uma das maiores polícias secretas do mundo. E aqui no museu são-nos apresentadas algumas das pessoas que para ela trabalhavam e os métodos que empregavam, alguns deles vistos hoje de longe de um arcaísmo incrível. O filme “A Vida dos Outros” é, aliás, exemplar nessa imagem. O escritório de Erich Mielke, o então ministro, lá está, tão preservado com o mobiliário na sua forma original que é impossível não nos sentirmos num filme classe B datado no tempo.

Uma visita guiada a este Museu da Stasi é uma boa ideia, pelo que de histórias nos tem para contar para além daquilo que está exposto.

Museus de Berlim – Arte Contemporânea

No que respeita à arte contemporânea, duas sugestões em dois espaços improváveis.

O primeiro, o Hamburger Bahnhof, Museum für Gegenwart. Arte contemporânea internacional apresentada numa antiga estação de comboios.

Esta estação foi construída em meados do século XIX e ligava Berlim a Hamburgo. Tornou-se obsoleta para as suas funções originais logo em 1884, foi transformada em museu do transporte, mas a separação de Berlim no pós-guerra acabou por deixá-la em terra de ninguém e foi sendo abandonada. Na tentativa de manter um uso a este edifício de fachada neoclássica que serviu de modelo para as estações alemãs que se lhe seguiram, em 1996 abriu com a sua nova face, um dos maiores e mais importantes centros de arte contemporânea do mundo. O seu hall histórico de entrada foi preservado e adaptado para receber instalações temporárias de grande porte. Os armazéns nas traseiras do edifício principal da estação foram renovados pelo arquitecto Josef Paul Kleihues e ligados a este por uma passagem moderna por fora, mas que remete para um design retro no seu interior.

A colecção permanente deste museu inclui obras de artistas como Joseph Beuys, Robert Rauschenberg e Andy Warhol. A obra Mao de Warhol faz parte da colecção deste museu, mas infelizmente para mim não estava em apresentação por altura da minha visita. Estavam outras, daquele género de arte moderna e contemporânea que me faz abrir um largo sorriso.

O segundo, o Sammlung Boros, arte ultra-contemporânea instalada num bunker da II Grande Guerra Mundial. As visitas a esta colecção privada são obrigatoriamente guiadas e em grupos de apenas 15 pessoas, pelo que se impõe uma marcação prévia e com antecedência. Este edifício é também conhecido como M2000 (M de menschen, que significa pessoas), pois foi construído para permitir o acolhimento de 2000 pessoas. No final da Guerra a sua localização caiu no sector soviético e o Exército Vermelho chegou a utilizar o bunker como prisão. No entanto, logo se transformou num armazém de frutas e vegetais e as bananas da América Latina eram muito procuradas. O espaço tornou-se conhecido como o “Banana Bunker” e na fachada podemos ver hoje um graffiti a atestar essa sua antiga faceta.

A versatilidade do bunker continuou após a reunificação alemã e os anos 90 trouxeram também para aqui a desbunda total. Mais de uma vintena de festas chegaram a decorrer ao mesmo tempo nas inúmeras salas do bunker, maioritariamente festas de techno e de sexo, o que levou este espaço a ser conhecido como o “clube mais pesado do mundo”. A loucura terminou com a decisão das autoridades de encerrar o edifício pela sua manifesta falta de condições de salubridade. Até que o novo milénio chegou e a enésima vida do bunker aí está. Em 2003 Christian Boros comprou o edifício e renovou-o, abrindo as portas para a primeira exposição em 2008. Cada exposição fica patente por apenas 3 ou 4 anos e a actual é a terceira em exibição no novo Sammlung Boros.

O bunker é um verdadeiro labirinto e, por isso, à entrada é nos oferecido um cartão de visita com um género de mapa do edifício para o caso de nos perdermos. O que não acontecerá, uma vez que andamos sempre no grupo. Pelas várias divisões do bunker vamos vendo desfilar a arte de artistas contemporâneos consagrados e novos. A arte “estranha”, como caixas de ovos douradas ou asfalto espalhado em montinhos a fazer lembrar outra coisa que também é negra e também costuma ser deixada imprevistamente pelo chão, é o que nos espera. Depois de conhecer o Sammlung Boros dificilmente terei a experiência de apreciar este género de arte num local tão certeiro. As salas do bunker não eram extremamente pequenas e algumas foram abertas quer na horizontal quer na vertical, criando-se mezanines que permitem ver as obras de um ponto de vista elevado. Mas também interessante é perceber as fendas e as marcas intemporais de pastilha elástica no chão, testemunho das vibrantes festas dos anos 90. As paredes do bunker são espessas e de betão puro e duro, certamente inexpugnáveis.

Museus de Berlim – a Ilha dos Museus

Quem gosta de visitar museus e aprender tem em Berlim uma das cidades mais perfeitas para tal. Se pensarmos que até 1990 Berlim era duas cidades de dois países rivais, então é fácil de perceber a quantidade de instituições à nossa disposição. Não é apenas museus a dobrar, é muito mais do que isso.

A selecção apresentada em seguida (dividida em três posts) tem a ver com o gosto pessoal, claro. Gosto esse que passa sobretudo pela arte das diversas épocas e pela história política.

Iniciaremos este percurso pela inevitável Ilha dos Museus, o maior complexo de museus no mundo. Classificada pela Unesco como Património da Humanidade desde 1999, a Ilha dos Museus acolhe 5 edifícios museológicos e apesar de pequeno este coração de Berlim tem ainda espaço para a majestosa Catedral. Estes constituem hoje parte do acervo dos Museus Nacionais de Berlim.

Foi no princípio do século XIX que o rei Friedrich Wilhelm III da Prússia resolveu decretar que fosse estabelecida uma colecção de arte para o público. Com a II Grande Guerra Mundial a Ilha foi atingida e os seus edifícios danificados. O fim da guerra trouxe a divisão da cidade de Berlim e, em consequência, a divisão da colecção de arte presente na Ilha. Como a Ilha dos Museus ficava situada no sector soviético, na parte ocidental foram criadas outras instituições para acolher a parte da colecção atribuída aos demais sectores. Com a reunificação das Alemanhas reuniram-se, finalmente, as colecções então divididas. Hoje, no seu conjunto, estas representam mais de 6000 anos de história artística e cultural, desde a pré-história até ao século XIX.

Actualmente a Ilha dos Museus está transformada em grande parte num estaleiro, com a renovação do Pergamon e a construção de um novo edifício, o futuro James Simon Galerie, para servir de centro de acolhimento aos visitantes, uma entrada comum a todos os espaços museológicos no sentido de melhor integrar os edifícios e colecções. Ou seja, a Ilha transforma-se, cresce, move-se.

Um aviso prévio à visita à Ilha dos Museus: não podemos ter a ilusão de tudo querer conhecer nestes 5 edifícios. Uma vida não seria suficiente, quanto mais um dia. Por isso, o mais sensato é fazer uma selecção das maiores obras-primas a ver em cada um destes museus e deambular por eles para perceber a integração destas obras nestes espaços.

O primeiro edifício a ser construído na Ilha dos Museus para o cumprimento do tal desígnio do rei de disponibilizar ao seu povo uma colecção de arte pública foi o Altes Museum. Karl Friedrich Schinkel, o mais reconhecido arquiteto da época prussiana, ficou encarregue do projecto e o primeiro museu público da Prússia abriu as suas portas em 1830. Altes significa Antigo. Antes de conhecermos a arte que acolhe, a primeira imagem que o Altes Museum nos oferece é o de um exemplo maior da arquitectura classicista. Passadas as enormes colunas na sua fachada que dão para o Lustgarten da Catedral descobrimos então a arte e cultura dos gregos, dos etruscos e dos romanos.

No Altes Museum não se deve perder a escultura com o sorriso encantador do “Menino a Rezar” e dar uma espreitadela aos bustos de Júlio César e Cleópatra, lado a lado.

E confirmar o quão belo era Antinous (Antínoo), o amante favorito do Imperador Adriano.

Mas, sobretudo, admirar a rotunda interior com belíssimas decorações de frescos no seu tecto, enquanto cá em baixo se perfilam as estátuas dos deuses antigos, incluindo um central Vishnu.

Segue-se o Neues Museum, ou o Novo Museu. Construído entre 1843-1855, foi também destruído durante a II Grande Guerra Mundial e restaurado pelo arquitecto David Chipperfield. Desde 2009 voltou em grande e, é incontornável referi-lo, esta é a casa da divina Nefertiti. Se com Antinous já me vinha apercebendo de que é possível apaixonarmo-nos por um rosto que apenas vive em forma de escultura, com Nefertiti confirmo-o. As cores do seu busto são intensas e belíssimas, incrivelmente ainda preservadas e mantidas numa redoma de vidro (para isso, sem fotos, sff). É carisma puro o que esta linda rainha egípcia que terá vivido por volta de 1340 a.C. nos transmite até aos nossos dias.

No mais (haverá mais?), o Neues Museum integra o Museu Egípcio e a Colecção de Papiros, bem como o Museu da Pré- História e da Antiguidade, e a arquitectura interior deste edifício é uma justaposição do antigo com o novo, bem visível na escadaria branca rodeada de parede de tijolo.

O edifício da Alte Nationalgalerie, ou Galeria Nacional Antiga, foi modelado na Acrópole de Atenas. Visto do exterior parece um verdadeiro templo. Construído entre 1867-1876, a sua colecção de arte abrange escultura e pintura do neoclássico, do romantismo e de impressionistas dos primeiros tempos modernos.

O interior do edifício, nomeadamente o seu hall de entrada, escadaria e hall do piso superior são muito bonitos. E as suas salas as ideais para mostrar as pinturas de Caspar David Friedrich com as suas paisagens de natureza românticas. Esta senhora tentou esconder o pequeníssimo monge de Caspar, mas não o conseguiu.

Também está aqui Schinkel na versão pintor e muita arte europeia do século XIX, incluindo os maiores artistas franceses, como Degas, Renoir, Monet, Cezanne e esculturas de Rodin.

Voltando à temática hall de entrada, provavelmente nenhum será tão imponente como o do Bode Museum com a monumental estátua equestre de Friedrich Wilhelm. Este edifício possui a grandeza de um palácio, com a sua distinta escadaria e uso do mármore. Acabei por não ir a tempo de passar do foyer, mas este é o lugar para se visitar obras de várias épocas, desde escultura da Idade Média até ao fim do século XVIII, arte bizantina e uma colecção de moedas.

Mas o mais emblemático e mais visitado de todos os museus da Ilha dos Museus é sem dúvida o Pergamon. Não o visitei desta vez. As filas para a sua entrada eram intermináveis e o tempo um bem escasso quando em viagem. Para além disso, a visita aos 36 metros do seu mais-que-tudo Altar de Pergamon está encerrada até 2023 até total renovação do museu (em alternativa temos uma exibição em 360º da antiga metrópole no Panorama). Mas é possível aqui visitar a Porta de Ishtar da Babilónia, um dos ex-libris de toda a Ilha dos Museus, a par do Altar de Pergamon e do busto de Nefertiti. Este museu acolhe ainda uma colecção de antiguidades do Museu do antigo Próximo Oriente e Museu de Arte Islâmica.

Fora da Ilha dos Museus, mas imediatamente à sua entrada, fica o Museu de História da Alemanha. Em termos de museu, o qual percorre dois milénios de história desde o século I até à reunificação alemã, achei-o algo confuso na sua distribuição, mas muito interessante na forma como integra a cada passo a história alemã no contexto europeu. Em termos arquitectónicos, este Museu são hoje na verdade dois edifícios com um amplo hall coberto com uma bonita estrutura em vidro a ligá-los.

O original, o edifício barroco da Zeughaus, que serviu como arsenal e é datado de 1730 (o que faz dele o mais antigo edifício da Unter den Linden a chegar aos nossos tempos), com um átrio cheio de esculturas, incluindo uma de Lenine.

E o novo IM Pei Exhibition Hall, onde se apresentam exposições temporárias, com a sua já característica espiral em vidro que permite ao interior do edifício receber luz, muita luz, e é cheio de formas e ângulos. Este espaço recebeu o nome do arquitecto que projectou esta pequena maravilha em 2003.

Parques em Berlim

Tirando Portugal e Espanha, a Europa no Inverno é uma quase garantia de não se ver o céu. Ainda assim, decidimos visitar Berlim e aventurarmo-nos por três dos seus frios e despidos parques. Passeámos pelo Tiergarten, pelos jardins do Palácio Charlottenburg e pelo Volkspark Friedrichshain.

demos os passeios por mal empregues.

Tiergarten

O Tiergarten é o maior parque de Berlim. São 207 hectares de inúmeros caminhos espalhados por este parque central, um imenso pulmão verde. Para além desses caminhos infinitos por entre bosques por onde nos podemos perder, a área do Tiergarten abrange lagos, ilhas, estátuas, uma casa de chá, um palácio, uma casa da cultura. E, depois, há que não esquecer a Coluna Vitória, um símbolo de Berlim. O mais interessante é que este dito pulmão é rasgado por uma enorme avenida que quebra aqui e ali a pacatez do parque, mas na maior parte do tempo e espaço, dada a sua imensidão, acaba por não se dar pelo trânsito que o atravessa.

Comecemos, então, este passeio pela Coluna Vitória, a Siegessäule, instalada numa enorme rotunda no meio do Parque. Os berlineses tratam-na carinhosamente por Goldelse, qualquer coisa como a “Else Dourada”. A coluna tem 69 metros de altura e a estátua da deusa Vitória em bronze dourado 8,3 metros. A paisagem que se alcança da plataforma de observação após superarmos a subida das suas 285 escadas é à medida destes números.

Do topo da Goldelse percebe-se como é imensa esta cidade, hoje uma mas em tempos duas. Levantada entre 1864 e 1873 para comemorar as vitórias da Prússia contra a Dinamarca, Áustria e França, originalmente a Coluna estava implantada no centro do que é hoje a Praça da República à frente do Reichstag, tendo sido deslocada para aqui no tempo da Alemanha Nazi. Cá em baixo, praticamente aos pés da Victoria mas rodeada do arvoredo do Tiergarten, fica a portentosa estátua de Bismarck, mais uma homenagem ao poder da antiga Prússia.

Já nessa época o Tiergarten era um parque público, tendo sido criado por volta de 1742. Duvidamos é que por esse século os cidadãos de então fossem além dos piqueniques na relva, estendendo-se desnudados ao sol como o fazem os berlineses desta nossa era. O Inverno não é o mais convidativo para isso, mas nunca mais esqueci os corpos branquinhos completamente nus no Tiergarten num certo Verão de há 20 anos.

O Englischer Garten, a zona mais a noroeste do Parque é, como o nome o indica, o Jardim Inglês, um lago com uma casa de chá que dá ares de chalé onde no Verão se fazem concertos.

Outros edifícios há no Parque. Como o distinto Schloss Bellevue, palácio neoclássico de 1785-1790, hoje casa do Presidente Federal.

Ou a Haus der Kulturen der Welt, projectado em 1957 pelo arquitecto Hugh Stubbins, um presente dos EUA à então Alemanha Federal. Este edifício modernista é também conhecido como a “ostra grávida” pela sua forma peculiar. À sua entrada, como que uma recepcionista, temos uma mega-escultura de uma borboleta.

Esta área do Tiergarten corre junto ao rio Spree e daqui entramos naquele que é hoje o departamento governamental com uma série de exemplares da arquitectura deste século: a Chancelaria Federal Alemã, a Paul-Lobe-Haus, a Marie Elisabeth-Luders-Haus, a Jakob-Kaiser Haus e, claro, o Reichstag. Nem este último escapou à moda da arquitectura em vidro, com a sua cúpula inventada pela intervenção recente de Norman Foster.

E o Tiergarten termina, ainda, na Porta de Brandemburgo, a estrutura construída entre 1788 e 1791 que tomou por modelo a Acropolis de Atenas, com as suas 6 colunas dóricas. Com a Quadriga no seu topo, a carruagem puxada por quatro cavalos guiada por Vitória, a deusa da vitória, o elemento decorativo mais vivo e conhecido da Porta e provavelmente de toda a Berlin. Ou seja, o Tiergarten é o centro da Berlim moderna e na sua fronteira ficam dois dos maiores símbolos da cidade, senão mesmo os maiores: o Reichstag e a Porta de Brandemburgo. A Porta é o mais importante símbolo da reunificação alemã e ponto de celebração ainda hoje, sejam comemorações de títulos mundiais de futebol, festas de fim de ano, paradas de todo o género, enfim, o lugar para se exprimir toda a alegria. Antes da reunificação em 1990 esta era como que uma zona de exclusão, perdida na divisão da cidade promovida pela política e pela ideologia e marcada no terreno pelo Muro. E aqui é onde tem início a ultra famosa avenida Unter den Linden, outrora em território da Berlim Leste.

Voltamos a entrar no Parque pela saída da Porta de Brandemburgo. Com pouca demora logo aparecem no nosso caminho mais memoriais (às letras de Goethe, à música de Beethoven, Haydn, Mozart e Wagner, à realeza da Prússia) e lagos. E ilhas. Algumas tão pequenas que quase não damos por elas, como a ilha Rousseau. Ou seja, a cultura e a história aliadas ao prazer de evasão de caminhar pelo bosque.

Alguns dos locais do Tiergarten só os temos na plenitude na Primavera e no Verão. É o caso do Rosengarten, um pequeno jardim não apenas com a entrada vedada fora desses meses mas também com as flores murchas. Não se pense, porém, que é de evitar o Tiergarten fora dessa época. Não. Muito mais há para conhecer ou tão só deambular por ele. Sem falar que para os adeptos da corrida ou da bicicleta este é um lugar de excelência.

Jardim do Palácio Charlottenburg

O Palácio de Charlottenburg é o maior e mais bonito Palácio da cidade de Berlim (excluindo, pois, o de Sanssouci de Potsdam, nos arredores). Construído como homenagem a Sophie Charlotte, a primeira rainha da Prússia, data do século XVII mas teve de ser reconstruído após a devastação que sofreu durante a II Grande Guerra Mundial. Em estilo rococó, esta era uma das moradas dos Hohenzollern. Daí que numa visita aos vários espaços do Palácio possamos apreciar a riqueza daquela família real. Entre as várias salas deliciosas não esquecerei jamais a Sala da Porcelana, no Altes Schloss, preenchida praticamente na sua totalidade com porcelana a azul e branco do Oriente, a atestar o gosto do rei pela China e pelo Japão.

Mas porque é de jardins que queremos escrever, saíamos do interior do Palácio e sigamos pelos caminhos noutros tempos percorridos pela realeza. Inspirado em Versalhes, este jardim barroco desenhado no final do século XVII tem logo diante do Palácio um largo jardim verde, a que não faltam elementos decorativos em estatutária, seguindo-se um vasto lago ladeado por avenidas em bosque.

A melhor vista do conjunto é do fundo do lago, depois de passada a pequena ponte que o atravessa. Aqui temos até direito a uns belíssimos reflexos. Mas para aqui chegarmos percorremos um caminho que as folhas e cores do Outono tornam ainda mais bucólico.

Nos jardins de Charlottenburg, que se percorrem fácil e apenas demoradamente porque gostamos de nos deixar estar, podemos ainda admirar alguns edifícios. Logo junto ao Palácio fica o Pavilhão Novo.

Mais adiante, já para lá do lago, encontramos como que perdido no meio do verde o delicado Belvedere. Este pequeno palacete / pavilhão servia de casa de chá ao rei, que por aqui ficava a ler e a ouvir música. É todo em tom de azul claro e num estilo rococó tardio, cheio de pormenores na fachada e com uma estatueta dourada sobre a sua cúpula. O seu interior abriga uma colecção de porcelana, mas as visitas apenas são possíveis a partir da Primavera.

O mesmo vale para o interior do Mausoléu construído na outra ala do parque. Este edifício surpreendente em estilo neoclássico com colunas na sua fachada foi construído em 1810 com o propósito de acolher a Rainha Luise, mas entretanto acabou por se transformar como que no jazigo da família real. A sua implantação não é menos surpreendente, rodeada de um jardim alto que protege e garante o eterno descanso dos Hohenzollern.

Volkspark Friedrichshain

Não tão delicado como o Jardim do Palácio Charlottenburg, nem tão imenso e diverso como o Tiergarten, o Volkspark Friedrichshain é mais do género de parque à porta de casa. No bairro de Prenzlauer, os prédios cercam as aforas do parque e os graffitis fazem-nos lembrar que estamos em Berlim, a jovem, urbana e dinâmica capital alemã.

Criado entre 1846-1848, a sua entrada é bem artística, com a esplendorosa Märchenbrunnen – a Fonte de Conto de Fadas – como recepcionista dos visitantes. Esta fonte é do início do século XX e mesmo sem água neste Inverno podemos admirar todos os seus pormenores decorativos. São esculturas de animais e seres encantados, crianças, flores, um sem número de motivos. Destruída durante a II Grande Guerra Mundial, a sua reconstrução acabou por lhe dar uma forma mais simples e algumas das esculturas já não são as originais, mas a sua exuberância continua visível.

Também o parque foi mudando com os tempos e já neste século sofreu beneficiações.

Como elementos de interesse pelos seus caminhos perfeitos para jogging temos um bonito lago onde fica um pavilhão japonês com um sino da paz, presente do Japão à então RDA como homenagem à união contra a guerra nuclear. E ainda um outro lago mais pequeno onde vemos refletidos os rigores do Inverno.

Encontramos ainda uma série de memoriais, desde um monumento a Friedrich II da Prússia, o Grande, outro aos Soldados Polacos e aos Alemães Anti-Fascistas e outro ainda à Guerra Civil Espanhola.

Mas o elemento mais curioso, até estranho, deste Parque do Povo são as duas montanhas artificias criadas com os destroços e as ruínas de bunkers e outros edifícios destruídos durante os bombardeamentos na II GGM. São conhecidas como a “montanha bunker grande”, com 78 metros de altura, e a “montanha bunker pequena”, com 48 metros de altura. Não é difícil subir até qualquer uma delas. E ambas as montanhas parecem hoje, com o passar do tempo, perfeitamente naturais. Da mais alta consegue-se uma boa vista para o centro de Berlim, com a Torre da TV sempre como bússola. A vista perfeita é impedida pelas árvores, o que não é mau, e pelo nevoeiro, que é o que nos espera mais certamente nesta época do ano. Nada que, como se vê, impeça bons passeios.

Do Vitra Campus à Fundação Beyeler

Do Vitra Campus à Fundação Beyeler ou de Weil am Rhein a Riehen ou da Alemanha à Suiça.

Sempre a pé.

Basileia é uma meca arquitectónica e um parque de diversões para os apaixonados em arquitectura. Um dos pontos altos de uma visita à cidade suiça é a visita ao Vitra Campus, na cidade de Weil am Rhein, já na Alemanha. Confuso?

O Vitra Campus fica a meros 5 kms de Basileia, alcançáveis por transportes públicos como o autocarro (que pára à porta) ou o comboio (com paragem no centro de Weil am Rhein). Fácil, por isso, de lá chegar.

A Vitra é uma marca de mobiliário de design. Embora seja uma marca suiça, criada por suíços, tem a sua fábrica e Museu – o Campus – para lá da fronteira (qual fronteira?), já em território alemão.

Instalado numa zona rural, este Campus reúne um conjunto inacreditável de grandes arquitectos. É como se fosse a Legolândia dos amantes da arquitectura contemporânea, quer pela quantidade de projectos incríveis quer pela forma dos seus edifícios.

O Vitra Design Museum, aberto em 1989, apresenta exposições temporárias ligadas ao design num sentido amplo. Actualmente está patente “Night Fever. Designing club culture 1960 – Today”, dedicada aos clubes nocturnos e discotecas como epicentros da cultura pop, relacionando esta cultura com o design, desde o passado até aos dias de hoje, cultura esta que criou toda uma nova dinâmica urbana em algumas cidades. Numa instalação interactiva criada para esta exposição podemos envolver-nos no som e nas luzes de uma disco, através de quatro épocas e quatro estilos de música – pre-disco, disco, house e tecno.

Este edifício não engana. É de Frank Gehry.

O primeiro edifício do americano na Europa, esta justaposição de módulos de várias formas parece quase uma casinha de brincar. O branco da fachada dá-lhe luz e o interior é também inundado por uma luz natural que entra pelas suas aberturas.

Ao lado deste edifício dedicado ao museu do design a arquitectura de Gehry continua, agora materializada num outro edifício destinado a fábrica da marca Vitra.

Junto aos de Gehry, e num contraste bem vincado, encontramos um discreto edifício em concreto, estreito mas alongado, de Tadao Ando. É o Conference Pavilion, de 1993, e foi o primeiro projecto do japonês fora do seu país natal.

Entre Gehry e Ando, no meio de um bonito relvado fica a obra Balancing Tools, de Claes Oldenburg & Coosje van Bruggen. Esta escultura, de 1984, representa em grande escala as ferramentas de trabalho dos que se dedicam à criação do mobiliário, como o martelo, o alicate e a chave de fendas.

A criatividade segue solta.

O Airstream Kiosk é um atrelado a lembrar as carrinhas pão de forma. O original data de 1968 e a Vitra, depois de o adquirir, restaurou-o em 2011 e hoje mantém-no no seu Campus para que no Verão seja usado como restaurante. Não havendo Verão, antes uma Primavera chuvosa, fica ainda assim a sua esplanada cheia de cor.

O Vitra Haus é a flagship store da Vitra.

Vem descrito como um espaço de inspiração para a nossa própria casa e é-o mesmo. Aqui encontramos os objectos belíssimos que a marca tem vindo a criar, alguns dos quais se tornaram icónicos.

Este edifício é um projecto da dupla suiça Herzog & de Meuron construído em 2010 e é também ele uma inspiração e um hino à criatividade. Este é o centro da Legolândia de Weil am Rhein – este edifício convence-nos de que é possível desmontá-lo peça por peça para voltar a ser montado de uma outra forma, da forma que a nossa imaginação permitir.

Mesmo o interior, preenchido por objectos da Vitra, já se disse, é um espaço que nos faz sonhar, pelos cortes e grandes aberturas das janelas que deixam ver a contrastante realidade paisagística exterior.

Do último piso conseguimos ter uma perspectiva global do Vitra Campus.

Da Vitra Haus seguimos pela Promenade projectada por Álvaro Siza até ao seu edifício, passando pela Vitra Slide Tower. Com uma altura de 30 metros, este posto de observação criado por Carsten Höller apenas está acessível em dias de bom tempo, o que infelizmente não era o caso. É uma torre, um miradouro e também uma obra de arte. Quase que até um parque de diversões, pois quem caiba dentro da sua espécie de tobogã vai-se divertir a valer a descer esta instalação.

O edifício de Siza é o Factory Building, construído em 1994. As suas linhas rectas estão cá, mas ao invés do branco que lhe costumamos observar, desta vez é o tijolo que marca presença. Simples e equilibrado este edifício é bonito e como que um fiel da balança para a maioria das formas que tínhamos visto até aí aos seus colegas arquitectos. Ainda assim, tem um elemento que se propõe a quebrar esta simplicidade, como o é a ponte branca curvada que sai do seu telhado.

A Promenade de Siza, construída em 2014, é uma passagem pedonal que permite a qualquer um de nós caminhar pelo exterior do Campus e, assim, ter acesso cómodo aos seus edifícios (ainda que não ao espaço exclusivo das suas fábricas).

Bem distribuída, termina deixando-nos face a face com a Fire Station de Zaha Hadid. Construída em 1993, esta foi a primeira grande obra da malograda arquitecta iraquiano-inglesa, uma das minhas preferidas, já o sabe quem lê este blogue. É um conjunto de volumes de concreto que chegam a parecer estar dispostos de forma aleatória. Mais uma vez vem à ideia as peças de Lego. É quase como que uma escultura. Originalmente o propósito deste edifício era o de ser a casa dos bombeiros, daí o seu nome, mas hoje destina-se a eventos e exposições.

Ao lado da Fire Station de Zaha Hadid, que já estava ao lado de Álvaro Siza, está o Vitra Schaudepot de Herzog & de Meuron.

No Schaudepot está depositada a colecção que a Vitra foi acumulando ao longo dos tempos. São cerca de 7000 objectos de mobiliário, 1000 objectos de iluminação e o espólio de alguns designers. Alguns destes em apresentação. Destaque para as várias cadeiras expostas e para a reconstrução do escritório original de Charles Eames.

Este edifício de Herzog & de Meuron é muito simples e todo em tijolo, mas ao contrário do tijolo de Siza este é bem mais vivo. Linhas direitas, a sua forma é aquela geometria quadrada que a maioria das crianças se habitua a desenhar desde pequena para as casinhas, incluindo um comum telhado, mas sem janelas. É precisamente este despojamento da arquitectura espectáculo que o torna brilhante e, ainda assim, plenamente integrado com todos os outros edifícios deste Campus.

Visitado este Vitra Campus em Weil am Rhein, Alemanha, eis que chega então a altura de seguir até à Fundação Beyeler em Riehen, Suiça.

São 5 deliciosos quilómetros a pé que ligam os dois países e as duas instituições culturais através de um caminho rural pontilhado de obras de arte. A natureza como cultura como natureza.

Esta ideia transformada realidade em 2016 leva o nome de “24 Stops Rehberger-Weg”. Tobias Rehberger criou 24 marcas de sinalização que nos indicam o trilho correcto, impedindo-nos de perder em desvios. O que até não seria mau de todo. Se há turismo fora dos caminhos mais batidos é este. Passamos por campos de cultivo, pequenos anexos rurais de apoio, galinhas, um miradouro para o Vitra Campus, mais animais, outro miradouro para Basileia com a torre da Roche a evidenciar-se na paisagem, plantações de vinhas, o rio Reno que serve de fronteira entre a Alemanha e a Suiça, um parque verde imenso e, finalmente, a Fundação Beyeler.

Algumas fotos destas mimosas sinalizações:

A Fundação Beyeler, situada a cerca de 5 quilómetros do centro de Basileia, é um projecto de Renzo Piano. A sua arquitectura, à semelhança do que já tínhamos visto no Zentrum Paul Klee, em Berna, também da autoria de Piano, propõe-se a ser uma síntese da arte, da arquitectura e da natureza. E consegue-o. A integração entre estes três elementos é total.

Instalado no Parque Berower, ali perto das águas do Reno que correm tranquilas, as linhas deste edifício são companheiras do terreno. De forma elegante, o edifício está ligeiramente afundado e tem numa das suas frentes um lago. As enormes janelas e o seu tecto em vidro deixam entrar a luz natural de uma forma intensa e brilhante.

A arte exposta no interior deixa-se ver de fora e a paisagem exterior segue o mesmo caminho quando nos encontramos dentro da Fundação.

Este é o museu de arte mais visitado de toda a Suiça e a sua colecção de arte moderna e contemporânea inclui obras de Picasso e de Giacometti.

Por altura da minha visita a exposição temporária era dedicada a George Baselitz, uma retrospectiva das suas pinturas e esculturas a marcar os seus 80 anos.

Ernest Beyeler foi um coleccionador de arte que nos anos 80 decidiu criar um lugar para acomodar a sua vasta e rica colecção. Entusiasmado com a arquitectura do Pompidou decidiu escolher o mesmo arquitecto, Renzo Piano, para autor do projecto do seu novo museu. O local escolhido foi a sua terra natal, descobrindo terrenos livres no Parque Berower. Aqui existia já a Villa Berower, hoje administração da Fundação e restaurante. Entre este edifício barroco e o de Piano temos um bonito jardim com árvores, caminhos de água, esculturas de Alexander Calder e Ellsworth Kelly e lugares para se deixar estar. Ao seu largo redor a tranquilidade é total.

À entrada do autocarro que nos fará regressar a Basileia um sorriso enche-nos, recordando como foi acertada a escolha do caminho único para aqui chegar.

Lübeck

Lübeck fica a 45 minutos de comboio de Hamburgo e, tal como esta, é uma cidade banhada por um rio e com um fortíssimo passado marítimo e comercial.

A sua posição estratégica, com acesso directo para o Báltico, fez de Lübeck uma cidade central na Liga Hanseática, a aliança de cidades mercantis que em tempos dominou o comércio nesta região e no Mar do Norte.

A sua pertença à Liga Hanseática é incontornável ainda hoje. Marcou a cidade em termos históricos, económicos, arquitectónicos e sociais e é aqui que podemos visitar um dos mais originais, surpreendentes e interessantes museus sobre a vida de outrora sem deixar de fazer uma ligação com o presente e o futuro.

O European Hansemuseum mostra-nos a emergência, vivência e decadência da Liga Hanseática, estabelecida em 1385.

Foi nesse século que Lübeck surgiu como a rainha dessa Liga, tornando-se uma das cidades mais ricas por conta do seu estatuto comercial. Neste museu inaugurado em 2015 é nos dada a conhecer essa poderosa Lübeck, mas também Novgorod, Bruges, Londres e Bergen, outras cidades marcantes da referida Liga. Numa viagem multimédia e interactiva até esse tempo, percorremos espaços arqueológicos como as fundações do primitivo castelo, assistimos ao boom urbano e às mudanças sociais ocorridas no século XIII, vemos como eram as casas e os negócios dos mercadores, aprendemos sobre religião e comércio e até sobre a Peste Negra que matou centenas de milhares no século XIV e a crise económica e social que lhe sucedeu.

A Liga Hanseática viria a ser dissolvida em 1669. Deixou-nos uma série de cidades cujo centro urbano nos faz, quatro séculos depois, viajar no tempo. Lübeck é uma das mais preciosas delas.

No lugar do que é hoje o European Hansemuseum haveria uma primeira fortificação já no século VIII ou IX, durante o período eslávico, sobre a qual em 1143 o Conde Adolf II de Schauenburg e Holstein construiu um castelo e fundou a cidade.

Muitas transformações aconteceram depois disso. O castelo tornou-se convento dominicano, asilo de pobres, hospital, cemitério, tribunal e prisão e, finalmente, museu (a par do Hansemuseum, visitamos outros espaços correspondentes ao antigo convento de Santa Maria Madalena, ou do Castelo).

Após restauro retém hoje a arquitectura característica da cidade, o brick gothic (tijolo gótico) – a falta de pedra na região obrigou ao uso de tijolo de barro vermelho.

Esta arquitectura única faz de Lübeck um sítio especial e a Unesco lembrou-se disso, e muito mais, para a fazer integrar a sua lista de Património da Humanidade em 1987.

Esse muito mais far-nos-á começar esta viagem por Lübeck pelo princípio, pela sua porta de entrada após atravessada a ponte das estátuas: a Porta Holsten.

Construída em 1464, dá nos as boas vindas e apresenta-se-nos orgulhosa no seu revestimento em tijolo vermelho. É um símbolo do poderio mercantil da Lübeck de outros tempos, mas as suas duas torres cilíndricas perduram como a imagem da cidade de hoje. O lema em letras latinas a dourado que encima a nossa passagem dá o mote: “concordia domi foris pax” (harmonia dentro e paz no exterior).

É para lá da Porta Holsten que se estende a cidade que vamos descobrir, sempre de mãos dadas com a sua história.

A Altstad, cidade velha, uma ilha bordejada pelo rio Trave, é um coração medieval que forma um conjunto harmonioso de quarteirões bem preservados (apesar da destruição que sofreu na II Grande Guerra Mundial) – ruas, pátios e becos – , edifícios de comércio, residências de ricos mercadores e de nobres, armazéns de sal, monumentos públicos e igrejas, muitas torres de igrejas que rompem o céu e fazem desta paisagem uma daquelas verdadeiramente especiais.

Mesmo junto à Porta Holsten encontramos um conjunto de edifícios irmanados, as Casas de Sal. Datadas dos séculos XVI – XVIII, estas seis casas de tijolo serviam para guardar sal, o qual acabaria por ser trocado por peles e/ou utilizado para preservar o arenque. São, pois, um testemunho arquitectónico e etnográfico exemplar da Lübeck medieval.

À beira do Trave vamos conhecendo os primeiros exemplos de edifícios que fazem desta uma cidade distinta e descobrimos a igreja Sankt Petri à espreita. De fachada de tijolo e interior branco hoje vazio (a igreja já não está em funções, antes se transformou em local de eventos culturais), é para lá que nos dirigimos para subir à sua torre, a mais de 50 metros de altura, e ganharmos um panorama fantástico de toda a Lübeck. A neve não impediu que pudéssemos distinguir com clareza as seis casas irmãs de sal, todas elas diferentes no seu formato, nem que pudéssemos ter o primeiro contacto com as muitas torres de igrejas e com a Praça do Mercado.

Já cá em baixo, a dita praça, onde fica o Rathaus, encontrava-se ocupada com uma pista de gelo em forma de barraca, uma daquelas coisas que me irrita sobremaneira, impedindo, isso sim, de apreciar o lugar como conjunto. Mas foi possível observar alguns dos detalhes do edifício correspondente aos nossos paços do concelho. Dito por alguns como um “conto de fadas em pedra”, vemos aqui uma mescla de estilos que vai desde o século XIII, quando começou a ser construído, até aos dias de hoje. Do lado da Praça do Mercado vemos num lado o tijolo escuro com os escudos da antiga cidade imperial e as torres em esfera, no outro lado um tijolo mais avermelhado que rodeia um “sub-edifício” branco cheio de decorações; do lado da Breite Strasse vemos uma escadaria renascentista que prolonga as arcadas onde nos deparamos com uns elementos mais folclóricos. Não parece harmonioso nem equilibrado, mas no final é um conjunto precioso e alegre.

O Café Niederegger fica por aqui. O marzipan é uma instituição de Lübeck e este café que se tornou numa marca faz por preservá-la e rentabilizá-la. Não sabe o que levar de presente de Lübeck? Que tal uns chocolatinhos de marzipan?

A Breite Strasse é uma rua de comércio pedonal e continua por aí fora. Há que fazer dois desvios à esquerda, no entanto, antes de a percorrer até final.

Um primeiro, para conhecer a Igreja de Santa Maria. São “apenas” sete as suas torres, que levaram a que Lübeck ficasse conhecida também como a “cidade das sete esferas”. Esta que é a terceira maior igreja da Alemanha, construída por volta de 1200 como uma basílica romanesca em tijolo que 50 anos depois foi tornada catedral gótica, é a mãe das igrejas em estilo tijolo gótico e serviu de modelo para muitas outras igrejas que se lhe seguiram na região do Báltico.

A visita ao seu interior é obrigatória e necessária para se testemunhar parte da história da cidade e da Europa. Como memorial, aqui vemos os dois sinos – deixados no chão, partidos – que em 1942 caíram após os bombardeamentos aliados durante a II Grande Guerra Mundial. E vemos outras preciosidades como a Capela da Dança Macabra, como homenagem à pintura de mesmo nome também destruída naqueles ataques, e o Relógio Astronómico. E temos ainda a nave da igreja, enorme e imponente nos seus 38 metros de altura.

Um segundo desvio na Breite Strasse leva-nos à Buddenbrookhaus, a casa de família do escritor Thomas Mann. Nascido em Lübeck, este é um dos três Prémios Nobel da cidade. A casa toma o nome da sua primeira obra, a qual se debruça sobre o declínio de uma família rica de mercadores de Lübeck, e está hoje transformada em museu.

Se tivermos apenas um dia para visitar Lübeck, escolhas do que ver são obrigatórias, claro. Tive de deixar para trás as histórias de vida e obra de Thomas Mann e de Günter Grass, à direita no final da Breite Strasse, e dediquei-me às de Willy Brandt. Estes são os três Prémios Nobel de Lübeck, os dois primeiros da literatura (em 1929 e 1999, respectivamente), o último da paz (em 1971). Mann e Brandt nascidos na cidade e a cidade escolhida por Grass.

A Willy Brandt Haus não é a casa onde nasceu Herbert Frahm, o seu nome de nascença, nascido em Lübeck em 1914 e designado chanceler da Alemanha Federal em 1969, mas é hoje o lugar do museu que nos oferece uma viagem multimédia guiada pela sua vida pessoal e política, bem como um panorama da história da Alemanha e da Europa durante o século XX. Século turbulento, a ênfase é colocada nos assuntos relacionado com a paz e os direitos humanos, tendo o antigo chanceler e antigo presidente da Internacional Socialista acabado por ver nos últimos anos de vida (faleceu em 1992) concretizado o seu sonho: a reunificação das duas Alemanhas após a queda do muro de Berlin.

O pátio da Willy Brandt Haus dá para o pátio da Günter Grass Haus e por esta zona da cidade todo um novo mundo se nos apresenta. Com a igreja Sankt Katharinen a reinar quase soberana, e colada a ela mais uns exemplos de edifícios de tijolo, como se de uma composição se tratasse, nesta rua, a Glockengiesser Strasse, encontramos uma série de surpreendentes pátios e passagens (Höfe e Gänge). Para lá das ricas e trabalhadas fachadas de edifícios de ricos mercadores ficam pátios ocupados com uma espécie de casas sociais por eles construídas. Era a Lübeck do século XVII para os mais desfavorecidos.

A Füchtings Hof tinha a porta aberta, mas demorei-me a tirar fotos (como sempre) e, entretanto, esta fechou-se, assim como se fechou a minha oportunidade de visitar este pátio. Já o Glandorps Hof, um pouco mais adiante, estava escancarado e, respeitando os avisos que pediam comedimento, por ser este um espaço privado, mas que faz questão de dar a conhecer a sua história, percorri-o serenamente.

Caminhando em direcção à porta Norte de Lübeck, onde visitámos já o European Hansemuseum no Castelo, lugar de fundação da cidade, passamos pela fantástica fachada em tijolo do Hospital Heiligen Geist (bem como mais uma enorme igreja e sua obrigatória torre). Uma das obras sociais mais antigas do mundo, está aqui desde 1286.

Do lado contrário da cidade, a sul, a catedral (Dom) domina. Este é o mais antigo edifício da cidade (datado de 1173) e, claro, respeita a arquitectura de tijolo gótico. Foi quase totalmente destruído durante a II Grande Guerra Mundial, mas hoje resiste como postal perfeito da cidade. É por aqui, atravessando a ponte sobre o Rio Trave e retornando em direcção à Porta Holstein, que encontramos o melhor miradouro de Lübeck. O Malerwinkel é um pedaço de verde, nesta época pintalgado de neve, à beira do Trave, ideal para a conquista da foto da jornada.