Parques em Berlim

Tirando Portugal e Espanha, a Europa no Inverno é uma quase garantia de não se ver o céu. Ainda assim, decidimos visitar Berlim e aventurarmo-nos por três dos seus frios e despidos parques. Passeámos pelo Tiergarten, pelos jardins do Palácio Charlottenburg e pelo Volkspark Friedrichshain.

demos os passeios por mal empregues.

Tiergarten

O Tiergarten é o maior parque de Berlim. São 207 hectares de inúmeros caminhos espalhados por este parque central, um imenso pulmão verde. Para além desses caminhos infinitos por entre bosques por onde nos podemos perder, a área do Tiergarten abrange lagos, ilhas, estátuas, uma casa de chá, um palácio, uma casa da cultura. E, depois, há que não esquecer a Coluna Vitória, um símbolo de Berlim. O mais interessante é que este dito pulmão é rasgado por uma enorme avenida que quebra aqui e ali a pacatez do parque, mas na maior parte do tempo e espaço, dada a sua imensidão, acaba por não se dar pelo trânsito que o atravessa.

Comecemos, então, este passeio pela Coluna Vitória, a Siegessäule, instalada numa enorme rotunda no meio do Parque. Os berlineses tratam-na carinhosamente por Goldelse, qualquer coisa como a “Else Dourada”. A coluna tem 69 metros de altura e a estátua da deusa Vitória em bronze dourado 8,3 metros. A paisagem que se alcança da plataforma de observação após superarmos a subida das suas 285 escadas é à medida destes números.

Do topo da Goldelse percebe-se como é imensa esta cidade, hoje uma mas em tempos duas. Levantada entre 1864 e 1873 para comemorar as vitórias da Prússia contra a Dinamarca, Áustria e França, originalmente a Coluna estava implantada no centro do que é hoje a Praça da República à frente do Reichstag, tendo sido deslocada para aqui no tempo da Alemanha Nazi. Cá em baixo, praticamente aos pés da Victoria mas rodeada do arvoredo do Tiergarten, fica a portentosa estátua de Bismarck, mais uma homenagem ao poder da antiga Prússia.

Já nessa época o Tiergarten era um parque público, tendo sido criado por volta de 1742. Duvidamos é que por esse século os cidadãos de então fossem além dos piqueniques na relva, estendendo-se desnudados ao sol como o fazem os berlineses desta nossa era. O Inverno não é o mais convidativo para isso, mas nunca mais esqueci os corpos branquinhos completamente nus no Tiergarten num certo Verão de há 20 anos.

O Englischer Garten, a zona mais a noroeste do Parque é, como o nome o indica, o Jardim Inglês, um lago com uma casa de chá que dá ares de chalé onde no Verão se fazem concertos.

Outros edifícios há no Parque. Como o distinto Schloss Bellevue, palácio neoclássico de 1785-1790, hoje casa do Presidente Federal.

Ou a Haus der Kulturen der Welt, projectado em 1957 pelo arquitecto Hugh Stubbins, um presente dos EUA à então Alemanha Federal. Este edifício modernista é também conhecido como a “ostra grávida” pela sua forma peculiar. À sua entrada, como que uma recepcionista, temos uma mega-escultura de uma borboleta.

Esta área do Tiergarten corre junto ao rio Spree e daqui entramos naquele que é hoje o departamento governamental com uma série de exemplares da arquitectura deste século: a Chancelaria Federal Alemã, a Paul-Lobe-Haus, a Marie Elisabeth-Luders-Haus, a Jakob-Kaiser Haus e, claro, o Reichstag. Nem este último escapou à moda da arquitectura em vidro, com a sua cúpula inventada pela intervenção recente de Norman Foster.

E o Tiergarten termina, ainda, na Porta de Brandemburgo, a estrutura construída entre 1788 e 1791 que tomou por modelo a Acropolis de Atenas, com as suas 6 colunas dóricas. Com a Quadriga no seu topo, a carruagem puxada por quatro cavalos guiada por Vitória, a deusa da vitória, o elemento decorativo mais vivo e conhecido da Porta e provavelmente de toda a Berlin. Ou seja, o Tiergarten é o centro da Berlim moderna e na sua fronteira ficam dois dos maiores símbolos da cidade, senão mesmo os maiores: o Reichstag e a Porta de Brandemburgo. A Porta é o mais importante símbolo da reunificação alemã e ponto de celebração ainda hoje, sejam comemorações de títulos mundiais de futebol, festas de fim de ano, paradas de todo o género, enfim, o lugar para se exprimir toda a alegria. Antes da reunificação em 1990 esta era como que uma zona de exclusão, perdida na divisão da cidade promovida pela política e pela ideologia e marcada no terreno pelo Muro. E aqui é onde tem início a ultra famosa avenida Unter den Linden, outrora em território da Berlim Leste.

Voltamos a entrar no Parque pela saída da Porta de Brandemburgo. Com pouca demora logo aparecem no nosso caminho mais memoriais (às letras de Goethe, à música de Beethoven, Haydn, Mozart e Wagner, à realeza da Prússia) e lagos. E ilhas. Algumas tão pequenas que quase não damos por elas, como a ilha Rousseau. Ou seja, a cultura e a história aliadas ao prazer de evasão de caminhar pelo bosque.

Alguns dos locais do Tiergarten só os temos na plenitude na Primavera e no Verão. É o caso do Rosengarten, um pequeno jardim não apenas com a entrada vedada fora desses meses mas também com as flores murchas. Não se pense, porém, que é de evitar o Tiergarten fora dessa época. Não. Muito mais há para conhecer ou tão só deambular por ele. Sem falar que para os adeptos da corrida ou da bicicleta este é um lugar de excelência.

Jardim do Palácio Charlottenburg

O Palácio de Charlottenburg é o maior e mais bonito Palácio da cidade de Berlim (excluindo, pois, o de Sanssouci de Potsdam, nos arredores). Construído como homenagem a Sophie Charlotte, a primeira rainha da Prússia, data do século XVII mas teve de ser reconstruído após a devastação que sofreu durante a II Grande Guerra Mundial. Em estilo rococó, esta era uma das moradas dos Hohenzollern. Daí que numa visita aos vários espaços do Palácio possamos apreciar a riqueza daquela família real. Entre as várias salas deliciosas não esquecerei jamais a Sala da Porcelana, no Altes Schloss, preenchida praticamente na sua totalidade com porcelana a azul e branco do Oriente, a atestar o gosto do rei pela China e pelo Japão.

Mas porque é de jardins que queremos escrever, saíamos do interior do Palácio e sigamos pelos caminhos noutros tempos percorridos pela realeza. Inspirado em Versalhes, este jardim barroco desenhado no final do século XVII tem logo diante do Palácio um largo jardim verde, a que não faltam elementos decorativos em estatutária, seguindo-se um vasto lago ladeado por avenidas em bosque.

A melhor vista do conjunto é do fundo do lago, depois de passada a pequena ponte que o atravessa. Aqui temos até direito a uns belíssimos reflexos. Mas para aqui chegarmos percorremos um caminho que as folhas e cores do Outono tornam ainda mais bucólico.

Nos jardins de Charlottenburg, que se percorrem fácil e apenas demoradamente porque gostamos de nos deixar estar, podemos ainda admirar alguns edifícios. Logo junto ao Palácio fica o Pavilhão Novo.

Mais adiante, já para lá do lago, encontramos como que perdido no meio do verde o delicado Belvedere. Este pequeno palacete / pavilhão servia de casa de chá ao rei, que por aqui ficava a ler e a ouvir música. É todo em tom de azul claro e num estilo rococó tardio, cheio de pormenores na fachada e com uma estatueta dourada sobre a sua cúpula. O seu interior abriga uma colecção de porcelana, mas as visitas apenas são possíveis a partir da Primavera.

O mesmo vale para o interior do Mausoléu construído na outra ala do parque. Este edifício surpreendente em estilo neoclássico com colunas na sua fachada foi construído em 1810 com o propósito de acolher a Rainha Luise, mas entretanto acabou por se transformar como que no jazigo da família real. A sua implantação não é menos surpreendente, rodeada de um jardim alto que protege e garante o eterno descanso dos Hohenzollern.

Volkspark Friedrichshain

Não tão delicado como o Jardim do Palácio Charlottenburg, nem tão imenso e diverso como o Tiergarten, o Volkspark Friedrichshain é mais do género de parque à porta de casa. No bairro de Prenzlauer, os prédios cercam as aforas do parque e os graffitis fazem-nos lembrar que estamos em Berlim, a jovem, urbana e dinâmica capital alemã.

Criado entre 1846-1848, a sua entrada é bem artística, com a esplendorosa Märchenbrunnen – a Fonte de Conto de Fadas – como recepcionista dos visitantes. Esta fonte é do início do século XX e mesmo sem água neste Inverno podemos admirar todos os seus pormenores decorativos. São esculturas de animais e seres encantados, crianças, flores, um sem número de motivos. Destruída durante a II Grande Guerra Mundial, a sua reconstrução acabou por lhe dar uma forma mais simples e algumas das esculturas já não são as originais, mas a sua exuberância continua visível.

Também o parque foi mudando com os tempos e já neste século sofreu beneficiações.

Como elementos de interesse pelos seus caminhos perfeitos para jogging temos um bonito lago onde fica um pavilhão japonês com um sino da paz, presente do Japão à então RDA como homenagem à união contra a guerra nuclear. E ainda um outro lago mais pequeno onde vemos refletidos os rigores do Inverno.

Encontramos ainda uma série de memoriais, desde um monumento a Friedrich II da Prússia, o Grande, outro aos Soldados Polacos e aos Alemães Anti-Fascistas e outro ainda à Guerra Civil Espanhola.

Mas o elemento mais curioso, até estranho, deste Parque do Povo são as duas montanhas artificias criadas com os destroços e as ruínas de bunkers e outros edifícios destruídos durante os bombardeamentos na II GGM. São conhecidas como a “montanha bunker grande”, com 78 metros de altura, e a “montanha bunker pequena”, com 48 metros de altura. Não é difícil subir até qualquer uma delas. E ambas as montanhas parecem hoje, com o passar do tempo, perfeitamente naturais. Da mais alta consegue-se uma boa vista para o centro de Berlim, com a Torre da TV sempre como bússola. A vista perfeita é impedida pelas árvores, o que não é mau, e pelo nevoeiro, que é o que nos espera mais certamente nesta época do ano. Nada que, como se vê, impeça bons passeios.

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