Lübeck

Lübeck fica a 45 minutos de comboio de Hamburgo e, tal como esta, é uma cidade banhada por um rio e com um fortíssimo passado marítimo e comercial.

A sua posição estratégica, com acesso directo para o Báltico, fez de Lübeck uma cidade central na Liga Hanseática, a aliança de cidades mercantis que em tempos dominou o comércio nesta região e no Mar do Norte.

A sua pertença à Liga Hanseática é incontornável ainda hoje. Marcou a cidade em termos históricos, económicos, arquitectónicos e sociais e é aqui que podemos visitar um dos mais originais, surpreendentes e interessantes museus sobre a vida de outrora sem deixar de fazer uma ligação com o presente e o futuro.

O European Hansemuseum mostra-nos a emergência, vivência e decadência da Liga Hanseática, estabelecida em 1385.

Foi nesse século que Lübeck surgiu como a rainha dessa Liga, tornando-se uma das cidades mais ricas por conta do seu estatuto comercial. Neste museu inaugurado em 2015 é nos dada a conhecer essa poderosa Lübeck, mas também Novgorod, Bruges, Londres e Bergen, outras cidades marcantes da referida Liga. Numa viagem multimédia e interactiva até esse tempo, percorremos espaços arqueológicos como as fundações do primitivo castelo, assistimos ao boom urbano e às mudanças sociais ocorridas no século XIII, vemos como eram as casas e os negócios dos mercadores, aprendemos sobre religião e comércio e até sobre a Peste Negra que matou centenas de milhares no século XIV e a crise económica e social que lhe sucedeu.

A Liga Hanseática viria a ser dissolvida em 1669. Deixou-nos uma série de cidades cujo centro urbano nos faz, quatro séculos depois, viajar no tempo. Lübeck é uma das mais preciosas delas.

No lugar do que é hoje o European Hansemuseum haveria uma primeira fortificação já no século VIII ou IX, durante o período eslávico, sobre a qual em 1143 o Conde Adolf II de Schauenburg e Holstein construiu um castelo e fundou a cidade.

Muitas transformações aconteceram depois disso. O castelo tornou-se convento dominicano, asilo de pobres, hospital, cemitério, tribunal e prisão e, finalmente, museu (a par do Hansemuseum, visitamos outros espaços correspondentes ao antigo convento de Santa Maria Madalena, ou do Castelo).

Após restauro retém hoje a arquitectura característica da cidade, o brick gothic (tijolo gótico) – a falta de pedra na região obrigou ao uso de tijolo de barro vermelho.

Esta arquitectura única faz de Lübeck um sítio especial e a Unesco lembrou-se disso, e muito mais, para a fazer integrar a sua lista de Património da Humanidade em 1987.

Esse muito mais far-nos-á começar esta viagem por Lübeck pelo princípio, pela sua porta de entrada após atravessada a ponte das estátuas: a Porta Holsten.

Construída em 1464, dá nos as boas vindas e apresenta-se-nos orgulhosa no seu revestimento em tijolo vermelho. É um símbolo do poderio mercantil da Lübeck de outros tempos, mas as suas duas torres cilíndricas perduram como a imagem da cidade de hoje. O lema em letras latinas a dourado que encima a nossa passagem dá o mote: “concordia domi foris pax” (harmonia dentro e paz no exterior).

É para lá da Porta Holsten que se estende a cidade que vamos descobrir, sempre de mãos dadas com a sua história.

A Altstad, cidade velha, uma ilha bordejada pelo rio Trave, é um coração medieval que forma um conjunto harmonioso de quarteirões bem preservados (apesar da destruição que sofreu na II Grande Guerra Mundial) – ruas, pátios e becos – , edifícios de comércio, residências de ricos mercadores e de nobres, armazéns de sal, monumentos públicos e igrejas, muitas torres de igrejas que rompem o céu e fazem desta paisagem uma daquelas verdadeiramente especiais.

Mesmo junto à Porta Holsten encontramos um conjunto de edifícios irmanados, as Casas de Sal. Datadas dos séculos XVI – XVIII, estas seis casas de tijolo serviam para guardar sal, o qual acabaria por ser trocado por peles e/ou utilizado para preservar o arenque. São, pois, um testemunho arquitectónico e etnográfico exemplar da Lübeck medieval.

À beira do Trave vamos conhecendo os primeiros exemplos de edifícios que fazem desta uma cidade distinta e descobrimos a igreja Sankt Petri à espreita. De fachada de tijolo e interior branco hoje vazio (a igreja já não está em funções, antes se transformou em local de eventos culturais), é para lá que nos dirigimos para subir à sua torre, a mais de 50 metros de altura, e ganharmos um panorama fantástico de toda a Lübeck. A neve não impediu que pudéssemos distinguir com clareza as seis casas irmãs de sal, todas elas diferentes no seu formato, nem que pudéssemos ter o primeiro contacto com as muitas torres de igrejas e com a Praça do Mercado.

Já cá em baixo, a dita praça, onde fica o Rathaus, encontrava-se ocupada com uma pista de gelo em forma de barraca, uma daquelas coisas que me irrita sobremaneira, impedindo, isso sim, de apreciar o lugar como conjunto. Mas foi possível observar alguns dos detalhes do edifício correspondente aos nossos paços do concelho. Dito por alguns como um “conto de fadas em pedra”, vemos aqui uma mescla de estilos que vai desde o século XIII, quando começou a ser construído, até aos dias de hoje. Do lado da Praça do Mercado vemos num lado o tijolo escuro com os escudos da antiga cidade imperial e as torres em esfera, no outro lado um tijolo mais avermelhado que rodeia um “sub-edifício” branco cheio de decorações; do lado da Breite Strasse vemos uma escadaria renascentista que prolonga as arcadas onde nos deparamos com uns elementos mais folclóricos. Não parece harmonioso nem equilibrado, mas no final é um conjunto precioso e alegre.

O Café Niederegger fica por aqui. O marzipan é uma instituição de Lübeck e este café que se tornou numa marca faz por preservá-la e rentabilizá-la. Não sabe o que levar de presente de Lübeck? Que tal uns chocolatinhos de marzipan?

A Breite Strasse é uma rua de comércio pedonal e continua por aí fora. Há que fazer dois desvios à esquerda, no entanto, antes de a percorrer até final.

Um primeiro, para conhecer a Igreja de Santa Maria. São “apenas” sete as suas torres, que levaram a que Lübeck ficasse conhecida também como a “cidade das sete esferas”. Esta que é a terceira maior igreja da Alemanha, construída por volta de 1200 como uma basílica romanesca em tijolo que 50 anos depois foi tornada catedral gótica, é a mãe das igrejas em estilo tijolo gótico e serviu de modelo para muitas outras igrejas que se lhe seguiram na região do Báltico.

A visita ao seu interior é obrigatória e necessária para se testemunhar parte da história da cidade e da Europa. Como memorial, aqui vemos os dois sinos – deixados no chão, partidos – que em 1942 caíram após os bombardeamentos aliados durante a II Grande Guerra Mundial. E vemos outras preciosidades como a Capela da Dança Macabra, como homenagem à pintura de mesmo nome também destruída naqueles ataques, e o Relógio Astronómico. E temos ainda a nave da igreja, enorme e imponente nos seus 38 metros de altura.

Um segundo desvio na Breite Strasse leva-nos à Buddenbrookhaus, a casa de família do escritor Thomas Mann. Nascido em Lübeck, este é um dos três Prémios Nobel da cidade. A casa toma o nome da sua primeira obra, a qual se debruça sobre o declínio de uma família rica de mercadores de Lübeck, e está hoje transformada em museu.

Se tivermos apenas um dia para visitar Lübeck, escolhas do que ver são obrigatórias, claro. Tive de deixar para trás as histórias de vida e obra de Thomas Mann e de Günter Grass, à direita no final da Breite Strasse, e dediquei-me às de Willy Brandt. Estes são os três Prémios Nobel de Lübeck, os dois primeiros da literatura (em 1929 e 1999, respectivamente), o último da paz (em 1971). Mann e Brandt nascidos na cidade e a cidade escolhida por Grass.

A Willy Brandt Haus não é a casa onde nasceu Herbert Frahm, o seu nome de nascença, nascido em Lübeck em 1914 e designado chanceler da Alemanha Federal em 1969, mas é hoje o lugar do museu que nos oferece uma viagem multimédia guiada pela sua vida pessoal e política, bem como um panorama da história da Alemanha e da Europa durante o século XX. Século turbulento, a ênfase é colocada nos assuntos relacionado com a paz e os direitos humanos, tendo o antigo chanceler e antigo presidente da Internacional Socialista acabado por ver nos últimos anos de vida (faleceu em 1992) concretizado o seu sonho: a reunificação das duas Alemanhas após a queda do muro de Berlin.

O pátio da Willy Brandt Haus dá para o pátio da Günter Grass Haus e por esta zona da cidade todo um novo mundo se nos apresenta. Com a igreja Sankt Katharinen a reinar quase soberana, e colada a ela mais uns exemplos de edifícios de tijolo, como se de uma composição se tratasse, nesta rua, a Glockengiesser Strasse, encontramos uma série de surpreendentes pátios e passagens (Höfe e Gänge). Para lá das ricas e trabalhadas fachadas de edifícios de ricos mercadores ficam pátios ocupados com uma espécie de casas sociais por eles construídas. Era a Lübeck do século XVII para os mais desfavorecidos.

A Füchtings Hof tinha a porta aberta, mas demorei-me a tirar fotos (como sempre) e, entretanto, esta fechou-se, assim como se fechou a minha oportunidade de visitar este pátio. Já o Glandorps Hof, um pouco mais adiante, estava escancarado e, respeitando os avisos que pediam comedimento, por ser este um espaço privado, mas que faz questão de dar a conhecer a sua história, percorri-o serenamente.

Caminhando em direcção à porta Norte de Lübeck, onde visitámos já o European Hansemuseum no Castelo, lugar de fundação da cidade, passamos pela fantástica fachada em tijolo do Hospital Heiligen Geist (bem como mais uma enorme igreja e sua obrigatória torre). Uma das obras sociais mais antigas do mundo, está aqui desde 1286.

Do lado contrário da cidade, a sul, a catedral (Dom) domina. Este é o mais antigo edifício da cidade (datado de 1173) e, claro, respeita a arquitectura de tijolo gótico. Foi quase totalmente destruído durante a II Grande Guerra Mundial, mas hoje resiste como postal perfeito da cidade. É por aqui, atravessando a ponte sobre o Rio Trave e retornando em direcção à Porta Holstein, que encontramos o melhor miradouro de Lübeck. O Malerwinkel é um pedaço de verde, nesta época pintalgado de neve, à beira do Trave, ideal para a conquista da foto da jornada.

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