Kontorviertel e Speicherstadt

Desde 2015 a Speicherstadt e o Kontorhaus Viertel, com a Chilehaus, fazem parte da lista de Património da Humanidade da Unesco. É de urbanismo e arquitectura que se trata quando se pretende reconhecer e distinguir estes dois conjuntos da cidade portuária de Hamburgo.

Começando pelo Kontorhaus Viertel, neste “quarteirão” encontramos a distinta Chilehaus, mas também muitos outros edifícios exemplares nas ruas adjacentes.

Este é o território por excelência do “Brick Expressionism”. Desenvolvido durante os anos 1920 e 1940 de forma a acomodar aquele que é conhecido como o primeiro distrito comercial da Europa, vários edifícios, enormes, foram então construídos para explorar e suportar os negócios relacionados com as actividades portuárias que se desenrolavam ali mesmo em frente no porto. À pujança comercial do comércio internacional desse tempo havia que corresponder uma arquitectura moderna e igualmente pujante em termos estéticos. Uma afirmação económico-urbanística.

São vários estes complexos de edifícios, já se disse, mas o destaque absoluto vai para a Chilehaus. Projectado pelo arquitecto alemão Fritz Höger, este edifício de tijolo escuro que parece um navio foi concluído em 1924. Se num dos seus lados fica a proa, do outro uma curva elegante. Apesar das dimensões desmesuradas deste edifício, é possível respirar-se aqui para além de elegância um equilíbrio total.

Podemos ainda observar diversos elementos escultóricos na sua fachada, sobretudo figuras de animais, em especial o Condor. A construção deste edifício foi promovida por Henry B. Sloman, um magnata que fez fortuna com o comércio de salitre do Chile, daí o nome do edifício e o condor, a ave nacional desse país sul americano.

Mas muitos mais animais vemos a adornar outros destes edifícios modernistas.

Ao lado da Chilehaus fica o Sprinkenhof, o outro edifício que mais me seduziu. Ficou concluído nos anos 40 e na sua brutal área dá gosto descobrir os diversos ornamentos na sua fachada. A uma primeira vista as fachadas destes edifícios podem parecer algo monótonas, mas existe sempre alguma decoração que rompe essa monotonia. Para além da geometria rectangular das suas janelas brancas, precioso contraste com os tijolos escuros.

Este Kontorhaus Viertel é como que complementar à Speicherstadt, parte da Hafen City, a qual alcançamos após atravessarmos uma das inúmeras pontes de Hamburgo, como a Wandrahmsteg, bem defronte da Chilehaus.

E assim entramos numa área do antigo porto onde tudo está (e vai continuar a estar) a acontecer. A Hafen City é um pedaço de território cortado por diversos canais – ou seja, é uma série de ilhas – e inclui a Speicherstadt. Ambas se confundem, mas para esclarecer dir-se-á que Hafen City é o novo distrito criado em 2008 no sentido de desenvolver um projecto de regeneração urbanística desta zona que antes pertencia ao porto de Hamburgo. Muita construção em andamento se vê ainda e muita outra está já concluída, sendo este o maior projecto de desenvolvimento e requalificação urbanística da Europa. Uma espécie de nova cidade está em marcha, com novas zonas habitacionais, comerciais, escritórios e equipamentos. Uma nova centralidade, em resumo.

O Speicherstad, parte desta Hafen City, é o seu rosto mais histórico e aquele que a Unesco pretendeu distinguir. Literalmente “cidade dos armazéns”, a coerência deste que é o maior conjunto de armazéns portuários do mundo é evidente.

Construídos maioritariamente entre 1885 e 1927 em diversas pequenas ilhas no rio Elba, hoje ligadas por um sem fim de pontes, estes armazém estendem-se por mais de um quilómetro, uns à beira das estradas outros dos canais, ou ambas as situações. Ou seja, armazéns, pontes e canais fazem deste lugar um sítio encantado. A imagem destes armazéns elegantes reflectida na água dos canais, vista sobre uma das pontes, é uma daquelas que perdurará na memória.

Esta zona portuária foi construída como uma zona de comércio internacional livre de impostos. Os armazéns serviam de suporte ao porto e acomodavam café, chá, especiarias e muitos outros bens. Hoje são escritórios, galerias, lojas. Sob fundações de madeira, a sua arquitectura feita de tijolo vermelho vai de meros blocos quadrados monocromáticos a edifícios com alguns ornamentos e/ou torres, uma arquitectura de tijolo cujos edifícios podem ver o seu estilo transformar-se em neo-gótico.

Estes armazéns foram restaurados, renomeados – como Vespucius Haus ou Colombus Haus -, reconvertidos. O Kaispeicher B, um dos mais antigos armazéns, é hoje o Museu Marítimo Internacional.

E o Kaispeicher A transformou-se no mais novo ícone de Hamburgo, a Elbphilarmonie.

Aproveitando a pré-existência daquele antigo armazém, a dupla de arquitectos Herzog & de Meuron criou um edifício engenhoso e brilhante. Um verdadeiro monumento.

Inagurado em 2017, 10 anos de expectativa após ter sido lançada a sua primeira pedra, visualmente a Elbphilarmonie são dois edifícios em um. Na base o dito armazém em tijolo e por cima dele uma construção em vidro cuja imagem se dá a especulações. Será a vela de um navio? Ondas num mar agitado?

Esteticamente a parceria dos dois edifícios, antigo restaurado e novo inventado, é belíssima.

O edifício da Elbphilarmonie é agora o mais alto de Hamburgo (sem contar com a torre da TV), com 108 metros. Distingue-se claramente na paisagem a partir de diversos pontos da cidade.

A Elbphilarmonie é não apenas uma sala de concertos, na verdade três salas de concertos das mais avançadas acusticamente, como também um complexo residencial, um hotel, salas de conferências, restaurantes, cafés e lojas.

É possível – e obrigatória – a visita ao seu interior. Começamos por deslizar numa enorme e longa passadeira rolante que rompe os primeiros 8 andares, correspondentes ao antigo armazém, até nos deixar no terraço designado por Plaza e que é agora um ponto privilegiado de observação da cidade e do rio.

As salas de concerto descobrem-se com bilhete. Ou seja, cenas dos próximos capítulos ficam para nova temporada…

Voltando à sua fachada, as milhares de placas de vidro usadas para o seu revestimento devem ser observadas a várias horas do dia. Como um cristal, ela reflecte tudo à sua volta, o céu, a água, a cidade.

Há, pois, que retornar, retornar sempre à Elbphilarmonie.

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