Hamburgo

Em Hamburgo a água é presença constante.

Situada à beira do rio Elba, com ligação ao Mar do Norte, o comércio marítimo dominou a sua história desde sempre. Ainda hoje a cidade é um dos maiores portos da Europa. Daí que não seja de estranhar a presença de inúmeros armazéns.

O que faz de Hamburgo especial é precisamente a conjugação da sua situação geográfica, topografia e arquitectura.

Junto ao rio, já se disse, e atravessada por um sem fim de canais, Hamburgo é ainda polvilhada de edifícios em tijolo, resultando num muito característico estilo arquitectónico designado por brick expressionism (qualquer coisa como expressionismo de tijolo). Encontramos os maiores exemplos desse estilo no Speicherstadt e no Distrito Kontorhaus, ambos distinguidos como Património da Humanidade pela Unesco em 2015.

Um pouco de história.

O acesso directo de Hamburgo ao Mar do Norte sempre foi um atrativo, o que a fez estar na rota do comércio marítimo desde há muito. No século XII Hamburgo era já uma cidade com alguns privilégios, como direitos especiais de comércio e isenção de impostos, trazendo-lhe muitos mercadores.

Em 1321 a cidade juntou-se à Liga Hanseática, uma aliança de cidades mercantis que dominou o comércio no Mar do Norte e no Báltico durante séculos, até à descoberta do Novo Mundo. Mas mesmo com o final da aliança, Hamburgo não deixou de prosperar. Mais, soube sempre preservar as suas rotas comerciais e acabou por ganhar e manter novas rotas de comércio com a Ásia, a África e as Américas.

No século XIX Hamburgo tornou-se parte do Império Germânico. O final da I Grande Guerra Mundial trouxe uma queda no comércio internacional e, para agravar a situação, na sequência da derrota na guerra grande parte da frota comercial da cidade foi dada como reparação aos aliados. A II Grande Guerra também trouxe destruição a Hamburgo e, a juntar às dezenas de milhar de mortos, os ataques aéreos arrasaram grande parte das habitações, do porto e da indústria.

Esse tempo já lá vai e numa visita ao centro de Hamburgo, com excepção da igreja de St. Nikolai, onde a sua torre escura teima em manter-se erguida junto às ruínas do resto da igreja, não nos deparamos com mais destruição. Vemos, sim, uma cidade onde a reconversão urbanística de parte da imensa área do seu porto não tem cessado, o que é um sinal inequívoco de pujança económica. A Hafen City parece um projecto urbano megalómano, mas já ofereceu à cidade um novo ícone, a Elbphilharmonie, tornando-o de imediato o seu mais reconhecido edifício.

Foi por ele que decidi visitar Hamburgo e não me desiludi com esta que é a segunda cidade alemã em termos de população e importância, e que para além do seu movimentado porto e eixo de meios de comunicação social (como Die Zeit, Stern e Der Spiegel) muito tem a descobrir.

O aeroporto de Hamburgo fica a pouco mais de 20 minutos de comboio da estação central, a Hauptbanhof, que nos deixa a outra vintena de minutos a pé do Rathaus ou, caso queiramos poupar as pernas, a uma estação de metro deste que é o coração da cidade, a Altstadt.

A elegante torre do Rathaus ergue-se delicada e este enorme edifício domina toda a praça. Existem visitas guiadas ao interior do Rathaus, o correspondente às nossas câmaras municipais, mas infelizmente não consegui visitá-lo nos horários definidos.

Ao redor do Rathaus vários canais se estendem, ligando o rio Elba ao lago Alster. Este é um imenso lago que se divide em Binnenalster e Aussenalster (lago interior e lago exterior), com duas pontes a separá-lo. Nesta época do ano parte dele encontrava-se gelado e não consigo deixar de imaginar o fantástico que seria poder aqui nadar. Mas parece que não, não se deve nadar aqui por causa das correntes, antes passear de barco ou velejar. Fiquei-me por um pequeno passeio em parte da sua margem, com as árvores a transportarem-me para uma imagem de bosque e com um céu limpo azul a colorir a paisagem. O único senão? Máxima concentração para não escorregar no gelo e cair neste idílio citadino.

Voltando à praça do Rathaus, um canal separa a Altstadt da Neustadt (velha e nova cidade) e deixa a Alsterarkaden debruçada sobre a sua água. Em estilo renascentista, estas arcadas brancas são o lugar de várias lojas, cafés e galerias que servem de passagem de umas ruas para as outras, algo muito conveniente quando o frio aperta. Uma destas passagens, a Mellin, a arcada mais antiga da cidade, tem uma decoração no tecto distinta.

Esta área é a zona comercial da cidade por excelência, com as lojas mais luxuosas e sofisticadas, incluindo aquelas que ocupam a rua Jungfernstieg, a qual tem o privilégio de acompanhar o lago.

Seguindo o percurso dos canais, e de volta à Altstadt, a torre da antiga igreja St Nikolai mantém-se para contar parte da história da cidade. Reconstruída em 1874, após a destruição pelo grande fogo de Hamburgo, na altura era o edifício mais alto da Europa. Mais tarde, a igreja foi destruída quase por completo pelos bombardeamentos aéreos dos Aliados em 1943, durante a II Grande Guerra Mundial, e as suas ruínas impressionam, cumprindo o papel de recordar esse tempo negro da história mundial. O lugar está, assim, transformado em memorial, relembrando as vítimas da tirania, subsistindo a torre da igreja, ainda hoje um dos edifícios mais altos de Hamburgo.

Aqui perto fica a Deichstrasse, a rua onde teve início o grande fogo de 1842 que destruiu grande parte de Hamburgo. Hoje o encanto desta rua ocupada por restaurantes e edifícios que não iludem é o de espreitar pelas ruas estreitas que dividem as paredes desses edifícios e descobrir o canal que está para além deles.

Os canais sucedem-se e atravessada mais uma ponte chegamos a Speicherstadt, literalmente a “cidade dos armazéns”. Em pleno porto, foi construída entre 1883 e 1927, na sequência do grande fogo e, ainda que utilize a madeira para as fundações dos seus edifícios, veio trazer como novidade a criação de um novo estilo arquitectónico pelo uso do tijolo como material dominante.

Os armazéns são reis por aqui, mas os canais são os seus príncipes. Deixando a Speicherstadt e repetindo-me, Hamburgo é a cidade da água. Dos canais e das pontes.

Uma das pontes mais bonitas é a Ellerntorsbrücke, na transição da Altstadt para a Neustadt.

São muitas as igrejas de Hamburgo, com torres imponentes de altura desbragada. Mas a Igreja St Michaelis é uma das mais adoradas pelos seus habitantes. A maior da cidade, o seu interior é bonito e equilibrado, e a vista do alto da sua torre, com 132 metros, soberba.

Junto a esta igreja fica o Krameramtsstuben, uma pequena passagem – que facilmente passa despercebida – para um beco onde encontramos uma colecção de casas de madeira do século XVII. São as mais antigas e dos poucos exemplares que restam na cidade e, neste caso, foram construídas para as viúvas dos membros da guilda (associação) dos pequenos lojistas. Esta passagem é estreitíssima, de tal forma que é difícil chamar pátio ao espaço entre estas pequenas casas, hoje transformadas em lojas, galerias e restaurantes.

Caminhando daqui em direcção ao rio Elba e à zona do porto, o Portugiesenviertel traz-nos familiaridade, pelo menos nos nomes dos seus muitos restaurantes, cafés e pastelarias. Deu-me ideia de que o quarteirão português é frequentado sobretudo por não portugueses e os seus restaurantes, ainda que possam oferecer comida típica, a ver pela decoração serão tudo menos popularuchos. Um exemplo que nos dará uma ideia da sua frequência: domingo à tarde, hora de jogo do FC Porto, e nem uma televisão sintonizada no jogo português, antes no do vizinho Werder Bremen.

Aqui perto fica Landungsbrücken, onde se podem apanhar os ferries que navegam pelo Elba. A bem articulada rede de transportes em Hamburgo é o que se espera dos alemães: eficiência e comodidade. Comboios, metros, autocarros e barcos. Algumas linhas do metro, como a S3 e a U3, fazem o seu caminho sem ser enterradas, proporcionado-nos bonitas vistas quer para o lago Alster quer para o Elba. Mas o ferry substitui por inteiro (e fica bem mais barato) um dos muitos passeios de cruzeiro à venda na cidade, em especial o n.º 62.

St Pauli é o bairro que se segue. Um dos mais carismáticos da cidade, é aqui que ficam duas das maiores atracções de Hamburgo, o Fischmarkt e Reeperbahn.

Se estivermos na cidade a um domingo, é imperdível levantar bem cedo, ou nem sequer chegar a deitar, para dar um pulo até ao Fischmarkt. O início da manhã não estava nada convidativo, temperatura negativa e muita neve, mas lá sai, acompanhada de muitos mais, para conhecer o mais famoso mercado do peixe alemão. Surpresa número um, o edifício do mercado está, nas manhãs de domingo, transformado em palco de concertos, uma espécie de after party para a qual todos estão convidados, ou seja, aqueles que ainda não terminaram a noite e aqueles que estão a começar o dia. E para isso, para além da música, temos diversas bancas de comida e bebida para repor ou pôr energias. A salsicha é forte em toda a Alemanha, mas é a sanduíche de peixe a obrigatória neste canto à beira mar. Isto é o que se passa no interior. Lá fora, vemos as bancas de fruta, legumes e peixe, tudo alimentos frescos. Ou, talvez seja melhor dizer, nevados e congelados pela temperatura natural. A neve não parava de cair, mas nem por isso as ruas à volta do mercado às 8:00 da manhã deste domingo deixavam de estar vazias.

No entanto, no irónico Park Fiction, com vista para o Elba, àquela hora da manhã não estava ninguém debaixo de umas palmeiras, nem sequer um dos skaters ou activistas que o costumam frequentar 🙂

Mais estranho ainda 🙂 , os bares de praia estavam desertos e com ar de que não viam clientes há uma temporada. Não deve ser nada fácil ser noctívago com um frio destes.

Também vazia estava já a Reeperbahn, mais acima do porto. Mas esta rua, estou certa, havia tido muita animação e sobretudo calor na noite anterior, como em todas as noites. Esta rua, também conhecida como a milha do pecado, está inundada de restaurantes, bares, discotecas, clubes nocturnos, cabarés e tudo o que se possa imaginar relacionado com a indústria do sexo e da diversão. O red light district fica aqui, e há até ruas vedadas às mulheres, a não ser as profissionais. O facto de Hamburgo ser uma cidade portuária ajudou à construção deste proveito.

Reeperbahn não é só pecado. Este é o lugar para se ouvir música na cidade, sobretudo música independente, e foi onde os Beatles passaram parte da sua carreira, estando até imortalizados na sua praça principal.

St Pauli é ainda o nome de um dos clubes da cidade, aquele de bandeira preta com uma caveira e ossos. Parece assustador, mas este é um dos clubes alemães mais amados, boa onda e pacíficos.

Mais para lá de St Pauli fica Altona, o bairro mais ocidental de Hamburgo e aquele que até 1938 foi uma cidade autónoma. Cidade de pescadores, cidade portuária, hoje fica aqui um dos maiores símbolos arquitectónicos da Hamburgo moderna e em reconversão urbanística: o edifício da Dockland.

Em forma de barco, esta figura geométrica rombóide em aço e vidro é única e marca a entrada no porto de Hamburgo (junto a ele encontramos ainda o terminal de cruzeiros). É mais um daqueles edifícios que marcam definitivamente a imagem de uma cidade e, com muita pena, lamento não o ter podido explorar durante o dia. As suas longas escadas dão acesso a uma plataforma miradouro pública no seu telhado. Outro miradouro por aqui é o Altonaer Balkon, uma elevação com vista privilegiada para o porto que a noite e a neve impediram a visita.

Apenas um pretexto para um regresso, juntamente, quem sabe, com a ida a um concerto na Elbphilarmonie – sim, impossível rematar um texto sobre a Hamburgo pós-2017 sem voltar a falar no seu mais fantástico edifício, cortesia da dupla Herzog & de Meuron.

Outros locais a visitar em Hamburgo:

– Parque Planten un Blomen, um bonito parque urbano, com muitos caminhos, lagos e até um jardim japonês.

– Deichtorhallen, dois edifícios-hangares representativos da arquitectura industrial da cidade acolhem hoje exposições de arte contemporânea e fotografia.

– Hamburger Kunsthalle, percorre 700 anos de arte, pintura alemã e holandesa forte, incluindo uma sala dedicada a Caspar David Friedrich, o maior pintor do romantismo alemão, diversas obras do expressionista Ernst Ludwig Kirchner e um edifício mais recente para a arte contemporânea.

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