Basileia

Basileia esteve na dúvida para entrar neste itinerário pela Suíça até bem tarde. Mas, qual Éder, entrou mesmo a tempo para ser decisiva no sucesso desta viagem e levou a taça da cidade mais bonita, pitoresca e fascinante da Suiça. Mais, entrou directamente para o top das minhas cidades europeias favoritas.

Obviamente, esta decisão / sensação tem tudo a ver com os interesses de cada um. Então, o que tem Basileia que me fez gostar tanto dela?

Não terá uma localização tão fantástica como a de Geneva, Lucerna ou Zurique, todas junto ao lago, mas é, ainda assim, banhada por um rio que aos primeiros raios de sol – e diz-se que esta é a cidade suiça com mais dias de sol por ano – vê todos os seus habitantes chegarem-se a ele e deixarem-se ficar ali, sentados com os pés na água ou estendidos à sua beira.

O que é decisivo em Basileia é a cor dos edifícios do seu centro histórico, as suas riscas e janelas, é a vivacidade do seu Rathaus, o ocre da sua catedral e, sobretudo, a sua ultra futurista arquitectura do século XXI que vai tomando conta da cidade. O velho e o novo lado a lado.

Situada na fronteira com a França e a Alemanha, o rio Reno trouxe os celtas e os romanos a Basileia. A cerca de 10 km daqui ficam as maiores ruínas romanas da Suiça, a antiga cidade de Augusta Raurica. O Reno foi decisivo para o desenvolvimento de Basileia, uma vez que sendo navegável até ao mar do norte, na Holanda, permitia o estabelecimento de rotas comerciais através dele. Sobretudo o comércio de fitas de seda tornou Basileia numa centralidade.

O século XIX viu a cidade transformar-se num polo industrial. As indústrias química e farmacêutica estabeleceram-se aqui e ainda hoje a Roche e a Novartis têm cá a sua sede. Na paisagem de Basileia é, aliás, comum ver ao fundo as chaminés dos edifícios industriais a fumegar.

Mas a economia e a fama da terceira maior cidade suiça não assenta apenas nas suas indústrias. O Carnaval Fasnacht é conhecido como sendo o mais popular festival do país, a feira de arte contemporânea Art Basel recebe as atenções do mundo todo e Basileia será para sempre o lugar de nascimento do melhor tenista de todos os tempos, Roger Federer. Para além disso, esta é ainda a terra natal da dupla de arquitectos Herzog & de Meuron, os Pritzker que têm inúmeros e variados projectos na sua cidade.

Começaremos este recorrido por Basileia por umas vistas desde o Reno.

O rio Reno divide a Kleinbasel da Grossbasel. Um típico barco de passageiros faz a travessia entre as duas margens, com a curiosidade de se mover pela acção da corrente e não através de meios mecânicos.

Para além de um destes 4 ferries, podemos atravessar o Reno por uma das suas pontes. A Mittlere Brücke é a mais famosa e já vem do século XIII, o que faz dela umas das mais antigas sobre este rio.

Atravessada a ponte Mittlere ficamos praticamente na Marktplatz, praça que durante a semana se transforma num mercado de venda de frutas, legumes e flores e onde fica um dos Rathaus mais vivos que já conheci.

A sua fachada exterior é de um vermelho exuberante que combina na perfeição com as pinturas e os elementos decorativos que ali formam um conjunto alegre. O pátio interior não fica atrás na surpresa da sua arcada e no colorido dos seus frescos.

Entre o Rathaus e o Reno podemos caminhar por ruas secundárias tranquilas que nos levam até à Catedral. Os edifícios, alguns deles de madeira, ou têm riscas ou têm janelas com portadas – ou as duas coisas ao mesmo tempo – que dão uma imagem de vida à cidade e a tornam muito pitoresca.

Passamos por uma fonte curiosa, a lembrar aquelas que havíamos visto em Berna, damos uma espreitadela no renovado Museu da Cultura e chegamos à larga praça da Catedral.

A Catedral de Basileia contraria a variedade de cores da cidade ao eguer-se imponente num característico arenito vermelho. Mas o monocromatismo termina aí. O seu telhado volta a surpreender pela composição das suas cores.

Após visitarmos o interior da igreja, cuja construção teve início no século XI e continuou até ao século XV, em estilo romanesco e gótico, podemos subir às suas torres. É difícil não nos perdermos na subida a cada uma das torres gémeas, mas a vista que daqui se tem causa-nos, ela própria, muitas mais sensações. Vemos o Reno logo ali, a praça deserta e o esquisito telhado do Museu da Cultura, projecto de Herzog & de Meuron.

Se caminharmos desde o Rathaus na direcção contrária à que fizemos anteriormente, percorreremos as ruas da Cidade Velha de Basileia. Ruas estreitas, algo inclinadas, é um colírio para os sentidos descobrir os pormenores dos seus edifícios. Muito bem preservado, este charmoso bairro está aqui desde o século XV e tem como seu elemento mais singular a Spalentor.

Com mais de 600 anos, a Spalentor é uma das três antigas portas da cidade que ainda resistem da velha muralha e fica num ponto mais elevado. Desde aqui retornamos para a parte baixa da cidade percorrendo as mais pitorescas ruas Spalenberg, Heuberg e Leonhardsberg, sem deixar de espreitar as demais ruas e pátios escondidos. Este antigo bairro de artesãos é sem dúvida um conjunto urbano delicioso.

Já na Barfüsserplatz tudo é mais movimentado. Desde aqui segue uma popular rua pedonal com lojas e restaurantes e perto fica a delirante Fonte Tinguely junto a um teatro, um espaço cultural e uma igreja. Esta fonte escultura é composta de uma série de máquinas esdrúxulas em ferro que vão jorrando água por todo o lado. É a arte cinética do artista suíço que se tornou uma imagem de marca de Basileia. Noutra parte da cidade fica um museu dedicado a Jean Tinguely, pelo qual já passaremos.

Seguindo pela tal rua pedonal, a Steinenvorstadt, iremos dar ao Markthalle. Este antigo mercado, com uma abobada enorme que enche de luz o seu interior, está hoje transformado num mercado de comida do mundo. Nas pequenas bancas podemos saborear as iguarias de locais tão diferentes e incomuns como o Afeganistão, os Emirados e a Abissínia, para além dos mais comuns Argentina, Vietname e Indonésia. Da minha parte provei e aprovei a comida do Curdistão.

Perto do Markthalle encontramos projectos arquitectónicos de nomes importantes da arquitectura mundial como Richard Meier, Mario Botta ou os já referidos Herzog & de Meuron.

Como fã de arquitectura fiz questão de desviar o caminho para visitar alguns dos projectos desta dupla suiça. O St Jakob Park é o estádio do FC Basel, o clube que tem dominado o futebol suíço na última década. Construído em 2001, vemos hoje que é como que um anteprojecto para os estádios que os mesmos arquitectos vieram a comandar mais tarde, como os mais famosos e icónicos Allianz Arena de Munique e Ninho de Pássaro de Pequim.

Do St Jakob seguimos por uma alameda que passa por entre diversas infraestruturas desportivas, campos de futebol e quadras de ténis, até desembocar num parque. Isto sempre perto de uma espécie de canal, o Bris, que desagua no Reno.

Até que chegamos ao Schaulager, mais uma obra de Herzog & de Meuron. Desta vez não é um edifício fácil, mas sempre interessante. Parece um caixote e apenas a fachada correspondente à sua entrada e um corte numa das laterais quebra a monotonia.

Os materiais usados neste edifício poligonal foram materiais extraídos no próprio terreno, como o cascalho. Em pormenor vemos estas especificidades e como se integra de forma superior no dito terreno. A fachada da entrada tem uma construção mais pequena como antecâmara, mas com o mesmo uso dos materiais, e revela-se-nos à distância pelos dois enormes painéis LED num fundo branco. Esta foi a forma criada pelos arquitectos para comunicarem com o público exterior, dando-lhe a conhecer as exposições patentes. Mas o conceito deste espaço não é apenas, nem sobretudo, expositivo. Aberto em 2003, o Schaulager tem como principal preocupação encontrar um novo conceito para o armazenamento da arte. Assim, quando as obras da Fundação Emanuel Hoffmann (que o sustenta) não estão em mostra em outros espaços expositivos, elas ficam por aqui ainda acessíveis de forma a poderem ser vistas por investigadores, profissionais de museus, artistas ou grupos de escolas.

É ainda obrigatório conhecer o hall interior desta galeria / armazém, o qual nos dá uma visão global de todo o espaço logo à entrada, uma vez que de um piso elevado nos debruçamos para os pisos inferiores.

O Schaulager fica no distrito Dreispitz, anteriormente um lugar de indústrias e armazéns. Nos últimos anos tem sido alvo de uma intensa transformação que lhe tem trazido um novo rosto de modernidade. Apartamentos de luxo, galerias, projectos inovadores vindos de arquitectos de nomeada fazem parte da nova vida de Dreispitz.

Uma viagem a Basileia não pode terminar sem um passeio pelo bairro de St Albans, uma ilha de quietude na já de si tranquila Basileia.

Este pequeno quarteirão de casas de madeira à beira Reno tem como bónus ser entrecortado por uns canais que dão ao lugar um ambiente idílico, quase uma viagem no tempo. Antigo lugar de artesãos e de indústrias, podemos encontrar ainda hoje o moinho da antiga fábrica de papel, hoje transformada num museu. A tradição convive, porém, ao lado da modernidade, bem expressa no recente edifício do Museu de Arte Contemporânea.

Em St Albans, para além do que resta da antiga muralha, é ainda precioso conhecer uma das outras portas sobreviventes de Basileia, a St Alban Tor.

Na outra margem do Reno, bem defronte de St Alban, fica instalado o maior arranha-céus da cidade, quase que omnipresente porque visível de diversos pontos. É o edifício sede da Roche, empresa farmacêutica que entregou este projecto a… quem mais senão Herzog & de Meuron?

O Museu Tinguely fica aqui perto. Infelizmente estava fechado – já sabia ser terrível visitar a Alemanha na Semana Santa e fiquei a saber o mesmo para a Suiça – pelo que me tive de contentar em apreciar a arquitectura do edifício de Mario Botta apenas do exterior, em cujos jardins se podem ver também umas das esculturas cinéticas de Tinguely.

E para completar este périplo por alguma da arquitectura moderna e contemporânea de Basileia, um exemplo de restauro de um edifício industrial, também aqui na Kleinbasel, que é demonstrativo deste gosto pelo arrojo arquitectónico que se vê amiúde na cidade. O Warteck era uma antiga fábrica de cerveja. Construído à beira do Reno em 1900, este edifício em tijolo possuía – e mantém – uma enorme mas distinta torre / chaminé. Para quem aprecia arquitectura industrial, era já um edifício interessante. Quem admira as dinâmicas ligadas à requalificação e reutilização destes antigos edifícios, vai achá-lo precioso. É agora um espaço de coworking com diversas funções, incluindo projectos culturais. Esta capacidade de abraçar o novo e o diferente está bem expressa naquilo que visualmente é o mais apelativo no Warteck dos nossos dias: a escadaria retorcida que foi agregada à sua fachada. Desenhado por Fabian Nichele e Gerhard Paul Rössler, este novo elemento acaba por ser ele próprio uma espécie de obra de arte.

Termino este passeio por Basileia no mesmo local por onde o comecei, à beira Reno, com vista para a Catedral, mas agora com o dragão que é o símbolo da cidade como seu protector.

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