Zurique

Zurique, a maior cidade suiça e o centro financeiro do país, poderia muito bem ter como cognome “a Revolucionária”.

Nos idos de 1219 tornou-se uma cidade imperial livre; em 1336 viu os seus artesãos desafiarem o poder dos patrícios e organizarem-se em guildas; em 1519 o pastor da sua Grossmünster, Ulrich Zwingli, iniciou a Reforma da igreja de Zurique e mudou a história da Suiça; em 1916 o movimento artístico Dada de rejeição à lógica e estética tradicional foi aqui fundado por exilados da I Grande Guerra Mundial; em 1917 tornou-se a cidade escolhida por Lenin para viver antes de rumar à Revolução Russa do mesmo ano; a década de 1980 viu ser iniciada uma requalificação urbana que vem transformando a industrializada zona ocidental de Zurique num pólo moderno, urbano e criativo.

Histórica e pós-industrial, estas são as duas facetas da vibrante Zurique de hoje.

Comecemos o passeio por Zurique pelo seu centro histórico. O Lago Zurique é dominador e quando este não se avista é o rio Limmat que o substitui no factor água.

O Limmat divide o centro histórico em dois.

De um lado, saindo da estação de comboios temos a Bahnhofstrasse que vai vendo o característico eléctrico azul e branco percorrê-la. Esta é a rua da cidade onde encontramos as marcas mais famosas do mundo. E as mais caras, a lembrar que Zurique, cidade de bancos, tem de ter também lugares para gastar o dinheiro que guarda. Nas suas costas, em direcção ao rio, fica a Augustiner-Gasse, uma pequena rua onde podemos observar edifícios de várias cores e com uns curiosos balcões.

Este era o coração da próspera Zurique do século XVI, onde os comerciantes se organizavam em guildas. Bem antes disso, porém, a cidade teve ocupação romana e era então conhecida como Turicum. O Lindenhof Hill terá sido o lugar de fundação de Zurique e aquele onde uma fortificação foi erigida. Situado numa zona elevada em relação ao rio, este é hoje um miradouro e daqui se alcançam umas bonitas vistas.

Por esta margem do Limmat ficam duas das igrejas cujas torres marcam a paisagem da cidade.

A Fraumünster é uma das mais queridas dos seus habitantes e destaca-se pelas obras de arte dos vitrais de Chagall e da rosácea de Giacometti que vemos no seu interior. A outra, a St Peterskirche, é conhecida por possuir o maior relógio do mundo de torre de igreja.

Do outro lado do Limmat as duas torres da Grossmünster impõem-se. Foi aqui que no século XVI Zwingli pregou contra a igreja católica e que, inspirado por Erasmus de Roterdão e Martinho Lutero, iniciaria a Reforma Protestante na confederação suíça.

O Niederdorf é o bairro mais animado desta margem, com ruas estreitas e pedestre e cheio de restaurantes e cafés. Conhecido pela sua vida nocturna, as boates ainda marcam presença, mas para a história fica o facto de ter sido aqui que foi criado o Movimento Dada e ter sido numa das suas ruas que Vladimir Lenin residiu. Uma placa lá está a assinalá-lo, mas registei a acolhedora pracinha que o testemunhou durante o ano em que o russo aqui passou.

O Cabaret Voltaire, ali bem perto, também segue vivo. O lugar oficial de nascimento do Dadaismo é hoje um bar onde nos podemos sentar a beber ou a conversar ou a assistir a exposições. A sua irreverência ainda se faz notar pelos desenhos e mensagens picantes dos pósteres da sua decoração.

O Dada foi um dos mais importantes movimentos avant-garde de arte moderna e literatura no princípio do século XX, declarando o fim da arte estabelecida. A Suiça, por ter assumido a sua neutralidade durante a I Grande Guerra Mundial, e Zurique em especial, era o local ideal para os artistas (escritores, poetas, revolucionários, filósofos, psicanalistas, cientistas) se dedicarem às belas artes longe da guerra. Aí se juntaram e o Cabaret Voltaire era a sua casa e a revista de mesmo nome o seu veículo de propaganda. Em 1916 este tornou-se o local de encontro de artistas como Hugo Ball e Tristan Tzara, um lugar de entretenimento e troca de ideias que testemunhou serões loucos. Um espaço experimental com soirées, leitura de poemas simultâneos e dança moderna expressiva.

E para algo mais cândido (trocadilho fácil com a novela de mesmo nome de Voltaire, inspiração para os dadaistas), nada como uma caminhada pelo Limmatquai. À beira rio, é um prazer seguir por esta margem, adiando o atravessar de uma das suas pontes, para que, depois, cedendo, o façamos e voltemos no caminho pela margem contrária.

Tão junto à água podemos observar em detalhe as diversas pequenas embarcações. Ou, melhor ainda, podemos dar com uma passagem numa pequena e estreita arcada fechada, um miradouro privilegiado bem junto à água.

O ambiente do centro histórico de Zurique estava ainda mais fantástico nesta época Pascal. O encerramento da visita às torres da Grossmünster acabou por ser compensado pela melodia dos sinos das várias igrejas que teimavam em soar repetidamente no sábado.

Se o centro histórico de Zurique é compacto e relativamente pequeno, a cidade não o é assim tão pequena. Diversos pontos de interesse há mais para explorar. Desde logo, a entrada pelo Lago, onde o Limmat desagua. Numa muito agradável caminhada de cerca de 30 minutos desde o centro podemos seguir até ao Parque Blatter. Aqui fica o Pavilhão Le Courbusier. Este foi o último projecto deste arquitecto modernista (hoje designado Heidi Weber Museum), cuja construção foi concluído em 1967, já após a morte de Le Courbusier. Infelizmente, o edifício está por estes dias em restauro total e não consegui perceber nada da sua arquitectura. Tive de me contentar com a estrambólica escultura de Tinguely à beira lago.

Retornando ao centro da cidade pelo mesmo caminho, uma boa opção provar uma cervelat no Sternen Grill para os lados da Bellevue. Este tipo de chouriço / salsicha de porco é uma das comidas a provar na cidade, ainda mais obrigatória para mim, que não suporto o omnipresente queijo.

Atravessado o Quaibrücke o Lago Zurique abre-se majestoso.

Daqui seguimos ao longo do Schanzengraben. Originalmente este era o fosso da antiga fortificação barroca de Zurique. Hoje é um canal com uma promenade muito agradável para se passear. Vemos os pequenos barcos ali atracados e, mais curioso, até um “campo” de caiaque polo aquático.

Atravessada esta área residencial, depois de uma longa caminhada chegamos à Langstrasse. Como o nome o indica, esta é uma rua bem longa conhecida por ser o centro da vida nocturna da cidade e o seu quarteirão da luz vermelha.

Círculo quase completo efectuado, voltamos à centralidade da estação de comboios, a Hauptbahnof. Junto a ela fica o Schweizerisches Landesmuseum, o Museu Nacional Suíço. Não o cheguei a visitar, mas o seu exterior representa a preservação e regeneração de Zurique. Uma nova ala de arquitectura modernista foi acrescentada ao edifício apalaçado já existente. Antigo e novo lado a lado.

E com esta ideia presente partimos a explorar o distrito Züri West, a Zurique ocidental. Antiga área industrial, a sua reconversão urbana sustentada é um sucesso. Houve uma mudança radical de identidade, mas com um respeito integral pelo seu passado industrial. Assim, no lugar das antigas fábricas e indústrias vemos nascer desde os anos 80 novos usos e funções, como empresas de investigação, design, media e entretenimento e ofertas culturais e gastronómicas. Atraídos por estas dinâmicas urbanas e culturais e pela criação de novos espaços públicos, novos residentes chegaram. As chaminés ainda fumegam, mas agora com uma nova arquitectura como vizinha.

Alguns exemplos da criatividade deste distrito, também conhecido como Kreis 5:

O Viadukt é o projecto que aproveitou a ponte da linha elevada do comboio para converter a sua parte inferior, nomeadamente sob os seus arcos, em lojas e espaços criativos. Roupa, mobiliário, design, restaurantes, ginásio, espaço para crianças, tudo isto debaixo do comboio que ainda rola e com vista para um novo parque verde.

Ali perto fica a Prime Tower, o arranha-céus da cidade com o sky-bar Clouds no alto dos seus 126 metros – um miradouro improvável considerada a melhor vista da cidade, com os Alpes protetores, o Lago Zurique ao fundo e os comboios ali à mão.

Onde está a criatividade deste arranha-céus, perguntar-se-á? Está em que, praticamente ao seu lado, fica uma outra espécie de arranha-céus, dir-se-á pós industrial. É a loja mãe da Freitag, a marca de malas feita de materiais reciclados, estabelecida numa série de contentores empilhados, formando uma original torre.

A entrada do Frau Gerolds Garten é aqui. Aproveitando também os contentores dos antigos navios este bar com esplanadas cheias de cor e grafittis transforma-se até em praia nos meses mais quentes.

O Schiffbau era a antiga fábrica de construção de barcos a vapor, hoje reconvertida em espaço cultural. São três auditórios para teatro, um restaurantes da moda e um club de jazz, o Moods, onde se promovem concertos ao vivo.

O Puls 5 era uma antiga fundição, hoje enorme espaço coberto com restaurantes, bares e escritórios. Reteve alguma da sua arquitectura interior, deixando algum do material e cabos à mostra, imagem perfeita da reconversão dos espaços industriais em espaços do século XXI.

Antes da nova vida deste distrito ocidental já uma outra antiga fábrica tinha entrado no roteiro urbano de Zurique. Junto ao lago, acessível de transporte público, a Rote Fabrik, antiga fábrica de tecidos, foi sendo tomada pelos jovens que já nos anos 60 pretendiam um espaço a que pudessem chamar seu. Desde aí foi-se transformando num centro de eventos culturais e concertos, tendo por lá passado nomes como o escritor Nobel Günter Grass e a banda Nirvana.

Zurique pode ser histórica, mas cheira a espírito jovem.

Lucerna

Lucerna fica no coração da Suiça, encravada pelas montanhas e pelo lago.

Sabemos quando uma cidade é imperdível quando magotes de chineses se reúnem para a visitar. Seguimos, então, juntos no comboio de Zurique até Lucerna, menos de 1 hora de viagem. A viagem inicia e logo nos calha um túnel longo. O lago Zurique aparece e mais um túnel nos espera. Vem o lago Zug, uma imensa paisagem relvada, o comboio deixa as margens da água, segue pelo pacato interior e finalmente desemboca no lago Lucerna. Os chineses devem mesmo ter razão, esta viagem promete.

À chegada à estação, o Kultur und Kongresszentrum, a sala de concertos e museu criada por Jean Nouvel, apresenta-se-nos logo ali junto ao lago. Antes de entrar no centro histórico preferi circundar este edifício, detendo-me nos efeitos da cidade reflectidos nos vidros do KKL, e dar uma espreitada aos pontões de atracação dos barcos no lago. Sim, estava a chover. Sim, estava um bocado frio. Não, ainda não tinha notado que havia gelo no chão. Vai daí, madeira com gelo, queda garantida. Devia ter feito como os chineses e ter ido directamente para a cidade medieval. Foi para lá que segui de rabo molhado, mas com um sorriso no rosto quando me apercebi ao levantar que mais um metro de deslize e a experiência no lago Lucerna teria sido total.

Lucerna é a cidade das pontes cobertas que permitem um acesso singular e pitoresco ao seu centro histórico medieval.

A Kapellbrücke, a Ponte da Capela, é o maior ícone de Lucerna. Construída no século XIV, mantém ainda intacta a sua torre original, mas todo o seu telhado de madeira teve de ser reconstruído em consequência de um incêndio em 1993. É um prazer caminhar por esta ponte sobre o rio Reuss. De tal forma que se torna obrigatório fazê-lo repetidas vezes. Os tectos interiores do seu telhado têm painéis decorados com imagens respeitantes à história da Suíça e à mitologia.

A Spreuerbrücke, um pouco mais tardia e mais pequena, também é uma delícia. Também coberta e em madeira, mas desta vez totalmente original, os painéis do seu tecto correspondem à Dança da Morte, representando o sofrimento daqueles que morreram da peste na Idade Média. O nome Spreu significa palha em português e vem do facto de esta ter sido a única ponte donde se poderia deitar palha ao rio na Idade Média.

O centro medieval de Lucerna é pequeno mas interessante pelas suas pracinhas e pelas pinturas decorativas dos seus edifícios. Estes frescos abundam. Eis alguns exemplos.

Já fora deste centro, mas à sua porta à beira do rio, a Igreja dos Jesuítas é marca na paisagem. A visita ao interior desta que foi a primeira igreja barroca da Suiça não deve ser perdida.

Outro elemento que se destaca na paisagem de Lucerna, tirando os omnipresentes lago e montanha, é o Château Gütsch. O tempo horroroso que se fazia sentir acabou por desencorajar a minha subida até ao castelo, pelo que limitei-me a tentar apreciar a sua alvura bem de longe.

Se há ícone de Lucerna capaz de chegar perto do estatuto da Kapellbrücke é o Museggmauer. As muralhas da cidade, antiga estrutura defensiva datada do século XIV, combinam e resumem na perfeição o que Lucerna significa: história, cultura, paisagem. Nestas longas muralhas resistem ainda 9 torres, todas elas diferentes, 4 delas abertas para subirmos ao seu topo e daí apreciarmos as excelentes vistas de pássaro. Mas quem não se quer cansar com estas subidas pode sempre caminhar por uma parte generosa da muralha que fica igualmente com uma grande vista.

Um dos lugares mais visitados da cidade – logo, privilegiado para (re)encontrar tours de chineses – é o Löwendenkmal. O Monumento do Leão é a imagem de 10 metros de um leão moribundo esculpido na rocha de uma elevação à beira de um pequeno lago artificial. Criada por Lukas Ahorn em 1820 em homenagem aos soldados mercenários suíços mortos durante a Revolução Francesa, a figura deste leão é realmente enternecedora, confirmando o escrito deixado por Mark Twain, segundo o qual este é “o mais triste e comovente pedaço de rocha do mundo”.

Voltando à parte baixa da cidade, tempo ainda para explorar um pouco da promenade junto ao Lago Lucerna onde em dias mais amenos se pode nadar e onde figuras como Goethe, Wagner e a Rainha Victoria certamente se deixaram encantar.

Do Vitra Campus à Fundação Beyeler

Do Vitra Campus à Fundação Beyeler ou de Weil am Rhein a Riehen ou da Alemanha à Suiça.

Sempre a pé.

Basileia é uma meca arquitectónica e um parque de diversões para os apaixonados em arquitectura. Um dos pontos altos de uma visita à cidade suiça é a visita ao Vitra Campus, na cidade de Weil am Rhein, já na Alemanha. Confuso?

O Vitra Campus fica a meros 5 kms de Basileia, alcançáveis por transportes públicos como o autocarro (que pára à porta) ou o comboio (com paragem no centro de Weil am Rhein). Fácil, por isso, de lá chegar.

A Vitra é uma marca de mobiliário de design. Embora seja uma marca suiça, criada por suíços, tem a sua fábrica e Museu – o Campus – para lá da fronteira (qual fronteira?), já em território alemão.

Instalado numa zona rural, este Campus reúne um conjunto inacreditável de grandes arquitectos. É como se fosse a Legolândia dos amantes da arquitectura contemporânea, quer pela quantidade de projectos incríveis quer pela forma dos seus edifícios.

O Vitra Design Museum, aberto em 1989, apresenta exposições temporárias ligadas ao design num sentido amplo. Actualmente está patente “Night Fever. Designing club culture 1960 – Today”, dedicada aos clubes nocturnos e discotecas como epicentros da cultura pop, relacionando esta cultura com o design, desde o passado até aos dias de hoje, cultura esta que criou toda uma nova dinâmica urbana em algumas cidades. Numa instalação interactiva criada para esta exposição podemos envolver-nos no som e nas luzes de uma disco, através de quatro épocas e quatro estilos de música – pre-disco, disco, house e tecno.

Este edifício não engana. É de Frank Gehry.

O primeiro edifício do americano na Europa, esta justaposição de módulos de várias formas parece quase uma casinha de brincar. O branco da fachada dá-lhe luz e o interior é também inundado por uma luz natural que entra pelas suas aberturas.

Ao lado deste edifício dedicado ao museu do design a arquitectura de Gehry continua, agora materializada num outro edifício destinado a fábrica da marca Vitra.

Junto aos de Gehry, e num contraste bem vincado, encontramos um discreto edifício em concreto, estreito mas alongado, de Tadao Ando. É o Conference Pavilion, de 1993, e foi o primeiro projecto do japonês fora do seu país natal.

Entre Gehry e Ando, no meio de um bonito relvado fica a obra Balancing Tools, de Claes Oldenburg & Coosje van Bruggen. Esta escultura, de 1984, representa em grande escala as ferramentas de trabalho dos que se dedicam à criação do mobiliário, como o martelo, o alicate e a chave de fendas.

A criatividade segue solta.

O Airstream Kiosk é um atrelado a lembrar as carrinhas pão de forma. O original data de 1968 e a Vitra, depois de o adquirir, restaurou-o em 2011 e hoje mantém-no no seu Campus para que no Verão seja usado como restaurante. Não havendo Verão, antes uma Primavera chuvosa, fica ainda assim a sua esplanada cheia de cor.

O Vitra Haus é a flagship store da Vitra.

Vem descrito como um espaço de inspiração para a nossa própria casa e é-o mesmo. Aqui encontramos os objectos belíssimos que a marca tem vindo a criar, alguns dos quais se tornaram icónicos.

Este edifício é um projecto da dupla suiça Herzog & de Meuron construído em 2010 e é também ele uma inspiração e um hino à criatividade. Este é o centro da Legolândia de Weil am Rhein – este edifício convence-nos de que é possível desmontá-lo peça por peça para voltar a ser montado de uma outra forma, da forma que a nossa imaginação permitir.

Mesmo o interior, preenchido por objectos da Vitra, já se disse, é um espaço que nos faz sonhar, pelos cortes e grandes aberturas das janelas que deixam ver a contrastante realidade paisagística exterior.

Do último piso conseguimos ter uma perspectiva global do Vitra Campus.

Da Vitra Haus seguimos pela Promenade projectada por Álvaro Siza até ao seu edifício, passando pela Vitra Slide Tower. Com uma altura de 30 metros, este posto de observação criado por Carsten Höller apenas está acessível em dias de bom tempo, o que infelizmente não era o caso. É uma torre, um miradouro e também uma obra de arte. Quase que até um parque de diversões, pois quem caiba dentro da sua espécie de tobogã vai-se divertir a valer a descer esta instalação.

O edifício de Siza é o Factory Building, construído em 1994. As suas linhas rectas estão cá, mas ao invés do branco que lhe costumamos observar, desta vez é o tijolo que marca presença. Simples e equilibrado este edifício é bonito e como que um fiel da balança para a maioria das formas que tínhamos visto até aí aos seus colegas arquitectos. Ainda assim, tem um elemento que se propõe a quebrar esta simplicidade, como o é a ponte branca curvada que sai do seu telhado.

A Promenade de Siza, construída em 2014, é uma passagem pedonal que permite a qualquer um de nós caminhar pelo exterior do Campus e, assim, ter acesso cómodo aos seus edifícios (ainda que não ao espaço exclusivo das suas fábricas).

Bem distribuída, termina deixando-nos face a face com a Fire Station de Zaha Hadid. Construída em 1993, esta foi a primeira grande obra da malograda arquitecta iraquiano-inglesa, uma das minhas preferidas, já o sabe quem lê este blogue. É um conjunto de volumes de concreto que chegam a parecer estar dispostos de forma aleatória. Mais uma vez vem à ideia as peças de Lego. É quase como que uma escultura. Originalmente o propósito deste edifício era o de ser a casa dos bombeiros, daí o seu nome, mas hoje destina-se a eventos e exposições.

Ao lado da Fire Station de Zaha Hadid, que já estava ao lado de Álvaro Siza, está o Vitra Schaudepot de Herzog & de Meuron.

No Schaudepot está depositada a colecção que a Vitra foi acumulando ao longo dos tempos. São cerca de 7000 objectos de mobiliário, 1000 objectos de iluminação e o espólio de alguns designers. Alguns destes em apresentação. Destaque para as várias cadeiras expostas e para a reconstrução do escritório original de Charles Eames.

Este edifício de Herzog & de Meuron é muito simples e todo em tijolo, mas ao contrário do tijolo de Siza este é bem mais vivo. Linhas direitas, a sua forma é aquela geometria quadrada que a maioria das crianças se habitua a desenhar desde pequena para as casinhas, incluindo um comum telhado, mas sem janelas. É precisamente este despojamento da arquitectura espectáculo que o torna brilhante e, ainda assim, plenamente integrado com todos os outros edifícios deste Campus.

Visitado este Vitra Campus em Weil am Rhein, Alemanha, eis que chega então a altura de seguir até à Fundação Beyeler em Riehen, Suiça.

São 5 deliciosos quilómetros a pé que ligam os dois países e as duas instituições culturais através de um caminho rural pontilhado de obras de arte. A natureza como cultura como natureza.

Esta ideia transformada realidade em 2016 leva o nome de “24 Stops Rehberger-Weg”. Tobias Rehberger criou 24 marcas de sinalização que nos indicam o trilho correcto, impedindo-nos de perder em desvios. O que até não seria mau de todo. Se há turismo fora dos caminhos mais batidos é este. Passamos por campos de cultivo, pequenos anexos rurais de apoio, galinhas, um miradouro para o Vitra Campus, mais animais, outro miradouro para Basileia com a torre da Roche a evidenciar-se na paisagem, plantações de vinhas, o rio Reno que serve de fronteira entre a Alemanha e a Suiça, um parque verde imenso e, finalmente, a Fundação Beyeler.

Algumas fotos destas mimosas sinalizações:

A Fundação Beyeler, situada a cerca de 5 quilómetros do centro de Basileia, é um projecto de Renzo Piano. A sua arquitectura, à semelhança do que já tínhamos visto no Zentrum Paul Klee, em Berna, também da autoria de Piano, propõe-se a ser uma síntese da arte, da arquitectura e da natureza. E consegue-o. A integração entre estes três elementos é total.

Instalado no Parque Berower, ali perto das águas do Reno que correm tranquilas, as linhas deste edifício são companheiras do terreno. De forma elegante, o edifício está ligeiramente afundado e tem numa das suas frentes um lago. As enormes janelas e o seu tecto em vidro deixam entrar a luz natural de uma forma intensa e brilhante.

A arte exposta no interior deixa-se ver de fora e a paisagem exterior segue o mesmo caminho quando nos encontramos dentro da Fundação.

Este é o museu de arte mais visitado de toda a Suiça e a sua colecção de arte moderna e contemporânea inclui obras de Picasso e de Giacometti.

Por altura da minha visita a exposição temporária era dedicada a George Baselitz, uma retrospectiva das suas pinturas e esculturas a marcar os seus 80 anos.

Ernest Beyeler foi um coleccionador de arte que nos anos 80 decidiu criar um lugar para acomodar a sua vasta e rica colecção. Entusiasmado com a arquitectura do Pompidou decidiu escolher o mesmo arquitecto, Renzo Piano, para autor do projecto do seu novo museu. O local escolhido foi a sua terra natal, descobrindo terrenos livres no Parque Berower. Aqui existia já a Villa Berower, hoje administração da Fundação e restaurante. Entre este edifício barroco e o de Piano temos um bonito jardim com árvores, caminhos de água, esculturas de Alexander Calder e Ellsworth Kelly e lugares para se deixar estar. Ao seu largo redor a tranquilidade é total.

À entrada do autocarro que nos fará regressar a Basileia um sorriso enche-nos, recordando como foi acertada a escolha do caminho único para aqui chegar.

Basileia

Basileia esteve na dúvida para entrar neste itinerário pela Suíça até bem tarde. Mas, qual Éder, entrou mesmo a tempo para ser decisiva no sucesso desta viagem e levou a taça da cidade mais bonita, pitoresca e fascinante da Suiça. Mais, entrou directamente para o top das minhas cidades europeias favoritas.

Obviamente, esta decisão / sensação tem tudo a ver com os interesses de cada um. Então, o que tem Basileia que me fez gostar tanto dela?

Não terá uma localização tão fantástica como a de Geneva, Lucerna ou Zurique, todas junto ao lago, mas é, ainda assim, banhada por um rio que aos primeiros raios de sol – e diz-se que esta é a cidade suiça com mais dias de sol por ano – vê todos os seus habitantes chegarem-se a ele e deixarem-se ficar ali, sentados com os pés na água ou estendidos à sua beira.

O que é decisivo em Basileia é a cor dos edifícios do seu centro histórico, as suas riscas e janelas, é a vivacidade do seu Rathaus, o ocre da sua catedral e, sobretudo, a sua ultra futurista arquitectura do século XXI que vai tomando conta da cidade. O velho e o novo lado a lado.

Situada na fronteira com a França e a Alemanha, o rio Reno trouxe os celtas e os romanos a Basileia. A cerca de 10 km daqui ficam as maiores ruínas romanas da Suiça, a antiga cidade de Augusta Raurica. O Reno foi decisivo para o desenvolvimento de Basileia, uma vez que sendo navegável até ao mar do norte, na Holanda, permitia o estabelecimento de rotas comerciais através dele. Sobretudo o comércio de fitas de seda tornou Basileia numa centralidade.

O século XIX viu a cidade transformar-se num polo industrial. As indústrias química e farmacêutica estabeleceram-se aqui e ainda hoje a Roche e a Novartis têm cá a sua sede. Na paisagem de Basileia é, aliás, comum ver ao fundo as chaminés dos edifícios industriais a fumegar.

Mas a economia e a fama da terceira maior cidade suiça não assenta apenas nas suas indústrias. O Carnaval Fasnacht é conhecido como sendo o mais popular festival do país, a feira de arte contemporânea Art Basel recebe as atenções do mundo todo e Basileia será para sempre o lugar de nascimento do melhor tenista de todos os tempos, Roger Federer. Para além disso, esta é ainda a terra natal da dupla de arquitectos Herzog & de Meuron, os Pritzker que têm inúmeros e variados projectos na sua cidade.

Começaremos este recorrido por Basileia por umas vistas desde o Reno.

O rio Reno divide a Kleinbasel da Grossbasel. Um típico barco de passageiros faz a travessia entre as duas margens, com a curiosidade de se mover pela acção da corrente e não através de meios mecânicos.

Para além de um destes 4 ferries, podemos atravessar o Reno por uma das suas pontes. A Mittlere Brücke é a mais famosa e já vem do século XIII, o que faz dela umas das mais antigas sobre este rio.

Atravessada a ponte Mittlere ficamos praticamente na Marktplatz, praça que durante a semana se transforma num mercado de venda de frutas, legumes e flores e onde fica um dos Rathaus mais vivos que já conheci.

A sua fachada exterior é de um vermelho exuberante que combina na perfeição com as pinturas e os elementos decorativos que ali formam um conjunto alegre. O pátio interior não fica atrás na surpresa da sua arcada e no colorido dos seus frescos.

Entre o Rathaus e o Reno podemos caminhar por ruas secundárias tranquilas que nos levam até à Catedral. Os edifícios, alguns deles de madeira, ou têm riscas ou têm janelas com portadas – ou as duas coisas ao mesmo tempo – que dão uma imagem de vida à cidade e a tornam muito pitoresca.

Passamos por uma fonte curiosa, a lembrar aquelas que havíamos visto em Berna, damos uma espreitadela no renovado Museu da Cultura e chegamos à larga praça da Catedral.

A Catedral de Basileia contraria a variedade de cores da cidade ao eguer-se imponente num característico arenito vermelho. Mas o monocromatismo termina aí. O seu telhado volta a surpreender pela composição das suas cores.

Após visitarmos o interior da igreja, cuja construção teve início no século XI e continuou até ao século XV, em estilo romanesco e gótico, podemos subir às suas torres. É difícil não nos perdermos na subida a cada uma das torres gémeas, mas a vista que daqui se tem causa-nos, ela própria, muitas mais sensações. Vemos o Reno logo ali, a praça deserta e o esquisito telhado do Museu da Cultura, projecto de Herzog & de Meuron.

Se caminharmos desde o Rathaus na direcção contrária à que fizemos anteriormente, percorreremos as ruas da Cidade Velha de Basileia. Ruas estreitas, algo inclinadas, é um colírio para os sentidos descobrir os pormenores dos seus edifícios. Muito bem preservado, este charmoso bairro está aqui desde o século XV e tem como seu elemento mais singular a Spalentor.

Com mais de 600 anos, a Spalentor é uma das três antigas portas da cidade que ainda resistem da velha muralha e fica num ponto mais elevado. Desde aqui retornamos para a parte baixa da cidade percorrendo as mais pitorescas ruas Spalenberg, Heuberg e Leonhardsberg, sem deixar de espreitar as demais ruas e pátios escondidos. Este antigo bairro de artesãos é sem dúvida um conjunto urbano delicioso.

Já na Barfüsserplatz tudo é mais movimentado. Desde aqui segue uma popular rua pedonal com lojas e restaurantes e perto fica a delirante Fonte Tinguely junto a um teatro, um espaço cultural e uma igreja. Esta fonte escultura é composta de uma série de máquinas esdrúxulas em ferro que vão jorrando água por todo o lado. É a arte cinética do artista suíço que se tornou uma imagem de marca de Basileia. Noutra parte da cidade fica um museu dedicado a Jean Tinguely, pelo qual já passaremos.

Seguindo pela tal rua pedonal, a Steinenvorstadt, iremos dar ao Markthalle. Este antigo mercado, com uma abobada enorme que enche de luz o seu interior, está hoje transformado num mercado de comida do mundo. Nas pequenas bancas podemos saborear as iguarias de locais tão diferentes e incomuns como o Afeganistão, os Emirados e a Abissínia, para além dos mais comuns Argentina, Vietname e Indonésia. Da minha parte provei e aprovei a comida do Curdistão.

Perto do Markthalle encontramos projectos arquitectónicos de nomes importantes da arquitectura mundial como Richard Meier, Mario Botta ou os já referidos Herzog & de Meuron.

Como fã de arquitectura fiz questão de desviar o caminho para visitar alguns dos projectos desta dupla suiça. O St Jakob Park é o estádio do FC Basel, o clube que tem dominado o futebol suíço na última década. Construído em 2001, vemos hoje que é como que um anteprojecto para os estádios que os mesmos arquitectos vieram a comandar mais tarde, como os mais famosos e icónicos Allianz Arena de Munique e Ninho de Pássaro de Pequim.

Do St Jakob seguimos por uma alameda que passa por entre diversas infraestruturas desportivas, campos de futebol e quadras de ténis, até desembocar num parque. Isto sempre perto de uma espécie de canal, o Bris, que desagua no Reno.

Até que chegamos ao Schaulager, mais uma obra de Herzog & de Meuron. Desta vez não é um edifício fácil, mas sempre interessante. Parece um caixote e apenas a fachada correspondente à sua entrada e um corte numa das laterais quebra a monotonia.

Os materiais usados neste edifício poligonal foram materiais extraídos no próprio terreno, como o cascalho. Em pormenor vemos estas especificidades e como se integra de forma superior no dito terreno. A fachada da entrada tem uma construção mais pequena como antecâmara, mas com o mesmo uso dos materiais, e revela-se-nos à distância pelos dois enormes painéis LED num fundo branco. Esta foi a forma criada pelos arquitectos para comunicarem com o público exterior, dando-lhe a conhecer as exposições patentes. Mas o conceito deste espaço não é apenas, nem sobretudo, expositivo. Aberto em 2003, o Schaulager tem como principal preocupação encontrar um novo conceito para o armazenamento da arte. Assim, quando as obras da Fundação Emanuel Hoffmann (que o sustenta) não estão em mostra em outros espaços expositivos, elas ficam por aqui ainda acessíveis de forma a poderem ser vistas por investigadores, profissionais de museus, artistas ou grupos de escolas.

É ainda obrigatório conhecer o hall interior desta galeria / armazém, o qual nos dá uma visão global de todo o espaço logo à entrada, uma vez que de um piso elevado nos debruçamos para os pisos inferiores.

O Schaulager fica no distrito Dreispitz, anteriormente um lugar de indústrias e armazéns. Nos últimos anos tem sido alvo de uma intensa transformação que lhe tem trazido um novo rosto de modernidade. Apartamentos de luxo, galerias, projectos inovadores vindos de arquitectos de nomeada fazem parte da nova vida de Dreispitz.

Uma viagem a Basileia não pode terminar sem um passeio pelo bairro de St Albans, uma ilha de quietude na já de si tranquila Basileia.

Este pequeno quarteirão de casas de madeira à beira Reno tem como bónus ser entrecortado por uns canais que dão ao lugar um ambiente idílico, quase uma viagem no tempo. Antigo lugar de artesãos e de indústrias, podemos encontrar ainda hoje o moinho da antiga fábrica de papel, hoje transformada num museu. A tradição convive, porém, ao lado da modernidade, bem expressa no recente edifício do Museu de Arte Contemporânea.

Em St Albans, para além do que resta da antiga muralha, é ainda precioso conhecer uma das outras portas sobreviventes de Basileia, a St Alban Tor.

Na outra margem do Reno, bem defronte de St Alban, fica instalado o maior arranha-céus da cidade, quase que omnipresente porque visível de diversos pontos. É o edifício sede da Roche, empresa farmacêutica que entregou este projecto a… quem mais senão Herzog & de Meuron?

O Museu Tinguely fica aqui perto. Infelizmente estava fechado – já sabia ser terrível visitar a Alemanha na Semana Santa e fiquei a saber o mesmo para a Suiça – pelo que me tive de contentar em apreciar a arquitectura do edifício de Mario Botta apenas do exterior, em cujos jardins se podem ver também umas das esculturas cinéticas de Tinguely.

E para completar este périplo por alguma da arquitectura moderna e contemporânea de Basileia, um exemplo de restauro de um edifício industrial, também aqui na Kleinbasel, que é demonstrativo deste gosto pelo arrojo arquitectónico que se vê amiúde na cidade. O Warteck era uma antiga fábrica de cerveja. Construído à beira do Reno em 1900, este edifício em tijolo possuía – e mantém – uma enorme mas distinta torre / chaminé. Para quem aprecia arquitectura industrial, era já um edifício interessante. Quem admira as dinâmicas ligadas à requalificação e reutilização destes antigos edifícios, vai achá-lo precioso. É agora um espaço de coworking com diversas funções, incluindo projectos culturais. Esta capacidade de abraçar o novo e o diferente está bem expressa naquilo que visualmente é o mais apelativo no Warteck dos nossos dias: a escadaria retorcida que foi agregada à sua fachada. Desenhado por Fabian Nichele e Gerhard Paul Rössler, este novo elemento acaba por ser ele próprio uma espécie de obra de arte.

Termino este passeio por Basileia no mesmo local por onde o comecei, à beira Reno, com vista para a Catedral, mas agora com o dragão que é o símbolo da cidade como seu protector.

Zentrum Paul Klee

O Zentrum Paul Klee fica nos arredores de Berna, a uma curta viagem de autocarro desde o centro. Não que Berna seja uma megapolis, mas surpreende, ao mesmo tempo, que a meros 10 minutos de distância da capital suiça possamos encontrar uma paisagem rural. Mais surpreende que no meio dessa paisagem rural possa estar um museu dedicado a um artista ligado a movimentos como o expressionismo ou o surrealismo.

Paul Klee nasceu no cantão de Berna e o Zentrum que leva o seu nome é uma extraordinária obra de arquitectura de Renzo Piano. Piano consegue enquadrar o seu edifício na paisagem de forma magistral. Neste pedaço de campo puro, com terrenos agrícolas cultivados, cheiro a vaca, som dos meeés das ovelhas, perdido num imenso relvado com vista para as montanhas nevadas dos Alpes, vemos surgir três ondas.

Optando por sair na penúltima paragem do autocarros, percebemos imediatamente que essa ditas três ondas que formam discretas colinas estão plenamente integradas na natureza. À medida que nos aproximamos vamos percebendo os seus contornos mais claramente e a simplicidade e subtilezas arquitectónicas são desarmantes. Vale a pena caminhar à volta de todo o terreno onde este Zentrum está implantado. De um lado um cemitério, do outro um parque de esculturas, a tranquilidade e harmonia são totais. Como vemos escrito a dado passo do caminho, a sua integração topográfica é como uma escultura da paisagem. Diz-nos Piano que “A forma do edifício já estava, de facto, presente na paisagem. E então nós com vamos a cuidar dos campos como se fossemos agricultores e não arquitectos – até que a paisagem se transformou num edifício”.

Estas três colinas de aço tomadas pelo verde da relva, com muito vidro no interior, permitindo não só um bom aproveitamento da luz natural mas também a presença da paisagem exterior, correspondem aos espaços expositivos, a uma sala de concertos, um centro de conferências e a uma centro de investigação, estudo e promoção das obras de Paul Klee.

Este projecto, completado em 2005, foi financiado por Maurice E. Müller, cirurgião ortopédico, empreendedor social com projectos nos campos das ciências e medicina que, através da sua fundação financiou a criação do Zentrum Paul Klee, uma ideia sua e dos herdeiros de Klee, e escolheu ele próprio o arquitecto Renzo Piano para o projecto de arquitectura.

Como no dia da minha visita Müller faria 100 anos a entrada foi gratuita como celebração.

Em exibição, duas exposições. Uma dedicada, como não podia deixar de ser, a Paul Klee – aqui fica a maior colecção de obras deste artista -, “Klee em Tempos de Guerra”. Já sabíamos que Paul Klee havia nascido nos arredores de Berna (e está enterrado no cemitério junto à este Zentrum), que tinha ido viver para Munique, onde integrou o grupo avant-garde Der Blaue Reiter, passou por Paris, onde descobriu o cubismo, e viajou para a Tunísia, onde derivou para o abstraccionismo. Com esta exposição ficamos a saber como Klee atravessou a I Grande Guerra Mundial. Desde logo, não sentindo entusiasmo e perdendo dois companheiros como Franz Marc e August Macke. Teve a sorte de não ter sido destacado para a frente de batalha, não vivendo, assim, os horrores da guerra no terreno e pode continuar a pintar. Acabou por se inspirar na guerra para criar algumas pinturas.

Uma outra exposição, “Touchdown”, feita com e sobre pessoas com Síndrome de Down, mostrando as suas vidas sob diversos pontos de vista, incluindo o artístico. A atestar, também, os interesses do mentor do projecto deste Zentrum, que é não apenas um lugar dedicado à arte, mas também à investigação da ciência e educação.

Fontes de Berna

Deambular por Berna é um prazer. E um dos contributos para esse prazer é partir à descoberta das suas inúmeras fontes. Diz-se que são mais de 100, espalhadas um pouco por todo o centro histórico da cidade.

Mas há 11 delas que são absolutamente fascinantes pelos pormenores decorativos que comportam. Datadas do século XVI, representam personagens históricas ou do folclore local e dão todo um outro colorido às ruas de Berna.

Algumas delas são tão trabalhadas, quer na figura que as encima, quer nas colunas que a suportam, que são um evidente testemunho da riqueza de uma certa burguesia da época medieval. E, também, um testemunho da sua importância como fontes públicas no abastecimento de água à cidade – ainda são visíveis os canais a ligar algumas destas fontes. Em tempos idos as fontes eram locais de confraternização e ali se juntavam os habitantes para recolher água ou para lavar as suas roupas.

Eis alguns exemplos destas verdadeiras obras de arte:

Esta fonte, de nome Kindlifresserbrunnen – Comedor de Filho -, também conhecida por Ogre, é a mais bizarra e assustadora, até. Dizem uns que o ogre representa Cronus, o deus grego que comeu todos os seus filhos; dizem outros que representa os vícios e virtudes da humanidade.

Zahringerbrunnen é a fonte homenagem ao fundador de Berna, Berchtold von Zähringer. O símbolo de Berna é a figura de um urso e aqui aparece o seu fundador travestido de urso sob uma armadura.

Simsonbrunnen é a fonte que representa a cena bíblica de Sansão, o homem de uma força enorme que não cortava o cabelo para não a perder, a matar um leão.

Lauferbrunnen é a fonte que representa o mensageiro que, conta-se, teve a audácia de dizer ao rei francês, quando este advertiu o bernense por não falar francês, que ele também não falava alemão.

Gerechtigkeitsbrunnen é a fonte da Justiça. Olhos vendados, a mulher vestida de azul segura numa mão a espada da justiça e na outra a balança.

Vennerbrunnen Banneret é a fonte do Transportador de Bandeira. Situada em frente ao Rathaus, esta figura medieval correspondia a uma posição politico-militar que era tradicionalmente responsável pela protecção da cidade.

Mosesbrunnen é a fonte localizado na praça da Catedral e representa Moisés a levar os Dez Mandamentos às tribos de Israel.

Schützenbrunnen é a fonte do Mosqueteiro. Ali está ele, cheio de pose com uma bandeira erguida e uma espada na outra mão. Debaixo das suas pernas e agarrado a uma delas vemos um ursinho.

Com vista para uma das torres de entrada do centro histórico, a fonte Anna Seiler é dedicada à mulher que fundou o primeiro hospital de Berna.

Ryfflibrunnen é a representação da figura de um atirador. Mais uma vez, com um urso como companhia.

Esta fonte, Pfeiferbrunnen – Tocador de Flauta -, é talvez a mais bonita e rica em pormenores. Na sua coluna encontramos relevos renascentistas de figuras dançando. No topo, a alegre figura de um músico com um macaquinho como companheiro. Acontece que este músico está descalço ou com os sapatos esburacados, o que revela a sua exclusão da sociedade.

Estas fontes coloridas não são um exclusivo de Berna. Encontramos pelo menos uma deste género em Lausanne e mais umas quantas em Basileia. Mas Berna é indisputadamente a cidade das fontes. E, para além destas fontes medievais garridas, existem outros exemplos que merecem uma olhada.

Como a mais recente estranha fonte árvore criada por Meret Oppenheim. A água jorra em abundância desta coluna, simbolizando a vida.

Ou outras mais simples e mimosas:

Berna

Berna é a capital da Suiça, mas apenas a sua quarta maior cidade. É uma das mais bonitas, quer pela sua implantação geográfica, rodeada pelo Rio Aare, quer pela sua coerente malha urbana medieval.

A “cidade velha” de Berna foi declarada pela Unesco como Património da Humanidade e isso, por si só, já é um sinal do reconhecimento da sua valia.

O actual centro histórico de Berna é a consequência do restauro daquele outro de madeira datado do século XII e que foi arrasado pelo fogo em 1405. A Berna de hoje é um exemplo maior de planeamento urbano que vem desde o século XV e que nem o restauro da cidade promovido no século XVIII beliscou a sua integridade.

A cidade medieval possui cerca de 6 quilómetros de arcadas cobertas de edifícios de arenito cinzento esverdeado com telhados vermelhos. Mas mais do que isso, mesmo em dias de céu coberto e chuva, como foram os que me tocaram, é impossível não deixar de apreciar os inúmeros pormenores que fazem de Berna uma cidade atraente, pitoresca e cativante.

Bem planeada, já se disse, a porta de entrada principal cidade faz-nos adentrá-la por uma espécie de terreiro que correspondia à praça do mercado. Por estes dias ainda se erguem aqui umas bancas que vendem produtos típicos, tendo tido o prazer de me ter sido simpaticamente dado a provar uns chouriços deliciosos.

Segue-se, depois, um núcleo feito de três ruas longas que se interceptam em alguns pontos. Tudo muito geométrico. Mas nada monótono. Desde logo porque Berna possui umas deslumbrantes fontes do século XVI, cuja viagem deixarei para post autónomo.

Depois porque os arcos que suportam as arcadas dos seus edifícios lhe dão uma imagem de movimento. E aqui começa a descoberta de um olhar curioso. São muitos os pormenores dos seus edifícios. Elementos decorativos, sim, mas elementos intrigantes a princípio que se vão fazendo sentir como uma constante ruas afora. Nas arcadas dos edifícios veem-se umas caixas que se levantam do solo. Umas fechadas, serão arrecadações?; outras abertas, são lojas e bares! São uma espécies de caves a que se acede pela rua, abrindo os seus pouco óbvios portões, e que ao mesmo tempo dão acesso ao interior do piso inferior do edifício.

Também os telhados dos edifícios de Berna são todo um espectáculo e não apenas quando vistos de um ponto elevado. As suas formas são diversas, mas sempre únicas.

Uma outra curiosidade deste planeamento urbano típico de Berna é constatar que os edifícios públicos da cidade, sejam seculares ou religiosos, não se encontram no centro, antes nas ruas laterais. São exemplos disso o Bundeshaus, o Rathaus e a Münster.

O Bundeshaus é o parlamento suíço. É um edifício imenso em estilo florentino, construído em 1902, que ocupa quase toda uma frente de rio da cidade. Para um lado um tranquilo jardim (embora toda a Berna pareça tranquila), para o outro uma praça com 26 jactos de água, cada uma representando um dos 26 cantões suíços.

O Rathaus, o centro político da cidade e do cantão de Berna, é um edifício que retém o seu ar medieval.

E a Münster é a grandiosa catedral da cidade. Construída no século XV, em estilo gótico, chama logo a atenção o seu portal principal preenchido com figuras decorativas, representando cenas do Último Julgamento. Antes disso, porém, já chamava há muito a atenção a sua torre pináculo, a mais alta de toda a Suiça, com 100 metros. Subir as suas centenas de degraus não é fácil, mas a vista fabulosa que daqui se alcança tudo compensa. Um emaranhado de telhados vermelhos sobressai num círculo alongado delimitado pelas curvas do rio.

De novo cá em baixo, a Münster possui junto a si um parque debruçado sobre o rio Aare. Existe aqui um elevador público que nos transporta até à parte baixa da cidade. Sim, outra das curiosidades de Berna é apercebermo-nos como o centro centro histórico se localiza num monte – o que não é tão óbvio assim, porque à sua volta existem montes mais altos.

Cá em baixo a cidade segue interessante, sobretudo no lugar da Mühlenplatz, com as suas casas de madeira, e onde nos apercebemos da existência de uma espécie de levada que servia de transporte da água para a cidade.

Caminhando por aqui deparamo-nos com uma casa vermelha, como que um veneno anti monotonia (Viva Cazuza!) como escape ao tom cinzento da maioria dos edifícios da cidade.

O nome de Berna deriva de bär, palavra alemã cujo significado é urso. Conta a história que o fundador da cidade, Berthold V, chegou a caçar ursos por aqui. Vai daí, o Bären Park pegou na ideia e é um espaço de atracção na cidade onde moram uns exemplares de ursinhos que por ali se deixam ver de vez em quando. Não tive esse prazer, mas também não fazia questão de tal.

O meu objectivo era outro, o de subir até ao Rosengarten, um parque público num monte mais elevado da cidade, já atravessado o rio. O dia estava feio, não vi por lá nada de muito florido, mas, mais uma vez, as vistas desde este parque são fabulosas.

Chovia, não dava para sentar ao lado de Einstein, fazendo-me companhia, mas haveria ainda a hipótese de visitar a casa onde morou com a sua família, hoje a Einstein Haus, pequeno museu a si dedicado.

Diz-se que o Zytglogge, o símbolo maior de Berna, uma torre do relógio perto da sua antiga casa, o ajudou nas suas teorias. Este relógio astronómico do século XV fez questão de estar em restauro aquando da minha passagem, totalmente coberto, pois. Fica para a minha imaginação saber o porquê de ser tão amado.

Berna, sendo uma capital europeia, preserva ainda assim um ambiente medieval bem sentido também no ouvir dos sinos a tocar. Como fiquei alojada bem no centro pude testemunhar que, tal como acontece na aldeia dos meus antepassados, não nos precisamos de preocupar em ver as horas, basta escutar as badaladas dos sinos.

Como nadadora que sou, em casa sentir-me-ia também, certamente, em dias mais quentes. Ao longo deste texto fui falando da presença marcante do rio Aare na geografia e na paisagem de Berna. Falta dizer que o rio assume um papel ainda mais preponderante quando o clima permite que os habitantes da cidade – ou visitantes – se possam apoderar das suas margens para relaxar ao sol ou das suas águas para nadar. Na zona de Marzili encontramos o Marzilibad, um complexo enorme com piscinas e apoio às actividades de lazer ou fluviais. Podemos entrar no rio e sair umas centenas de metros mais abaixo, sempre com vista para o edifício do parlamento. A natação urbana é de tal forma uma marca de Berna que no merchandising oficial da cidade estão disponíveis objectos de natação, como toalhas e sacos.

Em conclusão, parece que tenho que admitir que perdi os dois maiores símbolos de Berna: o Zytglogge e umas braçadas no Aare.