Berna

Berna é a capital da Suiça, mas apenas a sua quarta maior cidade. É uma das mais bonitas, quer pela sua implantação geográfica, rodeada pelo Rio Aare, quer pela sua coerente malha urbana medieval.

A “cidade velha” de Berna foi declarada pela Unesco como Património da Humanidade e isso, por si só, já é um sinal do reconhecimento da sua valia.

O actual centro histórico de Berna é a consequência do restauro daquele outro de madeira datado do século XII e que foi arrasado pelo fogo em 1405. A Berna de hoje é um exemplo maior de planeamento urbano que vem desde o século XV e que nem o restauro da cidade promovido no século XVIII beliscou a sua integridade.

A cidade medieval possui cerca de 6 quilómetros de arcadas cobertas de edifícios de arenito cinzento esverdeado com telhados vermelhos. Mas mais do que isso, mesmo em dias de céu coberto e chuva, como foram os que me tocaram, é impossível não deixar de apreciar os inúmeros pormenores que fazem de Berna uma cidade atraente, pitoresca e cativante.

Bem planeada, já se disse, a porta de entrada principal cidade faz-nos adentrá-la por uma espécie de terreiro que correspondia à praça do mercado. Por estes dias ainda se erguem aqui umas bancas que vendem produtos típicos, tendo tido o prazer de me ter sido simpaticamente dado a provar uns chouriços deliciosos.

Segue-se, depois, um núcleo feito de três ruas longas que se interceptam em alguns pontos. Tudo muito geométrico. Mas nada monótono. Desde logo porque Berna possui umas deslumbrantes fontes do século XVI, cuja viagem deixarei para post autónomo.

Depois porque os arcos que suportam as arcadas dos seus edifícios lhe dão uma imagem de movimento. E aqui começa a descoberta de um olhar curioso. São muitos os pormenores dos seus edifícios. Elementos decorativos, sim, mas elementos intrigantes a princípio que se vão fazendo sentir como uma constante ruas afora. Nas arcadas dos edifícios veem-se umas caixas que se levantam do solo. Umas fechadas, serão arrecadações?; outras abertas, são lojas e bares! São uma espécies de caves a que se acede pela rua, abrindo os seus pouco óbvios portões, e que ao mesmo tempo dão acesso ao interior do piso inferior do edifício.

Também os telhados dos edifícios de Berna são todo um espectáculo e não apenas quando vistos de um ponto elevado. As suas formas são diversas, mas sempre únicas.

Uma outra curiosidade deste planeamento urbano típico de Berna é constatar que os edifícios públicos da cidade, sejam seculares ou religiosos, não se encontram no centro, antes nas ruas laterais. São exemplos disso o Bundeshaus, o Rathaus e a Münster.

O Bundeshaus é o parlamento suíço. É um edifício imenso em estilo florentino, construído em 1902, que ocupa quase toda uma frente de rio da cidade. Para um lado um tranquilo jardim (embora toda a Berna pareça tranquila), para o outro uma praça com 26 jactos de água, cada uma representando um dos 26 cantões suíços.

O Rathaus, o centro político da cidade e do cantão de Berna, é um edifício que retém o seu ar medieval.

E a Münster é a grandiosa catedral da cidade. Construída no século XV, em estilo gótico, chama logo a atenção o seu portal principal preenchido com figuras decorativas, representando cenas do Último Julgamento. Antes disso, porém, já chamava há muito a atenção a sua torre pináculo, a mais alta de toda a Suiça, com 100 metros. Subir as suas centenas de degraus não é fácil, mas a vista fabulosa que daqui se alcança tudo compensa. Um emaranhado de telhados vermelhos sobressai num círculo alongado delimitado pelas curvas do rio.

De novo cá em baixo, a Münster possui junto a si um parque debruçado sobre o rio Aare. Existe aqui um elevador público que nos transporta até à parte baixa da cidade. Sim, outra das curiosidades de Berna é apercebermo-nos como o centro centro histórico se localiza num monte – o que não é tão óbvio assim, porque à sua volta existem montes mais altos.

Cá em baixo a cidade segue interessante, sobretudo no lugar da Mühlenplatz, com as suas casas de madeira, e onde nos apercebemos da existência de uma espécie de levada que servia de transporte da água para a cidade.

Caminhando por aqui deparamo-nos com uma casa vermelha, como que um veneno anti monotonia (Viva Cazuza!) como escape ao tom cinzento da maioria dos edifícios da cidade.

O nome de Berna deriva de bär, palavra alemã cujo significado é urso. Conta a história que o fundador da cidade, Berthold V, chegou a caçar ursos por aqui. Vai daí, o Bären Park pegou na ideia e é um espaço de atracção na cidade onde moram uns exemplares de ursinhos que por ali se deixam ver de vez em quando. Não tive esse prazer, mas também não fazia questão de tal.

O meu objectivo era outro, o de subir até ao Rosengarten, um parque público num monte mais elevado da cidade, já atravessado o rio. O dia estava feio, não vi por lá nada de muito florido, mas, mais uma vez, as vistas desde este parque são fabulosas.

Chovia, não dava para sentar ao lado de Einstein, fazendo-me companhia, mas haveria ainda a hipótese de visitar a casa onde morou com a sua família, hoje a Einstein Haus, pequeno museu a si dedicado.

Diz-se que o Zytglogge, o símbolo maior de Berna, uma torre do relógio perto da sua antiga casa, o ajudou nas suas teorias. Este relógio astronómico do século XV fez questão de estar em restauro aquando da minha passagem, totalmente coberto, pois. Fica para a minha imaginação saber o porquê de ser tão amado.

Berna, sendo uma capital europeia, preserva ainda assim um ambiente medieval bem sentido também no ouvir dos sinos a tocar. Como fiquei alojada bem no centro pude testemunhar que, tal como acontece na aldeia dos meus antepassados, não nos precisamos de preocupar em ver as horas, basta escutar as badaladas dos sinos.

Como nadadora que sou, em casa sentir-me-ia também, certamente, em dias mais quentes. Ao longo deste texto fui falando da presença marcante do rio Aare na geografia e na paisagem de Berna. Falta dizer que o rio assume um papel ainda mais preponderante quando o clima permite que os habitantes da cidade – ou visitantes – se possam apoderar das suas margens para relaxar ao sol ou das suas águas para nadar. Na zona de Marzili encontramos o Marzilibad, um complexo enorme com piscinas e apoio às actividades de lazer ou fluviais. Podemos entrar no rio e sair umas centenas de metros mais abaixo, sempre com vista para o edifício do parlamento. A natação urbana é de tal forma uma marca de Berna que no merchandising oficial da cidade estão disponíveis objectos de natação, como toalhas e sacos.

Em conclusão, parece que tenho que admitir que perdi os dois maiores símbolos de Berna: o Zytglogge e umas braçadas no Aare.

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