As Praias da Arrábida

Com a quarentena a dar as últimas, o desconfinamento em marcha e o Verão a chegar, a Arrábida é o sítio para se estar. Aquela natureza recôndita, serra parelha do mar, vegetação de um verde vivo só superado pelo irreal azul do Atlântico, é um bálsamo em qualquer época da vida, transformado agora em prémio pelas provações vividas em tempos de isolamento.

O Parque Natural da Arrábida, dividido entre os concelhos de Sesimbra, Setúbal e Palmela, é de uma diversidade incrível, não apenas no que diz respeito à fauna e flora. Falo de lugares como o promontório do Cabo Espichel, serras rochosas e escarpadas e serras interiores, baías inacessíveis e outras oferecidas, todas de água transparente, fortes, conventos, castelos e povoações de arquitectura rural onde a vinha e o queijo são delícias populares. E vistas de tirar o fôlego. Tudo para se ir descobrindo lentamente, voltando repetidas vezes, de preferência para se caminhar nos seus inúmeros trilhos.

A época de maior calor não é, contudo, a mais aconselhada para se caminhar a céu aberto, pelo que seguimos de carro à descoberta das praias mais facilmente acessíveis da Arrábida, entre Sesimbra e Setúbal, não dispensando, porém, largas caminhadas entre elas, sempre junto à costa.

Entrando por Azeitão, ziguezagueamos pela estrada numa descida até ao mar. Aldeias e casarões escondidos nos montes cobertos de uma carapinha verde, uma pedreira aqui e ali – o único elemento negativo do Parque Natural -, e logo o nosso olhar é roubado. Já falei daquele azul do mar?

A primeira paragem que propomos é na Praia de Alpertuche, imediatamente antes da descida para o Portinho da Arrábida. Para se alcançar esta pequena praia escondida no meio da vegetação e dos rochedos há que caminhar por uma estrada de terra batida só acessível aos veículos dos proprietários das casas aí situadas e, depois, descer um breve trilho completamente envolvidos pela natureza. Umas nesgas no arvoredo vão-nos preparando para o cenário lá em baixo junto ao mar. Esta praia mínima com uma espécie de chalet em plena areia tem uma série de pedras e a vista típica das arribas e cor do mar da Arrábida.

Logo a seguir fica um dos lugares mais surpreendentes do Parque, a Lapa de Santa Margarida. Descemos sucessivos degraus em pedra construídos por um ermitão, mais uma vez totalmente engolidos pela vegetação, passando por rochas e cactos curiosos, até chegarmos à beira mar e, deitando-lhe costas, nos aventurarmos a entrar por um buraco aberto na parede da rocha.

É então que deparamos com uma enorme gruta, com uma capela no seu interior, um cenário misterioso com as veias da rocha a tomarem formas incríveis. Esta gruta tem a tal abertura na rocha e tem, ainda, uma abertura directa para o mar que mais parece uma janela. Uma janela natural por onde em tempos idos os pescadores vinham nos seus barcos em peregrinação para orar neste lugar absolutamente recolhido.

O Portinho da Arrábida é exíguo no seu estacionamento, por isso é boa ideia deixar o carro perto da Lapa e seguir a pé até à baía mais famosa da Arrábida. Passamos o Forte de Santa Maria da Arrábida, hoje Museu Oceanográfico, construído no século XVII para defesa do pequeno porto e do convento mais acima, e logo temos aos nossos braços aquela paisagem imensa. A encosta verde da serra a cair delicadamente no azul do mar. E a água tão transparente. A diversidade marinha é grande e o Portinho é um bom lugar para mergulho. E é também o local ideal para uma paragem para almoço num dos seus restaurantes antes ou após uma caminhada pela longa Praia do Creiro, à qual não falta sequer uma estação arqueológica, uma antiga fábrica romana de salgas de peixe.

A areia do Creiro é branquinha, branquinha, mais um tom para a palete perfeita. Vale a pena percorrê-la de uma ponta à outra, avistando a ilhota da Anicha, querendo sempre chegar um pouco mais adiante, embrenhando-nos nas rochas em busca de um refúgio ainda mais isolado. Não se pode, em situação alguma, subir às falésias, apesar da vontade de tentar chegar à próxima praia. Solução? Ir a nado.

Ou voltar para o carro e seguir pela estrada com pontos de vista lindíssimos até ao início do trilho que nos leva à Praia dos Coelhos.

Uma delícia caminhar por estes sítios, rumo a praias abrigadas com águas azuis-esverdeadas de uma transparência e tranquilidade sem limites.

Da Praia dos Coelhos, diversos trilhos totalmente protegidos pela vegetação transportam-nos até às Praias dos Galapinhos e dos Galapos. Mais do mesmo. Sendo que este mesmo é o máximo.

Depois dos Galapos fica a Praia da Figueirinha, a mais popular e acessível das praias da Arrábida, já à porta de Setúbal. Mas optámos, antes, por entrar em Setúbal seguindo pela estrada mais acima na serra, aquela que dá acesso ao Convento da Arrábida.

É aqui que a Arrábida nos é oferecida em todo o seu esplendor. Não apenas nos sucessivos miradouros que se abrem no horizonte nesta estrada espectacular, mas também no misticismo da Serra, que desde o século XVI se habituou a ser lugar de conventos. Hoje resta o Convento da Arrábida, antigo convento franciscano escondido na vegetação com vista para o Atlântico, mas chegaram a ser nove, testemunho de uma vida espiritual intensa, onde os ermitas se recolhiam em meditação e oração. E restam as inúmeras cruzes cravadas nas encostas. Há quem defenda que o topónimo Arrábida provém da palavra árabe “arrábita”, cujo significado é “local de oração”. José Tolentino Mendonça escrevia em artigo relativamente recente no Expresso que “O mais difícil não é ir à Arrábida. Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte… O que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido”.

Certa de que não a entendi por inteiro, talvez desculpa para lá voltar, termino com as fáceis paisagens. Depois de uma piscadela de olho a Lisboa para além do largo Tejo, um abraço ao Sado como despedida breve da Arrábida.