A cidade do Luxemburgo é uma bela surpresa. A sua extraordinária topografia oferece-nos panoramas inesperados, dividindo a cidade entre a parte alta e a parte baixa. É uma cidade de rios e vales, de pontes e torres de igrejas, bucólica e moderna, dona da “mais bela varanda da Europa”, o Chemin de la Corniche. Nunca deixa de estar plenamente integrada na natureza. Cidade global, 70% dos seus habitantes são estrangeiros – portugueses, na maioria – e muitos mais entram todos os dias na cidade para trabalhar, vindos dos países vizinhos.

A topografia natural da cidade do Luxemburgo confere-lhe um carácter muito particular. Caracterizada pela confluência de dois rios, o Alzette e o Petrusse, ambos cravaram vales profundos, realçando as altas falésias criadas há milhões de anos. Era um território que convidava à criação de uma fortaleza, e foi precisamente isso que aconteceu. Cidade de diferentes camadas sobrepostas entre si, o que visitamos hoje é o testemunho de uma longa história, não apenas orográfica, mas também urbanística. Por volta de 963, o Conde Siegfried adquiriu o pequeno forte de Lucilinburhuc, no rio Alzette, em troca de terra nas Ardenes. O documento que testemunha esta troca é considerado o certificado de nascimento da cidade do Luxemburgo (latinização do original Lucilinburhuc, de significado “pequeno castelo”) e é a primeira evidência da sua existência. A povoação demorou a tomar um carácter urbano e, após ser criado um pequeno mosteiro beneditino no século seguinte, apenas no século XII foi construído o primeiro concelho e construídas portas e torres. No século XIV, a cidade foi alargada, incorporando o subúrbio do Grund, e no século XVI acrescentados bastiões às muralhas da cidade medieval. Foi a partir desta época que se transformou numa das mais importantes fortalezas da Europa. Então pertença de Espanha, tornou-se parte da França sob Luís XIV, depois caiu sob domínio da Áustria, novamente da França e, finalmente, dos Países Baixos e parte da Confederação Alemã. Durante esse tempo, e até 1867, as estruturas defensivas da cidade foram sendo sempre expandidas. A presença militar era intensa e a população civil autóctone partilhava o espaço urbano com os soldados estrangeiros. O promontório do Bock, acima de uma pronunciada curva do rio Alzette, teve um papel fundamental na definição do carácter da cidade-fortaleza, enquanto lugar perfeito para a instalação de uma fortificação – aliás, este lugar já havia chamado a atenção dos romanos e do Conde Siegfried, que aqui construiu um pequeno castelo no século X.



Na segunda metade do século XIX, após a demolição da fortaleza, nomeadamente, das suas muralhas, bastiões e estruturas militares, observou-se uma rápida expansão da cidade e a paisagem urbana mudou radicalmente. Surgiram novos quarteirões urbanos, com casas e vilas dispostas nas novas ruas e avenidas, um parque público ocupou o lugar das fortificações e foram construídas novas pontes e viadutos sobre os vales dos rios Alzette e Petrusse, de forma a deixarem passar os comboios. Não é à toa que a capital do Luxemburgo é, muitas das vezes, apelidada a “cidade das pontes”, um dos símbolos da industrialização e decisivo para o crescimento populacional. A decisão de desmantelar a fortaleza foi tomada em 1867, no sentido de prevenir o conflito entre a Prússia e a França. Então, o Luxemburgo declarou-se como país neutral de forma perpétua.



No entanto, diversas das antigas estruturas militares foram preservadas e adaptadas às novas necessidades urbanísticas e outras, como fortes, torres, redutos, revelins e fossos, resistem na paisagem, fazendo desta uma cidade muitíssimo interessante e uma inspiração para o trabalho dos maiores arquitetos, de que é exemplo maior o edifício do MUDAM, obra de I.M. Pei, pelo diálogo perfeito com a paisagem pré-existente.



Foi durante o século XIX que o Luxemburgo se tornou um estado independente. O Grão Ducado nasceu em 1815, na sequência do Congresso de Viena, que reorganizou a Europa após a derrota de Napoleão. E, assim, o rei dos Países Baixos foi escolhido como Grão Duque do Luxemburgo e, nos anos seguintes, definidas as suas fronteiras, adoptada a primeira constituição parlamentar, declarada a sua permanente neutralidade e iniciado o desmantelamento da fortaleza militar. Em 1890, porém, a sucessão do Grão Ducado deixou de estar ligada aos Países Baixos e foi criada uma dinastia própria do Luxemburgo.



Na década de 1960, a cidade cresceu como um centro financeiro internacional, aproveitando as restrições legislativas neste domínio dos seus vizinhos e o desenvolvimento do mercado assente no dólar. Assim, inúmeros bancos internacionais estabeleceram-se no Grão Ducado, em especial na cidade do Luxemburgo. E, desde aí, este centro financeiro não cessou de se adaptar às novas tendências de desenvolvimento e investimento, acolhendo hoje uma série de organismos da União Europeia – o Luxemburgo foi um dos seis países fundadores da CEE e já havia estado na origem da criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, cuja fundação foi proposta pelo luxemburguês Robert Schuman.


O Museu Nacional de História e Arte e o Museu da Cidade Letzebuerg está instalado num conjunto de 4 edifícios nobres e burgueses do século XVII, entretanto restaurados, mas cujas fundações remontam ao século XIII, percebendo-se os muros onde está ainda hoje sustentado. Nele descobrimos a cidade através da sua história de 1000 anos, intrinsecamente ligada à história da Europa, sem esquecer o seu presente de cidade desenvolvida e população diversificada. Na exposição permanente vemos maquetes, pinturas (sempre com a orografia da cidade como marca impressionante) e objectos vários e no terraço panorâmico instalado num dos andares do museu podemos tranquilamente contemplar o cenário do vale do Alzette e o plateau do Rham e suas fortificações.


Hoje, a cidade moderna construída sobre os muros da antiga fortaleza, designadamente, os seus antigos quarteirões e fortificações, está distinguida pela Unesco como Património da Humanidade e as ruas estreitas e casas pequenas servem como lembrança da vida numa antiga cidade fortificada. A outrora designada Gibraltar do Norte, por ser então uma das mais importantes fortalezas da Europa, é agora uma cidade cosmopolita, mas tranquila. Numa época em o turismo atinge números quase insuportáveis em muitos lugares, a cidade do Luxemburgo aguarda por nós para se deixar conhecer sem atropelos, como veremos no texto seguinte.