São Jorge, o dragão

São Jorge, a ilha, já teve a sua forma descrita com o recurso à imagem de diversos animais. Um lagarto boiando no mar ou um crocodilo disfarçado na bruma, segundo João de Melo. Até um navio de pedra.

É um rochedo verde, longo mas esguio, a segunda ilha mais longa do arquipélago. Da Ponta dos Rosais à Ponta do Topo são cerca de 53 quilómetros de estrada e de norte a sul não são mais de 7 os quilómetros.

A costa norte da ilha nem sempre é de fácil acesso e é onde estão a maioria das 80 fajãs, o acidente geográfico que dá fama a São Jorge e a única forma de povoação a norte. Mas, para nossa felicidade, também na costa sul encontramos algumas das deliciosas fajãs. E o caminho a sul dá-nos ainda um bónus: a imagem companheira da montanha do Pico, no outro lado do canal. Pelo meio, um centro da ilha que tem no Pico da Esperança a sua maior elevação, com 1053 metros.

Infelizmente, o costumeiro nevoeiro não me permitiu explorar esta zona da ilha. Nem a Ponta dos Rosais. Se já tinha visto a minha estadia na ilha de São Jorge ficar reduzida para metade, para pouco mais de 24 horas, por conta do mau tempo no canal, o seu próprio nevoeiro ainda me vedou a possibilidade de passear livremente à volta dos seus verdes cones vulcânicos. Com estas borbulhas rugosas, voando de São Jorge para a Terceira pude, por entre algumas nuvens, perceber o porquê da ilha se assemelhar na verdade a um dragão.

O Pico

Antes de chegar ao Pico já andava enamorada da sua montanha.

Com 2351 metros que irrompem desde o mar, esta é a maior elevação de Portugal.

Tive a sorte de a ver inteira da vizinha ilha do Faial, com o Piquinho nevado à espreita. Quando cruzei o Canal rumo à ilha do Pico ainda a vi a caminhar para o céu acompanhada da sua fiel e imensa nuvem. Depois disso, nunca mais a encontrei. Mais, duvidei mesmo que ela por ali andasse.

Até que, quando me preparava para deixar a ilha do Pico rumo à ilha de São Jorge, voltei a ver parte da montanha, desta vez com o Pico envolto na mítica auréola, espécie de capote. Que imagem fabulosa. Aqui deixei a fase de enamoramento para um quase rastejar a seus pés. Isto foi por um momento… logo o Pico voltou à sua companheira fiel.

Um dia mais tarde, já na ilha de São Jorge, voltei a vê-lo por inteiro uma última vez, novamente do outro lado do Canal. E confirmei: este esbelto elemento é tímido e sem a companhia das nuvens só se deixa ver à distância, protegido pelo mar.

Pelo interior da ilha do Pico sem vislumbrar a montanha do Pico

Os meus planos para a ilha do Pico começaram logo com alterações à chegada à ilha. Era suposto chegar de barco vinda do Faial até ao porto de São Roque, mas, ao invés, o barco aportou na Madalena. Teria, então, que seguir de carro da Madalena até São Roque nesse final de tarde. A estrada mais óbvia a tomar é a regional. Mas porque o óbvio nem sempre quer alguma coisa comigo e porque também não tenho muito jeito na escolha das estradas, como primeira impressão da ilha do Pico tive logo o seu interior e uma das suas estradas de montanha. Ao percorrê-la via a montanha do Pico fechada e, do outro lado do Canal, a Ilha do Faial com o seu topo também atravessado por nuvens e ambas me pareceram, aí, estranhamente parecidas. À medida que o dia caia, os coelhos saiam da toca e era vê-los destemidos a atravessarem-se no meu caminho.

Mal sabia que nos dois dias seguintes não veria rigorosamente nada da montanha do Pico. Mas o que acontece com o clima nos Açores é que vai mudando constantemente num mesmo dia. Por isso, nestes dois dias de tempo horrível consegui, ainda assim, algumas paisagens desafogadas, o suficiente para concluir que o interior da ilha do Pico é verde e lindíssimo, com poucos ou nenhuns vestígios do negrume da lava que faz a fama da ilha.

Na esperança de que o céu à volta da montanha do Pico pudesse estar também ele liberto de nuvens, ainda subi até à casa de abrigo onde começa o trilho até aos 2351 metros da maior elevação de Portugal, mas nada a não ser um nevoeiro cerrado me esperava. Por isso, esta viagem pelo interior da ilha do Pico não mencionará mais o Pico.

Para além da estrada regional circular que corre toda a costa da ilha, o Pico tem também a incrível Estrada Longitudinal que corta a direito metade da parte central da ilha e, depois, tem ainda a Estrada Transversal e uma série de estradas rurais de montanha, quase sempre transitáveis por carro.

O Pico é a ilha com o maior número de cavidades vulcânicas conhecidas dos Açores, cerca de 129. Raul Brandão escreveu que a ilha era “cheia de crateras inofensivas e roxas, abrindo as bocas diante mim, com um pouco de azul lá dentro”. Por isso, o que nos espera num passeio pelo interior da ilha é uma série de montes cônicos, os cabeços, cada um de forma distinta mas sempre formosa. A paisagem é magnífica. Tapetes verdes preenchidos aqui e ali por uma fiada de arvoredo onde a única presença animal parece ser a das vacas que pastam nos prados delimitados por uns muros feitos da pedra do costume.

A dado passo, contraste perfeito entre o verde e o azul, o mar do Atlântico passa a acompanhar-nos lá bem em baixo, cheio de carneirinhos, indício de que o barco não sairia mais uma vez nesse dia.

Mas o mais surpreendente neste interior da ilha do Pico são as turfeiras (pequenos charcos) e as incontáveis lagoas que aparecem subitamente no nosso caminho. Serão mais de 30 as lagoas, guardando serenamente a água das chuvas e do nevoeiro e para onde muitas aves migratórias vêm descansar.

A Lagoa do Capitão será a mais famosa por daqui se conseguir, em dias de sorte, uns reflexos incríveis do omnipresente mas naquele dia invisível Pico. Mas para memória futura ficará, ainda, a Lagoa Seca (nome mentiroso) e a vizinha Lagoa do Caiado.

E muitas mais lagoas das quais perdi o nome mas guardo a fotografia e retenho no coração o encanto.

Volta à ilha do Pico

Nunca tinha visto chover e ventar tanto, mas mesmo assim saí estrada fora para uma volta de carro pela ilha do Pico. Em dois dias, foram cerca de 300 os quilómetros percorridos nesta que é a segunda maior ilha do arquipélago dos Açores. Em alguns dos locais abaixo descritos o clima venceu-me por KO e apenas os visitei uma vez; em outros recuperei e não consegui resistir a repetir a visita.

Saindo de São Roque, a primeira paragem foi na frente marítima, junto às suas piscinas naturais. O mar estava alteroso e o vento furioso. Quando coloquei os pés pela primeira vez fora do carro ia literalmente voando, daí que não tive coragem para me aproximar muito da água. Por aqui vi pela primeira vez a cor vermelha dos moinhos e dos portões a contrastar forte com a pedra escura de que é feita a ilha.

A chegar ao centro da povoação vemos numa pequeníssima encosta com vista para o mar o edifício longo do Convento de São Pedro de Alcântara. Antigo retiro dos frades franciscanos, hoje acolhe a Pousada da Juventude e vale a pena conhecer os seus claustros.

De São Roque segue-se rumo à Madalena pela estrada regional, mas optei por seguir pela estrada secundária que corre sempre junto ao mar tormentoso com a sua beira de lava petrificada. Cabrito, Arcos, Lajido, Cachorro e Vila Barca são as pequenas povoações na zona norte que se encontram dentro dos limites da área de Paisagem Protegida da Cultura da Vinha distinguida pela Unesco (ver post anterior).

Em Vila Barca fica um dos mais recentes símbolos da ilha, o Cella Bar, o bar mais bonito do mundo. Distinguido pelo portal de arquitectura Archdaily como “edifício do ano 2016” na categoria “hospitalidade”, este bar tem uma forma que apela à nossa múltipla imaginação. Contemplando-o, bem como o lugar onde está implantado, à beira do Atlântico com vista para o Faial, ficamos na dúvida se estaremos perante uma pipa, uma baleia ou um vulcão. O seu nome parece levar-nos para uma das celas conventuais dos frades que se estabeleceram na ilha. Seja como for, este lugar é único quer na paisagem, quer na arquitectura e no imaginário para o qual remete.

A primeira vez que passei pelo Cella Bar mal consegui abrir a porta do carro, tal era o vento (e chuva). E a primeira vez que passei pela Madalena nem me apercebi que a montanha do Pico estaria mesmo nas suas costas. Mas assim é. A igreja da principal povoação da ilha do Pico tem um guardião fabuloso e genioso, que se deixa ver apenas quando quer.

Na Madalena fica o Museu do Vinho. Para além da história do vinho no mundo e na ilha e uma explicação multi-sensorial das castas que aqui são produzidas, bem como um miradouro belíssimo para os currais de pedra, neste espaço que foi em tempos o Convento do Carmo, onde os frades carmelitas se dedicaram desde séculos ao fabrico do vinho, podemos admirar sem nos cansarmos um grande bosque de dragoeiros, alguns destes exemplares centenários. Esta espécie típica da Macaronésia é espontânea no Pico e a resina desta planta tintureira é conhecida como sangue de dragão. Eis uma planta verde que alude a dragões na terra de pedra negra que vê passar as baleias.

Junto à Madalena fica a Reserva Florestal de Recreio da Quinta das Rosas, mais um recanto verde na ilha para contrariar a sua fama de negrume. Como fã de jardins, não podia perder a hipótese de conhecer e passear por mais um deles. Este parque é uma espécie de mini jardim botânico, com uma boa diversidade de espécies vegetais, algumas algo raras até, uma zona de merendas, uma ermida, um pequeno lago com uma mimosa ponte vermelha, um roseiral e um miradouro com vista para o Faial.

Voltando à Madalena, no seu jardim temos um exemplo de maroiço, os quais vemos com mais insistência no lugar vizinho de Valverde. Os maroiços são um dos enigmas do Pico. Também conhecidos como as “pirâmides da vinha do Pico”, estas estruturas de pedras amontoadas na vertical, chegando a atingir quase os 10 metros de altura, terão tido como objectivo a obtenção de uma maior área de cultivo. No entanto, prospecções e estudos efectuados já nesta década levaram alguns arqueólogos a analisar estes montes de rocha e a avançar com uma tese de que poderiam estar ligados a usos funerários e que datariam de antes da chegada dos portugueses à ilha em 1427. Esta tese é polémica, claro está, uma vez que com base em fontes históricas credíveis está assente que quando os portugueses aqui chegaram as ilhas estavam desabitadas. Ou será esta mais uma manifestação do poder místico do Pico?

Passamos a Criação Velha, zona da vinha do Pico com todos os exemplos da arte e arquitectura popular ligadas a esta tradição secular, com a vista enorme para os típicos currais da vinha do Pico.

E logo chegamos ao Pocinho, com a sua piscina natural (medo!) e o elegante turismo rural do Pocinho Bay.

Passamos a Candelária e São Mateus, com as suas não menos elegantes igrejas com a inscrição na fachada do nome do orago a quem são dedicadas.

E já na vertente sul da ilha saímos, então, da área da Paisagem Protegida da Cultura da Vinha distinguida pela Unesco. Nos lugares do farol de São Mateus e do moinho da Ponta Rasa avista-se um horizonte de mar infinito (clima assim o permita). Nesta zona da ilha não encontramos nenhuma outra ilha nem nenhum outro pedaço de terra que nos faça companhia.

Em seguida tinha a intenção de ficar a saber o que é isso dos “mistérios”, mais uma expressão típica do dicionário local. O clima não deixou e a zona do Mistério de São João foi atravessada sem se ver mas com lamento.

O mesmo para a vila das Lajes do Pico, porto baleeiro por excelência. É daqui que é usual saírem os barcos para o mar para as visitas turísticas às baleias, agora que a sua caça está proibida. E nas Lajes fica o Museu dos Baleeiros, encerrado às segundas-feiras. Bingo.

De volta a São Roque, visitada toda a costa ocidental da ilha do Pico, o dia seguinte seria dedicado à restante costa e centro da ilha.

Antes, porém, uma vista ao seu Museu da Indústria Baleeira. A par com o Museu do Vinho, na Madalena, e com o Museu dos Baleeiros, nas Lajes, este é um dos três polos museológicos do Museu do Pico. Instalado na antiga Fábrica da Baleia Armações Baleeiras Reunidas, Lda, constituída em 1942, e que se dedicava à pesca da baleia (cachalote) e à produção dos seus derivados, bem como à sua comercialização, este foi o primeiro museu industrial público dos Açores. Nele vemos sobretudo a maquinaria e o modo como se processava o desmancho e a transformação dos cachalotes de forma a aproveitar a sua matéria – ossos para farinha e óleo para tudo e mais alguma coisa. Indivíduos mais sensíveis na forma como os animais são tratados poderão não gostar da exposição. Mas a verdade é que a caça da baleia foi uma actividade tradicional e central e fonte de emprego no arquipélago e, em especial, na ilha do Pico. Raul Brandão escreveu sobre os homens do Pico: “Os picarotos são os mais destemidos homens do Mar do arquipélago, tisnados, secos, graves e leais”. E, antes dele, já Herman Melville, no seu Moby Dick, havia escrito sobre o homem açoriano: “Muitos destes caçadores de baleias são originários dos Açores, onde os navios baleeiros de Nantucket que se dirigem a mares distantes atracam frequentemente para reforçar a tripulação com os intrépidos camponeses dessas costas rochosas. Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que os ilhéus são os melhores caçadores de baleias.” Só que, com a entrada de Portugal na CEE a caça à baleia ficou proibida, esta unidade fabril fechou portas em 1984 e o picaroto e o açoriano tiveram que deixar esta actividade que fez a sua fama.

Neste dia o céu já nos oferecia algumas abertas, bem aproveitado para uma visão da costa noroeste da ilha, com São Roque lá em baixo. Visto assim não há dúvida: o Pico não é só negro, é também verde e azul.

A Ponta do Mistério é um dos lugares mais interessante e mágicos da ilha e aqui está o Mistério da Prainha. Mistérios, “lepra que corrói a terra”, como ao fenómeno certeiramente se referiu Raul Brandão, não são mais do que as erupções históricas ocorridas na ilha. Como naquela época os seus habitantes não sabiam explicar a razão das escoadas lávicas vindas das erupções, usavam a palavra “mistério”. O da Prainha é o resultado da erupção histórica de maior duração dos Açores, acontecida entre 1562 e 1564 (temos ainda o já referido Mistério de São João, de 1718, o Mistério de Santa Luzia, do mesmo ano, é o Mistério da Silveira, de 1720). A imagem que a erupção e correspondente lava deixou neste Mistério da Prainha é a de uma substância preta que atropelou e se colou a um terreno verde. Daí as expressões negrume, torresmo e lepra para descrever a ilha do Pico. Mas o mais interessante é ver que aqui, das duas uma, ou a lava não chegou inteiramente ao mar ou a capacidade regenerativa da Terra já lhe trouxe novamente vida materializada em alguma vegetação.

Na Ponta do Mistério existe um agradável Parque Florestal de Recreio da Prainha, mais uma zona de merendas. Despido de gente, o lugar é pura floresta cerrada, o que só adensa o clima de mistério. E da Ponta do Mistério, ponto elevado, obtém-se um belo panorama da Baía de Canas, logo abaixo, e da ilha de São Jorge, do outro lado do Canal.

Logo após passarmos o desvio para Santo Amaro, povoação que era o centro da indústria da construção naval na ilha, passamos pelo miradouro da Terra Alta, lugar privilegiado para se ver desfilar a silhueta de dragão que parece ser a alongada ilha de São Jorge. Acontece que neste ponto do passeio estava num estado de quase pânico com o vento e mal me aproximei do dito miradouro. Momentos antes, a subir de Santo Amaro pela zona de frente de mar da Terra Alta, levei com uma estrada estreita e em curva de terra batida com sulcos e uma pendente que só de si já metia medo. Por azar o carro parou no sulco e ficou inclinado na subida de terra em curva com o mar lá em baixo e o vento por todo o lado. Ainda hoje acordo no meio da noite a pensar na situação e um suor frio me invade. Resultado, para além do vento que me abanava levei também as pernas a tremer para o miradouro da Terra Alta.

Ala, que se faz tarde.

Antes de chegar à Calheta de Nesquim passei ainda pela Ponta da Ilha, na Mantenha, onde existe ainda em funcionamento um farol e onde é suposto avistar-se bem São Jorge. Esta é mais uma região de vinha e de pedra, muita pedra e lava. E esta é a costa mais a leste da ilha, logo, o lugar onde o sol nasce primeiro.

Para se baixar à Calheta de Nesquim percorremos umas canadas íngremes mas com vistas fabulosas para o dolce far niente à aproximação do Atlântico. Esta povoação foi o primeiro centro baleeiro da ilha e daqui saiam em tempos os botes para a caça à baleia. O seu pequeno porto continua pitoresco, bem acompanhado por alguns edifícios, como a Casa dos Botes, a igreja, o coreto e um império do Divino Espírito Santo e ainda, mais adiante, uma zona balnear. O curioso nome Calheta de Nesquim dever-se-á ao facto de no século XVI a esta pequena enseada – calheta – numa noite de tempestade terem chegado três náufragos de um barco à deriva guiados pelo seu cão de bordo de nome Nesquim.

Da Calheta de Nesquim às Lajes do Pico são quase uma vintena de quilómetros, os únicos da estrada regional circular que não percorri. Era chegada a hora de ir ter com o centro da ilha, na certeza, porém, de que as vistas de mar me acompanhariam.

Paisagem da Cultura da Vinha do Pico

O negrume do Pico conjugado com a habilidade e o engenho dos picarotos no aproveitamento dos elementos naturais levaram à criação de uma paisagem única, a Paisagem da Cultura da Vinha do Pico, distinguida pela Unesco como Património da Humanidade em 2004.

É surpreendente poder ver e perceber que a vinha pode ser plantada – e daí surgir bom vinho, sendo o verdelho o mais famoso da ilha – na lava tornada pedra na mais recente das ilha do arquipélago dos Açores. A pedra, que curiosamente não vemos na vizinha Faial, está por toda a ilha do Pico, mas é na costa entre o Lajido de Santa Luzia e a Candelária, ou seja, grande parte da costa noroeste e oeste, que se torna mais evidente a sua distribuição pelos infinitos muros. São tantos, mas tantos, estes muros que, diz-se, colocadas todas as suas pedras em fila, umas atrás das outras, dariam uma vez e meia a volta ao mundo, o que levou João de Melo, o escritor açoriano de Gente Feliz com Lágrimas, a falar numa “epopeia de pedra”.

Para quem quer saber mais sobre esta cultura, tradição e paisagem, dois pequenos museus há que nos fazem viajar no tempo e nos deixam directamente no presente: o Centro de Interpretação da Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, no Lajido, e o Museu do Vinho, na Madalena.

Comecemos este passeio pelo Lajido de Santa Luzia, povoação plantada à beira mar. Para além da omnipresente e omnipotente pedra, eis dois outros elementos que costumam acompanhar as vinhas do Pico: povoações e mar (mas há-as também no interior da ilha e fora das povoações; acontece que a região distinguida pela Unesco é exclusivamente costeira e é no litoral que a maior exposição solar e baixa humidade resultam em microclimas mais favoráveis ao cultivo da vinha). No Lajido podemos conhecer uma pequena povoação feita de casas de pedra negra bem preservadas. Então, mas se a ilha é feita de pedra negra e as casas das povoações de pedra negra são feitas, qual é a piada da coisa? Pode o negrume seduzir? Pode pois. Acontece que por entre a pedra negra de basalto das casas, em quase todas elas encontramos elementos que lhes dão uma vivacidade única e as tornam verdadeiramente pitorescas. Seja um alpendre a vermelho, um caixilho da janela a azul, um portão a verde, o branco malhado no preto que as reveste ou até a decoração de um barco na fachada. Tudo isto no meio do, lá está, negrume da pedra, incluindo a beira mar feita de lava.

A presença da vinha no Pico virá já desde o século XV. A actividade desenrolava-se sobretudo entre a Primavera e o final do Verão. Partia-se pedra atrás de pedra até se conseguir abrir buracos na rocha para se plantar o bacelo. Para o desenvolvimento desta cultura, foram criados pequenos núcleos edificados em alguns pontos da costa onde existia acesso ao mar através de pequenos portos e rola pipas que permitiam o embarque do vinho para os barcos que o transportaria para fora da ilha (o vinho do Pico era exportado para os mercados regional, nacional e internacional). As rola pipas são as rampas que vemos ainda hoje na rocha de lava e serviam para ajudar no caminho das pipas, que seguiam rolando até ao mar.

Uma ou duas casas senhoriais e uma ermida chegavam para compor a povoação, e o Lajido não foge à regra e ainda hoje vemos a sua igrejinha. E mais uns quantos armazéns, adegas, lagares, alambiques e poços de maré – nesta zona da ilha não existem ribeiras ou lagoas e eram os poços de maré a forma de abastecer as populações de água potável e de levar a água às vinhas. À sua volta, os campos de vinha e também de figueira. Os campos de vinha envolvidos em muros que desenham quadrados ou rectângulos, colados uns aos outros, e os campos de figueira em muros circulares (com bons exemplos ainda hoje no Cais do Mourato). Estes são os famosos currais, que protegem as vinhas e figueiras dos ventos fortes e do rocio do mar, ficando o solo basáltico aquecido pelo sol. Com isso conseguem-se uvas com elevada riqueza em açúcares, dando origem a um vinho licoroso de características únicas.

Inicialmente, as vinhas eram sobretudo propriedade de habitantes do Faial e das ordens religiosas presentes na ilha, mas sempre trabalhadas pelos picarotos. Só com as pragas da filoxera e do oídio em meados do século XIX, com o consequente declínio da actividade vinícola e desvalorização das grandes propriedades, bem como o fracionamento dos latifúndios, foram as parcelas resultantes dessa divisão vendidas aos locais, e os picarotos puderam, assim, ser donos das terras que sempre trabalharam.

Na Criação Velha, costa oeste já para lá da Madalena, veem-se os currais na perfeição, os tais quadrados ou rectângulos de pedra que protegem a vinha dos elementos. Esta é a melhor imagem da originalidade da engenhosa arquitectura popular da vinha do Pico, exemplo maior de adaptação do Homem às difíceis condições que a Natureza lhe oferece. São parcelas e mais parcelas divididas por muros de pedra que correm para o mar e apenas interrompidas por canadas de terra ocre que servem de estradas que ligam as propriedades ao mar. Para além das canadas, apenas o moinho dos Frades, de cor vermelha e com uma baleia no topo, quebra esta monotonia a negro. E da sua varandinha ganha-se uma vista extraordinária.

Incrível constatar como num terreno de chão de lajido as videiras – e as figueiras – podem nascer e florescer, dando aqui e ali uma outra cor a esta paisagem. O verde no lajido é quase um milagre.

A Criação Velha, tal como Santa Luzia, são ambas lajidos, campos de lava bem preservada que são o resultado de erupções basálticas. Os lajidos apresentam escoadas lávicas de superfície lisa e micro-relevos. Pelo contrário, os biscoitos são escoadas lávicas de superfície áspera e cortante. Quer no Lajido de Santa Luzia, quer no da Criação Velha podemos ver as marcas de rilheiras (ou regueiras), sulcos cravados na rocha de basalto, cortesia da intensa passagem dos carros de bois carregados de vinho e outros bens.

Currais, lajidos, canadas, rola pipas e rilheiras, parece que é quase necessário um dicionário à mão para podermos prosseguir viagem por esta fantástica paisagem feita de contrastes da vinha da ilha do Pico.

A ilha do Pico

“Isto que de longe era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz do tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno. É um torresmo.”

Eis a ilha Pico, a terra a negro e cinzento que provocou angústia e medo a Raul Brandão.

Para a ilha do Pico tinha previsto chegar de barco a São Roque, para onde marcara alojamento, vinda do Faial. Mas cancelaram o barco para São Roque – porque sim – e mandaram-no para a Madalena.

Tinha previsto subir à montanha do Pico, a mais alta de Portugal. Mas estava um nevoeiro e chuva tal que nem a casa de abrigo me deixaram ver.

Tinha previsto sair ao mar para ver as baleias. Mas o mar estava tão mau que os barcos – e talvez as baleias – não ousavam sair.

Tinha, enfim, previsto deixar a ilha do Pico rumo à ilha de São Jorge num final de dia. Mas tudo o acima justificado adiou essa decisão para o dia seguinte.

Quer isto dizer que a experiência no Pico falhou?

Talvez não. Talvez dizer que se o clima nos Açores é um tópico, então a experiência no arquipélago não fica completa sem que o tópico se manifeste. Nunca vi chover tanto e nunca tinha vivido literalmente a expressão “vento que faz voar”. Em 3 dias na ilha, em nenhum momento as nuvens e o nevoeiro deixaram ver o Pico.

Mas se o negrume do Pico, feito de pedra de lava, pode assustar a princípio, logo ele seduz em reconhecimento ao trabalho hercúleo dos picarotos que moldaram a sua paisagem para melhor os servir. Paisagem esta que, merecidamente, foi distinguida pela Unesco como Património da Humanidade.

E se esse negrume da pedra está por toda a ilha, no seu centro é o verde dos tapetes dos montes, cabeços e cones vulcânicos que dominam a paisagem, juntamente com uns surpreendentes lagos.

Socorro-me novamente de Raul Brandão: “Esta ilha negra e disforme apoderou-se dos meus sentidos. Tudo o que a princípio me repelia, o negrume, o fogo que a devora, o mistério, tudo me seduz agora. O Pico é a mais bela, a mais extraordinária ilha dos Açores, duma beleza que só a ela lhe pertence, duma cor admirável e com um estranho poder de atração. É mais que uma ilha – é uma estatueta erguida até ao céu e moldada pelo fogo – é outro Adamastor como o do Cabo das Tormentas.”.

Se não fiz grande parte do que havia planeado na ilha do Pico e ainda assim a deixei com a alma plena, isso só pode significar que já encontrei a minha ilha no arquipélago dos Açores, certo?

Horta

A Horta é uma cidade com um enquadramento belíssimo. Uma baía dupla à beira do Atlântico guardada por montes e vigiada por uma encosta feita de tapetes verdes e cones vulcânicos à espreita. Podemos vê-la desde o mar, com destaque para as torres das suas igrejas à aproximação da terra, ou desde cima, de um desses vários montes: do Monte da Espalamanca, do Monte Queimado, do Monte da Guia ou até do Monte Carneiro. Mas, por enquanto, percorramos a sua história e as suas ruas.

O nome “Horta” provirá do apelido do colono flamengo que no século XV primeiro povoou a ilha, Van Huerter (uma surpresa para quem dava por adquirido que haviam sido os portugueses os primeiros a ocupar todas as ilhas do arquipélago). Por curiosidade, diga-se que deste nome derivará o apelido Utra e, depois, Dutra.

A Horta é hoje considerada a mais cosmopolita das cidades açorianas, graças à sua localização geográfica, no grupo central do arquipélago. A sua forte ligação ao mar é real e por isso foi sendo procurada ao longo dos séculos para algumas iniciativas que lhe moldaram a história e o carácter.

Desde logo, os jesuítas escolheram-na como ponto de escala e descanso nas suas viagens transoceânicas. Ainda hoje podemos visitar o antigo colégio jesuíta, edifício longo construído no século XVII, actual Igreja Matriz do Santíssimo Salvador que acolhe também o Museu da Horta e a Câmara Municipal.

No início do século XIX instalou-se na cidade o cônsul americano John Bass Dabney e com ele veio o investimento na construção naval, tendo as gerações seguintes desta família expandido os negócios para o comércio de laranjas e vinho do Pico. A casa de veraneio dos Dabney no Monte da Guia é hoje um espaço museológico que recria a herança desta família em termos culturais, históricos e científicos no contexto da ilha.

No fim do século XIX a Horta assumiu um papel fundamental na história das telecomunicações a nível mundial ao ter sido escolhida para lugar de amarração dos antigos cabos telegráficos submarinos que ligaram a Europa à América. À boleia desta actividade vieram para a cidade diversos técnicos alemães e ingleses que aqui se fixaram.

Em 1919 foi a vez de a Horta entrar para a história da aviação mundial como o primeiro porto de escala aérea na primeira travessia aérea do Atlântico Norte por hidroavião.

E, por fim, a partir das décadas de 50 e 60 do século XX a Horta tem sido um centro de iatismo de recreio que continua a trazer à ilha o tal ambiente cosmopolita. A Marina da Horta foi o primeiro porto de recreio dos Açores e são inúmeros os iates e veleiros aqui aportados. Já se sabe, cada um dos visitantes faz questão de provar a sua travessia mítica do Atlântico Norte deixando uma pintura nos murais do molhe, até porque, crê-se, isso dá sorte aos iatistas.

Em resumo, o ambiente da Horta é hoje um de lazer e de reunião, um lugar para onde vem gente de todo o mundo que espera encontrar outros como eles.

O que talvez muitos estrangeiros não saibam é que foi daqui, da Horta, que saiu o primeiro presidente da república portuguesa: Manuel de Arriaga, aprendemos na escola nós, portugueses, e uma estátua à entrada da Marina assim o assinala.

Da Marina da Horta o cenário para a ilha do Pico é privilegiado, como se a Horta assistisse a um filme digno de Óscar da primeira fila. Ou, como escreveu Nemésio na sua obra maior, “a cidade era um camarote de frente para aquele palco de todo o ano”. Por acaso, a vista do meu alojamento era essa mesmo, a da Marina com o Pico em frente. Adormeci com o Pico coberto, na ilusão de acordar com ele inteiro. Mal suspeitava que apesar de os próximos dias ir andar mais próximo dele só o voltaria a ver desde São Jorge, a outra ilha que compõe o Canal do Triângulo.

O café Peter fica neste pedaço da Marina, provavelmente a maior marca da Horta. Hoje é um quase império que deixou de passar apenas pela fama do seu gin. Tem também o Museu de Scrimshaw, fechado nesta minha passagem pela cidade, mas do qual recordo ainda os seus dentes de baleia esculpidos.

O Forte de Santa Cruz, de frente para a Marina, acolhe hoje uma pousada. O Jardim Infante Dom Henrique está totalmente vedado, em obras, mas reparo ainda assim num seu edifício de gaveto em tom verde clarinho com uma pequena estatueta do Navegador no seu topo.

Seguindo pela Avenida Marginal percebemos que esta porta de entrada da cidade não traz com ela os edifícios mais distintos. As igrejas, por exemplo, ficam todas numa segunda linha. A já referida Igreja Matriz (antigo Colégio dos Jesuítas), a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (Misericórdia). Também a Torre do Relógio, parte da antiga matriz entretanto demolida.

A arquitectura da Horta não é feita de palacetes. Tudo é pacato e equilibrado. Destaque, no entanto, para as suas janelas e varandas.

E para o edifício em art deco da sociedade Amor da Pátria, projecto de Norte Júnior, com um possante dragoeiro junto à escadaria da entrada.

O Jardim da Praça da República e o Jardim Florêncio Terra são espaços aprazíveis cujos coretos lhe conferem alegria.

Para aqueles interessados em história e etnografia, a visita à cidade da Horta não fica completa sem uma passagem pelo Museu da Horta. Através de vários núcleos expositivos, ficamos a saber mais sobre a já referida centralidade da cidade no tempo da telegrafia por cabo submarino e das colónias estrangeiras que para aqui trouxeram novas dinâmicas sócio-culturais, bem como sobre o papel do porto da Horta na Primeira Travessia Aérea do Atlântico Norte – este ano comemora-se o centenário desta façanha. Mais ainda, ficamos a conhecer a arte do papel recortado em seda branca e a delicada arte da escultura em miolo de figueira, ambas tradições artesanais locais seculares. Desta última, da colecção de Euclides Rosa, artista maior na escultura em miolo de figueira, vemos miniaturas da Sociedade Amor da Pátria, da Torre de Belém, de uma aldeia açoriana, de cenas da vida rural, todas tão perfeitas, trabalhos de paciência que duraram milhares de horas.

Sigamos agora rumo à segunda baía da Horta, aquela que é protegida pelo Monte Queimado e pelo Monte da Guia. Porto Pim é o nome de origem flamenga da baía, cujo significado é porto seguro. E Porto Pim é um lugar absolutamente pitoresco. Tem uma praia de areia de tons aceitáveis, um mar azulão diante si e uns morros elegantes na sua guarda. Ah, e um casario de postal perfeito ao longo da sua avenida marítima. Alguns dos melhores restaurante da cidade ficam aqui.

Percorrida a sua praia, à chegada ao Monte da Guia vemos o antigo edifício onde em tempos funcionou a Fábrica da Baleia de Porto Pim, a Casa dos Dabney e o Aquário de Porto Pim, todos eles espaços museológicos.

No Monte da Guia foi aberto o primeiro trilho dos Açores que conta com sinalética específica para a prática do trail running. Não o percorri nem subi a pé além do Miradouro da Lira, assim chamado pela sua forma em arco a lembrar esse instrumento musical. Instalado acima da Casa dos Dabney, aqui existiam então terrenos de vinha. Hoje resta o miradouro excepcional e daqui se aprecia grande parte da ilha do Faial (e do Pico), com a baía de Porto Pim e Forte de São Sebastião mesmo defronte.

De carro, então sim, subi mais um pouco até ao Miradouro da Guia, onde fica a Ermida e mais uma vista fabulosa, desta vez para o lado sul do cone vulcânico do Monte da Guia onde este vulcão deixou aberto ao mar uma cratera dupla, mais conhecida pelas Caldeirinhas.

O que fiz questão de subir a pé foi o vizinho Monte Queimado. Sobe-se a bom subir mas as vistas, sempre elas, valem todo o esforço. Vistas sempre diferentes para Porto Pim, de um lado, e para a Marina e restante cidade da Horta, do outro. O Monte Queimado é mais um cone vulcânico, e o curioso é perceber que no século XIX era habitado, possuía plantações de vinha e era aqui que a população vinha buscar lenha. No seu topo, por entre densa vegetação e flores, ainda se veem as ruínas da antiga propriedade da família do Duque de Ávila.

Por fim, para aqueles a quem não chega passear pelo Faial, admirar as suas paisagens, percorrer os seus trilhos, observar a sua flora, resta uma visita ao seu Jardim Botânico. O maior e mais importante dos Açores, aqui se percebe ainda melhor a posição geográfica de extremo isolamento do arquipélago, sujeito a factores de instabilidade como vulcões, tremores de terra e tempestades, que tornou a sua conquista pelas plantas numa aventura magnífica. Uma lição de como chegaram as plantas aos Açores e um passeio por entre exemplares das suas plantas endémicas, as quais representam, nas palavras do Jardim, uma “verdadeira Arca de Noé das plantas” pelo cruzamento de espécies vindas de vários continentes que a sua localização proporcionou. Ou seja, até aqui a faceta cosmopolita da Horta se faz sentir.