Graciosa – Parte I

A Graciosa é a segunda ilha mais pequena do arquipélago dos Açores, apenas atrás do Corvo. E é a menos montanhosa, com a esmagadora maioria da sua superfície a não passar dos 300 metros e a sua altitude máxima a passar a custo dos 400 metros. Com apenas 12,5 kms de comprimento e 8,5 kms de largura, seríamos tentados a pensar que a “Ilha Branca”, o epíteto que Raul Brandão tornou popular, é para ser conhecida num ápice. Nada mais enganador. Por uma vez, sigamos o nosso Presidente Cavaco e, sem pressas, reparemos no sorriso da vaca nos prados e encostas verdejantes da Graciosa.

Se há algo familiar e comum a todas as ilhas do arquipélago dos Açores é o verde das suas terras, muitas das vezes dispostas em quadrículas, com ou sem muros de pedra a separá-las. E, voltemos a Raul Brandão, se “o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente”, então, a Graciosa é rainha. À sua aproximação, vindos do ar, vamos vendo a montanha do Pico com o seu Piquinho a rasgar o mar de nuvens por onde o avião vai furando. Já em terra, assim a visibilidade o permita, a felicidade espreita ao vislumbre das restantes companheiras de grupo, o Faial, São Jorge e a Terceira, com a emoção maior a ser alcançada com a incrível imagem do Pico, o mais alto do nosso país, para lá da ilha dragão, retrato da comunhão perfeita das ilhas açorianas.

Caldeira

Momento alto da viagem é a visita à Caldeira da Graciosa. Ocupando uma parte substancial do sudeste da ilha, a caldeira foi formada há cerca de 12.000 anos e para além de ser aqui, numa das suas cristas, que encontramos a maior elevação, com 405 metros, é também aqui que mora uma das suas maiores áreas florestais, com belas criptomérias. Testemunho da origem vulcânica da ilha e classificada como Monumento Natural, esta depressão tipo caldeira de colapso possui 270 metros de profundidade. O interior da caldeira, com paredes abruptas cobertas de vegetação (como as endémicas urze, louro-da-terra e malfurada e a autóctone faia-da-terra e as introduzidas criptoméria e acácia) esconde uma das maravilhas da Graciosa e de todo o arquipélago. É a Furna do Enxofre, uma das mais notáveis cavidades vulcânicas dos Açores e um fenómeno geológico único no mundo.

Centro de Visitantes – edifício
Centro de Visitantes – miradouro

Iniciamos a visita no centro de visitantes, um edifício de arquitectura certeiro, pela forma como se integra na paisagem, com a cobertura / telhado a servir de plataforma / miradouro. Depois de um breve enquadramento e explicação do território da ilha e deste monumento, estamos preparados para ir terra adentro. Já não precisamos de nos aventurar numa descida por cordas para entrar pela fenda, como o fez o príncipe Alberto I do Mónaco, em 1879, por ocasião da sua viagem exploratória ao arquipélago, descida essa que ficou imortalizada em gravura – o príncipe foi um dos primeiros visitantes da Furna e diz-se que também o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia a quiseram conhecer, mas acabaram por não o fazer. No entanto, o primeiro registo da entrada na furna vem do século 17, numa crónica de frei Diogo de Chaves, e antes do príncipe já naturalistas e geógrafos haviam estado no interior. Hoje, e desde 1939, data em que foi construída a torre de acesso à furna, fazemo-lo em segurança, bastando descer os seus 183 degraus em caracol.

Furna do Enxofre
Furna do Enxofre
Furna do Enxofre

A Furna do Enxofre da Caldeira da Graciosa é uma caverna lávica, uma autêntica catedral com 180 metros de comprimento e 50 metros de altura, e está a 100 metros de profundidade. O ambiente que vivemos dentro desta maravilha natural é surpreendente e deslumbrante. Nem por um momento esquecemos estar no interior da terra, mas há detalhes que nos vão distraindo e despertando a curiosidade, e não apenas o som do constante gotejar. A furna tem apenas duas entradas / fendas para o exterior, por onde entra a única luz e aves e demais fauna, assim o desejem (aqui se encontra a única espécie de mamífero endémico dos Açores, o morcego dos Açores, e espécies como o tentilhão, a toutinegra dos Açores, a alvéola, o melro e o estorninho dos Açores). No tecto imponente, à altura de uma verdadeira catedral, veem-se prismas lávicas perfeitas e ao redor, no chão, diversos blocos caídos do tecto. À direita, junto à parede da caverna, está uma lagoa de água, à qual não nos abeiramos, respeitando escrupulosamente e exclusivamente o caminho pela plataforma para o efeito. Ao fundo, por fim, uma fumarola de lama, em ligeira ebulição aquando da nossa visita, a mostrar que o vulcão continua activo, ainda que pouco. Sente-se levemente o cheiro a enxofre e na furna são libertados gases como vapor de água (H2O) e dióxido de carbono (CO2), daí que haja a necessidade de avaliar constantemente a qualidade do ar através de sensores de CO2 – a sua concentração pode ser letal e no Verão costuma ser mais elevada, pelo que nem sempre é possível descer à furna.

Furna do Abel – entrada
Furna do Abel
Vista desde a Furna da Maria Encantada
Furna da Maria Encantada

Para além da Furna do Enxofre, há outras grutas na zona da Caldeira da Graciosa, como a Furna do Abel e a Furna da Maria Encantada, uma no exterior e a outra no bordo. São ambas tubos de lava, típicas deste tipo de vulcanismo, e igualmente misteriosas. A Furna da Maria Encantada tem o bónus de permitir um belo panorama para o interior frondoso da caldeira.

Volta ao bordo da caldeira
Vista para costa sudeste
Vista para Ponta do Carapacho
Volta ao bordo da caldeira
Vista para Praia
Vista para Serra das Fontes

Para além da visita às furnas, é imperioso dar a volta completa à caldeira. Pois é, grandes notícias, é possível caminhar ou seguir de carro ao longo do seu bordo, entre as cotas dos 240 metros a noroeste e os tais 405 metros a sudeste, onde se abrem uma série de miradouros que nos oferecem vistas fantásticas. Para a Luz e costa sudeste, para a Ponta do Carapacho, para a Praia e para a Serra das Fontes.

Carapacho

Logo abaixo da caldeira fica o Carapacho, lugar de umas improváveis termas, por conta do aquífero subjacente à Furna de Enxofre. Os banhos termais fazem parte da realidade dos graciosenses desde o século 18, época em que se aperceberam das propriedades minerais e terapêuticas destas águas quentes, sendo a entrada grátis, sujeita a lotação do tanque. No exterior há uma zona balnear com uma piscina demarcada nas águas do mar, certamente mais frias, com vista para os pitorescos ilhéus da Ponta do Carapacho.

Praia
Praia

A pouca distância, a Vila da Praia (São Mateus) é a segunda povoação da Graciosa. É o lugar do maior porto da ilha e tem a única praia de areia. O casario à beira mar e com os montes nas costas é muito pitoresco. Diz que a igreja possui um belo interior, mas infelizmente estava de portas fechadas, restando-nos apreciar a sua arquitectura exterior, imponente e com as omnipresentes listas em basalto sobre fundo branco.

Ilhéu da Praia

Diante da praia, a cerca de 1,3 kms da costa, o Ilhéu da Praia domina o horizonte. Esta Reserva Natural integra uma área marinha e uma área terrestre e o facto de ali não existirem nem herbívoros nem mamíferos predadores, permite-lhe acolher ecossistemas únicos ao nível da flora endémica e de espécies marítimas, sendo considerado um dos mais importantes lugares de nidificação de aves marinhas dos Açores. Nos dias de hoje, o acesso ao ilhéu é condicionado, mas em tempos idos teve criação de cabras, ovelhas e coelhos e, mais recentemente, foi utilizado como zona de lazer e recreio, o que afungentava a nidificação das aves marinhas.

Moinho
Moinho
Moinho

A Praia é igualmente a casa das típicas queijadas da Graciosa, imperdíveis de saborear, e uma visita à loja da sua fábrica deixa-nos na dúvida de qual doce escolher. Escolhemos um de cada, pois então. Também muito típico da Graciosa são os seus moinhos. Eles estão por toda a ilha, mas na Praia encontramos pelo menos três destes exemplares lado a lado. O mesmo em Santa Cruz, que não fica longe; na verdade, na Graciosa, tudo é perto, não se demorando mais de 15 minutos de caminho de uma ponta à outra da ilha.

Na capital da ilha, Santa Cruz da Graciosa, o Museu da Graciosa explica-nos a génese dos moinhos e muito outros aspectos relacionados com a ilha, quer do ponto de vista geográfico quer, sobretudo, etnográfico. A agricultura foi durante a maior parte do tempo a sua maior economia e essencial para a sobrevivência da população e dos animais, verificando-se desde o século 16 a exportação de trigo e cevada, primeiro para a Terceira e, a partir do século 19, para Lisboa e Madeira. A Graciosa chegou a ser a maior produtora de cevada do arquipélago. Os moinhos são, assim, um testemunho da produção de cereais de outrora. Nos anos 1940 chegaram a ser 23 e hoje, apesar de já não laborarem, diversos exemplares estão restaurados e alguns deles afectos ao alojamento local. O mais comum e típico desses moinhos é o moinho de vento, o “moinho fixo de pedra ou de torre”, que terá tipo origem nos colonos flamengos ou holandeses e onde se destaca a cúpula giratória em madeira de formato ovóide e topo em bico. O facto de a dita cúpula ser, muitas das vezes, num vermelho vivo e as velas de tamanho substancial, tornam os moinhos ainda mais cativantes. Silvina Sousa, no seu poema “Saudade”, de 1960, buscou neles inspiração: “Moinhos de assas brancas, enfunadas / Girai, cantando alegres, exultantes / Na viração das festas madrugadas / Mandai vossas canções aos céus distantes / Cantem, lá dentro, as mós enfarinhadas / Cantem, ao vento, as velas palpitantes / Que andam no ar as rimas encantadas / Dum poema de estrofes cintilantes”.

Santa Cruz
Santa Cruz

A vila de Santa Cruz, fundada em 1486, tem uma das praças mais bonitas das ilhas, com árvores de grande porte, como araucárias centenárias, ulmeiros e metrosideros. As ruas são empedradas e embelezadas com desenhos na calçada, com motivos caros à região, de que são exemplo o moinho, a baleia e o trigo. Espanta a quantidade de solares, dos séculos 17 e 18, numa povoação tão pequena e isso deve-se à cultura dos cereais e vinho, cujo comércio permitiu aos seus donos adquirir um certo estatuto social.

Santa Cruz – Câmara Municipal
Casa Barão da Fonte do Mato
Casa Barão de Guadalupe

Nestes edifícios nobres são visíveis elementos como janelas de peito, com molduras em basalto a contrastar com o branco da fachada, e varandas de procissão em ferro fundido. Diz que esta era terra dos melhores mestres de cantaria e a ver pelo trabalho da pedra nos edifícios não o duvidamos.

Santa Cruz – pauis

Voltando à praça principal, duas lagoas / pauis tomam grande parte da sua área. Construídas no século 19 e início do século 20, o seu propósito foi o de recolher e armazenar a água da chuva, uma vez que a água é recurso escasso na ilha, sendo raras as nascentes. O facto de a Graciosa possuir altitudes menores do que as outras ilhas do arquipélago faz com que haja menos nevoeiro e chuva e que os solos sejam mais secos. Os seus habitantes foram, pois, obrigados a criar estratégias que lhes permitissem reter e distribuir a pouca água, daí os pauis da praça de Santa Cruz, historicamente um destinado à agricultura e o outro para dar de beber aos animais. Ainda, o reservatório do Atalho, que não visitámos, é outro dos exemplos destas estruturas da água, construído em 1866 na sequência da grande seca acontecida anos antes e com capacidade para armazenar 1800 metros cúbicos de água.

Santa Cruz – igreja matriz
Santa Cruz – igreja matriz
Santa Cruz – igreja matriz

Não deixamos Santa Cruz sem uma visita às suas igrejas, como a Igreja Matriz e a Igreja da Misericórdia, restando ainda vestígios da torre do antigo convento franciscano. A Igreja Matriz possui uma bonita fachada de arquitectura tipicamente açoriana, com a pedra escura vulcânica bem trabalhada. Com origem no século 16 e reconstruída no século 18, o interior não é menos bonito e interessante, com detalhes do manuelino na abóbada do baptistério, alguns painéis de azulejo e, sobretudo, o retábulo do altar mor de madeira pintada, dele resultando um dos mais importantes conjuntos de pintura do século 16 nos Açores, obra atribuída a Mestre de Arruda dos Vinhos. Um apontamento de cultura material a juntar aos elementos etnográficos de que a Graciosa é rica.

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