Ilha de Santa Maria – Parte 1

“Santa Maria desvenda-se entre as névoas: um monte alongado com uma parte mais baixa e a Vila do Porto saliente, tudo azul emergindo do azul. À medida que o S. Miguel [barco] se aproxima, reparo que a ilha é doirada, com sombras a escorrer pelos montes abaixo. Alguns riscos mais carregados, algumas manchas mais roxas que pouco a pouco se acentuam. Fico perplexo e só quando chegamos quase à fala da povoação, Vila do Porto, é que compreendo: a ilha é um torresmo de pedra negra, de areia negra, como se tivesse passado pelo fogo do Inferno, mas o torresmo está coberto de giesta rasteira e doirada, de giesta em flor, que cheira a uma légua de distância.” – Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas

Perplexidade pela negritude e aridez da ilha de Santa Maria é o que experimentámos também à chegada. Não houve aproximação pelo mar, antes pelo ar, mas o final do dia com tempo nublado e chuvoso não deixou perceber os seus contornos. Só no dia seguinte partimos da Vila do Porto a passear pela parte mais ocidental da ilha, ainda com tempo feio. O verde e uma ligeira ondulação de um ou outro monte estavam lá, mas foi a planura e o negro e ocre que mais se fizeram sentir. Pensámos: estes Açores mais próximos do continente são diferentes.

À Baía dos Anjos vimo-la desmaiada, desprovida de apelo para um mergulho no seu mar. Terá sido aqui que a tripulação de Cristóvão Colombo pisou terra, depois de ter perdido as âncoras na vizinha Baía da Cré quando regressava da sua primeira viagem à América, em 1493. Toda a costa norte da ilha é feita de arribas de impossível acostamento, com excepção dos Anjos, e mesmo na restante costa não há muitos lugares onde amarar.

O Barreiro da Faneca anda por aqui. O “deserto vermelho dos Açores” é uma área de paisagem protegida com cerca de 835 hectares e dá ares disso mesmo, de um deserto. O cenário colorido da argila e praticamente sem vegetação faz-nos esfregar os olhos e duvidar se estaremos no meio do Atlântico – não é uma imagem que esperássemos encontrar nos Açores, mais associado ao verde do que ao vermelho. O fenómeno deve-se a uma antiga escoada lávica basáltica que acabou coberta por uma camada de cinzas como consequência de um episódio vulcânico que, depois, devido ao clima quente e húmido de então e à acção da água das chuvas e do vento, resultou na sua alteração para argilas avermelhadas e um relevo suavemente ondulado. A vegetação que hoje rodeia este deserto tem vindo a crescer ao longo dos milénios e forma um contraste incrível de cores na paisagem.

A ilha de Santa Maria é a primeira das ilhas do arquipélago dos Açores: a mais antiga na formação, descoberta e povoamento. Na verdade, Santa Maria como que nasceu duas vezes. Começou a emergir há 8,2 milhões de anos e foi alternando períodos de acalmia com episódios de intensa actividade vulcânica; com o fim desta actividade, a erosão marítima fê-la desaparecer. Mais tarde, formou-se novamente como ilha, mas mesmo assim a datação do seu território não é a mesma: a parte ocidental tem 4,8 milhões de anos e a parte oriental 2 milhões de anos. Um passeio pela ilha mostra-nos como são tão diferentes na paisagem.

Foi Goncalo Velho quem aportou pela primeira vez na ilha de Santa Maria, em 1432, embora já tivesse sido avistada no século anterior. O seu povoamento foi quase imediato, feito sobretudo por alentejanos e algarvios que deixaram uma curiosa influência na arquitectura das suas casas, com características chaminés e cores que não enganam. Curioso também o facto de, ao contrário das demais ilhas do arquipélago, o seu povoamento ter sido disperso e não necessariamente ao longo da linha de costa: o interior está ocupado por uma série de povoações preenchidas de casas rurais.

Geologicamente, a ilha de Santa Maria é uma maravilha, uma das melhores para observação do registo fóssil marinho e rica em sequências vulcânicas submarinas. Para melhor a compreender vale a pena visitar a Casa dos Fósseis / Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo, na Vila do Porto. Toma o nome do naturalista autodidata que saiu jovem do continente para trabalhar no aeroporto de Santa Maria e que acabou por ficar e se dedicar ao estudo da diversidade geológica e biológica da ilha. Neste espaço museológico e educativo vemos uma bela colecção de taxidermia, com a reconstituição de diversos animais (desde borboletas a aves) e ficamos a saber que 6 das 7 espécies de tartarugas marinhas existentes no mundo ocorrem nos Açores (em 2021 confirmou-se a presença no arquipélago da tartaruga-olivácea, a sexta espécie) e que a poluição dos oceanos é uma enorme ameaça à sua sobrevivência (as tartarugas confundem o plástico com as águas vivas, o seu alimento favorito, levando-as à morte por bloqueio do sistema digestivo). Na Casa dos Fósseis, por sua vez, conhecemos a formação geológica da ilha e os vários geossítios que possui, demonstrativos da sua riqueza paleontológica a nível internacional. Em Santa Maria encontram-se fósseis (restos ou vestígios de actividade biológica fossilizados, sejam de animais, plantas ou outros organismos de uma idade geológica passada) marinhos raros com milhões de anos, não apenas os mais comuns somatofósseis (como restos ou marcas de folhas, conchas, carapaças, ossos e dentes), mas também icnofósseis (marcas de pegadas e de alimentação, tocas, perfurações), importantes por não se limitarem a ser vestígios de organismos mas reflectirem igualmente o seu comportamento. O trilho pedestre da Costa Sul (PR5 SMA), com início na Vila do Porto e final na Praia Formosa, passa pelas jazidas fósseis da Pedreira do Campo e do Figueiral (jazida fóssil), mas acabámos por não o percorrer, deixando igualmente escapar o Circuito Interpretativo da Pedreira do Campo.

A Vila do Porto é a capital da ilha de Santa Maria. O povoamento havia sido tentado primeiramente nos Anjos, mas foi nesta lomba encravada entre dois vales sobre uma enseada abrigada que em 1460 se fundou a mais antiga vila dos Açores. A sua posição estratégica possibilitava não apenas um bom ancoradouro como também uma boa defesa, e a construção da povoação teve esses dois factores em mente. A sua disposição é muito curiosa, com o porto em baixo, o Forte de São Brás imediatamente acima e a urbe um pouco mais distante, de forma a que a população tivesse tempo para organizar a defesa em caso de ataque de piratas e corsários. E entre os séculos XV e XVII foram vários, tendo começado logo em 1480, apenas duas décadas após fundação da vila, e cessado em 1675, data do último ataque corsário.

O desenho urbanístico da vila mantém-se, três ruas ao comprido ligadas entre si por ruinhas mais curtas. É um prazer caminhar por elas. Há fachadas de igrejas para admirar, em especial a igreja matriz, e pormenores como janela com moldura de pedra decorada e porta ovalada com contorno também em pedra – esta última no edifício onde funciona o pólo de Vila do Porto do Museu de Santa Maria. E há o largo mais bonito da vila, lugar do belo Convento de São Francisco, construído no início do século XVII.

O aeroporto de Santa Maria é parte da história recente da ilha, tendo-a transformado a nível social, económico e urbanístico a partir dos anos 1940. Com 75 anos feitos em 2020, foi inaugurado em 1945 e colocou a ilha açoriana mais próxima do continente europeu na rota transoceânica, trazendo-lhe um desenvolvimento nunca mais visto. A escolha do lugar para implantar o aeroporto deveu-se às suas condições atmosféricas privilegiadas e à geografia plana do terreno, ideal para acomodar uma pista longa (ainda hoje a segunda mais longa dos Açores, apenas atrás da das Lages, na ilha Terceira). Viviam-se os últimos anos da II Grande Guerra Mundial e os americanos instalaram aqui uma base aérea no meio do Atlântico, que depois abandonaram e transferiram para as Lajes. Mas os anos dourados do aeroporto ainda estavam para vir: foi-se a base aérea americana, mas vieram os tempos de aviação civil. Até aos anos 1970 Frank Sinatra, Ernest Hemingway e muitas outras personalidades passaram pela ilha, as modas entravam nos Açores e até em Portugal continental por aqui, estradas e infra-estruturas de esgotos, água e luz foram construídas, as famílias marienses deixaram a agricultura e a pecuária e dedicaram-se aos serviços e a população triplicou. Um novo centro urbano junto ao aeroporto nasceu e com ele uma igreja, um hotel, um cinema, um ginásio, uma piscina e diversas casas. Cada companhia aérea tinha o seu bairro, com quarteirões para os directores e outros para os operários. Na década de 1970 chegaram a aterrar cerca de 30 aviões por dia em Santa Maria. Tudo isto porque na época os aviões não tinham autonomia em termos de combustível para cruzarem todo o Atlântico de uma só vez, havendo a necessidade de parar na ilha para uma escala técnica de abastecimento. Santa Maria funcionava, assim, como um porta aviões no meio do Atlântico. Hoje o bairro junto ao aeroporto segue vivo, com umas habitações mais robustas e distintas do que outras, algumas propriedade municipal e usadas para habitação social. Sobrevivem ainda exemplos de edifícios de apoio ao aeroporto em chapa de zinco, dando ao lugar uma pitada de ambiente industrial, e até nomes como “Estrada da Birmânia”, topónimo dado pelos americanos na época da II Grande Guerra Mundial. O avanço da aviação trouxe aparelhos com maior autonomia e o aeroporto de Santa Maria foi perdendo relevância. O movimento de passageiros em escala na ilha levou um trambolhão e hoje o aeroporto serve sobretudo os seus habitantes, que são cada vez menos, tendo a ilha perdido quase 2/3 da sua população desde os anos 70. Mas, ao mesmo tempo, foi capaz de se reinventar e aproveitar a sua excepcional localização geográfica. Acolhe o Centro de Controlo Oceânico, responsável pelo controlo do tráfego aéreo do Atlântico Norte, a Estação Galileu, dedicada ao rastreio de satélites da Agência Espacial Europeia, a Estação Geodésica e Espacial de Santa Maria (RAEGE) e outros projectos esperam a sua vez para serem instalados na ilha.

Descendo do céu, um dos lugares mais icónicos de Santa Maria é a Praia Formosa, melhor admirada desde o miradouro da Macela. Longa língua de areia clara, uma das poucas do arquipélago, é junto à baía que se desenrola o Festival Maré de Agosto, um evento internacional musical que vai na sua 37° edição e que desde 1984, ano da sua primeira edição, deixou de acontecer apenas em 2020, por conta da pandemia da Covid-19.

Pouco mais adiante, na Ponta da Malbusca fica mais uma das surpresas da ilha, a Ribeira dos Malóas, também apodada de “Calçada dos Gigantes”, uma alusão a fenómeno semelhante da Irlanda do Norte. É um vale fluvial que dá para o mar e abriga uma queda de água com cerca de 15 a 20 metros de altura e caracteristicamente formada por colunas verticais que são o resultado de uma escoada lávica basáltica. Um cenário único que serviu para abrir o apetite para outras belezas que admiraríamos nos próximos dias.

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