A Rota do Românico no Vale do Sousa guia-nos pelos concelhos de Felgueiras, Lousada, Paços de Ferreira, Paredes e Penafiel. O rio Sousa nasce em Friande, concelho de Felgueiras, e após um caminho de cerca de 65 kms desagua no rio Douro, na povoação de Foz do Douro, concelho de Gondomar. É um rio pacato, que corre sobretudo em zonas rurais, e a sua fértil bacia envolve os seus afluentes Ferreira, Cavalum e Mezio. No entanto, esta pacatez de que resulta muitas vezes um ambiente bucólico, tem um momento absolutamente revolto e inquietante na Senhora do Salto, também conhecida por Inferno de Aguiar, que tivemos oportunidade de visitar aqui. Mas o Sousa é, na maioria das vezes, marcado por vales pouco pronunciados e declives suaves.



Há muito que o vale do Sousa abastece toda esta região, conhecida no séculos X e XI por Terras de Ribadouro, uma terra anterior à fundação da nacionalidade, tendo sido seus senhores os gascos, em especial os ascendentes de Egas Moniz, o aio de D. Afonso Henriques. Ora, e como vimos em anterior post, nessa época, a presença de uma igreja era uma estratégia e garantia de que o território estava organizado e povoado. A implantação de mosteiro e igrejas viria, pois, a ser decisivo na fundação de Portugal e no seu povoamento. À medida que a população ia crescendo, beneficiada pela fertilidade das terras, uma cultura e arquitectura com características regionais muito próprias ia desenvolvendo-se, com a construção não apenas de igrejas, mas também de pontes que ligassem as várias povoações.

O Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, no concelho de Felgueiras, é um dos mosteiros beneditinos construídos na região do Entre Douro e Minho. Classificado como Monumento Nacional, foi implantado numa zona de terras baixas abundantes em água (perto da nascente do rio Sousa, mas ainda mais perto do curso do rio Vizela), logo, dona das melhores terras agrícolas. A sua visita é essencial para se perceber o contexto histórico do românico: paisagem, arquitectura / decoração e cultura, todos estes elementos estão aqui presentes e já os desenvolvemos aqui.



Igualmente no concelho de Felgueiras, a Igreja de São Vicente de Sousa não está tão isolada como Pombeiro, mas é ainda um lugar vincadamente rural. Da sua torre sineira, destacada do edifício da igreja, mas a ela colado, obtemos um belo panorama. Duas inscrições permitem datar o ano de construção desta igreja românica: 1162 e 1214, o que está em linha com a maioria dos exemplos que visitaremos. É importante perceber que todas elas possuem elementos comuns, como é o caso da sua orientação. A cabeceira das igrejas românicas desta época estão viradas para oriente, ou seja, na direcção de Jerusalém, a cidade sagrada, permitindo, assim, que a primeira luz do dia incidisse sobre o altar. Com isso, o portal ocidental é quase sempre a entrada principal da igreja e aquele sobre o qual recaem os elementos decorativos que procuram veicular parte da mensagem da igreja. No caso da Igreja de São Vicente de Sousa, este portal possui decorações vegetalistas de qualidade, uma forma de simbolizar a entrada como Porta do Céu.





A maioria das igrejas da Rota do Românico são relativamente pequenas, uma vez que se destinavam essencialmente a servir a comunidade local. Daí serem em grande número e tão perto umas das outras. É o caso da Igreja do Salvador de Unhão, a cerca de 5 kms de distância. Nela admiramos mais um portal de grande qualidade, com capitéis vegetalistas, considerados dos mais bem esculpidos do românico do norte do país. No tímpano vemos uma cruz vazada. Uma inscrição no exterior da parede sul da nave da igreja mostra-nos que está foi dedicada em 1165. A torre sineira, porém, foi construída muito depois, no século XVIII, embora se creia que aqui tivesse existido anteriormente uma torre medieval.



Na outra margem do Sousa, mas ainda concelho de Felgueiras, está a Igreja de Santa Maria de Airães. Esta é considerada um bom exemplo de como os modelos construtivos e as soluções decorativas características da época românica foram sendo mantidas ao longo do tempo na região, mesmo se foram recebendo alterações em outras épocas. A igreja de Airães, com vinhas ao seu redor, foi construída no final do século XIII ou no princípio do século XIV, mas haveria já aqui uma pré-existência, atendendo a documentação que a ela faz referência desde 1091. O portal possui 4 arquivoltas sem decoração e a forma e a dimensão dos capitéis remetem já para o gótico. De igual modo, na vertente oposta ao portal vemos a torre sineira, igualmente da época gótica.



Já concelho de Lousada, a Torre de Vilar é um exemplo de domus fortis, um símbolo do poder senhorial no território. Com 14 metros de altura e instalada sobre um afloramento granítico, terá sido edificada no século XIII, época em que se sentia ainda a ameaça dos mouros – daí que seja também conhecida como a Torre dos Mouros. Destinava-se provavelmente a servir de refúgio da população em caso de perigo e seria pertença do Conde de Barcelos, no tempo de D. Dinis, e mais tarde dos Duques de Bragança, senhores de Lousada. Esta estrutura românica robusta com apenas uma porta terá tido ameias no topo, hoje transformado num terraço-miradouro sobre o vale fértil – era em vales com esta capacidade que se implantavam as torres senhoriais. A Torre de Vilar, com um belo parque ao redor, é agora um espaço museológico, com todas as valências para se descobrir mais da história da região.


É em Lousada que encontramos algumas das pontes que integram a Rota do Românico. Ponte da Veiga, Ponte de Vilela e Ponte de Espindo são alguns exemplos, todas elas sobre o rio Sousa. A Ponte da Veiga une as margens do rio entre os lugares de Rio e Cachada, na freguesia do Torno. Possui um único arco, ligeiramente quebrado, e é reconhecidamente um exemplo de travessia gótica, provavelmente edificada na primeira metade século XV. Os monges foram alguns dos responsáveis pela construção de pontes (a de São Gonçalo de Amarante é disso exemplo), e esta terá sido de iniciativa de frei Amaro, que terá deixado Pombeiro rumo a Torno, fugido da peste.


Já a Ponte de Espindo, no lugar de mesmo nome, freguesia de Meinedo, tem também um só arco, mas este de volta perfeita e com tabuleiro em cavalete. É uma construção em cantaria granítica e em 2018 o seu pavimento em madeira foi substituído por calçada portuguesa. Sobre esta ponte atravessam carros e o cenário envolvente é de uma enorme tranquilidade.


A Ponte de Vilela, no lugar de Vilela e freguesia de Aveleda, tem 4 arcos de volta perfeita e terá sido construída no século XIII, uma época de crescimento da região e, assim, das necessidades de circulação no vale do Sousa. A estrada é-lhe paralela, preservando desta forma a estrutura da antiga ponte. Espreitamos o rio Sousa, com as margens carregadas de vegetação tipicamente ribeirinha e a sua envolvente, essa, é mais um momento de profunda ruralidade.



A Igreja de Salvador de Aveleda é mais um exemplo de arquitectura de transição do românico para outras épocas. As referências à vila de Aveleda remontam ao final do século XI e a sua igreja ao século XII, embora a actual estrutura seja provavelmente do início do século XIV, tendo sido alterada na época moderna, com acrescento da torre no século XVII ou XVIII. Preserva, no entanto, a decoração ornamental do portal, simples nas suas arquivoltas e capitéis. Estes estão decorações com elementos vegetalistas como pinhas, uma referência aos muitos pinheiros que então cobriam a região.


A toponímia de Lousada remete para nomes visigóticos e mouriscos, como Aveleda, Alvarenga, Boim, Caíde, Lodares ou Nevogilde. Nesta última está a Ponte de Nevogilde, sobre o rio Mezio, afluente do Sousa, e o Aqueduto de Lagoas, a curta distância da ponte. Nem uma nem outra são obras do românico, mas passámos por elas e registámo-las. Também conhecida por Ponte de Lagoas, pela Quinta de mesmo nome junto a ela, tem dois arcos, quase enterrados pela vegetação que tomou o lugar, passando despercebida quando passámos na nova ponte, ao seu lado. O muito verde, quer dessa vegetação quer dos campos de cultivo (milho e vinha), domina a paisagem. O Aqueduto, por sua vez, foi implantado em zona de aluvião e é uma estrutura também em pedra, com cerca de 100 metros, construída no século XIX com a fito de transportar a água até à Casa de Lagoas. É o único aqueduto em todo o concelho de Lousada, e permitiu ainda alargar a área de cultivo neste ponto.


Em Lousada fica aquele que pode e deve bem ser o ponto de partida da Rota do Românico, o Centro Interpretação do Românico. Inaugurado em 2018, a fachada do seu edifício de arquitectura contemporânea não passa despercebido. La dentro, o Centro recorre a experiências interactivas dos conteúdos museográficos para, ao longo de seis salas temáticas nos dar um muito bom enquadramento do Românico, passando pela apresentação do território e formação de Portugal e correspondente sociedade medieval, até à explicação dos monumentos do românico ao longo dos tempos, seus construtores, simbolismo e cor.


E, assim, ao final do dia chegamos a Paços de Ferreira, a capital do móvel. Está feita uma cidade, com a Praça da República com o Monumento ao Móvel a receber o visitante. Movimentada e moderna, a cidade preserva algum do seu património, de que é exemplo a antiga Estação de Lacticínios, conjunto de arquitectura tradicional onde se destacam as suas peculiares torres, lugar hoje envolvido pelo Parque Urbano. Poderíamos – e deveríamos – ter visitado a Citânia de Sanfins, um povoado da Idade do Ferro que constitui um dos mais importantes testemunhos da cultura castreja do noroeste peninsular, mas como o pretexto era o Românico, fechámos a jornada no Mosteiro de São Pedro Ferreira, onde marcámos previamente a visita à sua igreja.

Do Mosteiro de São Pedro Ferreira resta apenas a igreja. O mosteiro virá do século X, uma vez que no testamento de Mumadona Dias, de 959, é lhe feita referência. A igreja, porém, é posterior e terá sido construída no século XII por Soeiro Viegas, casado com uma sobrinha de D. Afonso Henriques, mais tarde concedida aos freires da Ordem do Templo. Repetimo-nos, a fertilidade da região, graças aos muitos rios – desta vez o Ferreira – foi determinante na escolha do lugar de implantação do conjunto monástico.


Um adro murado resguarda o portal principal da igreja, com a torre sineira a antecedê-lo, juntamente com a ruína de uma galilé que possuía função funerária – este espaço era reservado a enterramentos e rituais fúnebres. A arquitectura da Igreja de São Pedro Ferreira é típica da região e do românico, mas nela veem-se influências de outras igrejas da mesma época em Castela (Zamora e Compostela) e na Andaluzia. Com fachada de linhas sóbrias, o seu pórtico é singular, mostrando grande qualidade construtiva – é reconhecidamente um dos melhores monumentos do românico português. A arquivolta de volta perfeita é antecedida de um cordão entrançado e nos 4 capitéis de cada lado, todos eles diferentes, veem-se motivos geométricos, vegetalistas, animalistas e oníricos.


Os pórticos laterais dão-nos, igualmente, grandes momentos decorativos, com novas laçarias e motivos vegetalistas.




O interior da igreja não desilude. Austera, mas harmoniosa, possui nave única, à semelhança da maioria das igrejas românicas. Umas janelas emolduradas por 2 arcos de volta perfeita e mais 4 bem trabalhados capitéis deixam entrar uma nesga de luz através dos pequenos frisos. Mas é a bela cabeceira (abside) o elemento de maior destaque desta igreja, com uma série de arcadas e formosas aberturas.