Évora Monte

Habituamo-nos a passar na A6 a caminho de Elvas e, um pouco depois de Évora e antes de Estremoz, ali está à esquerda um castelo num monte sobranceiro à via rápida com uma torre diferente daquelas que costumamos observar na paisagem portuguesa. Sempre dizíamos, um dia desviamos e vamos até lá cima. Mas não foi preciso chegar o dia do desvio. Antes disso, veio o dia em que de forma intencional lá fomos de propósito só para explorar a colina que em tantas viagens nos compôs o cenário na paisagem alentejana.

Évora Monte é mais do que um simples castelo instalado num lugar estratégico e privilegiado. É também uma povoação pitoresca, certamente despovoada como muitas no nosso país, mas que conserva ainda as marcas de um passado de orgulho e, sobretudo, as marcas identitárias das aldeias alentejanas.

Desde logo, a planície a perder de vista. Esta é uma aldeia miradouro. Do alto dos 481 metros da garbosa colina tudo se avista, clima o permita. Mas mesmo em dia fechado, como nos tocou, o “pouco” que se vê é tanto que chega bem para nos convencer do privilégio.

Depois, o castelo. São 4 as portas da antiga povoação, ligadas por uma muralha que se percorre fácil e prazerosamente, com vista ora para a planície extra-muralha ora para o casario intra-muralha. Não se sabe ao certo as origens da povoação de Évora Monte. Pensa-se que tenha sido conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques em 1166. Certo é que em 1248 D. Afonso III lhe concedeu foral e em 1306 D. Dinis mandou construir as muralhas, fortificando o povoado. Em 1531 um forte terramoto destruiu grande parte das construções da povoação que era então propriedade da Casa de Bragança. E foram estes que a reconstruíram e mandaram levantar a torre que ainda hoje distinguimos mesmo ao longe e consideramos única na sua arquitectura no panorama nacional. Esta torre era então o paço ducal da família, servindo como residência de caça dos duques de Bragança. Como se não bastasse a sua implantação geográfica, no alto de uma colina na planície alentejana, também na fachada desta torre podemos perceber a influência e poderio da Casa de Bragança. Na época (século XVI), era a segunda mais importante do reino, tendo como divisa “Depois de Vós [rei], Nós [Casa de Bragança]”. Esses “nós” eram parte da heráldica bragantina e vêem-se materializados na fachada da torre / paço ducal de Évora Monte.

E, por fim mas não menos importante, o casario. Povoação feita de praticamente uma só rua estreita, casas com os típicos frisos de uma cor a contrastar com o branco alentejano, igreja matriz acompanhada de cemitério, roupa estendida ao vento junto à muralha e mais uma dose de pormenores surpreendentes, tão pequena que é a povoação muralhada. Numa das suas casas, a de Joaquim António Sarmago, foi assinada em 28 de Maio de 1834 a Convenção de Évora Monte que restabeleceu a paz em Portugal após anos de guerra civil entre liberais e absolutistas. Um pouco mais acima, em duas casas, uma de cada lado, aprecia-se as suas portadas em ogiva.

E um pouco por todos os cantos, a calçada oferece-nos umas casas pintadas. A arte na rua, surgindo assim de supetão sem pedir licença, faz com que este breve passeio por Évora Monte seja ainda mais memorável. Como se o Alentejo coubesse todo aqui.

Alegrete

Alegrete. Só o nome já é todo um programa.

Alegrete, vila alentejana em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, fica a apenas 16 kms de Portalegre mas dificilmente damos com ela a não ser que nos envolvamos pelas estradas secundárias. Uma pena, mas com uma solução. Há que ir até lá de propósito e começar por avistar desde o asfalto parte do casario branco, muralha e castelo. E há que, logo de seguida, subir por esse mesmo asfalto até à povoação instalada numa colina com encostas pejadas de sobreiros e carvalhos a 450 metros de altitude (e o castelo a 475 metros).

Alegrete é uma espécie de mini Monsaraz, com a povoação primitiva dentro da cerca urbana muralhada. São quatro ruinhas com umas poucas casas, com entrada pela praça com coreto. Logo aí temos a torre do relógio e a igreja matriz, ambas com as fachadas com as típicas listas amarelas sobre o branco. Poucos metros percorridos pela rua de calçada em pedra com edifícios de um lado e do outro e chegamos à porta do castelo, a Porta da Vila.

O lugar de Alegrete tem ocupação humana desde a pré-história e, embora não se saiba com certeza o seu passado, acredita-se que por aqui terão passado os romanos, os vandalos, os alanos e os mouros até D. Afonso Henriques o tomar em 1160. A partir da Reconquista Cristã sabe-se com certeza com base em documentação que em 1267 foi definitivamente incorporada no território português pelo Tratado de Badajoz e, mais tarde, em 1319 D. Dinis promoveu a reedificação do seu castelo (ou talvez a sua construção, não se sabe ao certo) no contexto da defesa e consolidação da soberania portuguesa na raia com Castela e concedeu-lhe foral. Ao longo dos séculos Alegrete foi participando em diversos episódios em diferentes momentos da história do nosso país no que respeita às guerras com Castela, ou não fosse o seu um território situado na primeira linha de defesa.

O castelo, em estilo gótico militar, possui muralhas ameadas com cubelos e torre de menagem em ruína. O ponto alto da visita é, no entanto, a vista fantástica para o horizonte, permitindo-nos apreciar a topografia local de passagem de uma zona de serra para outra de planície.

Este é um castelo-miradouro.

Saindo pela Porta da Traição, também conhecida como Porta do Sol, a imagem da paisagem continua a dominar a atenção, mas agora percebemos ainda melhor o afloramento rochoso em que foi implantado o castelo, cheio de pedra irregular ao seu redor.

Desconheço o significado do topónimo “alegrete”. Há quem diga que deriva do latim “Ad Septem Aras”, de significado “aquele que se encontra numa alegre situação”. O que é certo é que Alegrete está acompanhada da ideia de felicidade.

Uns castelos pelo Tejo

O rio Tejo em território de Portugal é pontuado pela presença de uns castelos aqui e ali. Um bem óbvio para quem mora na capital, como é o caso do Castelo de São Jorge, outro uma visita de sonho para quase todos nós, como é o caso do Castelo de Almourol plantado numa ilhota. Pelo meio temos ainda o Castelo de Santarém e as suas vistas maravilhosas para a lezíria.

Porém, desta vez passearemos pelos outros castelos sobranceiros ao Tejo, os de Abrantes, de Belver e da Amieira, deixando o de Vila Velha de Ródão para uma próxima viagem, fiéis ao princípio de deixar sempre algo para ver como desculpa para voltar.

A situação geográfica do rio Tejo e a sua acessibilidade e navegabilidade não foram, claro, alheios à decisão de se implantar estas estruturas defensivas em cada um destes lugares. No entanto, cada uma destas estruturas da Linha Defensiva do Tejo acabou por desempenhar diferentes papéis na história do nosso país.

Comecemos pelo Castelo de Abrantes. Depois de tomada Abrantes aos mouros, D. Afonso Henriques mandou construir nesse mesmo século XII o castelo para defesa da linha do Tejo. Estávamos então no contexto da Reconquista Cristã e o castelo que no século XVIII acabou por tomar a forma de fortaleza foi, antes disso, palco de diversas batalhas entre mouros e cristãos. As muralhas exteriores não são muito imponentes e este século trouxe-lhe um quê de infantilidade com a instalação de um parque de jogos à sua entrada.

Mas um passeio pelo seu interior permite-nos ainda perceber a sua configuração e papel histórico. Aqui temos a Igreja de Santa Maria. A primitiva igreja era contemporânea da construção do castelo, mas no século XV acabou por ser remodelada e passar a panteão dos Almeida, cujos membros da família eram condes de Abrantes. O interior do castelo possui ainda o Palácio dos Governadores, muito alterado ao longo dos séculos, e a Torre de Menagem. Esta Torre de origem medieval, do século XII, também foi objecto de reconstruções várias ao longo dos tempos, mas no seu caso por força do terramoto de 1531 que a deixou em ruína até ao século XIX, século este que viu ainda passar pela vila e castelo as tropas napoleónicas.

Não precisávamos de subir à Torre para vistas enormes, uma vez que da muralha do castelo já as tínhamos, mas não resistimos a mais um ponto de vista. E que vista.

Uns 30 kms Tejo adentro, ainda na sua margem direita, a norte, surge no caminho um dos mais fantásticos castelos portugueses. Depois da apresentação quase burocrática do Castelo de Abrantes, este início de boas-vindas ao Castelo de Belver faz com que as expectativas se elevem. Mas não há que temer pela felicidade numa visita a este Belver. Esta é garantida.

Instalado no topo mais elevado de um monte granítico junto ao rio, o Castelo de Belver tem o cognome, à semelhança do de Almourol, de “sentinela do Tejo”. Vivia-se a época da Reconquista Cristã quando por volta de 1194 D. Sancho I doou à Ordem dos Hospitalários (hoje Ordem de Malta) um território que incluía, entre outras, as terras que logo passariam a ser a povoação e castelo de Belver – o Tejo era então um espaço de fronteira e havia que fazer face a ambas as necessidades de povoamento e militares. Até aqui a Ordem dos Hospitalários tinha uma função assistencial e com a construção desta estrutura defensiva assumirá a sua vocação militar. O castelo terá ficado construído em 1212 e figuras históricas passaram por lá. O Condestável D. Nuno Álvares Pereira mandou reconstruir as primitivas defesas, a princesa Santa Joana fez daqui sua residência após a peste de Aveiro em 1476 e fala-se, ainda, de um eventual exílio de Camões em Belver. O castelo sofreu com os terramotos de 1531 e de 1755 que deixaram a sua Torre de Menagem em ruína, mas o século XX veio dar um novo rumo no seu estado de conservação com os trabalhos de restauro por parte das autoridades do Estado.

Feito o contexto histórico, adentramos neste reduto de muralhas medievais e descobrimos a pitoresca ermida de São Brás aninhada junto à Torre de Menagem. O espaço interior do castelo é pequeno e subimos ao alto da Torre. As vistas para lá das muralhas não podiam ser mais sublimes. As águas azuis do Tejo serpenteiam rasgando a terra coberta do verde da relva rasteira e das oliveiras. Uma tranquilidade imensa é o que se sente do alto da torre do castelo de Belver.

Um pouco mais ainda adentro pelo Tejo, mas mais longe por estrada, há de surgir o Castelo da Amieira, a meio caminho do Gavião e Nisa. Não está mesmo junto ao Tejo nem este se avista do castelo, mas sente-se. Amieira do Tejo era uma das doze vilas da Ordem de Malta. Neste território, que hoje faz a transição entre a Beira e o Alentejo, mandou construir em 1359 D. Álvaro Gonçalves Pereira (prior da ordem de Malta e pai do Condestável D. Nuno Álvares Pereira) um castelo integrado na linha defensiva da margem sul do Tejo. Três anos antes a sede da Ordem tinha sido transferida para a Flor da Rosa, ali perto, e tendo o Tejo boas condições de navegabilidade e, no caso específico da Amieira, um bom porto fluvial, foi então escolhido o lugar para se implantar novo castelo. Como curiosidade, o castelo não está num ponto cimeiro, pelo contrário, como que se desce na aldeia para se ir ter com o castelo, avistando-se a Capela do Calvário mais acima.

O Castelo da Amieira foi um dos primeiros exemplares de castelo gótico em Portugal, tendo-lhe sido construída uma barbacã inovadora com características modernas. Com planta quadrangular e quatro torres em cada um dos cantos ligadas por muralhas, a maior dessas torres teria a função de torre de menagem mas acabou sobretudo por ser a residência do fundador do castelo, D. Álvaro Gonçalves Pereira. Uma volta pelo exterior do castelo saindo pela Porta da Traição e uma vista do alto das suas muralhas deixa-nos face a face com mais um pedaço de tranquilidade, feita de contornos suaves da serra e mais uma série de oliveiras.

Entre muitas outras, duas curiosidades deste castelo que foi residência de alcaides, prisão e cemitério. Primeiro, a sua cisterna possui ainda e desde sempre água, facto que não é assim tão comum. Segundo, a Capela de São João Baptista, construção do século XVI, apresenta pinturas no seu tecto efectuadas com a técnica decorativa do esgrafito. A temática destas pinturas é profana, com a justaposição de motivos grotescos e vegetalistas, reflectindo talvez a decadência das funções defensivas do castelo e a especial devoção a este santo por parte dos hospitalários. Também nas torres podemos ver vestígios de pinturas, o que é invulgar nas fortificações medievais portuguesas.

Uns castelos pela Beira

As regiões de Viseu e da Guarda possuem uma série de castelos que, em tempos, serviram de protecção da raia. Mas se de Espanha, hoje, já nem o dito “nem bom vento, nem bom casamento” assusta, muito menos o faz a defesa da fronteira. Ainda assim, os castelos ali seguem de pé, altivos e orgulhosos da sua história e prontos para fazer as delícias dos mais aventureiros.

Já se viu que sou fã de castelos. Muitos haveria a destacar, mas desta vez optarei por indicar apenas estes três, todos eles classificados como monumento nacional e todos eles doados por D. Flâmula ao Mosteiro de Guimarães no século X. Mas, mais decisivo para esta escolha, todos eles diferentes e verdadeiramente surpreendentes na sua forma.

Moreira de Rei, no concelho de Trancoso, é uma aldeia pequenina aberta a um vale a perder de vista com a silhueta de uns montes ao fundo. Diz que do alto do seu castelo, à noite, se distinguem as luzinhas de 52 povoados, um por cada semana do ano. O castelo de Moreira de Rei tem raízes longínquas, pelo menos desde o século X. Seria então uma estrutura defensiva rudimentar, mais de acompanhamento a uma povoação rural do que de salvaguarda militar. O actual castelo datará do tempo de D. Afonso Henriques e está hoje em ruína. Acontece que essa ruína é fantástica. São rochedos e mais rochedos, todos formosos, que se percebe ainda dar corpo a esta fortificação. É um aproveitamento certeiro dos recursos naturais em todos os aspectos, quer construtivos quer paisagísticos. A muralha resiste a espaços e não há torres, mas ainda assim é uma felicidade deambular pelo curto espaço interior deste castelo.

O castelo de Penedono é provavelmente o mais elegante e bonito castelo português. Na verdade, não se veem muitos castelos com esta forma no nosso território, quase a forma de um castelo de fadas. As suas origens remontarão igualmente ao século X, mas a sua actual configuração será uma reconstrução do século XIV, motivada por desejos de autonomia das gentes de Penedono em relação às rivais de Trancoso. De planta poligonal, este é um castelo-paço com cinco torres quadrangulares coroadas por ameias piramidais. O também conhecido como Castelo do Magriço (Álvaro Gonçalves Coutinho, guerreiro eternizado por Luís de Camões no “Os Lusíadas”) assenta sobre um afloramento granítico e é rodeado por uma baixa barbacã. Do seu pequeno interior obtém-se enormes vistas panorâmicas.

O Castelo de Numão é um castelo bem maior do que os anteriores. Uma constante, porém: as vistas magníficas que dele se alcançam, desta vez para a paisagem do Côa, para mim uma das mais épicas de Portugal. Localizado no concelho de Vila Nova de Foz Côa, a primeira referência a este castelo data igualmente do século X. Instalado no topo de um monte, o seu perímetro muralhado de forma ovalada irregular é extenso, cerca de 250 metros.

Andamos pelo mato rasteiro, damos de caras com uns cavalos a pastar e o seu dono a relaxar perante aquela paisagem imensa, ufano por nos informar ser Numão a terra de Dina Aguiar, vemos até as ruínas de uma igreja românica e uma cisterna e, por fim, arriscamos subir às muralhas e a uma das suas seis torres, dum total de 15 que em tempos existiram. Como se fôssemos um arqueólogo, não apenas em busca da história, mas também de mais um panorama. E que vista, esta.