Museus em Bruxelas, Bruges e Antuérpia

Opção é o que não falta. 
Como o meu interesse recai sobretudo na pintura e na arquitectura, a selecção estava feita à partida.
Por falta de tempo não visitei o Museu Horta, em Bruxelas, como desejava.
Mas visitei o Bozar (também conhecido como Palácio das Belas Artes) e os Museus Reais de Belas Artes de Bruxelas (que actualmente incluem o Musée Magritte, o Musée Old Masters e o Musée fin-de-siècle).
Em Bruges visitei o Groeningemuseum e o Arentshuis. 
Em Antuérpia o MAS, num edifício de arquitectura fantástica, e a Casa Plantin-Moretus, único museu do mundo distinguido com a classificação como património da humanidade pela Unesco.
Em Gent era segunda-feira, logo, dia de descanso cultural.
Seguindo uma fórmula inspirada em Lourenco Mutarelli no seu “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, o qual classificava as mulheres com quem se cruzava no dia a dia segundo o tipo de relacionamento que com essas desejava ter em “comia”, “casava” ou “mandava para a forca”, e na impossibilidade de comer ou casar com um quadro e não o desejando mandar para a forca para evitar problemas que me impeçam futuras viagens, classificarei o meu gosto pelas obras que vi em “vendia”, “comprava” ou “pedia emprestado”.
Os Rubens e os Van Eyck vendia-os todos para arranjar € para as outras operações.
A Casa Plantin-Moretus pedia emprestada para aí estabelecer a minha biblioteca.

O MAS pedia igualmente emprestado para aí colocar as obras que compraria, designadamente todos os Brughels e o “Império das Luzes” de René Magritte.

Já que estamos no domínio da Bélgica, compraria ainda a “Vue de Bruxelles”, de Jan Baptist Bonnecroy, “Les émigrants”, de Eugène Laermans, e “Les affligés”, de Frank Brangwyn.
Um aparte: neste momento Ai Weiwei, considerado o maior artista chinês, vê ser-lhe dedicada uma grande exposição em Londres. Em Bruxelas o Bozar tinha até ao final de Agosto uma exposição dedicada a uma série de artistas chineses contemporâneos, a “Chinese Utopia Revisited”. Em Bruges, a sua bienal trouxe para as ruas mais uma série de novos artistas do império do meio. Não é só economicamente que os chineses se mostram ao velho continente. A sua cultura sempre foi forte e cativou o resto do mundo, mas agora volta a fascinar de uma outra forma, igualmente surpreendente.

Bruxelas

Não é fácil para uma portuguesa, cujo país tem praticamente 900 anos de nacionalidade independente quase ininterrupta, traçar a história de outros países sem se sentir confusa. 
A Bélgica, por exemplo, ganhou a sua independência apenas em 1830 de forma algo inesperada. No que é hoje o seu território exerceram historicamente a sua influência franceses, holandeses e austríacos. No século XVI Bruxelas chegou a ser a capital do império Habsburgo sob o reinado de Carlos V. Já no século XIX, depois de ganha a independência, a revolução industrial na Valónia e a pilhagem do Congo pelo rei Leopold II trouxeram prosperidade e pujança económica. 
Nos dias de hoje, a divisão entre flamengos (na Flandres, a norte) e francófonos (na Valónia, a sul) é evidente e não serão só as questões linguísticas a separá-los. 

A capital da Bélgica é Bruxelas e esta é também a capital da Europa (depois da NATO e da União Europeia terem aqui assentado arraiais), pelo que parece bater tudo certo na mistura de nacionalidades, línguas e vidas que se observa numa curta estadia na cidade.
Junto à estação do Midi, que escolhi para meu poiso, os belgas (sejam flamengos ou francófonos) (a)parecem em clara minoria: há ruas inteiras de portugueses, brasileiros, italianos, africanos, marroquinos e árabes. Tudo isto a quinze minutos a pé da Grand Place.
Questões práticas: não se precisa de saber falar neerlandês ou francês para se sobreviver em Bruxelas e pode-se assistir ao Académica – Sporting na televisão de um café português rodeada de portugueses que apesar de estarem uma rua atrás da rua Lemonniers não fazem ideia do que isso seja.
Na cidade há de tudo e de tudo se vê. Coisas boas e coisas más.
Vamos às coisas boas: a multiculturalidade que se sente pelas ruas, gerando contrastes interessantes, sempre com um sentimento de segurança (flamengos e francófonos, emigrantes em busca de melhores condições económicas e eurocratas); edifícios com fachadas lindamente ornamentadas e bem conservados; praças e jardins acolhedores; a Grand Place, provavelmente a praça mais bonita do mundo.

Agora as coisas más: na cidade de ricas fachadas em Arte Nova e outros estilos não menos agradáveis à vista convivem uns quantos arranha-céus pavorosos – repisando o meu post anterior, como é possível destruir um dos maiores exemplos de Arte Nova, como o era a Maison du Peuple, para construir a sem graça Torre du Sablon?; os edifícios do quarteirão Europa (em resumo, vidro a mais, bom gosto a menos); o lixo acumulado nas ruas (numa rua junto ao meu hotel estiveram os mesmos sacos do lixo encostados à parede durante seis dias ininterruptos); excesso de gente nas ruas a pedir esmola.
O que mais me impressionou negativamente foi, precisamente a conjugação Europa e mendigos. 
Percorrendo a Rue du Luxembourg, passando por uns pacatos jardins, avista-se por detrás da fachada da antiga estação, encimada por um relógio, o edifício horroroso do Parlamento Europeu (também conhecido localmente como “capricho dos deuses”). A sua forma e o excesso de vidro não foram o pior da coisa; o pior foi constatar a quantidade de gente que dorme na rua enrolada em papelão na pequena praça à sua frente (perguntaram-me se era gente protestando, mas não vi qualquer sinal de protesto, apenas pobreza).

Neste bairro Europeu, que ganhou terrenos ao bairro Leopold, estão instaladas mais uma série de instituições europeias, entre as quais a Comissão Europeia, no não menos pavoroso edifício Berlaymont. Tudo por aqui está em obras, com mais edifícios de mesmo nível a juntarem-se brevemente à trupe do mau gosto arquitectónico, numa manifestação ostentatória de uma burocracia que não se entende muito bem por que cidadãos foi legitimada e quais representa.

Agora que já escrevi tudo o que pretendia escrever de mal de Bruxelas, vamos aos elogios.
Permanecendo no bairro Europeu e no bairro Leopold, o que safa a coisa má é que por aqui existem sobejos parques mais do que agradáveis para se deixar estar rodeado por edifícios bem bonitos. A área das praças Marie-Louise e Ambiorix são paragens obrigatórias. Do outro lado, depois de se percorrer o Parque do Cinquentenário, numa demonstração de ostentação de outra época mais pujante, fica o Parc Leopold. Se quisermos evitar a vista da fachada do edifício do Parlamento Europeu é só debruçar os nossos olhos no verde da relva e na água do lago.

Mas o mais impressionante de Bruxelas é mesmo a sua praça principal: a Grand Place
Para lá entrar podemos escolher uma das suas sete entradas, mas à partida nenhuma nos prepara para o cenário grandioso desta praça medieval escondida no centro da cidade. As fachadas barrocas e super ornamentadas dos edifícios que rodeiam a praça, com os dourados a dominarem, são uma delícia. A maioria dos edifícios foram construídos entre 1697 e 1705 e eram a morada das várias associações de comerciantes – as guildas – com representação na cidade, como a dos padeiros, dos arqueiros, dos açougueiros, dos cervejeiros, dos costureiros, entre outras, daí os símbolos do universo dessas associações que até hoje vemos nas fachadas, bem como inúmeras estátuas. De lembrar que Bruxelas foi no século XV uma cidade comercial que acolhia mercados prósperos, daí as guildas dos mercadores de sucesso.

Existem aqui também algumas casas que pertenceram a nobres da época. Quase todos os edifícios estão hoje transformados em cafés nos seus pisos térreos. E depois, depois existem aqui, imperiais, outros dois edifícios que quase roubam a atenção: o Hotel de Ville, do século XV, com a sua torre de 96 metros encimada por Saint-Michel, o patrono de Bruxelas, e as suas gárgulas góticas, símbolos da nobreza; e a Maison du Roi, hoje Museu da Cidade, mais novo cerca de 200 anos do que os edifícios vizinhos, na sua característica cor preta e com os seus arcos neo-góticos.

Tive a sorte de ver a Grand Place vazia de instalações de feira, ainda que cheia de gente. Todavia, as fotografias não conseguem captar toda a sua beleza e grandiosidade, sendo vãos os esforços de captar todos os edifícios, quer horizontalmente quer verticalmente. Não havendo ginástica fotográfica possível, que fique então na minha memória a Grand Place por inteiro.

Grandiosas na sua beleza e harmonia são também as Galerias Saint Hubert, três passagens em arcada de estilo neo-clássico (Galeria da Rainha, Galeria do Rei e Galeria dos Príncipes), cujos arcos em vidro deslumbram, as primeiras galerias comerciais da Europa criadas em 1847 pelo Rei Leopold I.
Dois dos maiores flops de Bruxelas são a Rua des Bouchers, junto às Galeria Hubert, um corredor colorido cheio de restaurantes hiper-turísticos, e o Manneken Pis ou “menino pilinhas”, perto da Grand Place, coisa pavorosa onde se juntam e acotovelam dezenas de pessoas para fotografar a estátua minúscula e totalmente desprovida de graça. Melhor olhar antes para a empena que lhe foi livremente dedicada a umas quantas ruas dali.

A zona da Grand Place e vizinha Bourse (a Bolsa, edifício de fachada neoclássica com colunas e estátuas, incluindo alguns trabalhos de Rodin), a uma curta caminhada até St-Géry e Ste-Catherine, com o seu Quai aux Briques, são o coração da cidade, cheio de cafés, sendo um dos  locais para se sair para jantar e seguir pela noite dentro. A Praça de Ste Catherine, onde havia um mercado de peixe quando o rio Senne se deixava ver, é uma excelente opção para se provar as incontornáveis moules et frites, ou seja, os tradicionais mexilhões com batatas fritas.

Quando se caminha por estes bairros, é incrível imaginar que o rio Senne passa por aqui debaixo dos nossos pés, hoje longe da nossa vista, enterrado quer por questões de salubridade quer por questões de expansão urbanística.  

Mudando de direcção, obrigatório é também um passeio pelo bairro de Marolles. Antigo bairro da classe operária, gente afirmativa, a Place du Jeu-de-Balle, principalmente aos sábados de manhã com a sua feira onde tudo se vende, ainda mostra algum do seu carácter antigo. Hoje, porém, o bairro é feito de contrastes. No seu extremo que dá para a Porta de Hall encontramos um interessante projecto de habitação social construído por volta de 1915, o primeiro na cidade. A Cité Hellemans é um conjunto de habitações distribuídas por sete filas muito semelhantes, paralelas entre si, em prédios de tijolo e pedra, com elementos de ferro a lembrar a Arte Nova, e terraços não muito espaçosos. Cada uma das ruas toma nomes das profissões antes exercidas no bairro, como marceneiros, borradores, ourives e outras. Nestas ruas brincam crianças de todas as nacionalidades, pois não só a Cité Hellemans mas todo o bairro de Marolles é hoje lugar de muitos emigrantes. 

As ruas Haute e Blaes, agradáveis e com lojas bonitas e coloridas, levam-nos até ao outro extremo de Marolles. Primeiro passamos pela praça que acolhe hoje um elevador prático mas feio que liga a parte baixa da cidade à alta, onde fica o mega Palácio da Justiça (construído entre 1866 e 1883 este edifício é ainda maior do que a Catedral de São Pedro em Roma), donde se têm uma bonita perspectiva da cidade; e depois chegamos ao Sablon. 

Lugar chique de Bruxelas, onde encontramos lojas de antiguidades e galerias de arte, assim como cafés e todas as melhores lojas de chocolates (a minha preferida é a Pierre Marcolini: pelos bolos, pelos gelados, pelos chocolates, enfim, por toda a sua belíssima apresentação), à Praça do Grand Sablon (onde existe um deslocado parque de estacionamento no flanco dianteiro à sua Igreja) segue-se a Praça do Petit Sablon com o seu delicioso jardim cheio de estátuas. 

Jardins é o que não falta por aqui. Ou continuamos para os Jardins de Egmont, passando pelos seus muros preenchidos com citações da local Marguerite Yourcenar, ou vamos directamente para a Praça e Palácio Real, com o Parque de Bruxelas à espreita. 

O Sablon é, pois, uma boa antecâmara para o ambiente artístico que se lhe segue no território. O Monte das Artes, como é conhecida esta zona mais elevada da cidade, para além do Palácio Real (aberto a visitas e residência oficial da realeza belga, apesar de na verdade a família real hoje em dia habitar em Laeken) é o lugar dos Museus Reais de Belas Artes (inclui o Musee Old Masters, o Musee Fin-de-Sècle e Musee Magritte) e do Bozar (anteriormente designado Palácio das Artes, complexo a caminho da Arte Déco desenhado por Victor Horta no sentido de acolher todas as artes, como o cinema, a arte e a dança), para além de diversos outros museus. 
E para algo completamente diferente, há que não sair de Bruxelas sem tomar o metro até Heysel e depois de nos emocionarmos em frente do seu Estádio (como amante de futebol e sensível a tragédias) seguir até ao Atomium. 

O Atomium é inequivocamente um símbolo de Bruxelas.
Construído como estrutura temporária para a Exposição Internacional de 1958 que então teve lugar na cidade, estas nove bolas metálicas gigantescas unidas por braços tubulares de aço, representando átomos de ferro, pretendiam configurar o progresso que se vivia no pós-guerra e a força, modernidade e futuro de um país, com uma indústria poderosa partilhada com o Luxemburgo (não esquecer que nos anos 50 havia sido criada na Europa a Comunidade do Carvão e Aço, e o ferro e o aço faziam parte da visão de desenvolvimento económico da época). No entanto, o tipo de aço aqui usado foi uma espécie de aço inoxidável, o alumínio, daí o nome Atomium, mistura de átomo com aluminium. 
Foi tão forte a sua presença, arquitectura e simbolismo que permaneceu intacta e perdura até hoje, do alto dos seus 120 metros de altura, depois de ter sido objecto de uma intervenção de restauro em 2006. 

É possível – e concorrida – a visita ao seu interior, onde foi criado um museu que não considero ter muito interesse. Está bem que procura ter uma função educativa na área da energia, mas o espaço expositivo podia ser muito mais evoluído, moderno e interactivo. Passa ainda em revista a sua criação, na tal Exposição Internacional. Valerá a pena pela experiência de estarmos dentro daqueles átomos imensos e tubos que os ligam e pelas vistas fantásticas da cidade, mas por 11 euros?

A Arte Nova em Bruxelas

Outro pretexto para se conhecer Bruxelas e caminhar pelas suas ruas para além da arte mural da banda desenhada é o de ir em busca de exemplos de Arte Nova.

A arte surgida nos finais do século XIX foi breve e não durou para além da primeira década do século XX. Em Portugal, e como já havia escrito em post sobre Aveiro, é sobretudo nesta cidade banhada pela ria que encontramos um bom naipe de exemplos desta arte.
Na Bélgica a Arte Nova entrou em força em Bruxelas. Naquela época vivia-se alguma euforia e o rei Leopoldo II promovia a construção de novos bairros. É percorrendo as ruas dos bairros de Ixelles, Schaerbeek ou Saint-Gilles que ficamos com uma ideia do que esta arte representou para o edificado da cidade. Antes periféricos, hoje estes bairros são parte do coração da cidade e aqui sente-se um ambiente de gentrificação, sendo bairros vividos por diversas comunidades. 
Historicamente a Arte Nova ficou ligada à pujança da burguesia endinheirada que pretendia construir as suas moradias num estilo da época que se queria moderno, numa ruptura com os estilos do passado, ainda que respeitando alguns elementos antigos. Até pela sua brevidade, a Arte Nova pode pois ser encarada como um estilo de transição, à qual se seguiu a Arte Deco.
Toda uma experiência estética, progressista e afirmativa para uma nova burguesia que fizera fortuna recente com o desenvolvimento dos seus empreendimentos industriais e comerciais e tinha poder para encomendar o desenho das suas moradias a arquitectos de talento.
Em Bruxelas, a partir de 1893, dois arquitectos foram decisivos para tornar este movimento da Arte Nova central: Victor Horta e Paul Hankar. Victor Horta tem mesmo um museu que lhe é dedicado, instalado naquela que foi a sua moradia pessoal e atelier em Saint-Gilles.
O que caracteriza então este movimento? É, desde logo, um movimento transversal, não se limitando à arquitectura, mas manifestando-se igualmente nas artes decorativas, na criação de cartazes, na cerâmica, entre outros.
Atendo-nos à sua arquitectura, de sensibilidade humanista e com preocupações de harmonia com a natureza, a Arte Nova caracteriza-se pelo uso de materiais como ferro forjado, vidro, madeiras preciosas e mármore. Nas fachadas é visível a utilização de estruturas metálicas na sua decoração. A atenção posta nos pormenores é evidente e não só nas fachadas, mas também nas portas e seus puxadores, nas rampas de escadas, balaustradas e no interior no mobiliário, lâmpadas e demais objectos. Há um excesso de ornamentação e as linhas e formas denotam alguma sinuosidade, sendo as cores e a luminosidade que se pretende que flua nos interiores de todas as divisões outro aspecto a merecer relevância.
Alguns dos motivos dominantes da Arte Nova são os temas arabescos, a figura da mulher e elementos naturalistas como plantas e animais.
Em Bruxelas a associação urbanística ARAU (http://www.arau.org/en/t/1-brussels-1900-art-nouveau/1) promove visitas temáticas no sentido de se entender as origens, técnicas e características da Arte Nova na cidade.
Alguns exemplos de edifícios em Arte Nova em Bruxelas.

Edifício Old England, hoje Museu dos Instrumentos Musicais, projecto de Paul Saintenoy, construído entre 1898-99.
Este exemplo é incontornável e quase impossível de escapar a qualquer visitante de Bruxelas, tal é a sua localização, bem junto ao Palácio e Museus Reais de Belas Artes.
De seis andares, originalmente dedicados a lojas, a sua fachada frontal cheia de fantasia cativa. É toda envidraçada, num complexo de ferro fundido e aço, em cor preta. Num dos lados do topo tem uma torre feita de ferros entrelaçados.

Maison Cauchie, projecto de Paul Cauchie, construída em 1906, com morada no número 5 da Rue des Francs, para lá do Parque do Cinquentenário. 
Aqui a decoração por meio de esgrafitos na fachada surpreende, com a pintura de diversas figuras femininas no topo e uma só no segundo piso numa pose aparentemente reivindicativa anunciando “Par Nous, Por Nous”.
(sem foto)
Casa Victor Horta, projecto de Victor Horta, construída entre 1898-1901, nos números 23 e 25 da Rue Americaine, em Ixelles.
Aqui ficava o antigo atelier e casa deste arquitecto, agora tornado museu. Não tive oportunidade de visitar o seu interior, que é a maior riqueza desta casa, em especial o uso que o arquitecto faz da luz natural e os pormenores nos corrimãos e mobiliário. 
As fachadas dos dois edifícios contíguos (casa e atelier) são em pedra, mas também é aqui visível o uso do ferro fundido na coluna que suporta o primeiro andar e o uso do vidro no segundo andar.
As janelas em curva são outra marca distintiva.

Loja de têxteis Waucquez, hoje Centro Belga de Banda Desenhada, projecto de Victor Horta, construído entre 1903-06 bem no centro de Bruxelas.
Edifício de dois andares, o estilo em Arte Nova da sua fachada talvez não seja muito óbvio, com recurso ao uso da pedra e vidro e não do metal. O interior deste edifício, o único sobrevivente dos seis edifícios para grandes lojas que Victor Horta projectou, é um claro exemplo de um uso superior da luz nos espaços interiores. São ainda visíveis os elementos em ferro plenos de curvas nas escadas e corrimãos.
 

Maison Saint-Cyr, projecto de Gustave Strauven, construída em 1900 na Praça Ambiorix, no bairro Leopold.
Edifício estreito e alto, este é um exemplo da exuberância que a Arte Nova pode tomar. A sua fachada está profusamente ocupada com um trabalho intrincado de ferro nas varandas com uma loggia redonda no topo. O tom verde claro do ferro contrasta com as linhas quase alaranjadas das janelas em vidro, dando ainda mais alegria e fantasia a este edifício.

Maison Autrique, um dos primeiros projectos de Victor Horta, construída em 1893, no número 226 da Chaussée de Haecht, em Schaerbeek.
Aqui estávamos nos primórdios da arte nova. A fachada é discreta, em pedra branca com as juntas definidas por linhas a vermelho.

Aqui perto, na Avenida Louis Bertrand, encontramos outro exemplo de Arte Nova, com a entrada de um edifício cheia de ferros entrelaçados. 
Numa sua perpendicular, na Rue Josaphat, damos de caras com um Ginásio assinado por Henri Jacobs, topo arredondado com pequenas colunas a sustentá-lo.
Por fim, a Maison du Peuple, obra prima de Victor Horta. A esta poucos de nós lhe pôs a vista em cima, uma vez que foi destruída em 1965 para ser substituída pela incaracterística Torre Sablon. Diz-se da Casa do Povo que era um hino à liberdade de pensamento e criação, denotando as preocupações morais e até humanistas subjacentes à Arte Nova. Criada em 1895 por Victor Horta, a pedido do Partido Operário Belga, este edifício acolhia escritórios, salas de reunião e de espectáculos, em plena comunhão com a vizinha Igreja Notre-Dame-de-la-Chapelle. 
Os protestos contra a sua destruição foram em vão.

Bruxelas, Capital da Banda Desenhada

Se preciso fosse, um bom pretexto para visitar Bruxelas é o tema da banda desenhada.
Para mim, que desde pequena convivi com os livros de Lucky Luke e Michel Vaillant, ao lado dos tios patinhas, e até hoje sou fã de quase qualquer livro em quadrinhos, prefira chamar-se-lhe bd, comics ou novela gráfica, Bruxelas seria sempre um ponto alto na minha decisão de passear por uma cidade.
Por todo o centro da cidade, basta estar atento às paredes e empenas dos edifícios e logo surge um dos heróis da bd. Não precisam de ser originalmente belgas, mas de personagens belgas não nos chegam os dedos de todo o corpo para os contar. Alguns exemplos com Tintin à cabeça, pois claro: Spirou, Quick et Flupke (ou Quim e Filipe), os Estrunfes, Blake e Mortimer, Lucky Luke, Gaston Lagaffe, Ric Hochet, Thorgal, Largo Winch, Le Chat e tantos mais.
Face a todo este património, é bastante óbvio e necessário que tenha aparecido em 1991 um projecto de arte mural que se propôs a pintar uns quantos edifícios inspirando-se precisamente em grandes autores da banda desenhada. Tanto serve de homenagem a estes autores e seus (nossos) heróis, como é uma excelente forma de seguirmos pelas ruas de Bruxelas, afastando-nos dos lugares mais batidos, passando a conhecer espaços que de outra forma talvez não déssemos por eles. 
Um exemplo: numa visita rápida a Bruxelas, porquê passar para além do  Quai aux Briques, em Santa Catarina, e seguir até ao Quaix des Péniches? Para ver para crer que há ainda um bocado do rio Senne em Bruxelas, materializado no canal de Charleroi? Não. Para ver Corto Maltese, do italiano Hugo Pratt, nas paredes de um edifício deste cais. Corto, meu herói supremo nestas coisas da bd.
Corto Maltese (Hugo Pratt), Quai de Péniches, 2009
Mas o primeiro mural a aparecer na cidade foi o de Broussaille, inaugurado logo em 1991 segundo um projecto original de Frank Pé. É provavelmente um dos mais conhecidos e até talvez já um dos símbolos de Bruxelas, os dois amigos que caminham felizes, numa parede da Rua du Marché au Charbon, bem perto da Grand Place.
Broussaille (Frank Pé), Rua du Marché au Charbon, 1991
De todos os murais, o meu preferido será talvez o de Tibet & Duchateau, com o personagem Ric Hochet, na Rua de Bon Secours, igualmente perto da Grand Place. Pena que, à semelhança de muitos outros, este mural esteja rabiscado.
Ric Hochet (Tibet & Duchateau), Rua de Bon Secours, 1992
Como não podia deixar de ser, Lucky Luke, Asterix e Blake e Mortimer também marcam presença neste itinerário de arte mural da banda desenhada.
Lucky Luke (Morris) e os assaltantes irmãos Dalton na Rua de la Bouanderie, 1992
Asterix e Obelix (Urdezo e Goscinny) também na Rua de la Bouanderie, dentro do ringue de um jardim de infância, 2005
Blake e Mortimer (Edgar P. Jacobs) na Rua du Petit Rempart, perto de um estranho bloco de edifícios abandonados, 1997
Hergé, esse, não podia faltar. 
Quer com Tintin, 
Rua de Le Etuve, 2005
Gare du Midi
Quer com Quick et Flupke, Rue Haute, bairro de Marolles, 1995 
No Marolles encontramos ainda:
Blondin e Cirage (Jijé), Rue des Capucins, 1998
Odilon Verjus (Laurent Verron), também na Rue des Capucins, 2004
(Josephine Baker)
Existe uma série de entidades que se propõem a guiar o curioso por itinerários de bd na cidade. No entanto, parece-me que não há nada melhor do que fazer o trabalho de casa e visitar aqueles murais que se quer mesmo ver e deixar que o acaso dos nossos passos nos deixe frente a frente aos outros que nos irão, certamente, surpreender em igual medida.

Qualquer apaixonado ou tão somente curioso da banda desenhada não deve perder uma visita ao Centro Belga da Banda Desenhada. Ainda para mais, o edifício que acolhe este museu é um dos muitos exemplos de arte nova que ainda persistem por Bruxelas. Este Centro Belga da Banda Desenhada abarca esta arte de um ponto de vista internacional, procurando mostrar que já desde o tempo da pré-história os homens se expressavam visualmente nas paredes rochosas das cavernas. Mostra-nos também, no início da sua exposição permanente, a influência que o americano Winsor McCay, em especial com a sua personagem Little Nemo, criada no princípio do século passado, veio a ter junto dos autores que se lhe seguiram. Para além de uma mostra dos vários temas a que a bd tem vindo a dedicar-se, é ainda possível vermos várias técnicas utilizadas pelos seus autores para chegarem até ao produto final. Depois, existe o espaço Hergé (Tintin), o espaço Peyo (Estrunfes) e exposições temporárias, para além de um centro de documentação e uma livraria.

Outro ponto obrigatório, mas este implicando uma fuga de Bruxelas, é a visita ao Museu Hergé. Em Louvain-la-Neuve está instalado desde 2009 o Museu Hergé, num projecto arquitectónico de Christian de Portzamparc (Prémio Pritzker em 1994). De Bruxelas a Louvain-la-Neuve são cerca de 60 minutos, com frequência de um comboio por hora. Esta cidade foi criada após os conflitos académicos linguísticos entre flamengos e francófonos na cidade universitária de Louvain nos anos 60 do século passado. Hoje é uma cidade completamente planeada, com residências universitárias e blocos correspondentes às várias faculdades. 
O Museu Hergé, a uma curtíssima caminhada desde a estação do comboio e praça principal da cidade, parece que não é muito popular entre os locais, sendo visitado sobretudo por forasteiros. De qualquer forma, a sua arquitectura é muito interessante, futurista até. 
O museu tem três pisos visitáveis, incluindo espaço expositivo, café e livraria. Dedicado à vida de Hergé (1907-1983), Georges Remi de seu nome (RG são as iniciais do seu nome ao contrário), este belga entrou definitivamente na história ao ter criado a personagem de Tintin, o intrépido jornalista, sempre pronto para aventuras um pouco por todo o mundo e até na lua – chegou lá primeiro que Neil Armstrong.
Hergé começou por criar a personagem Totor, um escuteiro como ele. Muitas outras se seguiriam, mas Tintin tudo absorveu. Neste museu, para além das suas personagens, com especial incisão no mundo de Tintin e países por ele visitado, vemos também objectos do mundo de Hergé e diversos vídeos. A finalizar, as pinturas que Andy Warhol realizou de Hergé.