Ciudad del Este

Onte fui ver o Miami Vice ao cinema.
Filme sobre polícias, informadores infiltrados, traficantes.
O demais não vem agora a propósito. Vem, sim, a propósito, o facto de no filme aparecerem imagens aéreas, as vistas de pássaro, das Cataratas de Iguazu. Com água. Água em abundância a acompanhar a exuberância da floresta que envolve aquela falha na terra.
Por estas bandas faz-se a fronteira entre 3 países: Paraguai, Brasil e Argentina, e 3 cidades, respectivamente: Ciudad del Este, Foz de Iguaçu e Puerto de Iguazu.
Destas cidades, apenas a última é encantadora. A argentina Puerto Iguazu é também a mais pequena. A calma constante do chilrear dos pássaros é quebrada apenas pelos visitantes que acorrem ao Parque Nacional (em menor quantidade do que no lado brasileiro, uma vez que apesar das Cataratas ficarem fisicamente em território argentino é no lado brasileiro que fica a vista deslumbrante deste fenómeno da natureza) e aos casinos (que não existem no lado brasileiro). Mesmo assim, as suas ruas de terra batida e a ausência do movimento louco das grandes cidades vizinhas têm tudo a ver com a selva Guarani, tão presente no espírito desta cidade, tão distante do das outras.
Ao invés, Ciudad del Este seria uma cidade para esquecer caso fosse eu da opinião que existem cidades para esquecer. De qualquer forma, de todos os lugares onde já estive, é esta cidade paraguaia (a 2.ª maior do país atrás da capital Assunção) que me fez ficar perto de rever aquela opinião.
O filme Miami Vice mostra-nos, igualmente, imagens de Ciudad del Este. Da sua confusão abarracada, das suas ruas de terra batida, sujas, inundadas de caixotes da mercadoria que por lá se vende. E lá vende-se de tudo. E compra-se de tudo. É a terra, por excelência, da muamba, como diriam os brasileiros. Do contrabando, como dizemos nós, os portugueses.
Ciudad del Este é a 3.ª maior zona de tax free do mundo, só superada por Miami e Hong Kong. Aqui os negociantes fazem, ou julgam fazer, bons negócios, obtendo os produtos, autênticos ou copiados, por uma pechincha. Na curta cena do filme apanha-se bem o espírito da coisa.
Para se chegar à cidade vindo do lado brasileiro, atravessa-se a Ponte da Amizade – de um lado o Brasil, do outro o Paraguai – e a amizade entre os dois é mesmo necessária, pois se de todo o Brasil chegam muambeiros desesperados por arriscar na compra de mercadoria que esperam que lhes garanta a sobrevivência ao poder vir a render muito mais no seu país, pelo lado paraguaio a dependência da economia do vizinho Brasil é quase total.
Atravessar a ponte está mais para experiência de filme do que de vida real. Para evitar o caos absoluto é melhor fazê-lo a pé. Assim, no meio de um caos “apenas” quase absoluto, feito de encontrões e tropeções nas embalagens da mercadoria aberta às pressas e nas muitas personagens que compõem este “outro mundo” do sub-comércio, chega-se ao paraíso do consumo. Nada que ver com o ambiente das grandes feiras de Lisboa e arredores, igualmente feito de empurrões e de pregões que mereciam um roteiro especial. Aqui o cenário é de 3.º mundo mesmo. Antes de poisar por aquelas bandas, não havia visto nada igual e imaginava que semelhante cenário só existia nos filmes. Ontem, ao ver Miami Vice, recordei que, afinal, não existe apenas nos filmes e que estes apenas se limitam a retratar a realidade.

O arrependimento: o deslumbre do caos foi tal que nem houve tempo, coragem, ambição para o documentar em fotos.

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