Um realizador – Jia Zhang-ke

Jia Zhang-ke é um dos mais estimulantes e aclamados realizadores da actualidade. Nascido em 1970, em Fenyang, província de Shanxi, China, a sua filmografia não é fácil de qualificar. Documentário ou ficção? O que é certo, porém, é que todos os seus filmes partem da realidade actual para se focarem numa análise critica da China contemporânea, interligando histórias acerca do passado e do futuro, velho e novo, tempo e espaço e mobilidade e imobilidade. São estas contradições e as tensões entre elas que nos mostram a China de hoje pelos olhos de Jia Zhang-ke, uma China distante, desconhecida e nem sempre compreendida pelo mundo ocidental. No entanto, Jia Zhang-ke é mais admirado e respeitado no ocidente do que na própria China, onde também nem sempre é compreendido e aceite. A propósito de uma comparação entre a China e a Europa e da forma como é cá recebido, o realizador diz-nos que na Europa valorizamos o seu trabalho a nível estético e que na China apreciam apenas a história e a qualidade do drama.


As atenções voltaram-se para Jia sobretudo com filme “Sanxia haoren” (Natureza Morta), premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2006. O filme trata da questão – real – da construção da Barragem das Três Gargantas, uma barragem hidroeléctrica no rio Yangtze cuja construção implicou a inundação e correspondente desaparecimento de inúmeras vilas e aldeias. Foi necessário o deslocamento e realojamento de mais de um milhão de habitantes. Junto com este drama colectivo, Jia foca-se na história de um indivíduo que volta para procurar a sua ex-mulher e filha, que não vê há anos. Mas o ponto essencial e a mensagem que nos é transmitida é esta ideia chinesa de hoje de que há que caminhar para um lugar melhor, mesmo que isso signifique o sacrifício do presente. Este é um cinema meditativo, o retrato de uma nação a caminho acelerado para o capitalismo, mas com hábitos comunistas, e que não tem pudor em mandar à urtigas séculos de história.


Antes deste filme, Jia havia já filmado “Xiao Wu“, em 1998, a sua primeira obra. Conta a história de um ladrão de carteiras habilidoso, mas que vai perdendo a consideração dos amigos e da família. Interessante nestes filmes é a presença da música, uma constante, seja no rádio, seja na televisão, a música popular faz-se ouvir. 


Do ano 2000 é “Zhantai” (Plataforma), o filme de Jia que menos gostei, para além de longo demais. Trata de uma trupe teatral instalada na China profunda e onde dominam ainda os preceitos maoistas, vivia-se então o comunismo nos anos 80.


Shijie” (O Mundo), de 2004, é um filme mais vivo e é passado no Parque Mundial de Pequim, um lugar verdadeiro, mas que mais parece (apenas) coisa de filme. Neste lugar perto de Pequim encontramos a Torre Eiffel lado a lado com o Big Ben, a Torre de Pisa, as Pirâmides do Egipto ou o Taj Mahal. O ponto deste filme é a cultura da cópia que rodeia a China adepta de uma arquitectura da duplicação. Questões como a identidade, a autenticidade, o urbanismo e a globalização são aqui abordadas, bem como o poder desta nova China. O mote deste Parque real é qualquer coisa como “dê-nos um dia e nós dar-lhe-emos o mundo”. A China, o Império do Meio, como centro do mundo no século XXI. Economicamente poderosa, a competição com o ocidente faz com que esta China tome o objecto e até o símbolo ocidental para si e o faça seu. Neste filme a questão da mobilidade, designadamente as migrações, é também focada. Mostra-nos a vida dos trabalhadores deste Parque, quase todos eles migrantes de algum canto da China, e suas relações e conflitos num mundo de imitação.

“Er shi si cheng ji” (24 City), de 2008, foi o único filme de Jia Zhang-ke que não vi.


Tian zhu ding” (China – Um Toque de Pecado), de 2013, teve estreia nos cinemas portugueses e colocou definitivamente Jia Zhang-ke no centro das atenções cinematográficas (não pela estreia em Portugal, claro). São quatro histórias baseadas em factos reais e passadas em diferentes províncias da China que se entrecruzam. A temática comum a todas elas é a tradição do passado e a chegada do progresso e do capitalismo. Apesar de ao início vermos a deslocação em massa dos chineses de volta às suas terras natais e famílias para a passagem do Ano Novo Chinês e, em especial, de um homem deslocado e amargurado, Jia pergunta-se porque é que as pessoas estão a ficar cada vez mais distantes umas das outras. O país acelera rumo ao desenvolvimento, mudando drasticamente, a modernidade chega (vêem-se telemóveis e internet e adolescentes a fazerem de tudo para os ter), mas ao mesmo tempo está longe da maioria dos chineses. O deslocamento é constante, com os personagens sempre em busca de algo, seja trabalho, dinheiro, justiça ou amor. A violência marca presença e faz Jia questionar-se o que crescerá efectivamente na China, a economia ou a violência?


Shan he gu ren” (Se as Montanhas se Afastam), de 2015, percorre 25 anos de vida na China, iniciados na passagem para este milénio. Ou seja, quinze anos de um passado real mais dez anos de um futuro imaginado. O filme vem dividido em três partes, cada uma delas correspondendo aos anos de 1999, 2014 e 2025. Montanha, Rio, Amizade. Três conceitos que foram resumidos por Jia numa frase: “velhos amigos são como as montanhas e os rios”. Neste filme procura-se declaradamente uma interligação entre passado, presente e futuro. Este é um melodrama e uma obra bem diferente das anteriores, embora a temática de Jia, já se vê, seja a mesma: o rumo que a sociedade chinesa contemporânea toma. A música Go West, dos Pet Shop Boys, uma presença constante ao longo de todo o filme, é utilizada de uma forma irónica e parece querer indicar o caminho, pelo menos para alguns. Comunismo ou capitalismo? 
Três amigos formam um triângulo amoroso. A ela guia-a o amor, a um a honra, a outro o dinheiro – visível no nome que dá ao seu filho, “Dollar”.
A final, e porque este é um melodrama, ela não cumpre o que sonhou, um sofre a degradação física de anos de trabalho duro, outro o desenraizamento na (aparente) vida de sucesso na Austrália. O desencanto é a tónica comum. Bem como o deslocamento (o afastamento do título, “Se as Montanhas se Afastam”), seja espacial, materializado nos carros, comboios, helicópteros e aviões que vamos vendo desfilar, seja temporal, os tais 25 anos que medeiam o início e o fim do filme. A passagem do tempo. Go West. 
Mas Go West não está sozinho como música marcante aqui. Como em todas as obras de Jia Zhang-ke, a música desempenha um papel essencial e inesquecível ficará também a música de Sally Yeh, 珍重 (Take Care).

Para se entender mais acerca de Jia Zhang-ke, realizador irreverente destes filmes politicamente e socialmente comprometidos onde o questionamento da contemporaneidade chinesa é uma constante, assistir ao filme do brasileiro Walter Salles, “Jia Zhang-ke, um homem de Fenyang”, pode ser um bom ponto de partida ou complemento.

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