Filmes chineses

Alguns filmes chineses, divididos por três temáticas clássicas: wuxia, históricos, gangsters.

Artes Marciais – Wuxia
A cinematografia chinesa de artes marciais tem tido (bom) acolhimento e reconhecimento no ocidente. Artes marciais é sinónimo de kung fu, com Bruce Lee e Jackie Chan como cabeças de cartaz, mas também de wuxia.
Não falarei dos filmes de Bruce Lee e de Jackie Chan, de que não sou conhecedora, e apontarei alguns filmes de wuxia a que vale a pena assistir.
O wuxia é um estilo clássico de filmes chineses, com influência da literatura, onde se mistura artes marciais e luta de espadas num mundo de fantasia. Sim, precisamente, falo daqueles filmes onde se veem os artistas a voar ou a caminhar sobre os ramos e as folhas das árvores.



Começando por alguns dos mais recentes, se “Herói“, de Zhang Yimou, de 2002, é já um clássico, acrescento-lhe, naquela base do “se gostas disto também gostarás daquilo”, o “A Assassina“, de Hou Hsiao-Hsien, de 2015. Em ambos, os confrontos entre os personagens são puro bailado, numa junção de dois elementos essenciais da cultura chinesa, a espada e a caligrafia. No caso do “A Assassina”, a rapariga justiceira fria e implacável enche o écran e mostra, por uma vez, alguma compaixão. A história não interessa tanto; o que fica é um filme esteticamente belíssimo, uma obra-prima da fotografia e da pintura, não estivéssemos nós diante de um filme.


Não falarei dos filmes de Bruce Lee, mas falarei de Ip Man, o mestre de kung-fu seu mentor. Dois filmes sobre este personagem real. O primeiro filme, “Ip-Man“, de Wilson Yip, de 2008, a par das cenas de luta tem um enquadramento histórico precioso. Ip Man nasceu ainda no século XIX, época em que os manchus governavam a China. Passou pela guerra civil entre nacionalistas e comunistas e assistiu à cruel invasão dos japoneses na década de 30. Bem nascido, passou fome, mas neste filme mostra que não se rendeu ao domínio japonês. Depois acabaria por rumar a Hong Kong, onde terminou a sua vida. O segundo filme, “O Grande Mestre“, de Wong Kar-Wai, de 2013, apesar de na época muito aguardado, foi uma desilusão. A estética wongkariana está lá toda, as lutas são de uma beleza suprema, com os pingos da chuva a desempenharem um papel de actor principal. Mas onde falha é precisamente no enquadramento histórico, onde o realizador claramente não quis entrar, apenas passando pela rama. 

Outros filmes dignos de registo são o mítico “A Tocuh ou Zen”, de King Hu, de 1971, o “The Blade”, de Tsui Hark, de XXX, e os mais recentes “O Tigre e o Dragão”, de Ang Lee, de 2000, e o “Segredo dos punhais voadores”, de Zhang Yimou, de 2004.


Históricos
Os filmes históricos / épicos chineses que indicarei em seguida dão a conhecer a China do século XX, quer de um ponto de vista social quer político, sendo, assim, uma boa forma para se entender melhor o país de hoje, ainda que esse país esteja muito diferente.




Imprescindíveis são o “Viver“, de Zhang Yimou, de 1994, e o “Papagaio Azul“, de Tian Zhuangzhuang, de 1993. Ambos se debruçam sobre as vidas das gentes comuns no período maoista (anos 40 aos anos 70), nomeadamente as consequências (hoje) irreais do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural. Outro filme que atravessa quase todo o século XX, detendo-se na luta nacionalista e comunista e posteriores ilusões e desilusões é o “The Golden Era“, de Ann Hui, de 2014, longo filme sobre a escritora Xiao Hong que, saída da sua Manchúria, parte para a China central em busca da sua liberdade amorosa e artística em tempos duros.


Atravessado igualmente a mesma época, “Adeus Minha Concubina“, de Chen Kaige, de 1993, mostra-nos a vida de uma trupe da Ópera de Pequim, com destaque para a sofrida vida da sua estrela. 


Esposas e Concubinas“, de Zhang Yimou, de 1991, dá-nos a conhecer a realidade de uma China tradicional, as várias mulheres de um só homem, todas elas vivendo no mesmo espaço e competindo entre si pela atenção do seu senhor e pelo maior favorecimento do filho de cada uma delas. 


Por último, um épico de grande sucesso internacional, tanto de público como de crítica: “Red Cliff“, de John Woo, de 2008. O século XX era ainda uma longínqua miragem nesta história verdadeira da batalha de Red Cliff, que aconteceu no fim do domínio Han na China, por volta do século III a.C. Mostra-nos cenários e paisagens fabulosas, e encantamo-nos pelas estratégias utilizadas por Zhuge Liang para vencer o reino do norte.


Gangsters
No nosso imaginário, Hong Kong é ainda sinónimo de tríades, sociedade secretas, gangsters.


Não faltam, pois, filmes sobre esta temática. Um clássico é o “A Better Tomorrow” (em Portugal, “Crime em Hong Kong”), de John Woo, de 1986. Num filme de acção que mostra a violência que atravessa o sub-mundo do crime, os valores da amizade e a prioridade à família sobrepõe-se a tudo o mais. A lealdade é rainha. 

Johnnie To explora os mesmos temas em quase todos os seus filmes. “Election 2“, de 2006, no entanto, mostra como por vezes essas lealdades são flutuantes e dúbias e que, uma vez no mundo do crime, sempre no mundo do crime. 
Este realizador de Hong Kong é o meu preferido num género de filme – acção com armas e algumas artes marciais – que, à partida, não faz o meu género. Os seus filmes decorrem maioritariamente em Hong Kong, em especial Kowloon, e também Macau – no “Exiled” (2006) vemos carros com matrícula portuguesa. São um hino à amizade. Em quase todos o grupo surge como herói. Não há um herói individualizado, antes um conjunto de homens – sempre homens – que se encontra em crise face a um dilema entre dois deveres: o da fidelidade ao seu grupo que muitas vezes já vem de infância e o da fidelidade ao chefe da máfia. Há violência, mas esta violência é esteticamente bela, uma espécie de ópera com acrobacias, um ballet. Não é necessário disparar muitos tiros, basta a forma como as personagens se mexem, a forma como vão aparecendo duplicadas por entre os espelhos, para ser tudo muito apelativo. O uso contínuo do slow-motion faz as cenas durarem mais e vemos os corpos suspensos no tempo, numa coreografia que, de todo, não é muito comum em filmes de acção. 



Para além dos já citados Election 2 e Exiled, de Johnnie To destaco ainda “The Mission” (1999) e “Sparrow” (2008). Este último é o meu preferido, por sinal aquele que menos pode ser identificado como filme de acção puro e duro. É sobre um grupo de carteiristas simpáticos e tão discretos que o roubo das carteiras não devia dar direito a uma pena mas antes a um bilhete para se assistir a um espectáculo, tão belos que são os seus gestos.


E porque o mundo cinematográfico do sub-mundo de Hong Kong vai para além de Johnnie To, eis ainda “Infernal Affairs” (em Portugal, Infiltrados), de Andrew Lau, de 2002, o qual no mostra a estreita e promíscua ligação entre membros da polícia e membros das tríades. Este filme inspirou Martin Scorcese para o seu “Entre Inimigos”.

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