Urbanized

Urbanized é um filme / documentário de 2011, de Gary Hustwit.
Pretende – e alcança-o – mostrar-nos como estão e para onde vão as nossas cidades, um pouco por todo o mundo, oferecendo-nos exemplos concretos de ideias introduzidas aqui e ali para melhorar as condições de vida nesses espaços.
A ideia central é mesmo essa – as cidades devem servir os seus habitantes de uma forma equilibrada e sustentável, sem perdermos de vista que elas são competitivas e buscam ganhar habitantes umas às outras. Este documentário faz-nos pensar, olhando para o futuro, mas também tendo ciente o passado, numa constante adaptação aos desafios que se colocam no presente, como são o caso das alterações climáticas e o aumento de população. Sobretudo, algo que não estará muito na nossa mente, a possibilidade das cidades se perderem e desaparecem. Detroit é disto um excelente exemplo. 
Logo ao início do documentário somos remetidos para a ideia de que as cidades devem ser sinónimo de planeamento e uma obra multidisciplinar resultado das valências de políticos, arquitectos, engenheiros, entre muito mais técnicos. No entanto, entre os vários exemplos apresentados concluímos que a participação dos cidadãos é fulcral e cada vez mais levada em conta nos nossos tempos. Nós, habitantes das cidades, somos pois parte do processo de decisão e, logo, da solução para encontrar espaços que nos sirvam melhor.
Factor essencial para se compreender a questão é o de que a percentagem de habitantes nas cidades não pára de aumentar. E nem todos eles vivem nas melhores condições. Em Mumbai, por exemplo, há hoje tantos habitantes a viver em favelas como toda a população de Londres e em 2050, quando se estima que a cidade indiana ocupará o posto da maior do mundo, terá um número de habitantes em favelas equivalente aos da população de Londres e Nova Iorque juntas.
No entanto, a percepção da necessidade e utilidade do saneamento básico não será a mesma em Mumbai da que temos nestas duas cidades ocidentais. Naquela, uma sanita para 50 pessoas já cumpre os requisitos e os poderes da administração local não estão muito interessados em construir mais sanitários com receio de que isso encorajará mais migrantes a acorrem à cidade.
De Santiago do Chile é nos oferecido um exemplo de habitação social diferente. A localização escolhida é, surpreendentemente, boa, perto de escolas, de transportes e do trabalho dos seus habitantes. Mais surpreendente é a opção por um design participativo, colocando à escolha dos interessados, por exemplo, água quente ou uma banheira. Mais surpreendente ainda – e o carácter informativo e educativo deste documentário é aqui bem visível, confrontando-nos com a diferença de realidades – a maioria opta pela banheira, pois sempre se habituou a não ter privacidade na hora do banho e agora deseja-a e, por outro lado, não teria dinheiro para pagar o gás caso optasse pela água quente. Os habitantes deste bairro social vão, assim, a tempo, construindo as casas a seu gosto e possibilidades e de acordo com as prioridades de cada um.
As cidades foram surgindo e surgem por uma série de razões, ou porque estão perto de um porto ou por razões logísticas. A industrialização, todavia, foi um factor de crescimento brutal das cidades, e tal crescimento nem sempre correspondeu às necessidades de salubridade e habitabilidade. 
O Barão Haussmann, na segunda metade do século XIX foi decisivo na mudança de paradigma, com a reconstrução de Paris, abrindo grandes boulevards, jardins e parques e aumentado os níveis de higienização urbanos. 
Quase um século mais tarde, o conceito de cidades jardins emergiu, aliado ao modernismo, e cidades como Brasília chegaram (até hoje o desenho da nova capital brasileira é discutido – à parte do documentário em apreciação ler recente artigo de Benjamin Moser, “Cemitério da Esperança”, pela editora Cesária). Oscar Niemeyer, arquitecto de alguns muitos ícones da cidade, mas não autor do plano urbano (a cargo de Lúcio Costa), gostava de realçar que arquitectura é inovação e que a surpresa é um elemento chave da arte.
Deixando implícito que o automóvel é indispensável para as deslocações em Brasília, o documentário passa a analisar o impacto do automóvel nas cidades, seguindo com um exemplo das políticas de transportes introduzidas em Bogotá nos últimos anos: autocarros com vias exclusivas, bem como para bicicletas e pedestres, com o carro e o estacionamento a ficarem em segundo plano.
Em Copenhaga, por sua vez, 37% das deslocações para o trabalho são efectuadas em bicicleta, cujo uso duplicou em 10 anos. A defesa da bicicleta passa por esta não poluir, manter os cidadãos  em forma e não ocupar espaço. Para que a sua utilização não seja perigosa optou-se por deslocar o estacionamento automóvel da berma para um género de segunda fila, funcionando assim este estacionamento como uma barreira de segurança para os ciclistas.
Questão essencial é conhecer as pessoas. Partindo daí pode-se pensar na transformação de lugares pós industriais em algo que as pessoas gostem. O exemplo dado recorre a Nova Iorque e a uma linha de comboio desactivada. A sua adaptação a um novo fim mostrou as diferenças de opinião entre projectistas e urbanistas, entre ver a cidade de cima ou de baixo, do olho da rua. A questão é que todo o espaço físico urbano é uma estrutura social.
Fenómenos que não podem ser negligenciados são os da fuga das pessoas do centro das cidades, levando a uma sub-urbanização – não tanto fuga para os subúrbios, mas antes uma expansão das cidades, com casas todas iguais e com uma distância maior percorrida de carro. O exemplo é de Phoenix. Pior é o exemplo de Detroit – imagem brutal é a do comboio que anda tempos e tempos pela cidade sem se ver viva alma. A decadência da indústria automóvel na cidade levou à sua implacável desertificação e inevitável pobreza de muitos dos seus habitantes. Mas se as cidades podem ter (quase) um fim, as suas comunidades possuem a grande capacidade de se adaptarem e, juntando sinergias, criarem uma espécie de urbanismo auto organizado, de iniciativa privada, lançando mão de, por exemplo, hortas comunitárias para sua subsistência.
Outras cidades, mais pujantes, competem hoje por pessoas e investimento, contratando arquitectos estrelas e dando ao mundo novos ícones arquitectónicos.
Afinal, este é o século para os amantes das cidades.
Não esquecendo que a ideia de cidades do futuro – estará o futuro em África e Ásia? – muda numa geração. O mundo está cheio de desafios e promessas e cidades rima com oportunidades.

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