XXI, Ter Opinião

Ao número 4 a revista da Fundação Francisco Manuel dos Santos, XXI, Ter Opinião (https://www.ffms.pt/xxi-ter-opiniao/2015/4), editada no princípio deste ano, é inteiramente dedicada às cidades. 
Aborda em artigos sempre excelentes diversos temas hoje indissociáveis do urbanismo como o são, desde logo, o planeamento, a arquitectura, a política, a demografia e o turismo. 
O grafismo desta publicação é muito bonito, facilmente inteligível nos quadros que apresentam os números relativos aos temas, possuindo ainda fotos acertadas e umas ilustrações belíssimas. Em diversos artigos são nos sugeridas leituras e/ou filmes que possamos acrescentar ao nosso conhecimento.

Porque, como logo se refere no editorial a cargo de António José Teixeira, as cidades são hoje competitivas, disputando o estatuto da melhor para se viver, tal só pode ser alcançado se elas forem centros de poder que assentem não tanto nas suas infra-estruturas, mas mais no seu capital humano, oferecendo mais ideias e conhecimento, ou seja, mais formação e educação.
O planeamento é parte indispensável do processo de urbanização. Como não podia deixar de ser, é-lhe dado enfoque nesta revista dedicada às cidades. No entanto, no pensar previamente o espaço público não há uma receita – antes há que inovar e experimentar. Por isso vem tão a calhar o artigo que recorre à visão e sonho de um punhado de jovens arquitectos para nos despertar a curiosidade sobre a (sua) cidade imaginada.
Incontornável é o constante fazer política quando habitamos as cidades. Começa no planeamento,  na definição das opções dos poderes públicos, e segue com a participação na coisa pública que cada vez mais se espera que nós, habitantes das cidades, tenhamos. Como dois exemplos desta participação é analisado o papel desempenhado pelas redes sociais e pelos movimentos anti-crise.
O turismo, em especial em Portugal, é um factor que potencia a visibilidade dos seus espaços urbanos (e não só). A competição para ganhar um maior número de visitantes também passa por aqui e o desafio está entre preservar a identidade dos espaços ao mesmo tempo que se consegue regenerar e inovar, na tentativa de se apresentar um destino distinto dos demais.
Quanto se fala que cada vez mais e mais pessoas acorrem e continuarão a acorrer às cidades, a demografia é uma ciência imprescindível para se entender o fenómeno da vivência urbana. 
As gerações sucedem-se e os problemas vão-se colocando: como fazer face ao envelhecimento e como apoiar a natalidade.
Do meu ponto de vista, um dos artigos desta revista que mais despertam consciências, no sentido de nos fazer pensar e colocar em causa aquilo que nos costuma ser apresentado como uma verdade incontestada, é o de Maria João Valente Rosa, “Urbanização: contraceptivo à fecundidade?”. Diz-nos a socióloga especialista em demografia que “o debate sobre a natalidade é essencialmente ideológico. À escala global, não há um problema de fecundidade. Nos países mais ricos, a diminuição dos nascimentos veio a par com o desenvolvimento social e económico” continuando que “quanto aos nascimentos, dependendo do lugar do planeta em que nos situamos, assim falamos da sua falta – se estivermos do lado das regiões desenvolvidas -, ou do seu excesso – se estivermos do lado dos países mais pobres. […] Assim, a verdade é só uma, porque o planeta também o é: não há falta de crianças. O que existe é um desequilíbrio demográfico profundo, tal como também um profundo desequilíbrio social e económico entre regiões.”. Diz ainda acreditar que “talvez as razões que levam a esta excessiva angústia da Europa e de Portugal com o reduzido número de nascimentos se prendam com a inevitável perda de protagonismo demográfico destas regiões à escala global do mundo e das culturas autóctones. Não esqueçamos que a Europa representava 1/5 da população mundial em 1960 e hoje só equivale a 1/10.” Defende que os fluxos migratórios podem ser uma solução para o reequilíbrio   populacional, mas segue que nesta “inquietação demográfica” está em causa sobretudo a questão ideológica ligada à “perpetuação, a todo o custo, do Homem europeu”. 
A este propósito – o desequilíbrio demográfico – penso que faltaria a esta revista um artigo autónomo que se dedicasse a analisar os movimentos migratórios a que hoje se assiste à escala global e que, com defende esta autora, talvez nos pudesse ajudar a combater esta situação.
Por outro lado, informa ainda Maria João Valente Rosa, a quebra da fecundidade está ligada às cidades e à liberdade individual que estas passaram a assegurar – a um desenvolvimento social e mental dos indivíduos, em suma.
Nesta revista não falta ainda a visão de Álvaro Siza face a vários tópicos (modas, talento, luxo, crise, interesses e ignorância, entre outros), uma impensável comparação entre as cidades do Rio de Janeiro e de Montemor-o-Novo por Alexandra Lucas Coelho, que nelas habitou em momentos seguidos, e dois testemunhos mais íntimos das metrópoles de Tóquio (Ricardo Adolfo) e São Paulo (Ricardo Carvalho), ambos com ilustrações fantásticas de André Carrilho.
Há ainda espaço para uma reportagem que não nos deixa quietos e, ao mesmo tempo, cuja leitura é acompanhada com um sorriso nos lábios: “O último palmo de Lisboa”, a caminho de Loures as ovelhas convivem entre as vias rápidas e os prédios. A Ameixoeira a duas velocidades, entre pastores e a nova classe média-alta.
O que se pretende é ideias para as cidades. Um futuro aberto à imaginação, onde todos não deixemos de ter lugar.

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