Japão – Nara – 5.º dia

 


A anunciada chuva chegou neste dia. E fez questão de ficar até ao fim. Uma chatice, esta, a de ter de passear à chuva. É desagradável e a paisagem não tem o mesmo encanto. Nara merecia outra cor, até porque os seus templos de madeira escura contrastam bem é com céu limpo. Seja como for, de pés encharcados o dia todo, lá caminhamos até termos visitado tudo o que nos havíamos proposto.

Nara fica a menos de uma hora de comboio rápido desde Kyoto e as suas maiores atracções podem ser visitadas num dia. Esta era a capital antes de Heian / Kyoto e, tal como esta, inspirou-se na capital chinesa de Chang’an. Planificação urbana no princípio do século VIII era coisa que provavelmente os europeus nem suspeitavam, mas os japoneses sabiam de quem copiar as ideias e adaptá-las de forma magistral, muitas vezes superando até o original. A capital foi transferida de Nara para Kyoto não só pelo antigo costume shintoista de se mudar o local da capital aquando da morte do imperador, mas também porque o budismo, em especial um determinado monge, vinha ganhando uma influência excessiva na corte. Contando o meio da história, há que dizer que mesmo no período Heian o budismo não cessou de florescer. O que é certo é que foi sobretudo no período Nara que quem tinha o poder mais fez para que o budismo, que havia sido introduzido no Japão há cerca de 150 anos, fosse religião da corte.

O que se vê hoje caminhando pela área junto ao Parque de Nara, são templos budistas, sim, mas também muitos santuários shintoistas. Comunhão perfeita. Destaque para um de cada família: o Todai-ji e o Kasuga Taisha.


Menção honrosa para o pitoresco pagode do Kokufu-ji e para os mais de mil gamos, que antigamente se diziam ser os mensageiros dos deuses, que abundam por todo o lado e são senhores da terra de tal forma que até fazem parar os carros à sua passagem.

 

O Todai-ji é um complexo de templos cuja maior atracção é o seu edifício principal, o Daibutsu-den (hall do Grande Buda). Este é o maior edifício de madeira do mundo e só de pensar que foi reconstruído em 1709 e ficou apenas 2/3 do que era originalmente consegue-se compreender a grandeza do sítio. A simetria entre o templo e os jardins que o acompanham é total. Antes esta simetria era ainda maior, com dois pagodes a ladearem-no. De qualquer forma, muita sorte temos nós de todas estas obras de arte terem chegado aos nossos dias.

Ainda parte do complexo de Todai-ji, o encanto do Nigatsu-do está na sua varanda e na vista que ela nos proporciona, com as montanhas como guardiãs da cidade. O mais curioso é que tantos são os templos, mas consegue-se sempre encontrar algo de diferente, surpreendente e encantador no que se visita em seguida.

No caso, em seguida não visitámos um templo, mas um santuário. O Kasuga Taisha é o mais importante em Nara. A relação entre o shinto e a natureza é íntima e o local onde este está instalado é mágico, entre a floresta. Pensando bem, acho que a chuva ajudou a dar ao ambiente por aqui um tom mais misterioso e envolvente. Para se chegar até este santuário percorremos um caminho ladeado por uma série de lanternas. E lá dentro há muitas mais para apreciar. O cenário da lanterna face ao papel japonês é simplesmente inesquecível.

De volta a Kyoto assistimos a uma manifestação de umas centenas de pessoas a favor da paz. No Japão discute-se hoje o abandono constitucional da referência à recusa à guerra. É um assunto delicado que gostava de abordar com algum tino. Mas conhecendo um pouco da história japonesa do século passado, e sobretudo as suas ambições expansionistas, imperialistas e messiânicas, parece-me que este é um tema delicado que deveria ser abordado pela comunidade internacional. Gostei de ver que parte dos kyotenses são sensíveis a este assunto.

Está visto que no século XXI tenho mais medo do Japão do que da China.

Deixando as comparações politicas de parte, certas são as influências chinesas sobre o Japão. E certo é também que a cópia soube fugir do pastiche e alcançar um resultado melhor ainda do que o original. Os templos aqui são belíssimos. Não digo que os do Japão sejam mais encantadores, como defende a mana. O que digo é que em Kyoto e em Nara, cidades que já visitámos até agora, pode-se caminhar e observar com calma, sem os magotes de gente que se via um pouco por toda a Pequim. E ter pelo menos a ilusão de alguma exclusividade do olhar e poder assimilar o que se vê no próprio local faz toda a diferença.

Veredicto: em Kyoto a concorrência turística não é páreo para nós.

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