Japão – Shimoda e Shirahama – 13º e 14º dias

A uma sexta-feira decidimos ir passar uma espécie de meio fim-de-semana à Península de Izu, uma escapada algo comum para os habitantes de Tóquio. O local eleito foi o mais a sul nesta Península, Shimoda, a pouco mais de duas horas de comboio não directo de Tóquio. A viagem é extremamente agradável, em especial o troço que segue de Ito até Izukyu Shimoda (é este o nome correcto da estação, só Shimoda induz-nos em erro e leva-nos para outro lado). Quase sempre junto ao Pacífico, vamos vendo a água super azul, num belo contraste com o verde da vegetação.

 Shimoda já aparecia em documentos históricos de períodos antigos do Japão, mas o seu papel na história ficou definitivamente cravado quando na década de 1850 teve um contributo decisivo para a abertura do país do sol nascente. Foi na sua baía que os “black ships” do Comodoro Matthew Perry aqui aportaram em primeiro lugar e, assim, a cidade de Shimoda tornou-se o primeiro porto japonês a abrir-se aos estrangeiros, acabando com a política de séculos de seclusão do xogunato Tokugawa. Tratados foram aqui assinados com os americanos e, anos mais tarde, tratados voltariam aqui a ser assinados com os russos.

Hoje, como reconhecimento do papel de Perry no impulso da modernização do Japão, vemos um monumento com um busto seu e uma rua com o seu nome, por sinal do mais pitoresco que pode existir. Já lá vamos.

Antes, dizer que é imperdível seguir o percurso sugerido pelo turismo da cidade, saindo da estação directamente para a baía e seguindo sempre junto à costa, contornando-a até irmos alcançar, precisamente, a Rua Perry.

A costa é bordejada por montes cheios de vegetação. Ao contrário da calmaria das águas da baía, as ondas num mar algo revolto teimavam em bater junto às rochas na costa mais aberta. O suficiente para abrir o apetite da mana para a sessão de surf que esperava vir a ter mais tarde.

Shimoda tem vindo a transformar-se de porto de pesca para centro de turismo. No entanto, não lembro de nos termos cruzado com um só turista, quer junto à costa quer nas suas ruas. Estas possuem um ambiente de cidade perdida, peixe deixado a secar à porta, cafés e comércio que poderíamos encontrar numa aldeia portuguesa. A Rua Perry, pelo contrário, é bem distinta. Com um canal a dividir os dois lados da rua, aqui encontramos um ambiente mais vivo, lojas de artesanato, cafés com estilo, rua lindamente decorada com flores.

Existem diversas praias perto de Shimoda, mas a nossa escolha para passar a tarde, noite e manhã seguinte recaiu em Shirahama. O seu nome quer dizer qualquer coisa como “praia de areia branca”, ao que parece com a ajuda dos australianos que para aqui transportaram alguma dessa areia.


Shirahama é ainda descrita como uma surf city. Por sorte, na tarde em que chegámos havia condições suficientes para qualquer surfista se divertir um pouco. E para qualquer banhista ter um dos seus primeiros dias de praia do ano (no dia 11 de Julho? Onde é que isto já se viu? Cortesia de São Pedro para Lisboa 2014).

A praia é bonita. O enquadramento é especial, com muito verde à volta. Os edifícios que a acompanham não são nada de especial, e existe mesmo lá um hotel mamarracho que não faz falta nenhuma (se fosse necessária confirmação, não é só em Portugal que existem atentados à paisagem). Mas no final da praia, sobre uma rocha saída, existe um santuário xintoísta – apenas o tori – que o torna um dos mais bem localizados em todo o mundo, certamente.

O nosso hotel ficava perdido no meio da estrada, com uma vista fabulosa para o mar. E com um pequeno onsen, aberto de noite e exclusivo de um dos quartos, sob marcação, com uma vista para o mesmo mar e, nessa noite, para a lua cheíssima.

Foi, aliás, a lua cheia que nos safou quando terminámos a nossa tarde na praia e nos pusemos a caminhar para tentar descobrir outras praias vizinhas, passando por uns templos. Quando voltámos era já noite e a rua principal não tinha iluminação. Arranjar um restaurante também não foi muito fácil, uma vez que as alternativas não eram muitas. A verdade é que Shirahama não está assim tão desenvolvida. É uma perfeita cidade de praia perdida no mundo e isso é bom, muito bom.

A manhã do dia seguinte foi totalmente dedicada ao escaldão. Cerca de 30 graus, água quase à mesma temperatura. Sem ondas, desta vez. Como era sábado, a praia estava muito composta. Entretivemo-nos a observar a dinâmica da praia.

Uns levam a tenda – literalmente – e todos os apetrechos indispensáveis a um bom dia de praia, como carne e champanhe. Todos possuem bóia como amiga inseparável no momento de ir molhar os pezinhos. Outro (foi só um) escolhe usar como indumentária a roupa que o Borat imortalizou, mas desta vez em cor-de-rosa e, depois do almoço, em verde choc. Este senhor estava mesmo deitado ao nosso lado, com um género de capacete a protegê-lo do sol, e nem queríamos acreditar na figurinha.

Praia no Japão? Diversão garantida.

Voltámos para Tóquio ao fim do dia e resolvemos que ainda tínhamos tempo para passear por Harajuku, com o pretexto de descobrir a embaixada do Brasil na cidade, uma vez que tinha visto umas fotos do pavilhão especial que aí instalaram para a Copa e a sua arquitectura me tinha agradado. Dêmos como o edifício, mas claro que já era de noite e não o pudemos apreciar. Ou seja, não há testemunhos de eventuais ondas de choque que os 7×1 possam ter deixado por este oriente.

Mas a viagem não foi perdida. Aliás, nada se perde em caminhar, sempre se conhece e aprende e apreende algo de novo. No caso, a pacatez de Harajuku e Aoyama, em que a poucos metros de uma meca do consumismo se consegue encontrar ruas estreitas com prédios baixos, uns de arquitectura banal, outros verdadeiras vilas ode ao bom gosto. Acabámos por jantar numa pequena osteria com esplanada no mini passeio, numa destas ruas calmas. Poderia ser Europa, mas a barata que atravessava zelosamente a rua lembrava a humidade deste início de noite de Julho em Tóquio.

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