Japão – Fuji – 11º e 12º dias

De manhã seguimos de comboio, cerca de duas horas não directas, para o digníssimo Fuji-san, a montanha sagrada dos japoneses. Eis um bom site sobre a ascensão ao Fuji.

A viagem desde Tokyo pode ser feita directamente de autocarro desde Shinjuku até à Quinta Estação, mas como tínhamos o passe de comboio optámos por seguir até Otsuki e aí trocar para Kawaguchiko (apesar desta viagem não estar coberta pelo passe). Neste último percurso de comboio temos o Fuji-san por companhia e aqui o vemos pela primeira vez, apesar de garantirem que ele é visível de Tóquio num dia claro. São cerca de 100 quilómetros de distância, mas o maior impedimento para ver a maior montanha do Japão desde a maior cidade do Japão é mesmo a claridade, o céu limpo, coisa talvez só possível num dia de inverno.


O Fuji-san, vê-se à distância, é soberbo na sua elegância. São 3776 metros de pura majestade, ainda salpicados neste mês de Julho aqui e ali com linhas de neve, que o tornam ainda mais distinto. Da janela do comboio, é impossível afastar o olhar da sua formosura cónica. Perfeito.

Kawaguchiko é uma das cidades / vilas da região dos 5 lagos que envolve o Monte Fuji. Neste dia serviu-nos como rota de entrada para seguirmos directamente para a 5a Estação, a 2305 metros, até onde chegam a maior parte daqueles que querem admirar o Fuji-san de mais de perto ou donde partem aqueles que querem alcançar o seu topo. Nós estávamos neste último grupo. De qualquer forma, e em apanhado curto, subir o Fuji-san pode ter sido uma tradição sagrada, mas só chegar à 5a Estação já é inspiração suficiente. Na verdade, o que antes era uma peregrinação sagrada, hoje é um passeio turístico.

Uma coisa não mudou, porém: a sua ascensão implica alguma devoção. Não que subir ao topo do Fuji-san seja uma missão só para uns poucos Hércules. Nada disso. O trilho está bem marcado, sendo o de Yoshidaguchi o mais concorrido, e vê-se por aqui, pelo menos no início da caminhada na 5a Estação (que há quem a inicie desde mais abaixo), todo o tipo de pessoas. Jovens que parecem estar em boa forma, jovens que parecem ter estreado umas botas / ténis só naquele momento, grupos de adolescentes em excursão da escola, famílias com filhos pequenos, cinquentões já bem entradotes, homens e mulheres. A questão é que os cerca de 7 quilómetros até ao topo, mais ou menos percorridos em 6 horas, são efectuados numa subida constante, nem sempre num terreno fácil. E, depois, há que sobretudo contar com as surpresas da altitude, que os corpos não reagem todos da mesma maneira. No meu caso direi que comecei por apreciar a quase base da montanha, terra negra a lembrar a sua origem vulcânica, mas surpreendentemente cercada de uma vegetação verdíssima. O contraste é mais uma daqueles imagens que não sairão da memória, a juntar a toda a beleza do Fuji-san. À medida que ia subindo, tentando acompanhar o ritmo louco da mana, que certamente deveria querer bater um qualquer recorde (dizer, para antecipar, que não iríamos precisar das 6 horas de média previstas para a ascensão), fui deixando de poder apreciar a paisagem em toda a sua plenitude. Entre uma golfada de ar e outra a atenção a dispensar aos pormenores foi sendo inadvertidamente reduzida.

O plano era chegar até à estação 8,5 onde iríamos pernoitar no nosso abrigo de montanha, o Goraiko-kan, a 3450 metros, a apenas 800 metros do objectivo final, a 45 minutos de distância, mais coisa menos coisa. Este é o último abrigo. Chegámos aqui por volta das 18:00, sempre com um dia bom, sem chuva e sem vento, e com necessidade apenas no último quilómetro de vestir algo mais do que uma t-shirt. Ainda tínhamos mais uma hora de luz, mas deixámo-nos ficar ali, a ver as nuvens que se iam pondo abaixo de nós. Jantar às 18:30 e cama logo de seguida, que o despertar estava previsto para as 4:00 da madrugada para ver o sol nascer. O abrigo é uma cabana onde parte é zona comum, onde se toma as refeições, e a outra parte é o dormitório, onde as ovelhas, perdão, as pessoas são colocadas para dormir. Uma vez que este dia não calhou a um fim de semana, nem a época alta estava no seu pico, pudemos dormir a uma distância de cerca de 30 centímetros do colega do lado. Sorte que de um lado eu tinha uma parede e do outro a mana.

Estávamos avisadas de que o clima por aqui muda com muita frequência, daí que mesmo que se inicie a ascensão com sol de 30 graus devamos levar conosco roupa adequada ao tempo frio e de chuva. Ao fim da tarde, a conversa dos rapazes do abrigo (eles vivem ali?) sobre tufão e coisas do género, bem como o facto de meia-hora depois de termos chegado com tempo lindo se ter posto um tempo fechado e chuva, deveria ter servido de alerta. Durante a noite, mal dormida, a sempre corajosa mana dizia-me que estava com medo. Não era para menos. O barulho do vento era arrepiante e o facto de estarmos num abrigo de madeira a mais de 3000 metros de altitude não ajudava. A ideia era: mesmo que daqui a pouco não consigamos subir os 800 metros que nos faltam, como é que vamos conseguir descer os 6 quilómetros já conhecidos?

Infelizmente, utilizando a razão, tivemos de deixar de lado o plano de subir até à cratera do Fuji. Um dos irmãos nórdicos que o fez nessa noite / dia, e que conhecemos na descida, disse que foi chegar lá, tirar uma selfie, e descer logo, sempre agarradinhos ao chão para não voarem. O outro irmão não conseguia nem falar, tal deve ter sido o medo.

Nós descemos mal o dia raiou e não foi muito fácil. O vento era intenso e empurrava-nos de tal forma que tínhamos de cravar bem os pés na terra.

O tempo no Japão é mesmo uma matéria.

A manhã em Kawaguchiko foi triste. Do seu lago nada de avistar o Fuji-san. Aliás, com aquele tempo, podíamos caminhar por toda a região próxima deste ícone que não o vislumbraríamos. Mas, há que dizê-lo, esta região será fantástica para caminhadas e mais contacto com a natureza, para além de existirem também aqui uns quantos onsen.

 

 

De volta a Tóquio, depois de descansarmos um pouco saímos para uma volta por Shimbashi e Shiodome. Arranha céus com espaço público arejado junto de uma frente de rio algo confusa pelas obras que provavelmente tratam de ganhar mais espaço à água. Por aqui ficam alguns edifícios interessantes, nomeadamente o Dentsu de Jean Nouvel, parte do complexo Caretta Shiodome, misto de comércio, restauração e escritórios. Deve-se subir até ao seu 46 andar, o antepenúltimo, para vistas desta parte da cidade. Lá embaixo vemos com mais perfeição o trânsito e a baia de Tóquio, bem como os contornos do mercado Tsujiki e do parque Hama Rikyu. Inexplicável como este parque, que dizem delicado e sossegado, fecha às 17:00, quando nesta altura do ano, pelo menos, existem mais duas horas de dia pela frente.

 

Depois de mais um passeio até Harajuku decidimos acabar o dia na Sunshine City de Ikebukuru, mais um mega complexo que junta comércio, serviços e escritórios. E um aquário e um planetário. E um ultimo andar transformado em ponto de observação a 251 metros acima do solo. Foi para isto que aqui viemos, na expectativa de imaginarmos uma visão nocturna do Monte Fuji, para além de toda a Tóquio.

E também para experimentarmos um dos loucos sabores de gelado na cidade do gelado no Sunshine. Mas onde é que estava ela? Mais uma vez o meu japonês não funcionou por estas bandas.

 

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