Japão – Tóquio – 10º dia

Ao contrário de Kyoto, ninguém vai a Tóquio à espera de encontrar belos e encantadores templos. A explicação encontra-se facilmente no facto de Kyoto ter sido a capital imperial, lugar de cultura, e Tóquio ter-se tornado capital administrativa apenas no século XVII – era, então, a Edo. Acontece que em 1853 o Comodoro americano Matthew Perry chega com os seus barcos à Baia de Tóquio e, a partir daí, tudo muda no Japão. Vendo a necessidade irreversível de se abraçar a modernidade, dá-se a Restauração Meiji em 1868 e, com ela, viria a transferência definitiva da capital do país para Tóquio, a capital de leste, agora tanto em termos administrativos como imperiais.

Assistiu-se a uma rápida industrialização, as linhas ferroviárias cresceram sem parar, a luz eléctrica apareceu, bem como edifícios ao estilo ocidental em bairros como Ginza. Nem o altamente destruidor terramoto de Kanto, em 1923, foi capaz de parar a intensa modernização da capital, reerguendo-se os japoneses num ápice. Idem para os bombardeamentos aliados de 1944, os quais destruíram dois dos maiores templos de Tóquio, o Meiji-jingu e o Senso-ji, logo reconstruídos. O resto da história, já se sabe, o Japão após a capitulação do imperador Hirohito, em 1945, viria a transformar-se por completo, quer no seu íntimo – renunciando à militarização e domando o seu espírito nacionalista e expansionista – quer no seu exterior. As grandes empresas adaptaram-se e criaram os grandes conglomerados que hoje reconhecemos, como a Mitsubishi e a Toyota, e os cidadãos adoptaram o “american way of life” e superaram-no, criando uma economia pujante e uma cultura que iria ela própria cativar os ocidentais.

Vem isto a propósito de não se esperar encontrar belos e encantadores templos em Tóquio. A verdade é que, ainda assim, tal é possível.

Começámos a manhã com um passeio pelo Meiji-jingu, rivalizando no caminho com as centenas de chineses que tiveram a mesma ideia. À entrada do parque encontramos, empilhados, cestos de sake, cada um mais bonito do que outro. O santuário é xintoísta, arquitectura moderna, equilibrado, vendo-se ao fundo os arranha-céus da cidade. Apesar de ficar às portas de Harajuku e Aoyama, das zonas mais movimentadas da cidade, consegue-se viver no santuário e nos jardins à sua volta uma calma imensa e sentirmo-nos mesmo afastados da louca vida urbana.

Aqui perto fica o Estádio Nacional Yoyogi, que acolheu os Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964, um momento de viragem para os japoneses, em que sentiram que finalmente tinham passado os tempos de guerra e a sua reconstrução bem conseguida os havia permitido fazer parte das mais modernas economias. A arquitectura dos edifícios que ainda aqui encontramos, cortesia do arquitecto Kenzo Tange, é notável. O Ginásio Nacional Yoyogi é fantástico nas formas que toma, lembrando uma concha ou, quem sabe onde a imaginação nos leva, porque não a crista de um cabelo mantido a gel.

A ponte que nos leva da estação de Harajuku ao parque do Meiji-jingu ou ao parque Yoyogi é onde os meninos e as meninas do cosplay se costumam encontrar. Não vimos nenhum ajuntamento em especial, mas vimos, sim, muita gente estranha aqui perto, principalmente na Takeshita-dori. Esta estreita rua acolhe lojas estranhíssimas, desde roupa e acessórios esquisitos até gelados em formato de pizza que são depois enrolados de forma a fazerem um cone. À entrada, anunciando os produtos, estão indivíduos (nem sempre dá para entender qual o género dos ditos) vestidos e produzidos das formas mais bizarras. Tóquio é reconhecida também pela excentricidade das suas gentes, as quais se orgulham de sair para a rua tal e qual os seus personagens preferidos. Toda uma cultura à parte para quem não está minimamente por dentro do universo manga e anime.

Deixando a Takeshita-dori e atravessando a Rua Takeshita fica todo um mundo de lojas trendy por descobrir e, sobretudo, o Design Festa. Este é um edifício absolutamente esquisito (mais um), cheio de tubos no seu exterior, uma espécie de aranha, nada mais do que o cartão de visita para a criatividade que se experimenta dentro das suas portas. São diversas salas que podem ser reservadas pelos artistas para expor as suas obras e ao meio, num pátio, existe um café com comida ligeira.

Ainda em Harajuku fica o Museu Ukiyo-e Ota Memorial Art. O Ukiyo-e é uma arte de pintura japonesa em blocos de madeira e as suas obras ficaram conhecidas como pinturas do mundo flutuante. Esta arte é lindíssima e sou uma apaixonada por ela (mais textos sobre o assunto aqui). Retrata imagens da vida do dia a dia, de personagens do kabuki, samurais, dos distritos do prazer, paisagens como as celebradas pinturas da onda e do monte Fuji do mais do que celebrado Hokusai, em exibição num qualquer museu ocidental perto de si (pois é, se se quer apreciar de perto estas obras japonesas o melhor é ir ao British em Londres ou ao Met em Nova Iorque). Voltando ao Museu Ota, este consegue exibir de três em três meses apenas uma ínfima parte da sua colecção. Nós tivemos a oportunidade de assistir a uma exposição dedicada ao tema “Espectros, fantasmas e feiticeiros“.Teria preferido uma coisa mais delicada, mas toda aquela panóplia de monstros também  não caiu nada mal.

E, para algo totalmente diferente, temos a Omote-sando. Edifícios com as marcas mais inacessíveis ao comum dos mortais, desenhados pelos deuses da arquitectura. Desde logo o Omote-sando Hills, um centro comercial obra de Tadao Ando. Depois, do outro lado da rua, o Louis Vuitton de Aoki Jun, tendo por vizinha uma igreja – os extremos juntos. E o Tod’s de Ito Toyo. Mais abaixo o Comme dês Garçons de Kawakubo Rei e, cereja no topo do bolo, a Prada de Herzog & de Meuron. Pelo meio destes, muito edifício e loja para os quais os nossos sentidos têm de estar muito atentos.

Subindo de volta a Omote-sando, seguimos depois pela Meiji-dori rumo a Shibuya. A Meiji-dori continua com lojas e mais lojas, mas agora um pouco mais populares, como de surf, street wear e montanha. Não é má ideia deixarmo-nos perder pelas suas ruas interiores, mas acabámos sem tempo para o fazer.

Shibuya é mais um distrito louco de Tóquio. Muita confusão, muita juventude, muita loja estranha, muita confusão. A Shibuya Crossing, uma intersecção de ruas desenhada a zebra das listas brancas da passadeira, é um exemplo vivo do pulsar da cidade. Por mais que já se tivesse visto em filme, é uma experiência única e arrebatadora. O melhor é atravessar a rua na diagonal como os tokyoites e depois subir ao Starbucks e ficar a ver o cenário junto a uma das suas janelas como os estrangeiros. A qualquer hora do dia, são milhares de pessoas constantemente para lá e para cá, um movimento belíssimo num cenário de neons.

Saídas de Shibuya o destino era Daykanyama e Ebisu. Até lá caminhámos pelo bairro dos hotéis do amor, mais uma vez cada um mais estranho do que outro, não só pelo conceito, mas também pelos edifícios em si. Rico, muito rico.

Passámos por ruas absolutamente calmas, estreitas, quase uma aldeia dentro da grande metrópole.

Daykanyama não é tão pop assim. Chegámos já de noite, má hora para as fotografias. Terá que ficar guardado na mente. Uma loja da Saturdays Surf NYC, onde provavelmente vimos o mais  bonito shortjohn de sempre, com um terraço com uma vista de um fim de tarde a fazer lembrar Amã – que associação estranha, seria do cansaço de um dia todo na rua a caminhar?
 

Mas Daykanyama ficará para sempre na minha memória pelo T-site, uma mega loja de livros (e também música e vídeo) com uma (mais uma) arquitectura fabulosa. São três edifícios “caixa” ligados entre si, todo um conceito melhor explicado aqui. Estilo é a palavra de ordem.

Daqui a Ebisu é só seguir em frente. Com tantos restaurantes na rua a dificuldade é escolher um. Deu para perceber que alguns não estão para receber estrangeiros. Quando entrámos na izakaya que tinha meros dois lugares ao balcão entendemos o porquê. Simplesmente não há menu sem ser em japonês, e dá trabalho entender o que o estrangeiro quer. Na verdade, também dá trabalho ao estrangeiro fazer-se entender nos seus desejos, mas o lost in translation continua a ser uma experiência das melhores para lembrar. Ficámos uns minutos à toa, a decidir se era melhor olhar para os pratos dos vizinhos ou tentar decifrar as letras, já que eu tenho a mania de que até leio hiragana e katakana. Logo um senhor japonês veio em nosso socorro oferecendo ajuda. Disse-nos que este era bom, aquele também e aquele-outro idem. Resultado: salmão grelhado (que eu me recuso a comer em casa), feijão verde seco (único verde com o qual não posso) e o sashimi da ordem (por mim amado em qualquer lado do globo). A mana não conseguiu deixar de galar os pratos dos vizinhos. Como conclusão, obrigado pela ajuda, mas tínhamo-nos safado melhor com a velha técnica do olhar para o lado e apontar.

A noite acabou com a visita à Torre do Ebisu Garden Place para ver as vistas da Tóquio nocturna.

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