Japão – Kamikochi – 8.º dia

O forte dos Alpes Japoneses é a paisagem e a natureza. O cenário é tudo. E chega para espalhar felicidade.

Kamikochi, a meia hora de Hirayu, fica no vale do rio Azusa, a 1500 metros de altitude, e daqui avistam-se bem perto montanhas cujos picos passam dos 3000 metros. Para se chegar aqui só de autocarro ou táxi, carro particular não entra nem se aproxima. Isto entre Abril e Novembro, porque no resto do ano não há nada para ninguém, tal deve ser o congelamento.

Daqui partem uma série de trilhos, incluindo escaladas às montanhas – que não fizemos. Optámos por umas belas caminhadas, sempre planas, fáceis, ideais para dedicarmos toda a nossa atenção à beleza que nos rodeia. E o que nos rodeia, já se sabe, são vales, montanhas e muita vegetação, mas também rios e lagos a cada passo. E vulcões. E pontes pitorescas, daquelas que mesmo aparentando firmeza balançam à nossa passagem. E uma fauna e flora que merecem também atenção. Aliás, o barulho intenso dos pássaros é impossível de ser ignorado. Mas não aborrece, antes torna a comunhão com a natureza mais perfeita ainda. No caminho podemos encontrar macacos – e constatar com pavor como eles são mesmo iguais a nós – e ursos. Felizmente destes últimos só tivemos notícia pelos avisos espalhados pelo parque de que haviam aparecido no dia anterior e como proceder caso avistássemos um deles. Não fazer barulho, não correr. O que vale é que existem árvores bem altas ali à mão para podermos subir e escondermo-nos. Não foi preciso.

Começámos por ter sorte com o tempo bom, terminámos com dificuldade em observar o postal na sua plenitude. Maldita chuva, inimiga do viajante. Mas o balanço foi entusiasmante. Este dia calhou a um domingo e pudemos comprovar a união que liga os japoneses à natureza. Não sei donde vieram, uma vez que não haverá muitas povoações ali mesmo perto, mas eles eram aos magotes, sozinhos ou acompanhados, em par ou em família, de tal forma que nos fartámos de gastar o nosso konichiha(wa) de tanto nos cruzarmos com os simpáticos japonocas caminhantes.

Kamikochi foi dada a conhecer pelo tal missionário ocidental que terá cunhado a expressão Alpes Japoneses. Mas Ryunosuke Akutagawa, o autor de Rashomon (que Kurosawa filmou), também contribuiu para a sua divulgação com a sua novela “Kappa”, nome da ponte balançante que é actriz principal na paisagem de Kamikochi.

E já que falamos de escritores japoneses, de volta ao onsen de Hirayu lembrei-me de Kawabata e da sua obra “Terra de Neve”. Não tinha nenhuma geisha, nem o desejava, para me acompanhar. Também não tinha a neve a marcar a paisagem. Mas, ainda assim, senti que vivia parte do que é ser japonês, estar em contacto com a natureza e emergir num ritual que não sendo só seu é aqui observado com todo o requinte que só os japoneses parecem ser capazes de lhe conferir.

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