Segundo dia em Goa – Velha Goa e Ponda

Saímos de Pangim rumo a Velha Goa num autocarro local. O preço de cerca de 20 cêntimos de euro não foi a determinante, antes a experiência de andar num daqueles coloridos e fantasiados autocarros. Tivemos o bónus de música a bordo, tão alegre quanto a decoração exterior, enquanto seguíamos pela pacata estrada que liga Pangim a Velha Goa, com o Mandovi à nossa esquerda e vegetação luxuriante por todo o lado. 

O desfile de nomes encantadores e a puxar à emoção continuou: Casinha Ribamar, Belo Rio…
Cerca de 10 kms depois de termos deixado Pangim chegamos a Goa, agora Velha Goa. Primeira ideia: ok, eis as igrejas, mas onde é que estão as casas? Dá vontade de citar o Graham de Paulo Varela Gomes no seu Era Uma Vez em Goa: “embora não tenha a certeza de que estou na Índia, só vejo cruzes e igrejas e católicos”.
Quando Afonso de Albuquerque conquistou Goa aos muçulmanos, em 1510, já estes faziam da então Ela a capital de Goa. Ela era um centro de comércio e daqui partiam os peregrinos para Meca. Os portugueses incrementaram ainda mais o comércio e fizeram de Goa centro do comércio com o Velho Mundo. Os missionários começaram também a chegar e diversas ordens instalaram-se aqui. A ascensão do núcleo urbano foi rápida e imparável. 
Os tempos áureos deram-se entre os finais do século XVI e durante quase todo o século XVII, verificando-se então a construção de enormes e fantásticos edifícios de carácter religioso e civil. Da época inicial pouco resta, com uma excepção honrosa para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário com a sua arquitectura manuelina, como veremos mais adiante. Dos edifícios civis, nomeadamente palácios e quintas testemunho da presença portuguesa, nada restará. A razão prende-se com as condições climatéricas e sobretudo com as epidemias de cólera, malária e tifóide que começaram a assolar Goa a partir de meados do século XVII. Goa foi construída sobre um pântano, daí que a natureza se tenha encarregue de se revoltar contra o Homem. Isso e a concorrência e rivalidade das outras potências ocidentais e o facto de a jóia da coroa ter passado a situar-se no outro lado do mundo, no Brasil. 
Como resultado, aconteceu a queda de Goa. Aquela que havia sido comparada com Amesterdão pelo volume de comércio e bem estar que conseguia produzir, aquela que era maior do que Lisboa, a epitetada Roma do Oriente, essa foi sendo progressivamente abandonada. Deu-se, nas palavras de Paulo Varela Gomes, em artigo publicado na revista Ler História (n. 58, de 2010), “um dos mais extraordinários processos de desfazimento urbano da história, durante o qual uma cidade que fora uma das grandes metrópoles da Ásia foi deliberadamente desmantelada pedra a pedra pelos seus habitantes no decurso de dois séculos, o XVIII e o XIX, até não restar nada dela a não ser a dúzia de igrejas e conventos que lá vemos hoje”.
Em 1759 o vice-rei mudou-se para Pangim e em 1843 foi decidida a transferência para aqui da nova capital. Desde aí até meados do século XX Goa foi sendo consumida pelos elementos e a floresta tomou inexoravelmente a cidade. A devastação foi rápida e inclemente. Apenas o interesse arqueológico manifestado no século XX fez com que se tivesse recuperado alguns locais. As igrejas do tempo áureo seriam 38 e hoje restarão 17. Não obstante, o tempo e as gentes legaram-nos sobejos exemplos de igrejas e conventos tão bem preservados que até custa a crer.
E porquê a preservação de edifícios religiosos e não civis? A resposta é que o carácter sagrado destes edifícios religiosos acabou por contribuir para a sua preservação e os peregrinos sempre aqui acorreram a mostrar a sua devoção. Sobretudo a sua devoção por São Franscisco Xavier, o apóstolo das Índias.
Começámos o nosso périplo pelas Igrejas e Conventos de Goa, conjunto declarado Património da Humanidade pela Unesco em 1986, precisamente pela Igreja do Bom Jesus. Descendo do autocarro na relativamente longa avenida principal de Goa, à nossa esquerda temos a Sé e à direita a Igreja / Basílica do Bom Jesus, o núcleo mais popular e visitado da cidade, e logo nos sentimos confortáveis e familiares com esta arquitectura indo-portuguesa. O legado português é evidente e a identificação de memórias comuns é total e não fosse o enquadramento paisagístico poderíamos bem estar numa qualquer região de Portugal.
A construção do Bom Jesus foi iniciada em 1594 e completada em 1605. Este edifício é uma excepção entre os seus companheiros – o único que não está rebocado a branco. Os edifícios religiosos de Goa foram todos construídos usando a laterite, uma pedra autóctone, e caiados a branco no sentido de melhor combater a destruição do tempo. O Bom Jesus, porém, foi deixado com a dita laterite exposta (porque alguém terá entendido que perduraria melhor desta forma) e por isso tem uma cor diferente de todas as outras igrejas. Este exemplar de arquitectura renascentista e maneirista, a antiga igreja dos jesuítas (observa-se a sigla IHS na sua fachada), é elegante e simples e tem como ponto alto da visita o facto de acolher os restos mortais de São Francisco Xavier. O apóstolo das Índias foi oficialmente canonizado em 1622, feito então celebrado com alegria em Goa. O fenómeno ao redor do Santo gera multidões e devoção e o seu corpo incorrupto esteve por diversas ocasiões em exposição pública para que peregrinos e devotos de todo o lado aqui viessem contemplar e beijar o seu pé. Histórias e mitos vários persistem, como o da devota que certa vez não se limitou a olhar ou beijar o pé do Santo e lhe arrancou um dos dedos; ao jorrar sangue do corpo ter-se-á posto em fuga. O certo é que o culto de relíquias é muito popular e depois da primeira grande exposição pública do corpo de São Francisco Xavier ter acontecido em 1782 várias outras se lhe seguiram. Nos dias de hoje o evento acontece de 10 em 10 anos (último em 2014) e fora daí apenas podemos contentar-nos em observar o luxuoso caixão florentino onde repousa o seu corpo numa capela riquíssima. Tirando esta, o interior da igreja é um exemplo de simplicidade. 

Destaque para um encantador púlpito esculpido a madeira. Podemos ainda visitar os claustros e dai perceber a torre do campanário que se esconde atrás dos seus arcos. No piso superior encontramos uma pequena exposição de esculturas. Aqui ficou o trio de viajantes dividido a discutir se as figuras tinham ou não um ar ocidental. Uma encontrou-lhes olhinhos puxados, outra cores diferentes e a outra aos costumes disse nada. A verdade é que quer o património imóvel quer o património móvel de Goa – escultura, pintura, mobiliário, artes decorativas – é o resultado de um encontro da cultura europeia e da asiática. O modelo arquitectónico é absolutamente reconhecível, mas a decoração tem elementos nativos que reflectem o gosto asiático e sobretudo o uso de materiais exóticos. Tudo junto e bem misturado dá uma original arte indo-portuguesa. 
Com a avenida a dividi-las, do outro lado da Igreja do Bom Jesus fica a enorme e alvíssima Sé de Goa, também conhecida como Catedral de Santa Catarina. Um jardim bem cuidado que mais parece um tapete verde recebe-nos como ante-sala para a visita ao mais imponente edifício religioso de Goa. Esta é a maior igreja da Ásia e a sua construção começou em 1562, sendo por isso um dos mais antigos edifícios em Goa. Concebida desde o início para abraçar a grandiosidade, símbolo do poder português então dominante, aqui efectivamente tudo é em grande, até mesmo o seu famoso sino dourado. A entrada é feita por um pequeno terreiro que dá para a fachada em estilo português-gótico e toscano. Olhando bem, algo parece não bater certo no postal. Na verdade a igreja está algo manca, pois uma das torres, a do lado direito de quem olha para a fachada, ruiu em 1776 e nunca foi recuperada (na verdade, também, só olhando bem para a fotografia, já em casa, me apercebi do facto).

Construída para os dominicanos, o interior da Sé de Goa é equilibrado, bonito e rico. Altar em talha dourada, lustre imponente e capelas profusamente decoradas.

Continuando na nossa disposição para visitar mais igrejas, a próxima, saindo da Sé e deixando a árvore estilisticamente posicionada para o postal, é a do Convento de São Caetano e Igreja da Divina Providência. O lugar está belamente preservado e cuidado e a aproximação a ele é um dos vários momentos inspiradores que se pode viver em Goa. Construída em 1661 por frades italianos da Ordem dos Teatinos (ou Ordem dos Clérigos Regulares da Divina Providência) perto das ruínas de um antigo palácio muçulmano, diz-se que esta igreja tomou como modelo a Basílica de São Pedro, em Roma. Na fachada encontramos aqui elementos corintios, como as colunas, e quatro estátuas de apóstolos. O interior em forma de cruz é rico e possui vários altares, o principal deles em madeira esculpida de estilo barroco dedicado a São Caetano. Dominante é, porém, a belíssima cúpula. Esta foi, aliás, um dos conjuntos por nós visitados mais bonitos em todos os seus aspectos.

A Igreja de São Caetano fica a dois passos do rio Mandovi. Passámos pelo Arco do Vice-Rei, com a figura de Vasco da Gama lá representada, e fomos espreitar o Mandovi e as suas águas calmas e tomámos o ferry para a Ilha Divar, só pelo prazer de passear, ganhar um novo ponto de vista, contemplar. O tempo para explorar Divar não foi nenhum, quem sabe se haverá uma próxima vez. Imaginamos, porém, a pacatez e o cumprimento do lema sossegad que se viverá por aqui. Do Mandovi tivemos ainda uma outra percepção da selva que nos rodeia, irrompendo aqui e ali uns montes brancos correspondentes às várias igrejas que ainda restam.
Essa ideia ganha uma força imparável na vista desde a Capela de Nossa Senhora do Monte. A subida a pé até ela é francamente possível e desejável e apenas dá ares de penitência pelo calor que se faz sentir. Construída no final do século XVI no alto de uma colina, mantém ainda a sua traça original e foi objecto de obras de restauro com a ajuda da Fundação Oriente no princípio deste milénio. Mas arrisco dizer que quem vem até aqui vem sobretudo pela vista fenomenal, até porque a igreja costuma estar fechada. A chegada ao adro da Nossa Senhora do Monte foi um dos momentos mais emocionantes que pude presenciar, de tal forma que voltámos para o pôr do sol e aí nos deixámos estar languidamente – em Goa sê goês.
Do alto tudo se avista e obtém-se uma melhor percepção do que é hoje a Velha Goa e do que poderá ter sido a Goa do tempo áureo do domínio português. Imaginamos facilmente as embarcações dos nossos antepassados a navegar Mandovi adentro depois de tanto mar percorrido. Mas onde estariam as suas habitações? Onde ficaria o centro da cidade, com os edifícios administrativos, políticos e comerciais? Nada disto existe mais hoje. Apenas restam na paisagem pontinhos brancos correspondentes às igrejas que sobreviveram à selva. A floresta tudo tomou e o verde é senhor da nossa imagem. Destruição e silêncio penetrante ganham mais força aqui em cima. Volto, no entanto, aos ditos pontinhos brancos, que parecem foguetes a quererem libertar-se das amarras das raízes das imensas árvores. Paulo Varela Gomes utilizou a expressão “manto branco de igrejas” e imagino que sim, poderão talvez ser uns lençóis deixados a secar em cima das árvores.
Descemos de volta ao “centro” de Goa, desta vez para visitarmos o lado mais distante de Nossa Senhora do Monte. Sempre a caminhar, sempre com entusiasmo como se fossemos as primeiras exploradoras por aqui – não nos cruzámos com quase ninguém e quanto a turistas, zero. 
As ruínas da Igreja de Santo Agostinho, em especial a sua torre destruída que chegou a ter 46 metros, é um excelente complemento à vista da Nossa Senhora do Monte. Mas se do alto desta a alma é preenchida de uma emoção positiva pela imensidão e beleza da paisagem, face a face com a torre em ruína de Santo Agostinho não nos ocorre exemplo mais certeiro para representar a devastação, desolação e abandono de que a antiga Goa foi vítima.
A torre do antigo campanário segue altaneira e imponente, apesar de recearmos que possa entretanto cair mais um seu pedaço, talvez quem saiba destruindo as bananeiras que estão mesmo ao seu lado. A igreja era parte do Mosteiro da ordem dos Agostinhos e percorrendo as suas ruínas é inacreditável a enormidade do espaço e o tamanho que o conjunto terá tomado nos seus dias de glória, em que foi um dos maiores edifícios religiosos de Goa. A construção do complexo terá acontecido entre 1597 e 1602. A torre que hoje é a face mais visível e mais divulgada desta ruína (e de toda a Goa) era uma de quatro. A igreja foi abandonada em 1835 e logo começou a degradar-se, tendo parte da torre que hoje resta caído a última vez em 1938. Nunca foi objecto de qualquer recuperação e o seu enorme sino acabou por ser transferido daqui para a Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Pangim – olhando para ele parece, de facto, um corpo estranho e desproporcional.

Aqui perto, no Monte Santo, fica a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a única e, logo, mais antiga sobrevivente na sua forma quinhentista. A sua localização é, uma vez mais, soberba. Daqui nos debruçamos sobre o Mandovi e daqui assistiu Afonso de Albuquerque à tomada de Goa aos muçulmanos pelas suas tropas. Diz-se que foi aqui, também, que São Francisco Xavier rezou a sua primeira missa na Índia. O estilo manuelino da igreja é evidente. No interior simples registamos facilmente o entrelaçado na abóbada e mais uma vez tudo nos parece familiar. Espreitando as laterais do altar é tempo de fugir: lá estão uns quantos morcegos.
Não que estivéssemos enjoadas de tanta igreja católica, mas decidimos fazer um curto intervalo de cerca de 1:30 hora para visitarmos uns templos hindus na não muito distante Ponda. Contactamos um taxista e, claro, era filho de português e arranhava a língua. Conseguimos até por o senhor a cantar uma antiga música portuguesa, daquelas que ficam da juventude para sempre na cabeça (e coração?), qualquer coisa iniciada com “minha mãezinha querida”. Para nada de muito diferente de um homem da sua idade (cerca de sessenta anos) educado em Portugal, ainda lhe ouvimos um “antes é que era bom e havia ordem e segurança” acerca do estado de Goa.
Quanto aos templos hindus, umas fotos.
O fim do dia, como já referido, foi dedicado a um massivo pôr do sol desde o alto da Nossa Senhora do Monte. Massivo pelo tamanho que o sol foi ganhando, mas massivo sobretudo porque dificilmente nas nossas vidas encontraremos lugar mais atmosférico para nos despedirmos de um dia. 
De volta a Pangim tomámos novamente um autocarro. Já de noite, reparei melhor nos avisos no seu interior não só de “não fumar”, mas também de “não cuspir”. O melhor, porém, foram as luzinhas, como se de repente o veículo se transformasse numa discoteca.
O jantar foi no Ferradura. A lista de pratos era “confusa”: salada de atum, amêijoas à Bulhão Pato, escabeche de peixe, bacalhau no forno, feijoada, galinha em vinha de alho. A decoração do espaço não era menos “confusa”: pósteres de regiões de Portugal, galhardetes de todos os clubes que importam no nosso país. 
Afinal onde é que estamos?

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