Terceiro dia em Goa – Margão, Chandor, Quepem e as praias do sul

Neste dia alugámos um táxi e fomos para sul na companhia do nosso motorista goês, Diogo Fernandes de seu nome, apesar de não falar uma palavra do nosso idioma.
De Pangim, capital do estado de Goa, a Margão, a entitulada capital comercial, é cerca de uma hora de viagem de carro. Em Margão, já se sente um pouco mais de confusão do que na pacata Pangim, quer no trânsito quer nas próprias pessoas que inundam as ruas. Mas também em Margão se encontra uma marca bem definida da presença portuguesa na sua arquitectura, tendo os portugueses estendido o seu domínio a esta região de Salcete durante o século XVII, quando a Velha Goa caia, ficando então conhecida por Novas Conquistas. A zona que rodeia a igreja principal da cidade é envolvida por duas ruas com diversos exemplos de casas e mansões portuguesas grandiosas e bem conservadas. Passámos aqui para dar um alô aos familiares do nosso novo primeiro-ministro, ainda que ninguém tenha disso suspeitado.

Desta passagem rápida por Margão não poderemos dizer que a chegámos a conhecer, apenas que da cidade ficámos com uma muito pequena ideia e logo rumámos a Chandor. Em Chandor, zona rural a cerca de 15 km de Margão, continuámos a nossa busca por mansões portuguesas. Aqui fica a Casa Braganza, um dos maiores exemplos da arquitectura residencial indo-portuguesa visitáveis pelo público em geral.

Esta casa apalaçada ocupa por si só quase uma zona inteira de Chandor, vila antiga que antes dos portugueses chegarem já era um centro importante quer para os hindus quer para os muçulmanos. Encimada por uma igreja branca com frisos azuis, uma praça longa espraia-se tomando à sua esquerda a Casa Braganza e à direita o mausoléu da família. Nos dias de hoje, a enorme Casa Braganza, construída no século XVII, são na realidade duas casas separadas, cada uma propriedade de um ramo diferente da família proprietária original. Possui, no entanto, uma entrada comum. Os dois ramos da família não se dão lá muito bem e uma acusa a outra de desviar os turistas para uma ala da mansão. Guerras à parte, conscientemente visitámos apenas a ala ocidental – ramo Menezes Braganza – e não tirámos as teimas se seria mais bonita do que a Pereira Braganza.

A Dona Judite, ainda parente da proprietária que faleceu há poucos anos, recebeu-nos e guiou-nos em português. Apesar de o seu exterior logo atrair, o interior desta mansão esconde autênticos tesouros. Porcelana chinesa vinda de Macau – algumas encomendas privadas da família -, vidro de Veneza, espelhos e candelabros da Bélgica, tapeçaria portuguesa, mobiliário resultado de técnicas e materiais locais, bem como uma biblioteca que se crê ter sido a primeira biblioteca privada em Goa, reunida por Luís Menezes Braganza, o jornalista que dá o nome ao Instituto homónimo em Pangim. Esta casa possui um grande salão para festas e zonas de estar com umas espreguiçadeiras que pela sua forma levam o nome de “namoradeiras” tão catitas tão catitas que não fosse a vigilância intensa da Dona Judite (não tirar fotos!) éramos capazes de ter arranjado uma estratégia para as meter no bolso e trazê-las para o nosso próprio palácio. Mais catita ainda só mesmo a técnica de usar a casca das ostras para telas de janela – poupa a casa ao calor e deixa entrar na mesma a claridade. Falámos um pouco com a nossa anfitriã acerca do uso da língua portuguesa em Goa nos tempos actuais, perguntando se era fácil para um interessado encontrar lugar para estudar português. Que não, que não havia assim tantos lugares porque o interesse da nova geração não era muito. Os filhos desta família, por exemplo, também já não falam português, não escolhem aprender o idioma porque os amigos também não o escolhem. Talvez por isso, por essa influência perdida, a certo passo a Dona Judite já estava a falar connosco em inglês sem que o tenha notado.

Ainda em Chandor, outra mansão que pode ser visitada é a elegante Casa Fernandes.
Uma breve nota sobre esta marca arquitectónica da presença portuguesa em Goa. Primeiro, são muitos e diversos os exemplos desta arquitectura residencial em Goa, espalhada ao longo de todo o estado, mas mais presente na zona de Margão e Chandor. Estas mansões tradicionais do século XVIII em diante ainda estão em boas condições de ser habitadas e muitas continuam na propriedade das suas famílias originais. Apetece lembrar o que escreveu Graham Greene no seu texto sobre Goa: “as casas de Goa foram feitas com piedade para durarem muito tempo”. Curiosamente, os seus proprietários não eram na sua maioria nobres portugueses, mas antes goeses ricos ou goeses com postos na administração a quem foi conferida terra.
Em segundo lugar, há que valorizar quer o exterior quer o interior destas residências. O interior, tal como o descrito acima na visita à Casa Menezes Braganza, é rico em elementos decorativos vindos de quase todos os cantos do mundo. Muitas vezes é distinto ainda por as casas possuírem as suas próprias capelas ou pequenos oratórios. O seu exterior é a parte mais acessível e reconhecível. A sua arquitectura é original. Um híbrido resultado de uma mescla entre a arquitectura e a arte portuguesa e influências indianas (embora haja quem, como Paulo Varela Gomes, prefira olhar esta arquitectura como uma arquitectura própria goesa, puramente goesa, existente apenas aqui, em Goa, e em mais lado nenhum, distinta da que encontramos em Portugal, África ou Brasil, também com influências portuguesas). Sem querer entrar na discussão, a um olhar leigo parece de facto que existe aqui uma fusão de estilos e motivos orientais e ocidentais. Vemos a varanda, o balcão ou alpendre que se abre ao olhar de terceiro (uma mudança face à arquitectura hindu e muçulmana, mais virada para o uso do espaço interior. A fachada comporta alguns elementos decorativos, seja o uso do ferro, portas com brasão, frontões triangulares. Dois tipos de casas mais comuns são as “casas pátio”, de um único piso, e as “casas sobrado”, com um piso térreo mais um piso superior. Mas, depois, a cor já nos transporta para além do nosso país, dando-lhe um sabor de trópicos.

Um exemplo mais de casa residencial a visitar é o Palácio do Deão, em Quepem, a cerca de 8 kms de Chandor. José Paulo de Almeida, o Deão, veio de Braga no século XVIII e fundou a cidade. Com vista para uma pequena igreja e um riozinho nas traseiras, construiu uma mansão que foi objecto de um belo restauro nos últimos anos. Uma jovem família goesa de nome português mudou-se para aqui e abriu a sua nova mansão a visitas dos interessados, podendo sob marcação desfrutar-se de uma refeição num terraço belíssimo. O ambiente da casa é fantástico, quer o interior, onde voltamos a ver as conchas de ostra a fazer de cortinados, quer o seu exterior, a que não falta um bucólico jardim tropical. 

Em Quepem demos ainda uma olhada ao seu pequeno mercado, onde para além de apreciarmos as cores e provarmos tamarindo comprámos umas bananas anãs como entrada para o almoço.

Seguimos, então, para as praias do sul.
Patnem, a primeira que visitámos, logo foi eleita como a mais bonita da viagem. Pequena o quanto baste, acolhedora o bastante, a vegetação que a cerca a quase toda a volta, deixando o certo e óbvio lugar para o mar, é intensa e belíssima.

No entanto, numa escolha que pode ser acusada de duvidosa, optámos por almoçar e dar um mergulho na vizinha Palolem. Não menos bonita, mas maior e com mais gente, sobretudo com mais infraestruturas na praia (restaurantes e cabanas). Depois de um desolador mergulho – que raio de temperatura era aquela? Cá fora estavam 35 graus e a água estava ainda estupidamente mais quente. Na nossa terra vamos à água para refrescar; aqui vai-se à água para quê? Para fugir das vacas? Mas porquê se elas ficam ali tão sossegadinhas ao lado do nadador-salvador? 

Dizia, depois de um mergulho caminhámos pela praia até descobrirmos recantos inesperados e vistas fantásticas. Palolem pode mesmo receber o título de praia mais bonita de todo o estado de Goa.

Antes de voltar para Pangim visitámos ainda a praia de Agonda e depois o rio Sal a desaguar perto de Betul, com os pequenos barcos calmamente atracados sob um colorido irreal enquanto o dia se preparava para dar lugar à noite. Um pouco mais à frente os barquinhos dão a vez aos barcões e a calma à azáfama do movimento das grandes embarcações do porto. 

Todos os caminhos por onde passámos eram luxuriantes, mas a estrada que vai de Agoda a Assolna é ainda mais preciosa. A vegetação segue solta, indomável mas esteticamente perfeita. Não seguimos junto ao mar, mas sentimos que ele está perto de nós. Pelo caminho tanto vemos pequenos templos como pequenas igrejas, e ao mesmo tempo tanto casas simples como casas de que ainda se pressente a imponência de outrora. As estradas do sul não tinham muito movimento é o silêncio imperava, entrecortado aqui e ali pelas nossas gargalhadas de felicidade ou pelo toque do telemóvel do nosso motorista Diogo que, apesar de não falar uma palavra de português, insistia em disparar as palavras de uma cantora brasileira: “o sol já raiou, a alegria é maior”.

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