"Entre Dois Impérios – Viajantes Britânicos em Goa (1800-1940)", de Filipa Lowndes Vicente


Por incrível que pareça, não se encontram muitos livros sobre Goa do ponto de vista histórico (nem de nenhum outro). No entanto, no final do ano de 2015 foi publicado “Entre Dois Impérios – Viajantes Britânicos em Goa (1800-1940)”, de Filipa Lowndes Vicente (edição Tinta da China), com uma parte dedicada em exclusivo às mulheres viajantes.

A opção de focar os viajantes britânicos é plenamente justificada e o título da Parte I, “Colonizar a colónia vizinha”, não deixa dúvidas acerca dos preconceitos e intenções dos ingleses face à Goa portuguesa.

Pegando no que os vários britânicos foram escrevendo na sequência das suas visitas a Goa, a autora mostra-nos a sua (deles) estranheza, incómodo e até confusão pelo que observavam.
William Howard Russell, escritor oficial da viagem do príncipe de Gales a Goa, em 1875, por exemplo, ao referir-se às pessoas escrevia que “os europeus pareciam hindus mascarados e era muito difícil perceber onde acabava o hindu e começava o europeu”.

Aponta a autora, então, que para um inglês, Goa era mais estrangeira do que o resto da Índia. É duplamente exótica por não encaixar nas representações que previamente os viajantes faziam da Índia. O que acontecia era que “em Goa as fronteiras não eram tão claras e isso podia ser perturbador para quem queria que os goeses cantassem música nativa e se vestissem de nativos. Os nativos não correspondiam às suas expectativas sobre a alteridade e a vontade de reconhecer fronteiras bem definidas entre “nós” e os “outros”. Os viajantes não queriam ver-se ao espelho. Queriam o diverso. Não lhe perturbava a diferença, mas a familiaridade do que via e ouvia, demasiado semelhante a si própria”.

Por outro lado, os britânicos possuíam um sentimento de superioridade em relação a Goa, a “outra” colónia. A Dunlop Smith, membro da comitiva de Lord Minto na visita a Goa em 1909, por exemplo, “o que mais parecia incomodar não era a pobreza, nem a óbvia decadência goesa em relação a um passado longínquo, mas os sinais de riqueza, de orgulho ou de ostentação que pareciam ter sobrevivido ao declínio”.

Os britânicos que chegavam a Goa (e qualquer pessoa, em geral) constatavam o abandono da Velha Goa. Os tempos do Romantismo levavam a que o interesse pela ruína estivesse em voga. No entanto, este abandono e ruína que se verificavam constituíam uma “metáfora perfeita para a história do auge e declínio do império português” que os ingleses não deixavam de repisar. 

Não surpreende, pois, que o tema mais comum aos viajantes em Goa durante este período seja o do contraste entre o passado glorioso do império português na Índia e a decadência do presente. E que tal leve os ditos viajantes a assinalar que fosse efectuada uma reflexão sobre as lições da história e sobre a forma como os britânicos deveriam analisar as causas da decadência portuguesa na Índia, para não incorrer nos mesmos erros. Ou seja, “Goa enquanto laboratório para as políticas coloniais britânicas do presente”. Para eles, “Goa era uma outra Índia”, “um lugar colonizado por outros mas que seria mais bem colonizado por eles”. Vemos aqui presentes e marcantes os estereótipos de que Portugal era sujeito, como país da Europa do Sul, “atrasado” e “inferior”. A pretensão britânica sobre a Índia do lado tinha subjacente a ideia de que “se o governo português não sabia fazê-lo, então devia permitir que outros o fizessem”. 

A este propósito, a autora levanta uma interpretação curiosa acerca da “feminilidade dos territórios colonizados ou dos seus habitantes”, segundo a qual “Goa era do género feminino (da ausência de um exército à desolação de uma capital parada no tempo, da riqueza da terra por explorar aos portos onde não havia movimento ou comércio, da ridicularização de cerimónias e costumes desajustados ao abuso de indumentárias que já tinham passado de moda, da religiosidade exacerbada do catolicismo às ruínas de um passado que não voltaria: tudo isto culminava numa Velha Goa, onde a natureza já ganhara há muito a batalha contra a intervenção humana e onde as ruínas eram tanto matéria como metáfora, o desmoronamento do império português tornado visível). O império britânico, pelo contrário, apresentava sinais de uma masculinidade latente.”

Estas ideias britânicas estavam muito presentes nos discursos coloniais e ao mesmo tempo levam a autora a questionar se não poderemos encontrar nestas posições uma forma de “dupla colonização” ou de “duplo orientalismo”.

Os britânicos em Goa estavam ainda condicionados pelas diferenças de religião entre o catolicismo e o protestantismo. Eles viam o catolicismo como “uma religião exacerbada, excessiva, plena de rituais e de imagens que a afastavam da essência divina e do verdadeiro cristianismo, imbuído no protestantismo. Um excesso semelhante ao do hinduísmo. Viam como problemático a fusão entre as duas religiões, catolicismo e hinduísmo, que levara a que algumas superstições dos gentios fossem acrescentadas às suas. Ou seja, a hibridez de Goa congregava o pior de dois mundos.”. Entendiam Goa como um lugar amoral, onde o excesso de riqueza levara à decadência.

Não obstante esta posição religiosa diversa, apesar das críticas à Inquisição em Goa, São Francisco Xavier estava presente (pela curiosidade que despertava) em quase todos os textos dos viajantes britânicos. 

Dos motivos para visitar Goa, a autora aponta três modelos dominantes:
aqueles que viajavam por motivos de doença e que aproveitavam para escrever (turismo de saúde ou turismo medicinal);
Padres católicos ou protestantes que tinham um interesse religioso por Goa;
Relatos de viagem escritos por homens que foram a Goa em visita oficial.

O viajante mais conhecido será Richard Burton, autor de Goa and the Blue Mountains, publicado em 1851. Burton tinha curiosidade por uma outra Índia, desejava partir para um lugar menos comum e atraia-o Camões. Ainda assim, não deixou de ser crítico da Goa portuguesa. Face aos edifícios da Velha Goa estranha-os em relação ao turista habituado à Índia britânica. E explica a sua destruição pela pobreza dos portugueses. A lição histórica que Goa e os seus erros poderia representar para a política colonizadora britânica está bastante presente. Tal como o seu racismo, a par de ideologias suas contemporâneas: aponta o clima e a mistura de sangue como dois dos principais factores que teriam levado à degeneração da raça. Burton, tal como outros britânicos, ligavam a decadência e o declínio de Goa (do império português, enfim) a uma consequência da política de casamentos e ao cruzamento de portugueses com hindus de castas baixas. Esta mistura entre colonizadores e colonizados teria, segundo ele, afectado a consolidação da soberania portuguesa, para além de que, o não envio dos filhos de portugueses para Portugal (ao contrário do que seguiam os britânicos) terá resultado num processo de aculturação que mais não fez do que tornar ténue a linha entre aqueles que possuíam o poder e aqueles que a ele estavam subjugados. Filipa Lowndes Vicente esclarece ainda que “as relações de britânicos com mulheres indianas, [eram] tão comuns como não oficiais, estavam imbuídas de uma hierarquização que, longe de demostrar a tolerância ou a empatia com a terra colonizada, poderia até ser considerada como uma outra forma de colonização”.

Em seguida, algumas ideias mais expressas por outros viajantes.

O Conde Van Hübner, diplomata austríaco, dizia acerca da cidade de Velha Goa que era um “monumento fúnebre” que preservava as cinzas do Portugal heróico, enquanto a natureza selvagem que a tinha invadido substituía a função das flores que, habitualmente, se plantavam junto aos túmulos. O silêncio sepulcral apenas era interrompido pelos sinos que chamavam devotos inexistentes, e o abandono desolador da antiga cidade apelava tão-só à lira de Camões para lhe cantar as tristezas.

James Forbes viajou em 1813. Publicou cartas e desenhos. A curiosidade era o que o movia e registou o contraste entre o branco das casas e a natureza luxuriante. Não deixa, no entanto, de referir a inquisição de Goa e de a considerar uma cidade desoladora, um cenário melancólico de deploração e ruína.

Charles Frédéric de Montholon-Sémonville, diplomata e senador francês, fez de Goa um lugar de passagem a caminho de Mumbai. Em relação a Pangim, expressou a sua emoção: “Encontrei muito frequentemente, sobretudo nesta costa do Malabar, lugares deliciosos; mas aqui, no cenário quase mágico que se desenrolava à minha frente, qualquer coisa distinta e que me deixou espantado pela sublime estranheza da cena. Nos montes que dominam as margens do rio, nas ilhas, nos fortes, nos conventos, toda a arquitectura portuguesa do século XVI; os seus muros grandes e altos que tiveram os seus dias de pujança e dominação inquieta e orgulhosa, testemunhos hoje em dia silenciosos de uma rápida decadência, parecem ainda projectar, sob um sol incandescente, um orgulho de grandes sombras douradas sobre um solo indiano, pisado com tanto impacto pela primeira conquista europeia empreendida na Ásia.”

Williams Howard Russell, acompanhante do Príncipe de Gales na sua visita oficial a Goa em 1875, narrou a viagem. Considerou que os portugueses na Índia ficavam muito castanhos e os europeus pareciam hindus em costume, ou seja, vestidos com trajes ocidentais. Notou a ausência de mulheres entre a pequena multidão reunida para saudar o Príncipe. A mistura racial, os mestiços, levou-o a afirmar que era muito difícil perceber onde acabava o hindu e começava o europeu – a etnia e o género, pela presença ou pela ausência, converteram-se nos primeiros critérios de classificação de uma Índia percebida como diferente. Sobre Goa: “um arsenal em ruínas; palácios em ruínas; paredes do cais em ruínas; igrejas em ruínas – tudo em ruínas.” A lição: ” A história dos portugueses na Índia contribuiria certamente para enriquecer a narrativa moral de qualquer historiador de filosofia que quisesse debruçar-se sobre o declínio e a queda de impérios. Gama! Albuquerque! Estes são os grandes nomes a ter em consideração. É um lugar que qualquer inglês deveria visitar. Um lugar onde em especial um Príncipe Inglês poderá retirar enorme proveito da sua visita. Se nós nos orgulhamos dos nossos feitos e da nossa história na Índia, e se nos rejubilamos pelas façanhas da nossa raça, ao olharmos para certas ruínas como aquelas que o Príncipe de Gales tem contemplado, somos levados a questionar-nos sobre os factores que minam as fundações de Estados poderosos e que contribuem para transformar em pó o trabalho de estadistas e soldados.”

Quanto às duas mulheres focadas autonomamente no livro de Filipa Lowndes Vicente, Isabel Burton e Katherine Guthrie, o catolicismo da primeira distingue-a dos demais viajantes. Mas pouco mais as diferencia dos restantes nas conclusões a que chegam após a visita a Goa, para além do que, tal como os homens, escreviam a partir das ideologias dominantes na sua época e não questionavam a legitimidade do império britânico.

Isabel Burton escreveu: “A Índia portuguesa, graças a Deus, é apenas uma faixa de território com cerca de 70 milhas de comprimento, e fariam bem melhor se a vendessem ao governo britânico; de todos os lugares esquecidos e abandonados por Deus, mil anos atrasados em relação ao resto da criação, nunca vi nada que igualasse Goa.”. Notou ainda o isolamento de Goa face ao resto do mundo, ausência de bens de consumo, moda, vestuário medieval e grotesco, mas como muitos outros realçava a hospitalidade dos anfitriões, sem deixar de acrescentar de que tinha pena deles por terem de viver ali. Descreve o lugar como morto e com um clima pior ainda. Na sua primeira impressão de Pangim remeteu para Santos, no Brasil, onde tinha vivido. Dizia que todas as cidades construídas pelos portugueses eram feitas à semelhança de Lisboa e que a paisagem obedecia a uma mesma tipologia – a mesma “entrada abrupta do mar, entre rochedos montanhosos, sobre um rio amplo e sinuoso, ou um braço de mar, com margens de madeira, com as mesmas cidades brancas empoleiradas nas suas margens”. ” A costa longa e plana, o interior ondulado e coberto de vegetação, sobretudo pelas palmeiras, o território pontuado de aldeias brancas de telhados de palha e por casas verdes e brancas; pequenas fortalezas brancas que um canhão de dez libras demoliria; igrejas alongadas, assemelhando-se a celeiros, com grandes fachadas pintadas de branco, por dentro e por fora, a espreitar por entre a vegetação, mostram como os portugueses souberam moldar o território com base nos padrões do seu país de origem e das suas colónias. Nós estamos como que em Portugal, – numa faixa do Brasil – num hemisfério indiano.”

Guthrie, por seu lado, logo à chegada da fronteira portuguesa notou diferença nos territórios, uma paisagem mais cultivada, jardins com vegetais e laranjeiras, uma ponte com um santuário de cada um dos lados. A arquitectura das casas surge como característica nova e repara na ausência da varanda e da sua preciosa sombra e acredita que os portugueses nunca tinham sido capazes de se adaptar às arquitecturas locais, nem adaptar às características benéficas das regiões onde se instalavam.
“A minha primeira impressão de Goa e, acrescentarei, a minha última, era de que se tratava do mais estranho recanto da terra que eu alguma vez visitara.”. Também considerava os goeses educados. Mas a sua visão protestante fazia com que considerasse que a religiosidade vivida pelos católicos estava repleta de gestos supersticiosos e irracionais alimentamos por padres interessados em perpetuar a ignorância dos povos. Sobre Velha Goa não podia ser mais incisiva: ruína, solidão, natureza selvagem, ar infesto.

Concluindo, Filipa Lowndes Vicente encontra nas narrativas dos viajantes britânicos em Goa estudadas uma orientalização do português, ou seja, uma espécie de colonização dos colonizadores portugueses.

Livro a não perder por todos aqueles que gostam de história, literatura de viagem e estudos étnicos e do género. Melhor, para quem aprecia os quatro focados a um mesmo tempo.

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