Mumbai

Mumbai será muito provavelmente em poucos anos a maior cidade indiana em número de habitantes. Por enquanto possui “apenas” cerca de 14 milhões, mas continua a atrair muitos mais, quase todos eles com o sonho comum de alcançarem uma vida melhor, fazerem dinheiro, quem sabe até tornarem-se estrelas de Bollywood. 
Acontece que Mumbai é a cidade da Índia por excelência, com tudo o que de bom e de mau à ideia está associado. Lado a lado convivem as melhores moradias com as maiores favelas. A entrada na cidade pelo seu aeroporto não deixa dúvidas: as favelas estão coladas à pista e seguirão até ao centro da cidade, num mar de precariedade sem fim. Mas ao mesmo tempo vemos irromper pela linha do horizonte rumo aos céus uma série de edifícios, uns já construídos, outros em construção, que nos mostram que há lugar para outro tipo de habitações. O lixo e o luxo dizem presente em iguais proporções. 
A história de Mumbai é tão interessante como as personagens que a habitam. E nós, portugueses,  temos muito a ver com ela. A escassez de água em Mumbai (e em toda a Índia) é hoje uma realidade, mas a sua abundância já foi um problema que a ambição e engenho do Homem tornou contornável. 
A antiga Bombaim (mudou de nome para Mumbai, em 1995, em homenagem à deusa local Mumba), talvez corruptela de “bom baia”, foi dada como dote aos ingleses pelo casamento de Isabel de Bragança e Charles II, em 1661. Parece que na época os ingleses nem sabiam muito bem onde ficava Bombaim – talvez lá para os lados do Brasil; afinal, surpresa, não, é na Índia. Maior surpresa ainda foi constatarem que a terra disponível não era muita – esta parte do dote era um monte de ilhas difíceis de comunicar entre si. Em todo o caso, os ingleses pretendiam uma nova base na costa ocidental da Índia e lançaram mãos à obra para transformar este porto de pescadores através da construção de línguas de terra, vulgo passeios, de forma a ligar as sete ilhas (Colaba, Old Woman’s Island, Bombay, Mazgaon, Parel, Mahim e Worli) que estavam separadas pelo mar e por pântanos. Ou, mais correcto, de forma a ligar as quatro ilhas que restavam, depois de os portugueses terem já passado pela empreitada de as ligar.
A cidade foi crescendo e de porto de pescadores foi tornando-se um centro de comércio que conquistava cada vez mais terra à água do Mar da Arábia. Os subúrbios juntaram-se às outrora ilhas e a indústria também ganhou destaque. Comércio, indústria, centro financeiro, terra dos sonhos. Mumbai é tudo isso e muito mais.
A “cidade máxima” como se lhe referiu Suketu Mehta num dos livros mais celebrados sobre a cidade. Nele o autor reproduz as palavras de um amigo: “Bombaim não tem a ver com monumentos; tem a ver com experiências” (já Alberto Moravia escrevia “a experiência da Índia”).
Mumbai é uma metrópole enorme, confusa, difícil de compreender pelos estranhos, ainda mais se estes se propõem lá passar apenas dois dias. Dai que a nós não nos tenha restado se não viver umas poucas experiências. Chegámos à noite, vindas de Goa, e do trajecto do aeroporto para o hotel foram cerca de 45 minutos a tentar captar o movimento da cidade feita de prédios altos em Bandra. Não fomos a Bandra, não fomos a Juhu Beach, ficámo-nos apenas pelo sul de Mumbai. Prédios altos, sim, mas a primeira e mais forte ideia de Mumbai é a das suas favelas intermináveis, parecendo que se ocupam da área contígua à linha do comboio, sendo maior o aglomerado junto às estações.
Deixámos as coisas no hotel e saímos rapidamente para jantar ali mesmo na zona do Fort. Logo na primeira noite vimos uma ratazana com uma poça de sangue fresquinho à volta; na segunda noite uma ratazana em fuga rápida bem à frente dos nossos pés; na terceira noite nem vestígios de ratazanas, apenas uma noite calma em que os indivíduos – todos homens – se procuram acomodar para dormir na rua, em qualquer espaço da rua, não precisa de ser um canto, pode ser até em cima do seu carrinho de vender sumos ou frutas, num perfeito equilíbrio. De manhã é vê-los a derramar canecas de água sobre os seus corpos, que a higiene não pode faltar.
Não sei se é pobreza, não sei se é miséria. É todo um mundo à parte, para os europeus. Para quê visitá-lo?, perguntam muitos. Para vivê-lo, respondo.
Vamos, então, a algumas experiências por nós vividas.

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