Mumbai – Parte 1

No primeiro dia em Mumbai, de manhã cedo tomámos um comboio urbano para chegar ao Mahalakshmi Dhobi Ghat. Com carruagem exclusiva para mulheres, lá fomos vendo o movimento pela janela, enquanto as locais se sentavam no chão junto às portas abertas das carruagens – e nisto as mulheres dos comboios são iguais aos homens.


Dhobi Ghat é uma lavandaria a céu aberto. Correcção. É a maior lavandaria a céu aberto do mundo e na saída da estação de comboio de Mahalakshmi, lá do alto, percebe-se bem porquê. A princípio parece mais uma favela, mas observando melhor há uma característica que a distingue dos outros amontoados de construções precárias: as filas e filas de roupas estendidas.
Este Dhobi Ghat pode ser visitado. Mas o mais provável é que à entrada do bairro seja pedido dinheiro aos incautos turistas. E, depois, só há uma de duas soluções. Ou voltar para trás sem apreciar a vida dos dhobis ou engolir um grande sapo e assumir a espoliação e deixar-se ser guiada por um “guia” cuja pronúncia inglesa é digna de figurar em qualquer programa de humor. Está visto que a solução por nós tomada foi esta última.





Aqui são lavadas cerca de meio milhão de roupas todos os dias, roupas essas que podem ser para aqui enviadas quer por instituições quer por particulares. O mais incrível é verificar que um bairro tão informal e precário é capaz de prestar um serviço altamente funcional e organizado onde as falhas são poucas. As roupas são etiquetadas, lavadas e passadas a ferro para que depois possam ser devolvidas aos seus donos. São colocados papelinhos em cada uma e ficam por ali empilhadas. Em seguida os dhobis – profissão de homem – enchem-nas de água nos tanques e em movimentos rápidos e ritmados rodam as roupas encharcadas no ar e batem-nas contra o cimento do tanque uma série de vezes. Há máquinas modernas por aqui, mas a maior parte do trabalho é manual. E é um espectáculo. Um espectáculo de cor, também, proporcionado pelas peças de roupa. Para além do que, enquanto caminhamos pelas ruas estreitas do bairro, contornando os tanques, é-nos permitido observar e perceber alguma da vivência diária das suas gentes, que não apenas trabalham aqui como aqui vivem.


A uma caminhada não muito longa do Mahalakshmi Dhobi Ghat fica o santuário (Dargah) Haji Ali, dedicado a este santo muçulmano. O lugar é especial, um pequeno istmo que parece flutuar no mar, alcançável através de um corredor longo só possível de percorrer na maré baixa. A arquitectura indo-islâmica do santuário é delicada, branco puro a destacar-se na paisagem, bem como os seus pormenores, sobretudo as suas cúpulas e minaretes. 








Este é um lugar popular e, por isso, confuso. Um microcosmos de Mumbai. Pelo dito corredor passamos por um monte de tendas onde tudo se vende, de um lado, e diversos pedintes, do outro. Em ambos os lados o Mar da Arábia destaca-se e a sua sujidade – se tudo se vende nas tendas, tudo parece boiar na água – não impede que as crianças lá se banhem. 



De volta ao sul de Mumbai, é obrigatório deixar-nos ficar pelo Oval Maidan a assistir aos rapazes equipados rigorosamente de branco enquanto jogam cricket, com o edifício da Universidade e a Torre do Relógio Rajabai a comporem o cenário. Estes são alguns dos edifícios coloniais que distinguem Mumbai, num estilo gótico revivalista que é um gáudio para o olhar. 



Para lá do Oval Maidan, Fort a chegar a Colaba, fica o distrito da arte Kala Ghoda. Com várias galerias por aqui, seríamos tentados a escrever que esta é uma outra Mumbai. Mas não. O bom gosto e a arte imperam dentro de portas – a Delhi Art Gallery, a Jehangir Art Gallery e o Museu Prince of Wales ficam por aqui -, mas por fora os edifícios estão muito mal conservados. Parte boa da experiência por esta área, onde fica também a azulíssima Sinagoga, é que a arte indiana contemporânea fica lado a lado com a vida de rua mais pura que a cidade tem para oferecer, como é o caso dos carrinhos de venda de comida de rua e das lojinhas improvisadas.




Para um banho de multidão, não há como perder a Gateway of India. Este é um dos maiores símbolos de Mumbai e, ao mesmo tempo, um símbolo colonial. 


Construído pelos britânicos para comemorar a visita do Rei George V à Índia em 1911, este arco triunfal em pedra basalto com alguns pormenores bem bonitos acabou por ser concluído apenas em 1924 e, naquela que é constantemente apontada como uma ironia, foi por aqui que saíram os britânicos quando abandonaram o sub-continente. Virado para o Mar da Arábia, como se abraçasse os visitantes à entrada da cidade, serve também como adeus à porta da saída. Sobre ele escreveu Octávio Paz, no seu “Vislumbres da Índia”, que lhe pareceu “uma versão fantasista dos arcos romanos”. Faltam-lhe os romanos, mas sobram-lhe os indianos (não são muitos os turistas não indianos). É um mar de gente que parece não ter fim, um daqueles lugares para se ir uma vez na vida e tirar as fotos da praxe, daquelas em que se posa para agarrar o monumento ou selfies ou o que a imaginação mandar. 




E a imaginação por aqui manda muito. Afinal de contas, o mítico hotel Taj Mahal Palace é vizinho do Gateway of India. O mesmo Octávio Paz, na obra citada, escrevia sobre o Taj que este era um “delírio de um oriente fim de século”. Construído em 1903 em estilo mourisco, oriental, florentino, o que calhar, é provavelmente o lugar mais democrático de Mumbai. Diz-se que o parse que o mandou construir fê-lo depois de haver sido barrado na entrada de hotéis de topo naquela época. A decisão foi então a de construir um hotel onde todos tivessem lugar e que fosse ao mesmo tempo tão luxuoso como os mais luxuosos. Conseguiu superar todos os outros e este é hoje um lugar histórico e cheio de histórias para contar. Uma delas triste, muito triste, como foi a dos atentados que o lugar sofreu em 2008. Mas a melhor história do Taj é a de ter recuperado e hoje ser novamente possível a qualquer um de nós, visitante e não hóspede, percorrer algumas das suas alas e salões. A arquitectura do Taj é alegre e esfuziante, mais um delírio nesta Mumbai. Há que circundar todo o edifício e perceber, então, que é mesmo verdade, o Taj foi construído ao contrário e o erro levou a que a fachada estivesse aberta à cidade e de costas viradas para o mar.


Mas nada disso importa.
Importa que é fim do dia e o lugar para se estar é na Marine Drive, seja no skybar do Hotel Intercontinental, o Dome, apartado da confusão, ou no meio da gente que todos os dias enche a promenade que vai desde Nariman Point até Malabar Hill. Do topo do Dome, no entanto, conseguimos apercebermo-nos melhor do porquê do apodo de “queen’s necklace” (colar da rainha): a curva da Marine Drive, cidade de um lado, mar da Arábia do outro, luzinhas do cair do dia como adereço, não deixa dúvidas: Mumbai tem charme e é bonita.


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