Mumbai – Parte 2


Férias são férias, logo, não há horários. Vai daí, levantámo-nos de madrugada de forma a que por volta das 6:00 já estávamos na Sassoon Dock, uma das mais antigas docas de Mumbai, construída em 1875, situada a sul de Colaba. À entrada a sua pitoresca torre do relógio recebe-nos. A melhor hora para visitar esta doca é ao nascer do sol, quando os barcos dos pescadores Koli vão chegando e descarregando o seu peixe. 





O peixe é então içado para cima de uma forma artesanal e até precária, para depois as mulheres o transportarem em alguidares ou cabazes, a maior parte das vezes acomodados sobre as suas cabeças. Nós ficámos por ali, fomos-nos deixando estar, a incomodar o trabalho das gentes da doca, numa azáfama intensa logo ao raiar do dia. O cheiro não é menos intenso e à chegada ao nosso país, ao tirar da mala os ténis então usados nessa manhã, ainda havia vestígios desse odor que se encrava nos objectos e no ambiente. O movimento segue solto e o peixe é comercializado logo ali. Com o nascer do dia observamos outros pormenores e vemos que não só o peixe fresco tem lugar nesta doca, também o peixe deixado a secar marca presença. E, ou não estivéssemos na Índia, a cor é uma constante.


Ainda nessa manhã fomos de passeio até às Ilhas Elefanta. O nome, está-se mesmo a ver, tem contributo português. Este é um passeio muito popular e os barcos para lá saem das traseiras da Gateway of India. Uma boa forma de apreciar este símbolo de um outro ângulo, magistralmente acompanhado pelo Taj. 


Na viagem de barco os passageiros entretiveram-se a oferecer biscoitos às gaivotas. Quando o Babu se cansou da actividade virou-se para nós e, depois de apresentar toda a sua família (mulher, um filho de 14 anos e uma filha de 8 anos) e amigos, não mais nos largou. Quis saber como se escrevia o seu nome em português e ficou algo desiludido por constatar que o nosso idioma é escrito sob o mesmo alfabeto que a língua inglesa. Não conseguiu acrescentar mais uma forma de escrever “Babu” às quatro que já sabia, mas em compensação pode ouvir cantar a Xana dos Rádio Macau e ficar a conhecer o som da nossa língua. Curioso o rapaz. 





A viagem de barco até às Elefanta dura cerca de uma hora. Aqui encontramos uma série de caves e templos hindus património da Unesco, construídas provavelmente no século V. Não se tendo ainda como certo, considera-se que esta é no entanto uma refinada obra de arte dos tempos Gupta ou Chalukya.
O lugar é dedicado ao deus Shiva e apesar de algumas das estátuas terem sido destruídas, diz-se que cortesia também dos portugueses, restam ainda exemplos fantásticos. Como a principal escultura esculpida na rocha, enorme nos seus seis metros de altura, representando as três faces de Shiva: a criadora, a protectora e a destruidora. A não perder igualmente as figuras que ladeiam aquela.
Outro dos pontos altos do lugar é algo mais terreno, os muitos macacos que nos acompanham em quase todo o lado e que insistem em nos imitar nas poses mais naturalmente humanas (ou será que somos nós que os imitamos?).


A jornada é agradável, mas estávamos apertadas pelo pouco tempo que nos sobrava – apenas uma tarde mais – e voltámos rápido, desta vez sem a companhia do nosso novo amigo Babu.


Já em pleno centro da cidade fica a Victoria Terminus, também designada Chhatrapati Shivaji Terminus, o novo nome em homenagem ao herói maratha.
Esta é a estação de comboios mais conhecida da Índia e provavelmente a única do mundo declarada património da humanidade pela Unesco. Construída durante dez anos e inaugurada em 1887, a Victoria Terminus é mais um símbolo de Mumbai impossível de perder. Por ela passam todos os dias cerca de três milhões de passageiros de todas as classes que pretendem ligação entre o centro administrativo e financeiro da cidade e os seus subúrbios. Não nos podemos esquecer que os comboios na Índia são parte da experiência, quer pela comodidade que representam quer pela vida e movimento que nos proporcionam testemunhar. Foi aqui na Victoria Terminus que aconteceu o primeiro serviço de comboio de passageiros da Índia e o seu edifício majestoso e grandioso foi talvez o primeiro edifício público da cidade. Em resumo, é um ícone. E como ícone que é não escapou aos atentados de Mumbai em 2008, à semelhança do Taj.
Por tudo isto, se é impossível perdemos uma visita a esta estação, é igualmente impossível deixarmos de nos deslumbrar com tanta exuberância arquitectónica. Aqui encontramos uma mescla de estilos: vitoriano, hindu, islâmico, tudo junto num extravagante convívio. Mais um delírio para o olhar. Neste encontro entre a arquitectura revivalista gótica vitoriana e a arquitectura tradicional indiana vamos vendo desfilar pela fachada espécies da fauna e flora locais, com o leão a dominar, imponente. Neste conjunto destacam-se ainda uma profusão de torres, pináculos, cúpulas, frontões, gárgulas, janelas em arco decoradas a rosa e branco e, enfim, uma imensidão de figuras que fazem deste revivalismo gótico uma excentricidade absoluta e um estilo único, o estilo Mumbai.





Este estilo, porém, não é unânime. Alberto Moravia, no seu livro “Uma Ideia da Índia”, por exemplo, escreve sobre o estilo gótico vitoriano que é “o estilo mais feio do mundo”. Já a arquitectura moderna do país, em geral, é “um pesadelo”, tendo os ingleses construído o país “contra todo o bom senso”. Sobre a profusão de ornamentos, esta é para o autor “delirante” e resultado da principal característica da arte indiana, “o ódio ao vazio”.


Ódio ou não, vazio é palavra rara em Mumbai. Vejam-se os bazares, por exemplo. Visita a Mumbai que se preze não fica completa sem uma passagem por um dos seus muitos bazares. 
Perto da Victoria Terminus fica o Crawford Bazaar. Também conhecido como Mahatma Jyotiba Phule Mandai, o edifício deste mercado, datado de 1869, tem uma arquitectura característica onde se destaca sobretudo a sua torre. Mas é o seu interior que nos provoca mais uma enorme explosão de sentidos. A cor oferecida pela variedade dos legumes e frutas que aqui são vendidos, ao lado de animais domésticos, em especial cães, gatos e passarinhos, é toda uma experiência para guardar. Os vendedores são simpáticos e oferecem-nos a provar algumas frutas. Infelizmente ainda não era a época da manga. Outros deixam-se estar por ali sentados, relaxados, ou deitados, indolentes.





A área envolvente ao Crawford Bazaar é uma zona habitada por muçulmanos. Veem-se mesquitas e muito verde das bandeirinhas do islão. As ruas por aqui não são largas e estão ocupadas por lojas e mais lojas. Um imenso bazar. E uma imensidão de gente nas ruas, de tal forma que é impossível caminhar a pé pelos exíguos passeios, obrigando-nos a dividir a estrada com os veículos que teimam em passar – podem ser carros ou carrinhos de madeira improvisados para transportar as mercadorias. O barulho compõe o caos.





Caos esse que nos acompanha até ao Chor Bazaar, a uma boa distância do Crawford.
Seguindo pela confusão fomos percebendo que os edifícios desta Mumbai central estão extremamente mal conservados, a desfazerem-se até. No entanto, apesar do seu mau estado preservam pormenores artísticos cativantes. 
O Chor Bazaar é um mercado de antiguidades. De forma literal, Chor significa ladrões. Mas a palavra “chor” terá derivado da palavra “shor”, cujo significado é barulhento. Os britânicos terão entendido mal a palavra e de mercado barulhento passou-se a mercado dos ladrões. Ambas não andarão muito longe da verdade. Nada adquirimos por aqui, mas fica a experiência de deambular pela velha e confusa Mumbai. 




O fim do dia, o fim da viagem, não podia deixar de ser passado na praia de Chowppaty. Como os locais. O final da Marine Drive, já perto de Malabar Hill, é mais um lugar cheio de cor, seja ela trazida pela natureza ou pelas muitas pessoas que a ocupam. Esta praia não é um lugar para se tomar banho, apesar de haver quem não se importe de partilhar a água com os cocós. É, antes, o lugar para se deixar estar na areia sozinho, em família ou entre amigos; sossegado, a confraternizar ou a brincar; a pousar os pés na areia, a despedir-se do sol ou a provar a comida de rua. A comida de rua está presente em quase toda a Mumbai, mas Chowppaty é o lugar dela, seja o kulfi, o vada pav ou o bhelpuri.
Parte inevitável da experiência de Mumbai é a sua comida. A cidade máxima é o também no capítulo gastronomia da Índia. Seja em restaurantes ou na rua as expectativas, diziam-nos à partida, eram elevadas. A final, podemos afirmá-lo com certeza, foram mais do que cumpridas. Reportagem gastronómica na Cantina dos Sabores da mana aqui (praia de Chowpatty), aqui (restaurante Ziya), aqui (restaurante Khyber) e aqui (restaurante Colaba Social).

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