Na Índia, de Albert Londres

Albert Londres foi um jornalista francês que viajou pelo mundo.
Em 1922 andou pela Ásia e passou pela Índia, tendo-nos legado um pequeno livro cheio de apontamentos deliciosos. No prefácio do seu Na Índia, Ana Cristina Leonardo escreve:
“O repórter, com o seu faro particularmente dotado para o pormenor, o seu gosto pela petite histoire e o seu apurado sentido crítico e de justiça – um virtuoso das letras íntegro de carácter, todos o confirmam -, esboça um retrato que hoje, à distância de quase um século, se continua a provar ser acurado e genuíno.”.
E é-o mesmo. 
Acerca das viagens de comboio, por exemplo, confirmarmos décadas depois que tudo parece igual – e igualmente estranho aos sentidos ocidentais.
Leia-se:
“Circular constitui um dos prazeres preferidos da raça”. “Nos países moderados, chegamos sensatamente à estação no dia da partida, talvez uma hora antes. Mas isso é porque não somos verdadeiros conhecedores dos prazeres da via férrea. Muito antes da data em que participarão no grande mistério da tracção, os indianos invadem com os seus guarda-chuvas, seguidos da esposa, transportando o cachimbo do marido e os potes de cobre, e das crianças nuas, o átrio da South Indian Railway ou de qualquer outra próspera companhia. Aí comem costas com costas, uma questão de castas (não esquecer as castas), e fazem as suas orações, lavam as tíbias. Um odor a jardim zoológico invade a área. Felizes, aí dormem enquanto esperam por um comboio que apanharão… provavelmente.”
Uma outra constatação de que tudo permanece igual: 
“Quando o hindu abre o olho, está pronto, não precisa sequer de sair de casa uma vez que dorme pelos passeios.”.
A ironia domina toda esta obra de Albert Londres e está igualmente presente na descrição da caminhada de Gandhi, num capítulo breve titulado “Como Apareceu… e Desapareceu Gandhi”, e na forma curta mas certeira de descrever os processos de não cooperação e de desobediência civil que nortearam a sua acção. 
Nesta descrição do âmago indiano não precisamos de ter estado na Índia para nos parecer familiar, cortesia de todos os estereótipos que envolvem a vida no subcontinente: 
“Cruzamo-nos com leprosos prateados e com leprosos carcomidos. Estendem-nos a mão. Podemos dar-lhes dois annas, parece que a coisa não se apanha assim. Um elefantíaco, com uma perna normal passeia a outra perna de paquiderme. Metade dos transeuntes tem a cara pintada como ovos da Páscoa. Há quem apresente três traços brancos horizontais, mas não faço ideia porquê. Aqueles que têm um ponto branco entre os dois olhos são os que adoram Shiva, o deus criador, e aqueles que têm um vermelho é porque adoram Brahma, o deus criador, e aqueles que têm um ponto amarelo é porque adoram Vishnu, o deus conservador. E aqueles que adoram Hanuman, o deus macaco, limitam-se a ter uma macaca no coração.”
Obviamente, não poderiam faltar umas palavras sobre a vaca: 
“A vaca é a deusa das ruas. Acompanha-vos pelos passeios e olha convosco para as belas montras. Quando se instala no meio das avenida, mesmo os carros de topo a contornam respeitosamente para não a incomodarem. Se tivéssemos de escolher, mais depressa passaríamos por cima do corpo de um homem do que do rabo de uma vaca.”.
Este é, também, um livro que não foge à crítica político-social de uma época em que o Império Britânico governava a imensa Índia. A ironia segue: 
“Sob uma fotografia de Gandhi, os comerciantes, que são comerciantes antes de serem indianos, vendem o belo algodão inglês a senhoras que são coquetes antes de serem nacionalistas.”
Acerca das relações entre indianos e ingleses, a contundência corre solta: 
“O sorriso é um movimento facial desconhecido na Índia. O indiano não sorri. O inglês não sorri. Neste país onde o calor vos esmaga, toda a gente está congelada! Seja o que for que aconteça, nunca devereis dizer que o contacto entre indianos e ingleses foi cortado. Ele nunca existiu. Pode-se dizer que há tanta afinidade entre um indiano e um inglês como entre um rebanho de ovelhas e um banco de bacalhau, por exemplo. Porque, no que diz respeito ao inglês, pode-se afirmar que ele conseguiu deixar de ver o indiano. Se um deles parasse numa rua de Calcutá para lhe perguntar:

O que pensa o Senhor do indiano?

Ele responder-lhe-ia:

O indiano? Vejamos. Para já, onde é que vive esse povo?”

Albert Londres utiliza a expressão “a cor do ódio” para designar os sentimentos ingleses face aos nativos e também por isso esta é uma obra indispensável para se compreender a história recente (presente?) da Índia sob todos os domínios.

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