Mosteiro de Alcobaça

Alcobaça fica a cerca de uma hora e meia de viagem de Lisboa. 
A zona oeste é marcada por diversos pontos de interesse para qualquer viajante, como Óbidos e Caldas da Rainha, São Martinho do Porto e Nazaré, Serras de Aire e Candeeiros, mas desta vez foi o Mosteiro de Alcobaça que nos levou à estrada.


Também conhecido como Abadia de Santa Maria de Alcobaça, este monumento distinguido pela Unesco como Património da Humanidade foi obra dos monges da Ordem de Cister. Lutava ainda D. Afonso Henriques pelo reconhecimento da independência do Reino de Portugal quando, em 1153, interessado numa política de expansão e povoamento, doou àquela Ordem os terrenos (e muitas mais áreas) onde está hoje implantado o Mosteiro. 

Lugar de terras férteis e de passagem de rios, entre 1178 e 1253 os monges de Cister viriam a construir uma obra monumental em todos os aspectos. 

Arquitectonicamente, o Mosteiro é considerado o maior exemplo do gótico no nosso país. Esteticamente parece-se uma igreja-fortaleza. A sua igreja é a maior de Portugal. As abadias e os monges cistercienses prezavam a sua auto-suficiência, dai que empreendessem esforços no sentido do melhor conhecimento e administração dos terrenos onde estavam implantados. Em Alcobaça, por exemplo, é notável a utilização pelo Mosteiro do rio Alcoa, demonstrando toda a excelência por parte dos monges na criação de um sistema hidráulico único. Os monges tiravam frutos, ainda, dos seus campos, pomares e estábulos. No que respeita à cultura, registe-se que foi aqui que em 1269 se leccionaram as primeiras aulas públicas em Portugal, no caso de Gramática, Lógica e Teologia.

Em tempos recentes a zona envolvente ao Mosteiro foi objecto de uma obra de requalificação por parte do arquitecto Goncalo Byrne que lhe confere hoje uma amplidão à sua medida, livre de elementos, como veículos automóveis, que perturbem a sua leitura.


A fachada do Mosteiro de Alcobaça apresenta-se-nos com vários estilos: românico, barroco e gótico. Daquela que foi a fachada original restam o portal gótico e a rosácea. No século XVIII foi remodelada ao estilo barroco tendo sido acrescentados os dois campanários. 


Logo à entrada percebemos o título de maior igreja de Portugal: o interior estende-se ao longo da enorme nave central – enorme em comprimento e em altura – seguindo-se duas naves laterais, todas elas abobadadas. A magnificência é evidente mas ao mesmo tempo este é um monumento despojado, seguindo os preceitos de sobriedade e austeridade da Ordem fundada por São Bernardo. Os elementos decorativos ou são inexistentes ou são muito simples, de que é exemplo o recurso à opção de decoração dos capitéis com motivos vegetalistas. 



A iluminação da igreja é proporcionada na sua maior parte pela luz natural que entra pela rosácea na fachada. Existem, ainda, outras rosáceas mais pequenas e algumas frestas altas e janelões ao longo do espaço que contribuem também para a luz natural do seu interior.


Esta austeridade é quebrada de forma grandiosa com os Túmulos de D. Inês de Castro e de D. Pedro I, cada um deles numa das naves laterais, um espreitando o outro, enfim juntos na eternidade, eles que foram personagens de uma das maiores histórias de amor da nossa História. Estes dois túmulos são considerados os melhores exemplares escultóricos da tumulária medieval portuguesa. Verdadeiras obras-primas. Um hino à perfeição. 



Na cabeceira do túmulo de D. Pedro, por exemplo, pode observar-se uma imagem tantas vezes difundida do nosso país, a rosácea representando a Roda da Vida e a Roda da Fortuna. 



Já no túmulo de D. Inês são as cenas da Paixão de Cristo e do Juízo Final que ganham maior relevo e nos fazem admirar a excelência do trabalho efectuado.


Visitados estes túmulos, poder-se-ia pensar que a sala do Panteão Real, ali mesmo ao lado onde repousa D. Pedro I, onde são apresentados outros túmulos, não merece uma visita. Nada mais errado. Estes são bem mais modestos, mas ainda assim obras escultóricas cativantes. 


De caminho, uma olhada à capela barroca de São Bernardo com um conjunto de imagens em terracota representando a sua morte. 



Outra ruptura à austeridade original do fundador de Cister encontramos na porta da sacristia, num inconfundível estilo manuelino. Para lá da sacristia – fechada – fica a também nada austera capela-relicário, repleta de talha dourada (que não tive oportunidade de conhecer).  

Visitada a igreja, é agora altura de seguirmos para o lado esquerdo do Mosteiro, que dará acesso ao claustro. Antes, porém, passamos pela Sala dos Reis, quase toda revestida a azulejo, com estátuas dos reis elaboradas pelos monges e com uma representação de D. Afonso Henriques a ser coroado por São Bernardo e pelo Papa.





O Claustro de D. Dinis ou do Silêncio, do século XIV,  era a área central do Mosteiro que dava acesso a todas as dependências e para onde estas confluíam. Os monges circulavam por aqui em silêncio e este era um espaço de leitura e meditação. Este claustro é todo ele abobadado e os seus arcos formam voltas perfeitas. 


No pátio umas laranjeiras trazem cor e sorrisos e a austeridade fica em causa. Um olhar para o piso superior faz-nos avistar umas gárgulas e as certezas de que essa tal de austeridade já era tornam-se cada vez mais fortes. 





A Sala do Capítulo é magnífica, plena de abobadas, colunas e capitéis, devendo também mostrar-se atenção ao chão.



No piso superior o dormitório dos monges (ou Claustro dos Noviços) deslumbra pela sua amplidão e, mais uma vez, pela sequência de abobadas. Nas suas traseiras fica o Claustro da Levada, construção do século XVI na sequência de uma remodelação do Mosteiro.


Mas são a Cozinha e o Refeitório as divisões onde os nossos sentidos são definitivamente conquistados. E nem é necessário que se cozinhe já lá qualquer iguaria ou doce conventual. 


Destaque imediato para as enormes chaminés da cozinha, onde diz a cultura popular que aqui se podiam assar bois inteiros. 





Vêem-se ainda os tanques e as levadas por onde vão passando as águas do Rio Alcoa. Recorrendo uma vez mais à sabedoria popular, ficamos a saber que os monges aqui pescavam. Mas nesta cozinha fica evidente toda a excelência no aproveitamento do sistema hidráulico por parte dos monges de Cister. Neste ambiente monumental ouve-se ainda o correr da água pelas levadas, dando uma carga mais profunda e mística a este espaço.



Ali ao lado fica o não menos monumental Refeitório. Em estilo gótico manuelino, tem cerca de 620 metros quadrados, tão amplo tão amplo, onde apenas umas frestas e rosácea deixam entrar uma luz natural escassa (acompanhada de uma luz artificial e sombria vinda de uns capitéis), sendo fácil imaginar o ambiente misterioso em que os monges faziam as suas refeições.


Cá fora destaque ainda para um mimoso Lavabo, com o elemento harmonioso da água a marcar mais uma vez presença.


Finda a visita ao Mosteiro, vale a pena percorrer a curta promenade à beira do Rio Alcoa e admirar alguma da cerâmica local ali em exposição pública.

Mais adiante os rios Alcoa e Baça juntam-se. A tradição popular, sempre ela, diz-nos que dois apaixonados viram o seu amor contrariado em vida e só depois de mortos puderam unir-se para a eternidade, como o rio que aqui se junta.

Ainda, dois palacetes impossíveis de perder e de admirar em Alcobaça: 


o Palacete Gafa, edifício oitocentista de influência brasileira onde está hoje instalada a Câmara Municipal; 


e o Palacete Casa da Família Rino, do século XIX, actualmente um jardim infantil.

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