Maximum City, de Suketu Mehta


Mumbai, para muitos ainda Bombaim, é uma cidade carismática, digna de todos os adjectivos superlativos.
Não admira, pois, que seja palco de muitos livros (idem para filmes). Alguns exemplos entre os que tive oportunidade de ler são Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, de 1981, A Morte de Vishnu, de Manil Suri, de 2001, Assuntos de Família, de Rohinton Mistry, de 2002, ou Maximum City, de Suketu Mehta, de 2004.
Este último, que possuiu como sub-titulo “Bombaim, a cidade dos contrastes e excessos”, escrito por um jornalista-escritor é um documento poderoso pelo retrato implacável que traça da cidade para onde todos parecem querer ir viver, enriquecer, sonhar.

Algumas citações retiradas da edição portuguesa (Dom Quixote, 1.ª edição, 2011) acerca das questões sociais e urbanísticas, deixando de lado a longa temática do poder, corrupção e religião a que o autor se dedica:

“Porque continuam as pessoas a viver em Bombaim? Cada dia é uma agressão aos sentidos a partir do momento em que se acorda, começando pelo transporte que se apanha para chegar ao trabalho, os escritórios onde se trabalha e as formas de entretenimento a que se é submetido. Os gases dos tubos de escape são tão densos que o ar ferve como se fosse sopa. Está-se em constante contacto físico com as pessoas: nos comboios, nos elevadores, quando se volta para casa para dormir. Vive-se numa cidade costeira, mas a maioria das pessoas vive de costas para o mar e só se aproxima dele uma hora aos domingos à tarde, numa praia nojenta. Também não se acaba quando se adormece, porque com a noite chegam os mosquitos dos pântanos da malária, os bandidos do submundo e os altifalantes estrondosos das festas dos ricos e dos festivais dos pobres. Porque se há-de querer deixar a casa de tijolo na aldeia com as suas duas mangas e a sua vista de pequenas colinas a leste para ir viver para lá?” (página 483)

Sobre as casas de Mumbai: “Para a grande maioria das famílias de Bombaim – setenta e três por cento, de acordo com o censo de 1990 -, a casa consiste numa única assoalhada: ali dorme-se, cozinha-se, come-se. A média é de 4,7 pessoas por assoalhada. A função do mobiliário muda continuamente ao longo do dia; a cama converte-se em sofá de manhã; a mesa da sala é uma secretária entre as refeições. Os seus ocupantes também são rápidos, trocam de roupa embrulhados numa toalha atrás de uma cortina, tão depressa que achamos que são invisíveis. Mas a invisibilidade está, efectivamente, a ser concedida pelos outros ocupantes da sala ao desviarem o olhar durante a transformação, como conseguiram os seus pais conceber cinco crianças naquela sala? Deve ter havido muita coisa vista e não observada, ouvida e não escutada.” (página 464)

Sobre o seu apartamento em Mumbai: ” Está rodeado por edifícios altos, de modo que as pessoas que passam por baixo ou saem para as varandas dos prédios em frente podem ver todos os cantos do meu apartamento e observar-nos enquanto deambulamos pela cozinha, comemos, trabalhamos ou dormimos. Há vinte andares no prédio e dez apartamentos por andar. Cada apartamento terá uma média de seis pessoas e três criados; o seu contingente de pessoal de apoio adicional (guardas, pedreiros, varredores) será um por andar. Isso dá duas mil pessoas neste prédio. No prédio contíguo vivem duas mil pessoas e outras duas mil no que fica atrás. A escola no centro do recinto tem dois mil alunos, bem como professores e funcionários. Isso soma oito mil seres humanos a viverem em alguns hectares. É a população de uma cidade pequena.” (página 32)

E porquê tantos criados? “Todos os dias lavam-se e esfregam-se os apartamentos. Aprendemos o sistema de castas dos criados: a criada interna recusa-se a esfregar o chão; isso é para a criada de fora; nenhuma das duas está disposta a limpar as casas de banho, o domínio exclusivo de um bhangi, que não faz outra coisa. O motorista recusa-se a lavar o carro; isso é monopólio do vigilante do prédio. O andar acaba cheio de criados. Acordamos todos os dias às seis da manhã, quando a mulher do lixo vem buscar os sacos do dia anterior. A partir desse momento, a campainha não pára de tocar: o leiteiro, o jornaleiro, o amolador de facas, um comprador de papel e garrafas usados, o massagista, o homem da televisão por cabo. Todos os serviços do mundo, trazidos à minha casa”. (página 33)

O tema cocós não pode faltar: “Todas as manhãs, pela janela do meu escritório, vejo homens a fazerem as necessidade nas rochas junto ao mar. Duas vezes por dia, quando a maré baixa, eleva-se um cheiro horrível das rochas e estende-se aos andares de meio milhão de dólares a leste. […] Metade da população não tem uma retrete onde cagar, de modo que o faz ao ar livre. Estamos a falar de cinco milhões de pessoas. Se cada um caga meio quilo por dia, são dois milhões e meio de quilos de merca a cada dia”. Pior ainda para as mulheres, “têm de fazê-lo entre as duas e as cinco da manhã, porque é a única altura em que gozam de privacidade”. (página 140)

Na cidade de Mumbai, enfim, “o maior luxo de todos é a solidão”. (página 138)

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