Pitões das Júnias

Pitões das Júnias é dos lugares mais incríveis que já conheci. Por sorte, fica no meu país.

Um lugar que cabe numa road trip, um lugar para se caminhar por cenários dramáticos ímpares, um lugar de montanhas afiadas, um lugar com uma cascata com uma altura de 30 metros e um mosteiro com quase 1000 anos, um lugar com história e tradição, um lugar longínquo, isolado e desolado. Pitões das Júnias reúne tudo isto, um lugar de natureza e cultura, mas é sobretudo um lugar vivo.

Já havia estado nas Júnias anteriormente, mas essa visita entranhou-se de tal forma no meu imaginário que sempre pretendi repetí-la.

Desta vez entrei por Espanha e à aproximação dos seus inconfundíveis cumes afiados comecei de imediato a ficar ansiosa. Uma ansiedade saborosa, como a que sente a criança que sabe que está prestes a receber um doce.

Pitões das Júnias fica situada no concelho de Montalegre, literalmente para Trás-os-Montes. Este território é habitado desde o megalítico, daí as mamoas, antas e dolmens que se vêem na região.

A paisagem deste pedaço da Terra Fria transmontana, a tal que o dito sentencia “9 meses de inverno e 3 de inferno”, é fabulosa. Entre barragens – a Albufeira do Rio Salas, em Espanha, e a Albufeira da Paradela, em Portugal -, também à conta dos diversos ribeiros que descem da montanha nunca se está muito longe da água. Mas são os seus penedos que trazem o carisma à região e, em particular, a Pitões das Júnias.

A povoação ergue-se abaixo de umas montanhas escarpadas, como a Fraga da Espinheira, a 1337 metros de altitude na Serra do Gerês. Inconfundível e inesquecível na sua forma. E sob a sua protecção foi, então, instalada a aldeia de Pitões das Júnias, a 1100 metros de altitude. Embora agreste, este lugar está protegido dos ventos frios do norte e os tais cursos de água fazem com que as terras de cultivo sejam boas. O rei na terra é, no entanto, o gado, em especial o boi barrosão. Ele caminha livre por esta terra selvagem.

O gado é o centro da vida e da economia de Pitões – o presunto e o fumeiro local são de qualidade superior – e a ele está ligada uma das figuras mais emblemáticas do espírito comunitário da povoação, a vezeira. O pastoreio é aqui efectuado sob regras democráticas próprias, juntando-se todo o gado sob a vigilância de um ou dois pastores e, com isso, possibilitando a disponibilidade de mais braços para os restantes trabalhos colectivos como as segadas (ceifa) e as malhadas (debulha). O boi do povo é, assim, representativo da coesão social de Pitões das Júnias (mas não exclusivo dela, uma vez que Trás-os-Montes, na generalidade, é ainda hoje conhecida por esta sua faceta comunitária).

Não estranha, pois, que os edifícios da aldeia tenham quase todos eles lugares para guardar o gado.

Vale a pena percorrer as suas ruas sem demoras. As casas são representativas da arquitectura barrosã, em granito local e com cobertura de telha e já não tanto de colmo, e com rés-do-chão e primeiro andar. No rés-do-chão são guardados os animais e por vezes aí fica a cozinha, lugar não só de refeição mas também de convívio. O primeiro andar é reservado aos sobrados e à sala.

São muitas as casas desta aldeia que não é pequena, mas a maioria não está inteira. A sua população, segundo os últimos Censos de 2011, é de apenas 161 habitantes, tendo vindo a diminuir drasticamente desde há 70 anos. Claro que nas férias este número multiplica-se pela visita dos muitos emigrantes que daqui, em tempos, partiram para outras zonas do país e, sobretudo, para França e Brasil.

As casas estão dispostas à volta da igreja e os terrenos agrícolas rodeiam a povoação. A horta, essa, fica ali mais próxima das habitações.

Outro dos encantos de Pitões das Júnias é o seu Mosteiro de Santa Maria das Júnias. A princípio poderá causar surpresa o facto de este mosteiro estar afastado da povoação e situado num pequeno vale encaixado onde corre um ribeiro, quase como se pretendesse passar despercebido. Mas quando ficamos a conhecer que a sua função original era a de eremitério tudo tem mais lógica. Se bem que num lugar destes, de paisagem selvagem e bruta, a lógica não tem de ser chamada à razão.

Construído no século XII no lugar de um eremitério do século IX, este antigo mosteiro cisterciense (que começou por ser beneditino), com igreja românica, está praticamente todo ele em ruínas. Mantém-se erguida, precisamente, a igreja, e o seu campanário (mais tardio) e portal em arco com a cruz de malta são excelentes testemunhos do que foi a sua grandeza até ao século XVIII e à sua extinção definitiva por volta de 1834. Apesar da ruína, podemos perceber como era o mosteiro pelo que sobeja dos seus corpos.

O espaço tomado hoje pela relva, por exemplo, correspondia aos claustros e destes resta a parte da sua arcada gótica, três arcos de volta perfeita. Crê-se que a comunidade monástica de Pitões das Júnias tenha sido relativamente modesta, quer em número de monges quer em poder económico. Os monges dedicavam-se à pastorícia e ao apoio dos peregrinos em direcção a Santiago de Compostela.

Deste Mosteiro, subindo um pouco a encosta, saí um trilho que nos leva à Cascata de Pitões das Júnias. Mato rasteiro e blocos de granito é o que pisamos no caminho. Diz que por aqui, entre fauna diversa, podemos encontrar cobras de dois metros, mas inofensivas. Felizmente não o pude confirmar. A silhueta das fragas ao fundo tomou toda a minha atenção.

Seguimos junto a uma levada de água e a determinado passo temos de optar por desviar à esquerda e dar uma espreitada na Cascata desde cima – o barulho da água é ensurdecedor – ou tomar a direita para a ver desde frente. Podemos tomar as duas opções, esquerda primeiro, voltar, direita depois.

Poucas centenas de metros mais à frente chegamos aos infindáveis degraus da escadaria de madeira (atenção à descida, que os degraus confundem-se) que nos deixarão no miradouro face a face com a Cascata.

Graças a um desnível granítico, a água jorra desde uma altura de mais de 30 metros. Em baixo, no vale que se abre diante nós fica o Carvalhal do Beredo, guardado pelo recorte da Serra do Gerês. Um cenário imenso.

Soajo e Lindoso, espigueiros e muito mais

Os espigueiros fazem parte da paisagem do norte do nosso país. Andamos por montes e vales e nem precisamos de entrar numa povoação para encontrarmos um exemplar à beira da estrada. Eles vão-se sucedendo, uns maiores do que outros, mas quase sempre elegantes.

Chamemos-lhes espigueiros ou canastros, estes elementos de arquitectura popular são na sua maioria de forma rectangular (mas também os há quadrados ou redondos), elevados no solo, de madeira ou de pedra, com cobertura de telha ou de palha e de ornamentação variada. Só a sua função parece não variar: pequenos celeiros para guardar o milho e protegê-lo das intempéries e dos roedores.

Em lugar nenhum do nosso país podemos vê-los em tão grande número e tão concentrados como no Soajo e no Lindoso, em pleno Parque Natural Peneda-Gerês.

Comecemos por uma paragem no Soajo.

Já foi vila, passou a aldeia e desde 2009 voltou a ter a distinção de vila. Instalada na Serra do Soajo, cujo cume mede 1416 metros de altitude, esta povoação feita ainda de muitos edifícios de granito, ruas estreitas e inclinadas, abre-se altaneira para o recorte dos montes que a rodeiam, onde não faltam os terrenos dispostos em socalcos. À entrada um monumento erguido ao Cão Sabujo da Serra do Soajo faz-nos saber que “daqui partiram, todos os anos, para os reis de Portugal cinco grandes e valentes cães do Soajo. Por tal, nos séculos da monarquia, os soajeiros beneficiaram da isenção de impostos e de outros admiráveis privilégios”. Igualmente, abaixo de um brasão numa das casas da vila, com elementos como o dito cão e outros animais e uma árvore, está inscrito “Serra do Soajo, Parque Natural d’ el Rei”. A vila ganhou foral em 1514 e o orgulho dos seus habitantes pelo seu papel na história do país é manifesto.

Ainda que não restem já edifícios dessa remota era, alguns dos seus edifícios mais típicos seguem de pé e são bons testemunhos de arquitectura tradicional.

A praça principal é disso exemplo. Aqui ficam a oitocentista Casa da Câmara, os antigos paços municipais, a quinhentista Casa do Largo de Eiró (o nome da dita praça principal), o seiscentista Pelourinho e a Igreja Paroquial com o seu estreito campanário a que se acede por uma escadaria.

Quase sempre em granito, as casas são normalmente de um ou dois pisos, e o superior pode conter um alpendre em madeira ou balcão em pedra a que se acede por uma escadaria. A Casa do Largo é distinta pela sua arcaria e gárgulas de canhão.

O Pelourinho é muito curioso. Não é certa nem a sua origem nem o seu significado, mas o rosto sorridente e solar lá está, a encimar a coluna.

Vale a pena passar para lá da Igreja e caminhar pelas ruelas irregulares da vila antes de seguir para a Eira Comunitária do Soajo, o lugar que lhe dá a fama e que chama a maior parte dos seus visitantes.

Sobre um afloramento de granito ergue-se um conjunto de 24 espigueiros, todos eles em pedra. Alguns destes espigueiros são ainda hoje utilizados pela população e o mais antigo deles data de 1782.

Estas estruturas seculares de arquitectura agrícola, dispostas desordenadamente no cimo deste penedo cheio de desníveis e com uma vista fabulosa para os montes e vales que formam a Serra do Soajo, representam ainda assim um conjunto harmonioso. Possuem uma forma rectangular, são estreitos e inteiramente de granito, incluindo a sua cobertura, e apenas a sua porta é de madeira. São elevados para permitir uma melhor secagem dos cereais e assentes numa espécie de pés também eles feitos de lajes de granito. As suas paredes têm umas fendas verticais. Estas frestas pequenas servem para arejar o cereal no interior do espigueiro, ao mesmo tempo que o poupam dos estragos quer do clima quer dos animais. As suas portas estavam fechadas e não dava para perceber o que estes espigueiros guardavam por esta altura do ano, mas o vento que soprava forte e entrava por ali adentro fazia o seu interior ganhar vida, remexido pelo ar e pelas portas a ranger. Este ambiente levemente agreste condiz com a rudeza destas construções vernáculas.

A sua ornamentação basta-se com as cruzes dispostas na frente ou na traseira, ou em ambas, do telhado do espigueiro. A cruz é o símbolo de proteção contra a maldição e, ao mesmo tempo, abençoa o milho. Ou seja, ao contrário do que um olhar menos atento poderia julgar, não se tratam de estruturas funerárias, pelo contrário, representam a vida, o sustento das famílias.

Antes de deixarmos a vila do Soajo não o podemos fazer sem uma visita – ou, se o clima o permitir, um mergulho – ao Poço das Mantas e, especialmente, ao Poço Negro, um recanto travestido de piscina natural no caminho do rio Adrão, o qual há-de desaguar no rio Lima um pouco mais adiante.

Do Soajo para Lindoso são cerca de 15 kms. Há um caminho mais directo, mas optámos por seguir pelo lugar de Ermelo, pequeno ponto no mapa mas ainda assim terra de um Monumento Nacional na figura do seu Mosteiro do tempo do Românico, à beira do rio Lima. E é também à beira deste rio que a dado passo na estrada vemos despenhar-se com surpresa uma queda de água do alto de um monte.

Porque as surpresas nesta região não param de acontecer, vale a pena estarmos atentos ao caminho para que antes da entrada em Parada do Lindoso possamos desviar à direita para o Poço da Gola. Estacionamos o carro e vemos cá de cima o rio a vencer os desníveis e a romper as pedras pelo meio da vegetação. Continuamos mais um pouco a pé, procurando acompanhar o seu curso, e aí a surpresa é total. A uma antiga casinha de pedra em ruínas segue-se uma ponte de madeira e, cereja no topo do bolo, mais uma piscina natural de água claríssima, num conjunto verde perfeito.

O Lindoso, por fim.

Diz a lenda que D. Dinis, ao ver o castelo, “tão alegre e primoroso o achou, que logo lindoso o chamou”. O Castelo do Lindoso foi, no entanto, construído pelo seu antecessor, D. Afonso III, no século XIII. A sua implantação é primorosa, no alto de um pequeno penedo rochoso sobranceiro ao rio Lima, a 468 metros de altitude, em plena Serra Amarela. Espanha está a apenas 4 kms, daí que o objectivo primeiro da sua construção tenha sido o de defesa e vigia da fronteira. Mais tarde, o Castelo do Lindoso viria a desempenhar também um papel importante nas Guerras da Restauração, mais uma vez como linha de defesa contra o vizinho espanhol. O seu uso foi sempre estritamente militar, nunca tendo servido de residência.

No século XVII, curiosamente, foi construído um forte a envolver o castelo, que ocupa a praça interior. Hoje restam a torre de menagem, baluartes e canhoneiras. Mas o ambiente é já totalmente tranquilo no que a guerras, invasões e disputas diz respeito. A rudeza queda-se pelo isolamento da região e pelo cinzento do granito que nos cerca. O granito do terreno, o granito do castelo e o granito dos espigueiros.

Mesmo junto ao castelo fica a eira comunitária com cerca de 64 espigueiros (no total da freguesia serão mais de 120, o que faz dela a possuidora do maior aglomerado de espigueiros da Península Ibérica). É também esta a beleza deste Castelo do Lindoso, o facto da sua localização ser estratégica e paisagísticamente imaculada e ter como vizinhos imediatos um dos maiores expoentes da arquitectura rural do Minho: os espigueiros.

À semelhança do que acontece no Soajo, e em muitas das povoações do distante e montanhoso norte de Portugal, o espírito comunitário tem aqui uma forte presença. E também à semelhança dos espigueiros do Soajo, os do Lindoso são estreitos e rectangulares, em pedra, com acabamentos nas cantarias muito perfeitos e, mais uma vez, ornamentados apenas com um cruz no seu telhado. Alguns deles têm inscrita a data da sua criação e o mais antigo data, tal como o do Soajo, do século XVIII.

Vale a pena circular pelo espaço da eira, com os espigueiros distribuídos ao acaso, mas quase sempre com o topo traseiro virado a sudoeste, pensando na orientação do sentido da chuva, rodeando-os e apreciando-os de perto. Eles são aqui largos e de pouca altura, quase sempre de mesmas dimensões, e estas características comuns indiciam um equilíbrio na distribuição da propriedade agrícola na região.

A atestar a importância dos espigueiros enquanto símbolo etnográfico, a Imprensa Nacional Casa da Moeda lançou em 2018 uma moeda comemorativa (Espigueiros do Noroeste) com a imagem dos espigueiros do Soajo e do Lindoso, enaltecendo o património e a cultura identitária dos seus povos.