Pelo Trilho Castrejo

Os Montes Laboreiro, hoje mais conhecidos pela Serra da Peneda, são um dos lugares de Portugal que mais encanto produzem em mim. Sobretudo pela paisagem, sim, mas também pela cultura secular da qual chegaram testemunhos até aos dias de hoje. Em tempos andei por Castro Laboreiro e disso dei conta aqui.

Com a pandemia novos horizontes se abriram e o que me habituei a circundar de carro hoje adentro a pé, alcançando lugares, paisagens e ambientes que de outra forma não seriam possíveis perceber. Foi assim que surgiu a ideia da caminhada pelo Trilho Castrejo, percurso oficial de Melgaço (MLG – PR3), com 17 quilómetros pelos caminhos de transumância que outrora ligavam as brandas às inverneiras, um sistema de povoamento usado pelos povos castrejos que vale muito a pena conhecer e descobrir.

Antes de iniciarmos o Trilho Castrejo tal como está definido fizemos um desvio e subimos ao Castelo de Castro Laboreiro. O caminho até lá é fácil, cerca de 15 a 20 minutos para cada lado, indo por uma vertente do penedo e voltando pela outra, entrando e saindo por cada uma das portas do Castelo. Implantado num monte a 1033 metros de altitude (a vila de Castro Laboreiro está a 945 metros), neste miradouro natural para todo o planalto de Castro Laboreiro e montes escarpados que o rodeiam a vista é, está bom de ver-se, soberba.

Construído no século XII ou XIII sobre uma estrutura pré-existente, a muralha envolve dois espaços bem definidos. Um deles correspondia à povoação intramuros, a qual ainda na Idade Média abandonou o castelo altaneiro para se estabelecer mais abaixo, na vila que hoje conhecemos como Castro Laboreiro e que espreita para lá da muralha. Com o tempo o Castelo foi perdendo a sua importância estratégica, embora ainda tenha desempenhado um papel importante na Guerra da Restauração e na Guerra Peninsular. Realce-se, no entanto, que a ocupação humana do lugar do monte do Castelo é muito antiga, remontando ao Paleolítico e ao período castrejo, eram então os seus povos nómadas. Aliás, veremos adiante que uma espécie de nomadismo continua a ser prática na região.

Descemos do Castelo rumo à vila e desviámos breve até à face da Cascata de Castro Laboreiro, alimentada pelas águas do rio de mesmo nome. Chovia bem, mas não o suficiente para que pudéssemos confundir a água caída do céu com a torrente que cai em diversos patamares nesta falha nas rochas e que proporciona (mais) um belo espectáculo da natureza.

Atravessámos então a vila, conquistada por D. Afonso Henriques e logo integrada nos domínios do reino de Portugal, tendo recebido foral e sido elevada a sede de concelho em 1271, extinto em 1855 e hoje parte do concelho de Melgaço. O seu coração é a pequena praça onde encontramos a Igreja Matriz, o Pelourinho e o antigo edifício da Casa da Câmara. Instalada no planalto, o topónimo Castro Laboreiro deriva de “castrum” – povoação fortificada – e “lepporeiro” ou “lepus” (ou leporis, leporem, leporarium, lepporeiro, leboreiro) – palavra latina que significa lebre. Seria então a “fortificação das lebres”, talvez por existirem aqui muitos destes animais. Ou, palpitam ainda outros, derivará do “Castram Laborarum” dos romanos, de significado “acampamento de trabalhadores”. O que espanta na região é que desde sempre celtas, romanos, mouros e por fim os cristãos do reino de Portugal aqui tenham teimado em tomar assento, sobrevivendo às agruras do clima e da infertilidade do solo – daí a alusão aos trabalhadores. Ainda assim, têm demonstrado que é possível viver em comunhão com a natureza, adaptando-se e fazendo das previsíveis fraquezas a sua força.

Iniciámos oficialmente o Trilho Castrejo virando costas ao centro da vila de Castro Laboreiro e seguindo planalto afora. As fragas graníticas e os rochedos com formas cativantes marcam a paisagem típica da Peneda. A vegetação é rasteira, feita de tojo, carqueja, urze, com cores variadas que só o Outono sabe como fazer sobressair na perfeição. Este mato que aqui encontramos possui uma dupla função, servindo de alimento para o gado e mantendo alguma fertilidade do solo. Estamos no planalto, recordemos, e nas terras mais altas, as brandas, a fertilidade dos solos é ainda menor, pouco se produzindo, servindo as terras sobretudo para pastoreio e pastagens que aqui encontram alimento precisamente na vegetação rasteira referida.

À medida que abandonamos o planalto e descemos o vale do rio Laboreiro, com o monte do Castelo dominador à nossa esquerda, a paisagem e características do solo vão mudando. Somos transportados para um outro mundo, com um ambiente totalmente diferente. Primeiro aproximamo-nos de uma pequena lagoa com ponte (são às dezenas as pontes por estes caminhos), um lugar incrível, quase como se de um oásis na penedia se tratasse.

Depois continuamos a descer mas agora já não a céu aberto, antes totalmente imersos por um não menos incrível bosque. É o bosque de carvalhal do Barreiro e as palavras para o descrever nunca serão suficientes. Delicioso nas suas cores e tranquilo no seu recato, a dado passo os muros aparecem inteiramente cobertos de turfeira, de um verde tão intenso que parece irreal. É este musgo que faz reter a água e que juntamente com os rios e ribeiros que por aqui correm faz da zona baixa da região de Castro Laboreiro um mundo à parte em termos de fertilidade, num clima menos frio e numa terra menos pobre.

A piada e o interesse deste Trilho Castrejo está, precisamente nesta diversidade de paisagens que tem gerado ao longo dos séculos diferentes povoamentos. Ou melhor, um sistema de povoamento triplo: no planalto, nas brandas e nas inverneiras. Explique-se: este trilho segue pelos caminhos que ligavam as brandas às inverneiras, hoje ligadas por estradas asfaltadas mas há nem sequer um século apenas por caminhos medievais de calçada em pedra como este que percorremos agora (a estrada que liga Melgaço a Castro Laboreiro foi construída apenas na década de 1940). Os povos castrejos possuíam duas casas, uma nas brandas e outra nas inverneiras. Hoje, com as alterações climáticas e com o clima menos inclemente conseguem viver maioritariamente no planalto ou até nas brandas. Mas até há pouco tempo grande parte das famílias passavam os meses mais quentes nas encostas (brandas) e os meses mais frios nos vales (inverneiras). Nas brandas, situadas a maior altitude, faziam as sementeiras, como centeio e batata. Nas inverneiras, a mais baixa altitude e mais abrigadas, cultivavam-se os cereais e as frutas. Ou seja, o povoamento e exploração do solo varia conforme a época e o clima de modo a que o homem possa fazer o melhor uso da terra, trabalhando-a sempre que isso seja possível. Isto acontece um pouco por toda a Peneda, mas é aqui, em Castro Laboreiro, que assistimos a este sistema singular com maior evidência. Nos dias de hoje, porém, as pessoas têm vindo a fixar-se em permanência na vila de Castro Laboreiro, daí que, como alguém já se lhe referiu, esta seja a mais alta das inverneiras e a mais baixa das brandas.

Prosseguindo a nossa caminhada, aproveitámos para um lanche no inspirador bosque do Barreiro e atravessámos as inverneiras do Barreiro, Podre e Assureira. É à saída desta última aldeia que encontramos um belo postal que resulta do conjunto de um moinho junto à ponte. Até nos esquecemos que também a Capela de São Brás está ali. Em uso até há pouco tempo, alguns dos moinhos de água estão ainda bem conservados na sua fachada em granito e são uma expressão da arquitectura tradicional local.

Estamos já no ponto mais baixo do nosso trilho, a cerca de 750 metros de altitude. É nele que fica uma das pontes mais importantes e pitorescas da região e até de todo o Parque Nacional Peneda-Gerês. Classificada como Monumento Nacional, a Ponte da Cava Velha foi construída na época romana, embora tenha sido restaurada na época medieval. O facto de ser também designada por Ponte Nova faz crer que por aqui tenha existido uma outra ainda mais antiga. À semelhança de outras, o seu tabuleiro é em arco, mas maior. Na verdade, são dois os arcos que nos transportam até à outra margem do rio Castro Laboreiro.

E depois disso, atravessada a Ponte da Cava Velha o caminho brinda-nos com uma longa subida. A beleza agreste do lugar, mesmo com chuva e tempo nublado, reconforta no esforço. Os penedos e rochas não param de surpreender mas a forma de uma delas, em especial, supera tudo. O Bico do Patelo é irreal, como se um pássaro tivesse pousado à beira de um penedo e ali se tivesse quedado petrificado.

Vamos vendo o Bico ao longe, atravessamos a inverneira de Curveira já a preparar a lenha para os dias frios que aí virão, continuamos a subir por entre as pedras e ficamos mesmo debaixo da magistral formação rochosa. Aqui não podemos deixar de soltar um lamento pelo céu nublado não nos permitir registar na perfeição o fantástico enquadramento da aldeia com o Bico. Como pode um cenário ser tão grandioso mesmo com uma visibilidade tão má? E como pode a natureza moldar uma pedra de forma tão formosa?

Depois desta subida encontramos um terreno fácil e relativamente plano em terra batida. Um pouco para lá do ponto mais alto da nossa jornada (1090 metros de altitude) ficam algumas das brandas, como Padrosouro, junto à qual passámos sem entrar (e ainda mais escondidas nas montanhas ficam Seara, Eiras, Portos e Curral do Gonçalo).

Daqui iniciámos uma descida por mais um caminho de calçada de pedra, no que podia muito bem ser um rio com um fio de água. Avistam-se alguns pequenos prados verdejantes. Mas a melhor vista é para a inverneira de Cainheiras, um pequeno conjunto de casinhas de granito rodeadas de um manto verde entrecortado por uma fina e ondulante risca de asfalto, enquanto os penedos assistem a este espectáculo na fila de trás.

Antes de chegar a Castro Laboreiro ainda passámos pela ponte e povoação de Cainheiras e pela povoação e ponte de Varziela. Nesta última, junto ao ribeiro Corga das Lapas uma minúscula cabine está instalada num terraço verde com uma frente ribeirinha privativa. Um luxo. Mas voltam a ser as cores a ganhar protagonismo, fazendo questão de se sobrepor ao cinzento da paisagem.

À chegada a Castro Laboreiro temos a vista que nos faltava da sua cascata, agora no lugar cimeiro dos seus vários patamares e igualmente impressionante.

E podemos, finalmente, repousar desta enorme caminhada pela paisagem e cultura das aldeias de montanha dos Montes Laboreiro.

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Trilho da Peneda

Às vezes é bom visitar os lugares em dias de chuva. Visitada a Peneda no Verão, perceber-se-á a cascata que jorra água pelo penedo abaixo que serve de encosto ao seu Santuário?

Foi precisamente essa a imagem que nos tocou ver no início desta caminhada de 11 quilómetros designada por Trilho da Peneda, já no concelho de Arcos de Valdevez. O que acontece é que a chuva miudinha não nos largou durante toda a manhã e, pior, a nebulosidade era muita. Mas mesmo com pouca visibilidade seguimos adiante no nosso propósito e subimos os últimos patamares da escadaria do Santuário de Nossa Senhora da Peneda.

O culto mariano neste lugar tem 800 anos, quando, diz a lenda da Peneda, Nossa Senhora aqui terá aparecido a uma criança que pastoreava cabras e, após curar uma mulher de um caso já dado como perdido, lhe terá dito para pedir aos habitantes da Gavieira (sede da actual freguesia da Peneda) para erigirem uma ermida. O Santuário é, todavia, mais recente, tendo sido construído nos séculos XVIII e XIX. A escadaria das virtudes é a grande atracção cénica e formal, com estatutária representando a Fé, a Esperança, a Caridade e a Glória.

Nas costas do Santuário fica a carismática Fraga da Meadinha. A parede da Meadinha tem vindo a ser escalada por portugueses e sobretudo galegos desde a década de 1940 e é hoje a única onde se pode escalar legalmente no Parque Nacional da Peneda-Gerês. São 59 as vias de escalada desta fraga. Mas nós, apesar de a termos subido também, não o fizemos através de uma ascensão vertical, antes pelo bosque que a atalha mais suavemente. Apesar da nebulosidade intensa, as cores do bosque fizeram questão de se exibir. O penedo, esse, como é cinzento como a cor daquele dia, é que foi mais difícil de perceber em toda a perfeição. Ainda assim, conseguimos ver a água a rolar por entre as frechas da rocha, a tal que se transforma em cascata quando a queda surge mais abrupta nas costas do Santuário.

A subida é algo cansativa, indo dos 665 metros aos 1095 metros em apenas 3,7 quilómetros. Mas a quase 1000 metros temos um lago com uns reflexos incríveis, uma espécie de resistência à desfeita do clima. Conhecido como “pântano”, no lugar de Chã do Monte havia uma represa que servia uma mini-hídrica que fornecia energia eléctrica à povoação da Peneda. Hoje resta a água, com um belo rochedo no meio, circundada pelo granito que permite que uma vegetação rasteira verdíssima dele se apodere nas margens do lago.

O caminho prossegue por um campo de pedras com formas diversas. É basicamente um trilho sobre pedras, em que podemos saltitar de umas para as outras. Os afloramentos rochosos são fantásticos.

E vemos árvores negras despidas, outras inclinadas. O clima não perdoa. Indiferentes a ele, as vacas barrosãs e os cavalos garranos seguem nas suas vidas. Surpreende ver uma vaca descobrindo alimento mesmo em cima de um penedo. Outras passeiam juntas e assustam-se à nossa passagem, talvez não esperando que uns malucos caminheiros ali aparecessem com um tempo destes.

Os últimos 4 quilómetros do trilho são sempre a descer e o último segue pela estrada. À aproximação da aldeia da Peneda vemos uns prados com um tapete de um verde intenso, apenas perturbado pelos muros de granito que dividem as pequenas propriedades.

A cor é garantida pela chuva, sim, mas também por se situar na margem do rio da Peneda. Neste ponto o rio não parece correr muito tranquilo, encontrando no seu caminho uma série de pedras que tem de ultrapassar por vezes com alguma fúria. Na terra da pedra, não podia faltar um imenso monólito que servirá de arrumos – é ver a porta de madeira que lhe foi adossada.

Neste trilho da Peneda estão praticamente todos os elementos característicos do Parque Nacional da Peneda-Gerês: cascata, lagoa, rio, penedos, bosques, fauna, aldeias, espigueiros e socalcos. Na vizinha freguesia do Sistelo podem estar os socalcos mais conhecidos do Parque, mas estes da Peneda possuem um encanto muito próprio. E, junto ao Santuário, são uma bela forma de terminar este passeio pela natureza e modos de vida da serra, com mais um grande exemplo de como o Homem soube aproveitar as dificuldades dos terrenos para os transformar, vencendo engenhosamente os desníveis de forma a obter para si a maior área de terra possível para a agricultura, garantindo a sua subsistência e sobrevivência.

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Pela Penedia de Lamas de Mouro

Lamas de Mouro é uma aldeia no concelho de Melgaço e uma das portas oficiais do Parque Nacional Peneda-Gerês. Do centro recepção, que é também um lugar de recreio com um bosque de uma qualidade cénica incrível, parte um trilho circular de cerca 14 kms de dificuldade moderada pelos penedos graníticos da serra.

Logo nos primeiros metros, ainda antes de iniciarmos a subida serra adentro, uma pequena cascata aguarda-nos, lembrando-nos que nestas paragens nunca estamos muito longe de um rio ou ribeiro. A água, em especial o seu correr tranquilo e o som que transporta, é uma presença reconfortante.

A subida, embora um pouco longa, não é difícil. Começámos por nos distrair apreciando Lamas de Mouro ao fundo na encosta. Por enquanto está à distância de um olhar distante, mas havemos de a atravessar no regresso à Porta mais a norte do nosso único parque nacional, distante dela quase 2 quilómetros.

A distracção prossegue tentando imaginar o que nos sugere a forma dos inúmeros blocos graníticos da serra. Podem ser uns dedos, uma cabeça ou qualquer outra coisa para onde guia o nosso pensamento já imerso em pura evasão.

Mas eis que, rompendo o cinzento granítico, surgem as cores do Outono. A vegetação rasteira em tons verdes, castanhos, amarelos e vermelhos antecipa a entrada num lindo bosque de vidoeiros. Se até aqui lamentávamos o facto de o dia estar nublado e chuvoso, no meio deste bosque – e de outros que se seguiriam nos dias seguintes – este clima agreste e mais inóspito faz todo o sentido. É ele que lhe dá esta paleta e todo o carisma.

O Pico da Fanqueira, a 1175 metros de altitude, surge em destaque diante de nós, uma série de pedras que parecem ter sido empilhadas propositadamente para o fazer mais alto e elegante. Nós, porém, caminhamos um pouco mais baixo, a apenas 1097 metros, ainda assim mais alto do que o planalto Castro Laboreiro que agora nos toca avistar. O cenário é fabuloso. Não apenas pelas imagens que nos são oferecidas, mas também pela sensação de estes serem caminhos pouco pisados por outros que não alguns dos seus habitantes que ainda mantém uma vida dura de trabalho da terra. Mas nós não, nós estamos aqui por prazer e à dureza da vida daqueles que são nossos anfitriões mostramos respeito.

Na área de lazer de Veigas, à entrada da povoação de Várzea Travessa, fazemos uma paragem para um lanche numa das mesas junto à antiga casa da Guarda Florestal.

As vacas barrosãs a pastar livremente e os cães Castro Laboreiro (alguns presos, mas muitos docilmente à solta) cruzam o nosso caminho.

Há algumas povoações rente ao nosso percurso, mas apenas atravessaremos Portelinha. E Espanha é logo ali, talvez a menos de 50 metros de determinado ponto do nosso trilho junto ao rio Trancoso, por um caminho medieval por onde seguimos acompanhados por mais umas deliciosas cores de Outono. Foi esta fronteira imperceptível de diferença em termos paisagísticos que levou o escritor minhoto José Augusto Vieira a escrever “De cá nós! De lá vós!”.

Lamas de Mouro já não está distante e em breve a atravessaremos. O lugar é de povoamento muito antigo, como o atestam vestígios de dolmens e da cultura castreja. Diz-se que no século IX aconteceu aqui uma batalha contra os mouros, que estes perderam. Mas o nome, que é também nome do rio que por aqui passa, ficou: “Mouro”. Já “Lamas” virá das características do solo, cheio de lamas, pastagens de gado com água. Outros dizem que o nome “Lamas” derivará das lágrimas derramadas pelos mouros na dita batalha, que terá sido sangrenta. Seja como for, ficou Lamas de Mouro, aquela que no século XIV se terá tornado um couto da Ordem do Hospital e que durante muito séculos serviu de retaguarda à protecção do Castelo de Castro Laboreiro na defesa dos ataques inimigos na linha de fronteira.

Em Lamas de Mouro as vacas caminham ao nosso lado nas ruas pejadas de edifícios de granito onde muitos ainda reservam o primeiro piso para as guardar. As alminhas são outro dos seus elementos característicos.

Mas é a paisagem, sempre ela, que continua a surpreender-nos. Nesta foto se condensa muita da realidade da Serra da Peneda.

Prosseguindo caminho, à saída de Lamas de Mouro ainda somos brindados como a beleza sensível e pacata de um moinho muito bem conservado à beira do rio de Mouro, ao qual não falta sequer a companhia de uns esbeltos e distintos cogumelos.

Logo a seguir aparece a Ponte Romana de Porto Ribeiro. Atravessado o seu delicado arco seguimos os últimos metros da nossa caminhada sempre junto ao Rio de Mouro até ao centro de recepção das Portas de Lamas de Mouro. Já o havíamos antecipado logo no início deste texto, o seu bosque é belíssimo, a lembrar o Covão da Ametade, na Serra da Estrela. O curso de água rola tranquilo por entre um verde luxuriante, produzindo reflexos incríveis. Uma daquelas imagens que certamente nos acompanhará durante toda a nossa vida.

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Pitões das Júnias

Pitões das Júnias é dos lugares mais incríveis que já conheci. Por sorte, fica no meu país.

Um lugar que cabe numa road trip, um lugar para se caminhar por cenários dramáticos ímpares, um lugar de montanhas afiadas, um lugar com uma cascata com uma altura de 30 metros e um mosteiro com quase 1000 anos, um lugar com história e tradição, um lugar longínquo, isolado e desolado. Pitões das Júnias reúne tudo isto, um lugar de natureza e cultura, mas é sobretudo um lugar vivo.

Já havia estado nas Júnias anteriormente, mas essa visita entranhou-se de tal forma no meu imaginário que sempre pretendi repetí-la.

Desta vez entrei por Espanha e à aproximação dos seus inconfundíveis cumes afiados comecei de imediato a ficar ansiosa. Uma ansiedade saborosa, como a que sente a criança que sabe que está prestes a receber um doce.

Pitões das Júnias fica situada no concelho de Montalegre, literalmente para Trás-os-Montes. Este território é habitado desde o megalítico, daí as mamoas, antas e dolmens que se vêem na região.

A paisagem deste pedaço da Terra Fria transmontana, a tal que o dito sentencia “9 meses de inverno e 3 de inferno”, é fabulosa. Entre barragens – a Albufeira do Rio Salas, em Espanha, e a Albufeira da Paradela, em Portugal -, também à conta dos diversos ribeiros que descem da montanha nunca se está muito longe da água. Mas são os seus penedos que trazem o carisma à região e, em particular, a Pitões das Júnias.

A povoação ergue-se abaixo de umas montanhas escarpadas, como a Fraga da Espinheira, a 1337 metros de altitude na Serra do Gerês. Inconfundível e inesquecível na sua forma. E sob a sua protecção foi, então, instalada a aldeia de Pitões das Júnias, a 1100 metros de altitude. Embora agreste, este lugar está protegido dos ventos frios do norte e os tais cursos de água fazem com que as terras de cultivo sejam boas. O rei na terra é, no entanto, o gado, em especial o boi barrosão. Ele caminha livre por esta terra selvagem.

O gado é o centro da vida e da economia de Pitões – o presunto e o fumeiro local são de qualidade superior – e a ele está ligada uma das figuras mais emblemáticas do espírito comunitário da povoação, a vezeira. O pastoreio é aqui efectuado sob regras democráticas próprias, juntando-se todo o gado sob a vigilância de um ou dois pastores e, com isso, possibilitando a disponibilidade de mais braços para os restantes trabalhos colectivos como as segadas (ceifa) e as malhadas (debulha). O boi do povo é, assim, representativo da coesão social de Pitões das Júnias (mas não exclusivo dela, uma vez que Trás-os-Montes, na generalidade, é ainda hoje conhecida por esta sua faceta comunitária).

Não estranha, pois, que os edifícios da aldeia tenham quase todos eles lugares para guardar o gado.

Vale a pena percorrer as suas ruas sem demoras. As casas são representativas da arquitectura barrosã, em granito local e com cobertura de telha e já não tanto de colmo, e com rés-do-chão e primeiro andar. No rés-do-chão são guardados os animais e por vezes aí fica a cozinha, lugar não só de refeição mas também de convívio. O primeiro andar é reservado aos sobrados e à sala.

São muitas as casas desta aldeia que não é pequena, mas a maioria não está inteira. A sua população, segundo os últimos Censos de 2011, é de apenas 161 habitantes, tendo vindo a diminuir drasticamente desde há 70 anos. Claro que nas férias este número multiplica-se pela visita dos muitos emigrantes que daqui, em tempos, partiram para outras zonas do país e, sobretudo, para França e Brasil.

As casas estão dispostas à volta da igreja e os terrenos agrícolas rodeiam a povoação. A horta, essa, fica ali mais próxima das habitações.

Outro dos encantos de Pitões das Júnias é o seu Mosteiro de Santa Maria das Júnias. A princípio poderá causar surpresa o facto de este mosteiro estar afastado da povoação e situado num pequeno vale encaixado onde corre um ribeiro, quase como se pretendesse passar despercebido. Mas quando ficamos a conhecer que a sua função original era a de eremitério tudo tem mais lógica. Se bem que num lugar destes, de paisagem selvagem e bruta, a lógica não tem de ser chamada à razão.

Construído no século XII no lugar de um eremitério do século IX, este antigo mosteiro cisterciense (que começou por ser beneditino), com igreja românica, está praticamente todo ele em ruínas. Mantém-se erguida, precisamente, a igreja, e o seu campanário (mais tardio) e portal em arco com a cruz de malta são excelentes testemunhos do que foi a sua grandeza até ao século XVIII e à sua extinção definitiva por volta de 1834. Apesar da ruína, podemos perceber como era o mosteiro pelo que sobeja dos seus corpos.

O espaço tomado hoje pela relva, por exemplo, correspondia aos claustros e destes resta a parte da sua arcada gótica, três arcos de volta perfeita. Crê-se que a comunidade monástica de Pitões das Júnias tenha sido relativamente modesta, quer em número de monges quer em poder económico. Os monges dedicavam-se à pastorícia e ao apoio dos peregrinos em direcção a Santiago de Compostela.

Deste Mosteiro, subindo um pouco a encosta, saí um trilho que nos leva à Cascata de Pitões das Júnias. Mato rasteiro e blocos de granito é o que pisamos no caminho. Diz que por aqui, entre fauna diversa, podemos encontrar cobras de dois metros, mas inofensivas. Felizmente não o pude confirmar. A silhueta das fragas ao fundo tomou toda a minha atenção.

Seguimos junto a uma levada de água e a determinado passo temos de optar por desviar à esquerda e dar uma espreitada na Cascata desde cima – o barulho da água é ensurdecedor – ou tomar a direita para a ver desde frente. Podemos tomar as duas opções, esquerda primeiro, voltar, direita depois.

Poucas centenas de metros mais à frente chegamos aos infindáveis degraus da escadaria de madeira (atenção à descida, que os degraus confundem-se) que nos deixarão no miradouro face a face com a Cascata.

Graças a um desnível granítico, a água jorra desde uma altura de mais de 30 metros. Em baixo, no vale que se abre diante nós fica o Carvalhal do Beredo, guardado pelo recorte da Serra do Gerês. Um cenário imenso.

Soajo e Lindoso, espigueiros e muito mais

Os espigueiros fazem parte da paisagem do norte do nosso país. Andamos por montes e vales e nem precisamos de entrar numa povoação para encontrarmos um exemplar à beira da estrada. Eles vão-se sucedendo, uns maiores do que outros, mas quase sempre elegantes.

Chamemos-lhes espigueiros ou canastros, estes elementos de arquitectura popular são na sua maioria de forma rectangular (mas também os há quadrados ou redondos), elevados no solo, de madeira ou de pedra, com cobertura de telha ou de palha e de ornamentação variada. Só a sua função parece não variar: pequenos celeiros para guardar o milho e protegê-lo das intempéries e dos roedores.

Em lugar nenhum do nosso país podemos vê-los em tão grande número e tão concentrados como no Soajo e no Lindoso, em pleno Parque Natural Peneda-Gerês.

Comecemos por uma paragem no Soajo.

Já foi vila, passou a aldeia e desde 2009 voltou a ter a distinção de vila. Instalada na Serra do Soajo, cujo cume mede 1416 metros de altitude, esta povoação feita ainda de muitos edifícios de granito, ruas estreitas e inclinadas, abre-se altaneira para o recorte dos montes que a rodeiam, onde não faltam os terrenos dispostos em socalcos. À entrada um monumento erguido ao Cão Sabujo da Serra do Soajo faz-nos saber que “daqui partiram, todos os anos, para os reis de Portugal cinco grandes e valentes cães do Soajo. Por tal, nos séculos da monarquia, os soajeiros beneficiaram da isenção de impostos e de outros admiráveis privilégios”. Igualmente, abaixo de um brasão numa das casas da vila, com elementos como o dito cão e outros animais e uma árvore, está inscrito “Serra do Soajo, Parque Natural d’ el Rei”. A vila ganhou foral em 1514 e o orgulho dos seus habitantes pelo seu papel na história do país é manifesto.

Ainda que não restem já edifícios dessa remota era, alguns dos seus edifícios mais típicos seguem de pé e são bons testemunhos de arquitectura tradicional.

A praça principal é disso exemplo. Aqui ficam a oitocentista Casa da Câmara, os antigos paços municipais, a quinhentista Casa do Largo de Eiró (o nome da dita praça principal), o seiscentista Pelourinho e a Igreja Paroquial com o seu estreito campanário a que se acede por uma escadaria.

Quase sempre em granito, as casas são normalmente de um ou dois pisos, e o superior pode conter um alpendre em madeira ou balcão em pedra a que se acede por uma escadaria. A Casa do Largo é distinta pela sua arcaria e gárgulas de canhão.

O Pelourinho é muito curioso. Não é certa nem a sua origem nem o seu significado, mas o rosto sorridente e solar lá está, a encimar a coluna.

Vale a pena passar para lá da Igreja e caminhar pelas ruelas irregulares da vila antes de seguir para a Eira Comunitária do Soajo, o lugar que lhe dá a fama e que chama a maior parte dos seus visitantes.

Sobre um afloramento de granito ergue-se um conjunto de 24 espigueiros, todos eles em pedra. Alguns destes espigueiros são ainda hoje utilizados pela população e o mais antigo deles data de 1782.

Estas estruturas seculares de arquitectura agrícola, dispostas desordenadamente no cimo deste penedo cheio de desníveis e com uma vista fabulosa para os montes e vales que formam a Serra do Soajo, representam ainda assim um conjunto harmonioso. Possuem uma forma rectangular, são estreitos e inteiramente de granito, incluindo a sua cobertura, e apenas a sua porta é de madeira. São elevados para permitir uma melhor secagem dos cereais e assentes numa espécie de pés também eles feitos de lajes de granito. As suas paredes têm umas fendas verticais. Estas frestas pequenas servem para arejar o cereal no interior do espigueiro, ao mesmo tempo que o poupam dos estragos quer do clima quer dos animais. As suas portas estavam fechadas e não dava para perceber o que estes espigueiros guardavam por esta altura do ano, mas o vento que soprava forte e entrava por ali adentro fazia o seu interior ganhar vida, remexido pelo ar e pelas portas a ranger. Este ambiente levemente agreste condiz com a rudeza destas construções vernáculas.

A sua ornamentação basta-se com as cruzes dispostas na frente ou na traseira, ou em ambas, do telhado do espigueiro. A cruz é o símbolo de proteção contra a maldição e, ao mesmo tempo, abençoa o milho. Ou seja, ao contrário do que um olhar menos atento poderia julgar, não se tratam de estruturas funerárias, pelo contrário, representam a vida, o sustento das famílias.

Antes de deixarmos a vila do Soajo não o podemos fazer sem uma visita – ou, se o clima o permitir, um mergulho – ao Poço das Mantas e, especialmente, ao Poço Negro, um recanto travestido de piscina natural no caminho do rio Adrão, o qual há-de desaguar no rio Lima um pouco mais adiante.

Do Soajo para Lindoso são cerca de 15 kms. Há um caminho mais directo, mas optámos por seguir pelo lugar de Ermelo, pequeno ponto no mapa mas ainda assim terra de um Monumento Nacional na figura do seu Mosteiro do tempo do Românico, à beira do rio Lima. E é também à beira deste rio que a dado passo na estrada vemos despenhar-se com surpresa uma queda de água do alto de um monte.

Porque as surpresas nesta região não param de acontecer, vale a pena estarmos atentos ao caminho para que antes da entrada em Parada do Lindoso possamos desviar à direita para o Poço da Gola. Estacionamos o carro e vemos cá de cima o rio a vencer os desníveis e a romper as pedras pelo meio da vegetação. Continuamos mais um pouco a pé, procurando acompanhar o seu curso, e aí a surpresa é total. A uma antiga casinha de pedra em ruínas segue-se uma ponte de madeira e, cereja no topo do bolo, mais uma piscina natural de água claríssima, num conjunto verde perfeito.

O Lindoso, por fim.

Diz a lenda que D. Dinis, ao ver o castelo, “tão alegre e primoroso o achou, que logo lindoso o chamou”. O Castelo do Lindoso foi, no entanto, construído pelo seu antecessor, D. Afonso III, no século XIII. A sua implantação é primorosa, no alto de um pequeno penedo rochoso sobranceiro ao rio Lima, a 468 metros de altitude, em plena Serra Amarela. Espanha está a apenas 4 kms, daí que o objectivo primeiro da sua construção tenha sido o de defesa e vigia da fronteira. Mais tarde, o Castelo do Lindoso viria a desempenhar também um papel importante nas Guerras da Restauração, mais uma vez como linha de defesa contra o vizinho espanhol. O seu uso foi sempre estritamente militar, nunca tendo servido de residência.

No século XVII, curiosamente, foi construído um forte a envolver o castelo, que ocupa a praça interior. Hoje restam a torre de menagem, baluartes e canhoneiras. Mas o ambiente é já totalmente tranquilo no que a guerras, invasões e disputas diz respeito. A rudeza queda-se pelo isolamento da região e pelo cinzento do granito que nos cerca. O granito do terreno, o granito do castelo e o granito dos espigueiros.

Mesmo junto ao castelo fica a eira comunitária com cerca de 64 espigueiros (no total da freguesia serão mais de 120, o que faz dela a possuidora do maior aglomerado de espigueiros da Península Ibérica). É também esta a beleza deste Castelo do Lindoso, o facto da sua localização ser estratégica e paisagísticamente imaculada e ter como vizinhos imediatos um dos maiores expoentes da arquitectura rural do Minho: os espigueiros.

À semelhança do que acontece no Soajo, e em muitas das povoações do distante e montanhoso norte de Portugal, o espírito comunitário tem aqui uma forte presença. E também à semelhança dos espigueiros do Soajo, os do Lindoso são estreitos e rectangulares, em pedra, com acabamentos nas cantarias muito perfeitos e, mais uma vez, ornamentados apenas com um cruz no seu telhado. Alguns deles têm inscrita a data da sua criação e o mais antigo data, tal como o do Soajo, do século XVIII.

Vale a pena circular pelo espaço da eira, com os espigueiros distribuídos ao acaso, mas quase sempre com o topo traseiro virado a sudoeste, pensando na orientação do sentido da chuva, rodeando-os e apreciando-os de perto. Eles são aqui largos e de pouca altura, quase sempre de mesmas dimensões, e estas características comuns indiciam um equilíbrio na distribuição da propriedade agrícola na região.

A atestar a importância dos espigueiros enquanto símbolo etnográfico, a Imprensa Nacional Casa da Moeda lançou em 2018 uma moeda comemorativa (Espigueiros do Noroeste) com a imagem dos espigueiros do Soajo e do Lindoso, enaltecendo o património e a cultura identitária dos seus povos.