Pela Penedia de Lamas de Mouro

Lamas de Mouro é uma aldeia no concelho de Melgaço e uma das portas oficiais do Parque Nacional Peneda-Gerês. Do centro recepção, que é também um lugar de recreio com um bosque de uma qualidade cénica incrível, parte um trilho circular de cerca 14 kms de dificuldade moderada pelos penedos graníticos da serra.

Logo nos primeiros metros, ainda antes de iniciarmos a subida serra adentro, uma pequena cascata aguarda-nos, lembrando-nos que nestas paragens nunca estamos muito longe de um rio ou ribeiro. A água, em especial o seu correr tranquilo e o som que transporta, é uma presença reconfortante.

A subida, embora um pouco longa, não é difícil. Começámos por nos distrair apreciando Lamas de Mouro ao fundo na encosta. Por enquanto está à distância de um olhar distante, mas havemos de a atravessar no regresso à Porta mais a norte do nosso único parque nacional, distante dela quase 2 quilómetros.

A distracção prossegue tentando imaginar o que nos sugere a forma dos inúmeros blocos graníticos da serra. Podem ser uns dedos, uma cabeça ou qualquer outra coisa para onde guia o nosso pensamento já imerso em pura evasão.

Mas eis que, rompendo o cinzento granítico, surgem as cores do Outono. A vegetação rasteira em tons verdes, castanhos, amarelos e vermelhos antecipa a entrada num lindo bosque de vidoeiros. Se até aqui lamentávamos o facto de o dia estar nublado e chuvoso, no meio deste bosque – e de outros que se seguiriam nos dias seguintes – este clima agreste e mais inóspito faz todo o sentido. É ele que lhe dá esta paleta e todo o carisma.

O Pico da Fanqueira, a 1175 metros de altitude, surge em destaque diante de nós, uma série de pedras que parecem ter sido empilhadas propositadamente para o fazer mais alto e elegante. Nós, porém, caminhamos um pouco mais baixo, a apenas 1097 metros, ainda assim mais alto do que o planalto Castro Laboreiro que agora nos toca avistar. O cenário é fabuloso. Não apenas pelas imagens que nos são oferecidas, mas também pela sensação de estes serem caminhos pouco pisados por outros que não alguns dos seus habitantes que ainda mantém uma vida dura de trabalho da terra. Mas nós não, nós estamos aqui por prazer e à dureza da vida daqueles que são nossos anfitriões mostramos respeito.

Na área de lazer de Veigas, à entrada da povoação de Várzea Travessa, fazemos uma paragem para um lanche numa das mesas junto à antiga casa da Guarda Florestal.

As vacas barrosãs a pastar livremente e os cães Castro Laboreiro (alguns presos, mas muitos docilmente à solta) cruzam o nosso caminho.

Há algumas povoações rente ao nosso percurso, mas apenas atravessaremos Portelinha. E Espanha é logo ali, talvez a menos de 50 metros de determinado ponto do nosso trilho junto ao rio Trancoso, por um caminho medieval por onde seguimos acompanhados por mais umas deliciosas cores de Outono. Foi esta fronteira imperceptível de diferença em termos paisagísticos que levou o escritor minhoto José Augusto Vieira a escrever “De cá nós! De lá vós!”.

Lamas de Mouro já não está distante e em breve a atravessaremos. O lugar é de povoamento muito antigo, como o atestam vestígios de dolmens e da cultura castreja. Diz-se que no século IX aconteceu aqui uma batalha contra os mouros, que estes perderam. Mas o nome, que é também nome do rio que por aqui passa, ficou: “Mouro”. Já “Lamas” virá das características do solo, cheio de lamas, pastagens de gado com água. Outros dizem que o nome “Lamas” derivará das lágrimas derramadas pelos mouros na dita batalha, que terá sido sangrenta. Seja como for, ficou Lamas de Mouro, aquela que no século XIV se terá tornado um couto da Ordem do Hospital e que durante muito séculos serviu de retaguarda à protecção do Castelo de Castro Laboreiro na defesa dos ataques inimigos na linha de fronteira.

Em Lamas de Mouro as vacas caminham ao nosso lado nas ruas pejadas de edifícios de granito onde muitos ainda reservam o primeiro piso para as guardar. As alminhas são outro dos seus elementos característicos.

Mas é a paisagem, sempre ela, que continua a surpreender-nos. Nesta foto se condensa muita da realidade da Serra da Peneda.

Prosseguindo caminho, à saída de Lamas de Mouro ainda somos brindados como a beleza sensível e pacata de um moinho muito bem conservado à beira do rio de Mouro, ao qual não falta sequer a companhia de uns esbeltos e distintos cogumelos.

Logo a seguir aparece a Ponte Romana de Porto Ribeiro. Atravessado o seu delicado arco seguimos os últimos metros da nossa caminhada sempre junto ao Rio de Mouro até ao centro de recepção das Portas de Lamas de Mouro. Já o havíamos antecipado logo no início deste texto, o seu bosque é belíssimo, a lembrar o Covão da Ametade, na Serra da Estrela. O curso de água rola tranquilo por entre um verde luxuriante, produzindo reflexos incríveis. Uma daquelas imagens que certamente nos acompanhará durante toda a nossa vida.

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3 pensamentos sobre “Pela Penedia de Lamas de Mouro

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