Tapada das Necessidades

A Tapada das Necessidades, na Estrela, é um lugar esquecido.

Para o bem e para o mal. Se são muitos os seus edifícios ao abandono, a Tapada preserva ainda largas zonas verdes ideais para nos abstrairmos da realidade, fazer um piquenique ou tão só passear, atravessando-a de um lado ao outro na companhia de pavões e de patos e de vistas para a Ponte 25 de Abril e para os Prazeres, enquanto nos embrenhamos pelos seus caminhos carregados de vegetação exótica.

Foi D. João V quem, no século XVIII, mandou construir a Tapada das Necessidades, Convento e Palácio (hoje sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros) no lugar de uma antiga ermida. Um século depois, D. Fernando II, o Rei Artista, redesenhou o espaço e a zona de hortas e pomares foi transformada em jardim inglês, tendo ainda aí instalado um jardim zoológico com aves raras e macacos. Ao seu filho, D. Pedro V, deveu-se a construção da estufa circular, o apontamento edificado mais bonito da Tapada, embora a Casa do Regalo, de iniciativa do Rei D. Carlos I, tome uma designação que lhe faz forte concorrência. Ou seja, os 10 hectares da Tapada de gosto barroco foram sofrendo alterações e acrescentos ao longo da sua história até chegarem aos nossos dias. Neste que é considerado o primeiro jardim paisagista de Portugal e que foi lugar de lazer e experimentação botânica por parte da realeza, podemos hoje caminhar pelos seus vários jardins, lagos, estátuas e edifícios.

Entrando pela porta junto ao Palácio das Necessidades, iniciamos o passeio pelo jardim inglês e de buxo. Há um frondoso dragoeiro e lago e patos, sim, mas a grande atracção são os pavões que fazem questão de vir até nós, com as suas penas resplandecentes bem abertas, como se nos cumprimentassem.

Logo de seguida, estende-se diante nós um largo relvado verde com um edifício delicioso no cimo, a estufa circular em ferro e vidro.

É aqui que começa o desfile de edifícios abandonados e degradados. A Casa do Fresco, por exemplo, tem até na sua fachada uma das estatuetas decapitada. No topo tem ainda o tanque que lhe garantia um ambiente fresco, mas que servia também como elemento estético, devidamente acompanhado por uns vasos ornamentais. Por aqui segue a alameda que ladeia o que era o jardim zoológico com os seus edifícios rosas todos em muito mau estado. Mas temos uma boa opção: dirigir antes o olhar para o lado esquerdo, para umas boas vistas da Ponte 25 de Abril enquadrada na Tapada.

Mais adiante passamos pela Casa do Regalo, tão intensamente rodeada de vegetação que pode passar despercebida. De fachada amarela e com brasão, foi mandada construir por D. Carlos I para servir de estúdio de pintura para ele e para D. Amélia. Este edifício, sim, está bem conservado, uma vez que, afecto à Secretaria-Geral da Presidência da República, foi restaurado para nele ser instalado o gabinete de Jorge Sampaio, ex-Presidente da República.

Foi a tentar perceber um pouco melhor a fachada escondida da Casa do Regalo que escutei, surpreendida, o grasnar estridente de um papagaio (na verdade, um periquito-de-colar). Tão louro, tão louro que também ele se confundia com o arvoredo. Esta é uma zona de mata mediterrânea, talvez não muito domada, e é logo a seguir que encontramos o Jardim dos Cactos. É uma colecção bastante generosa, exótica e exuberante, imperdível na visita.

E aqui ficamos num dos pontos mais elevados da Tapada, ela que está já implantada numa encosta de Lisboa. As vistas para o Tejo são emolduradas pela vegetação, uma perspectiva bem diferente daquela a que estamos acostumados.

Quando ao futuro da Tapada, designadamente no que respeita à recuperação dos seus espaços degradados, espera-se que em breve possa arrancar um projecto que prevê a instalação de quiosques, esplanadas e equipamentos expositivos e para eventos. Mas que, ao mesmo tempo que a permita ser fruída por todos, possa continuar com o recato que a fez chegar até nós.

Quinta dos Azulejos

O Paço do Lumiar está ainda, neste primeiro vinténio do século XXI, cheio de quintas centenárias, daquelas que serviam de recreio às portas de Lisboa aos bem instalados no tempo da realeza, a maior parte delas desconhecidas dos lisboetas. Também conhecida por Quinta dos Embrechados, foi fundada na primeira metade do século XVIII por António Colaço Torres e frequentada pela família real e é um bom exemplo deste património.

Quando chegamos ao largo onde está instalada percebemos de imediato o palacete, hoje transformado em Colégio Manuel Bernardes, totalmente revestido a azulejos de um tom azul convidativo. O que não imaginamos é o que o seu jardim interior esconde.

O jardim da Quinta dos Azulejos é um espaço verde pequeno. Protegido por muros altos, tem a forma quadrangular, cortado a meio por um caminho, e podemos adentrar pelo jardim de buxo e nele encontrar dois bustos escultóricos em homenagem a vultos importantes na fundação e direcção do colégio. Mas não são nem estes nem as plantas que nos chamam a atenção, antes os seus inúmeros e deliciosos painéis azulejares que dominam por completo os nossos sentidos.

O interior dos muros do jardim está quase totalmente revestido a azulejos. Houve várias campanhas de decoração da Quinta ao longo dos tempos, mas a primeira delas datará de 1745 – 1755, o que coincide com a laboração da Real Fábrica de Faianças do Rato, pelo que se tem como assente que foi nesta que se produziram as mais antigas cerâmicas que ainda nos dias de hoje podemos observar. O Grande Terramoto de Lisboa veio logo depois e alguns desses azulejos conseguiram sobreviver-lhe.

Os azulejos policromo, mas com destaque para o azul e branco, da Quinta dos Azujelos mantém-se, em grande parte, bem conservados e revestem ora os muros, ora as colunas, os bancos, os canteiros e as fontes do jardim. São de uma beleza e variedade temática ímpar. É como se nos contassem histórias com recurso a cenas quotidianas, mitológicas ou religiosas. Admirando-os, vemos um desfile de cenas de festas, galanteio, passeios, caçadas e motivos bíblicos decorados ao gosto rococó. Pessoas, animais e seres mitológicos estão representados.

Como Ícaro a cair depois das suas asas terem disso derretidas pelo sol; ou as sete irmãs plêiades; ou Narciso que morreu apaixonado pela contemplação da sua própria beleza e assim se viu transformado numa flor; ou a sua amada mas desprezada ninfa Eco.

São várias as fontes no jardim da Quinta com falsas cascatas e interior revestido a embrechados, uma logo à entrada, outras duas em cada um dos flancos e uma outra junto ao caramanchão.

O caramanchão coberto de plantas que conferem maior protecção e recato ao banco corrido com colunas sob ele é o momento mais bonito do jardim. O lago diante de si está vazio mas isso não retira um pingo de encanto a este espaço.

Há que continuar a apreciar cada figura e cada detalhe, e deixar-nos esquecer do tempo num espaço tão curto.