Do Pico do Areeiro ao Pico Ruivo

Esta é a caminhada mais épica da Madeira. Do Pico do Areeiro ao Pico Ruivo, uma viagem ao centro da ilha num cenário de montanha a sério, como poucos no nosso país. São picos e mais picos, três acima dos 1800 metros e muitos outros ao redor dos 1700 metros, “uma assembleia de picos”, como tão bem caracterizou Raimundo Quintal. É aqui, caminhando pelo seu maciço montanhoso central, que realizamos na perfeição como é imperfeita a imagem da Madeira como destino de mar e sol; na verdade, a ilha é igualmente de montanha e de nuvens (e nevoeiro).

O PR 1 – Vereda do Areeiro é a cereja no topo do bolo das caminhadas da Madeira, mas não será para todos. É um percurso de difíceis 7,5 kms do Pico do Areeiro ao Pico Ruivo, a que acrescem fáceis 2,8 kms do PR 1.2 – Vereda do Pico Ruivo até à Achada do Teixeira (no total, é um percurso linear, daí que, caso não tenhamos um carro disponível em cada ponta, teremos de voltar tudo para trás ou contratar um táxi que nos transporte de volta ao nosso carro – 60 euros foi quanto nos custou esta última opção). A dificuldade desta vereda está no muito que se sobe (e desce) durante todo o percurso. De resto, tirando uma pequena parte por alturas do Pico das Torres (por isso é que oficialmente o percurso está condicionado), o caminho está em boas condições de manutenção e é seguro.

O Pico do Areeiro, a apenas 30 minutos do Funchal, é um destino alcançável por todos os turistas. O seu miradouro já dá uma pequena imagem do muito que alcançarão aqueles que daqui partem à exploração dos picos e vales. Estamos a 1817 metros de altitude, o terceiro ponto mais alto da Madeira. Aos primeiros passos logo ficamos imersos num panorama gigantesco: picos de um recorte fantástico, enormes precipícios, vales apertados. Não raro, as nuvens andam aos nossos pés ou mesmo debaixo deles.

A melhor descrição que li acerca da enormidade que temos diante nós é a de pegarmos numa folha de papel, amassarmo-la e abri-la, colocando-a numa mesa com o seu ponto mais alto virado para cima – e eis o recorte topográfico da ilha. Já o historiador quinhentista, Gaspar Frutuoso, apesar de nunca ter estado na Madeira dava eco da sua paisagem: “Madeira” foi o nome dado à ilha pelo seu muito arvoredo, mas “por ser alta e com montes e rochedos muito fragosos o seu nome deveria ser Ilha das Pedras”.

O miradouro do Ninho da Manta é a primeira paragem mais demorada, e serve para constatar tudo o que escrevemos atrás. Seria aqui que a manta, uma ave de rapina, nidificava, com vista privilegiada para o fabuloso vale da Fajã da Nogueira e São Roque do Faial com camadas e mais camadas de montes a acumularem-se no horizonte. Do lado contrário, o vale que dá para o Curral das Freiras não é menos fabuloso, sendo ainda mais profundo e surpreendente descobrir umas casinhas brancas lá bem em baixo.

Ao longo da vereda temos de vencer uma série de escadarias, mas nada que o pretexto para sucessivas paragens para recuperar o fôlego perante tamanho cenário não resolva.

E túneis, uns mínimos e outros pouco extensos. A existência destes túneis permite que não se tenha de contornar o Pico das Torres, uma das duas alternativas neste PR 1 (embora este último pela vertente sul esteja actualmente encerrado). O Pico das Torres é o segundo mais alto da Madeira, com 1851 metros (e o quarto mais alto de Portugal). A imagem do desfiladeiro que cai pela sua montanha abaixo é mais uma daquelas inesquecíveis.

E é por aqui que percebemos mais uma vez a maestria dos madeirenses que há séculos furaram a ilha para nela cravarem caminhos – as veredas – e a tornarem mais acessível para a sua sobrevivência. Já tínhamos visto e passado pelos túneis e agora caminhamos no trilho estreito esculpido na parede da montanha.

Após uma nova subida extenuante por uma escadaria, passamos a caminhar com vista para a outra vertente do vale. Aqui são as “árvores mortas” a grande atracção, com os seus troncos despidos e vergados pelas condições climatéricas da montanha. E as costumeiras nuvens aparecem finalmente ao nosso nível, dando ainda maior dramatismo ao cenário.

Agora a subida é contínua, mas com uma pendente aceitável e sem escadas. E assim seguimos até ao Pico Ruivo. Antes, porém, uma paragem na Casa de Abrigo do Pico Ruivo, construída em 1939 e lugar onde se pode beber algo ou utilizar as casas de banho. É uma espécie de encruzilhada, daqui partindo diferentes trilhos, incluindo os nossos e os da Vereda da Encumeada (PR 1.3) e da Vereda da Ilha (PR 1.1). Mas o nosso objectivo é o Pico Ruivo, e havemos de continuar a subir mais umas centenas de metros, cerca de 10 – 15 minutos finais.

A 1862 metros de altitude, o Pico Ruivo é o mais alto da Madeira e o terceiro mais alto de Portugal, apenas mais baixo do que o Pico, na ilha do Pico, e a Torre, na Serra da Estrela). A panorâmica é soberba, claro está. Dominam o vale do Curral das Freiras, abaixo, e o Pico do Areeiro, adiante. Do lado contrário, em direcção ao mar da costa norte, novo vale e série de montanhas se juntam, mas infelizmente não logramos ver o Atlântico.

E aparece um novo personagem: o simpático bis-bis, uma doce ave local.

Chegadas ao cume, resta descer. A vereda PR 1.2 que liga a Achada do Teixeira ao Pico Ruivo é a forma mais rápida e fácil de se aceder ao pico mais alto da ilha. A descida não é muito pronunciada, logo, a subida também não o é. Muitos não descem à Achada, antes retornando pelo mesmo caminho ao Pico do Areeiro, até pela questão logística do transporte. Apesar de ser o mesmo, certamente que muitas novas perspectivas se obterão deste fabuloso conjunto de picos e vales. No entanto, optámos por poupar-nos fisicamente e seguir por um caminho novo ao nosso olhar. E o certo é que a paisagem continua grandiosa, adornada por mais umas “árvores mortas” e umas composições rochosas curiosas.

Esta é a mais recompensadora das caminhadas da Madeira. O cansaço e cada pingo de suor vale qualquer um dos inúmeros pontos de vista, cenários grandiosos do centro montanhoso da ilha.

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