Calhau das Achadas da Cruz

Movida pelo momento, posso dizer numa ou noutra ocasião que “esta” ou “aquela” é a minha ilha preferida. Mas, na verdade, só tenho uma eleita: a ilha da Madeira. E desde sempre. O bom da Madeira é que, embora aí tenha lugares preferidos, e dos quais guardo boas memórias, cada visita dá-me oportunidade de receber mais um novo lugar incrível para juntar à colecção.

Na costa noroeste da ilha, entre o Porto Moniz e a Ponta do Pargo, fica a Achadas da Cruz, bem perto da Ribeira do Tristão, ponto a norte que no início do povoamento da Madeira marcava a divisão da ilha em duas capitanias, Machico de Tristão Vaz e Funchal de João Gonçalves Zarco. Mas a povoação da Achadas da Cruz é apenas o pretexto por onde passamos para seguir até ao Calhau das Achadas. A vista do alto do miradouro é fabulosa, deixando a Fajã da Quebrada Nova aos nossos pés.

Imediatamente rendidas à paisagem, já só queremos descer até ao calhau. E podemos fazê-lo caminhando pela vereda que sai junto ao teleférico ou por este mesmo meio mecânico. A Vereda do Calhau não será difícil, mas a ver pela inclinação do terreno deve requer, no mínimo, grande atenção para não se resvalar por ali abaixo. Estamos no topo de uma falésia a cerca de 460 metros de altitude e o teleférico transporta-nos directamente numa linha recta a pique para a beira do mar. São duas cabines com capacidade para 4 pessoas que fazem o percurso de ida e volta pelos 3 euros mais bem gastos da nossa vida. Um único senão: o teleférico encerra às 18:00, pelo que caso queiramos permanecer no calhau para o pôr-do-sol teremos de subir “a la pata” pela tal vereda. A descida é vertiginosa (e a subida assombrosa, com a chegada a parecer que nos vamos esborrachar contra a falésia) e o coração bate mais depressa a cada segundo ao imaginarmos que em minutos teremos um pedaço de terra junto ao mar quase em exclusivo para nós.

Esta fajã, como todas as outras, foi formada pelo desmoronamento, isto é, a quebrada de terras e rochas da falésia – daí o nome Quebrada Nova (e mais adiante fica a Quebrada do Negro). Formou-se, assim, uma pequena planície de terra espremida entre a falésia e o mar, e dadas as condições climatéricas os seus terrenos são incrivelmente férteis, aqui se plantando batata doce, feijão, tomate, semilhas e vinha. É por isso que uns quantos agricultores se aventuraram a descer e subir com carregos às costas pela vereda – até surgir o teleférico. Ou seja, este não é um teleférico turístico, tendo o seu objectivo inicial sido sobretudo o de permitir um meio de transporte mais cómodo para estes agricultores.

O primeiro sentimento quando pisamos terra firme do calhau, ou fajã da Quebrada Nova, é o de estarmos num outro mundo, um mundo primitivo, mais próximo do que imaginamos ser as origens da Terra. A natureza é brutal. A enorme falésia constitui uma parede rochosa esmagadora onde a escura pedra basáltica se permite ser invadida por umas tonalidades vermelhas e outras verdes. Seguimos o trilho à direita (a chegada da Vereda do Calhau), onde fica uma pequena praia de pedra rolada e o vento e ar fresco fazem-se sentir.

Voltamos e seguimos para a esquerda, pela recente promenade. E apesar de inebriadas pelo cenário incrível, constatamos de imediato com espanto como o clima mudou: o vento deixou de se sentir, não há qualquer brisa e estamos agora na torreira do sol. São estas as condições climatéricas cá em baixo na fajã, protegida dos elementos e bafejado pela maresia, que permitem que os seus terrenos sejam férteis. Os terrenos, mesmo aqueles mais declivosos a caminho da falésia, foram moldados para um melhor aproveitamento. E nisso os poios, os patamares de pedra, e/ou as canas de roca e os ramos secos têm um papel fundamental para proteger as culturas. Vêem-se algumas casinhas de pedra com as suas hortas, mas nenhuma parece ser de habitação permanente. Não há restaurantes, não há bares. Passamos por uma casa onde um pequeno grupo de amigos parece ter reunido para passar a tarde e mais adiante um casal de estrangeiros cuida do seu terreno. Há vida humana, mas o que domina é a natureza.

Passeando pela promenade com as águas do Atlântico azul relativamente calmas, desviamos a atenção para o verde que galga a poderosa arriba. Da falésia alta e rugosa jorram amiúde torrentes de água. Que cenário inesquecível.

Continuamos até à Quebrada do Negro, onde fica uma outra baía que, contaram-nos, é um bom spot de surf. Neste dia não se vê ninguém. A ondulação não forma ondas capazes de serem surfadas, mas nem por isso a entrada no mar para banhos parece mais facilitada. A cor da água é apelativa e diz-se que em dia de mar calmo chega a ser cristalina. Neste dia não houve mergulho, mas houve lugar para um lanche tranquilo com vista para o mar sob a protecção das fabulosas falésias da Achadas da Cruz, em plena Área Protegida da Ponta do Pargo.

2 Comments Add yours

  1. rimbaud70 diz:

    Um convite da natureza para visitá-la
    Obrigado

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    1. E que bem que a natureza nos recebe na Madeira. Sempre exuberante e por toda a ilha.

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