Ponta São Lourenço

A tão desejada e há muitos anos ansiada volta à Madeira estava envolta em muita expectativa para descobrir uma Madeira quase totalmente desconhecida, plena de paisagens fantásticas e exuberantes.
Essas expectativas não saíram frustradas.
No entanto, o tempo nublado e a chuva frustraram-nos a maior parte das fotografias. Dá para imaginar o que é que isso significa para mim, que quase não consigo conceber uma viagem sem um constante disparar da máquina fotográfica?

Mas como não há bem que sempre dure, também não há mal que nunca acabe.
Vai daí, chegadas à Ponta de São Lourenço obtivemos, enfim, um cenário quase em grande que pôde ser deixado em foto para mais tarde recordar.

Para estes lados da Ponta de São Lourenço pensámos fazer uma das nossas sonhadas caminhadas mas no turismo desaconselharam-nos por alguma perigosidade em parte do troço. Não tivemos, assim, oportunidade de o verificar in loco.
Situada no concelho do Caniçal, esta é uma península onde se encontra o ponto mais oriental da ilha da Madeira, 9 km de comprimento e 2 km de largura, já incluídos os seus dois ilhéus, o Ilhéu da Cevada e o Ilhéu da Ponta de São Lourenço. Daqui se avistam nitidamente quer as ilhas Desertas quer a ilha do Porto Santo e se realiza o quão perto ficam da principal ilha do arquipélago.
Ao contrário da paisagem mais comum no resto da ilha, por aqui não existe a mesma vegetação luxuriante e a cor escura e algo avermelhada da terra não nos deixa dúvidas de que estamos numa ilha efectivamente de origem vulcânica.
Ainda que do lado da belíssima enseada de Baia de Abra a terra não esteja exageradamente distante em altura do mar, as falésias do outro lado, essas, e à semelhança dos outros cantos da ilha, continuam enormes e assustadoramente belas.

Um Cantinho Especial

Apesar de a Ilha da Madeira não ser muito extensa, existirão certamente recantos em número considerável onde nos possamos sentir únicos. Únicos no sentido literal e únicos pela sorte de existirem locais onde o tempo parece não ter passado.
A Fajã dos Padres será um deles.
Perto do Cabo Girão, seguimos em direcção à freguesia da Quinta Grande e, mais pergunta menos pergunta, havemos de dar com o local. O acesso à Fajã dos Padres, colocado de lado o barco e o helicóptero, é efectuado através de um elevador instalado no topo da falésia a cerca de 250 metros de altitude. Coisa pouca, se compararmos com os 580 metros do Cabo Girão. A este propósito, não confundir o teleférico para as Fajãs do Cabo Girão (o do Rancho, aberto desde 2003) com o elevador para a Fajã dos Padres (mais antigo).

A viagem de cerca de 4 minutos neste elevador, uma estrutura que parece algo arcaica e monstruosa, tem tudo para ser uma experiência apelativa e inesquecível. Funciona como um miradouro com uma considerável altura, com vista para a imensidão do Atlântico, as falésias que nos rodeiam e a pequena fajã bem lá em baixo. No nosso caso, para além destes factores, tornou-se igualmente marcante por termos ficado presas dentro da dita caixa monstruosa, uma vez que a sua porta teimava em não abrir. Como o manobrador da geringonça já nos tinha avisado que os cabos precisavam de descansar cerca de 5 minutos entre cada viagem, logo começamos a especular sobre o que de mal teríamos feito para não conseguirmos sair dali para fora. Benditos telemóveis que nos põem em contacto imediato com quem sabe das coisas e nos recomenda calma até que o elevador assente convenientemente seguindo os seus tempos.
No entanto, este inconveniente levemente assustador foi francamente ultrapassado logo à saída do elevador que nos trancou. Iniciando mais uma descida, agora pelos nossos próprios pés, vimo-nos imediatamente rodeadas de plantações de vinha, banana, manga, abacate (do qual trouxemos um delicioso exemplar esquecido no chão) e também, ainda que sem a mesma abundância, papaia, figo, maracujá e outros frutos tropicais.

Bem sei que estava a chuviscar um pouco, mas dá para imaginar o que é encontrarmo-nos numa língua de terra, espremida entre o mar e a enorme falésia, com plantações que quase nos cobrem o corpo, caminhando sob as videiras em direcção aos 3 ou 4 casebres que compõem o povoado, retornar e dirigir-nos ao calhau para sentir o mar ainda mais de perto e apenas nos cruzarmos com o Sr. Eng.º, o dono da Quinta que havia ido ao encontro do elevador para tomar conta da ocorrência levemente assustadora?
Descrevo o paraíso? Não, mas a existir não deve ficar muito longe daqui.
Este pedaço de terra, para além da exploração da agricultura e da vinha, funciona como estância turística (alojamento num dos casebres referidos) e possui um restaurante que é presença nos roteiros gastronómicos do nosso país. Parece algo estranho que uma cozinha instalada no fim do mundo possa ser referência, precisamente pelas dificuldades que terá no acesso aos melhores produtos. Ok! Como dizia o reclame “prova e verás”. Só para me ficar na batata, direi que há muito que não comia batatas tão saborosas.
Concluindo a descrição do local que mais lamentaria não conhecer na Madeira, falta referir que a Fajã dos Padres deve o seu nome aos padres da Companhia de Jesus que aqui se instalaram durante mais de um século, tendo sido eles os responsáveis pela introdução do vinho Malvasia. Este vinho típico da Madeira (os outros famosos são o Bual, Verdelho e Sercial) tem aqui na Fajã as suas melhores uvas.
Uma nota mais: durante o Inverno, a Fajã recebe ondas de qualidade, daí que mereça vir até aqui acompanhada de prancha de surf.
Até por isso, e com ou sem elevador, a mana diz que era capaz de viver num sítio destes. Pudera!

http://www.fajadospadres.com/

Pico do Areeiro – Pico Ruivo

O tempo na ilha é mesmo estranho. Muda de repente, mesmo que após olharmos para o céu fiquemos com a certeza de que não, desta vez não existe qualquer possibilidade do tempo nos pregar uma partida.
Vem isto a propósito do nosso desafio de “escalarmos” até ao Pico Ruivo (1862m) desde o Pico do Areeiro (1818m), em pleno maciço montanhoso central da ilha da Madeira.

Assim, no dia de Páscoa preparamos o equipamento (botas, camisola de polar, impermeável, lanterna e farnel), deixámos a mãe no Pico do Areeiro juntamente com umas revistas e despedimo-nos para até daí umas 3 – 4 horas.
O tempo que se fazia sentir e o sol pareciam estar a nosso favor e saímos do Pico do Areeiro com uma simples t-shirt.

A descida, de cerca de 15 minutos, até ao miradouro do Ninho da Manta está ao alcance da maioria das pessoas que vêm até ao Pico do Areeiro (o pior é a subida mas como a distância não é muita…). Neste poiso, onde se crê que a ave de rapina de mesmo nome nidificava, a vista para a Fajã da Nogueira (direcção Balcões) deve ser fabulosa. Digo deve porque no momento em que lá estivemos só se avistaram nuvens, ou melhor, um nublado tão cerrado que transformou a paisagem num intenso e impenetrável manto branco. Em contrapartida, para o lado esquerdo, direcção Curral das Freiras, conseguimos ter certeza de que a vista desafogada de nuvens é esmagadora, um cenário de verde luxuriante. Digamos que tivemos 50% de sorte, mais ainda se pensarmos que a possibilidade de encontrarmos um nevoeiro cerrado por estas bandas é enorme.

Continuando a caminhada, e dedicando-nos exclusivamente a olhar o visual do nosso lado esquerdo, por entre a monotonia (atenção que nem sempre a monotonia é negativa!) basáltica e inundada de urzal, e após sairmos do túnel do Pico Gato, chegamos à conclusão de que seremos forçadas a contornar o Pico das Torres (1851m) e não a atalhar pelo túnel deste Pico que nos permitiria uma passagem rápida e mais directa da montanha rumo ao nosso objectivo final, uma vez que aquela área se encontrava em manutenção. Uma estafa e uns km a mais. Esta intensa subida pela escadaria escavada na rocha do Pico das Torres só é comparável (dizem) à parte final da chegada ao Pico Ruivo. Só dá vontade é de recolher para uma pausa retemperadora numa das grutas escavadas nos tufos vulcânicos que vamos encontrando pelo caminho. Mas o pior é que não estiveram muito longe de serem por nós utilizadas como abrigo, não do cansaço, mas antes da chuva. Pois é, o tempo havia mudado por completo e neste momento já nem o lado esquerdo tinha visibilidade. Para ser mais concreta, nem o esquerdo, nem o direito, nem um palmo à frente. O nevoeiro cerrado era tanto que apenas a chuva inclemente lhe fazia frente.
Alcançado o Pico das Torres dêmos com uma excursão de caminhantes alemães, com guia, e foi aqui que realizámos, enfim, que as nossas previsões de 3 – 4 horas para chegar ao Pico Ruivo e retornar ao Pico do Areeiro estavam completamente furadas. Culpa do túnel fechado para manutenção? Não só, ainda que isso nos pudesse ter poupado mais de meia hora por trajecto. A questão é que havíamos caído no erro de basear as nossas contas dos 6km em 3 – 4 horas como se este fosse um percurso circular, à semelhança do Rabaçal e dos Balcões. Esquecêramo-nos, porém, que nestes dois não há forma (ou é rara e arriscada) de retornar sem ser voltando pelo mesmo caminho, daí que as indicações de km e tempo sejam para a ida e a volta. Já no que respeita ao percurso entre os picos mais altos da ilha não acontece assim. Do Pico Ruivo pode seguir-se para a Achada do Teixeira e depois tomar a estrada.
Sabemos agora que o mais inteligente é fazer uma só direcção do percurso e ter um carro que nos transporte de novo para o Funchal (ou onde estivermos alojados). Com ou sem viagem organizada. Aí, sim, as nossas contas iniciais bateriam certo.
Erro primário, portanto; resultado óbvio, como consequência: meia volta no Pico das Torres, após cerca de 1h 20m, a pouco menos de meio caminho para o objectivo final do Pico Ruivo.
Ainda assim, um sabor a troféu, afinal de contas o Pico das Torres é o 2.º mais alto da ilha. E, servindo de consolo, o temporal que se abateu sobre as nossas cabeças e corpo, deixando-nos absolutamente encharcadas, pouco nos permitiria usufruir da paisagem e da própria caminhada.
Moral da história? O retorno à Madeira é mesmo um imperativo. A todas as caminhadas que julgávamos nos iriam ficar a faltar juntou-se a mais emblemática de todas elas.

Balcões

Por aqui não há tanta gente como no Rabaçal, sem dúvida o mais popular da ilha.
O percurso que nos leva até aos Balcões inicia-se no Parque Florestal do Ribeiro Frio, junto à estrada, um local onde existem viveiros de trutas. O caminho até aos Balcões é extremamente fácil, cerca de 1,5km para lá, mais 1,5km para cá, 25 minutos para cada lado. Terreno sempre plano e largo, com a levada sempre a acompanhar-nos.
Aqui a Floresta Laurissilva apresenta-se-nos em todo o seu esplendor, inundando-nos do seu manto verdejante. São loureiros em abundância, vinháticos, orquídeas e muitas outras espécies endémicas. Igualmente, pelo caminho vamo-nos deparando com diversas espécies de pássaros, alguns deles raros.
Chegados ao miradouro dos Balcões, a cerca de 900m de altitude, à nossa direita o Faial, à esquerda o Pico das Torres e o Pico Ruivo. Não é improvável estar nublado e, assim sendo, foi isso que nos tocou. Ou seja, para o Faial, em direcção ao Atlântico, ainda se conseguia suspeitar uma paisagem fabulosa, entre uma ou outra nuvem carregada que ia deixando ver o azul do céu e do mar. Já para os Picos mais altos da ilha, na sua Cordilheira Central, nem com todo o esforço os pudemos sequer imaginar. Desilusão? Um pouco, não há que negar. Mas, ainda assim, o cenário com que nos deparamos mesmo diante dos nossos olhos do vale próximo e em baixo do miradouro já compensaria qualquer viagem.
O vale verdejante e recortado por montes e pela Ribeira da Metade é esplêndido e a vontade que dá é a de ficar por ali, esquecida do mundo, observando os caprichos da natureza que vai moldando o território a seu bel-prazer. Sim, é verdade, também ajuda a esperança de que a qualquer momento o tempo volte a abrir e possamos ter uma vista mais larga e sem nuvens só para nós.

Rabaçal

“É preciso andar mais a pé, para adoecer menos, para melhor conhecer esta terra. Comece pela zona do Rabaçal. […] Prepare o farnel, arranje calçado adequado, ponha na mochila uma camisola e um impermeável.”

Seguindo o conselho do Dr. Raimundo Quintal, na obra citada no post anterior, a escolha para debutar nas caminhadas pelas levadas e veredas da Madeira recaiu sobre o Rabaçal – Risco – 25 Fontes.
A jornada começa cá em cima, em plena estrada no Paul da Serra, onde se estaciona o carro. Se ficassemos por aqui, a paisagem já seria fabulosa. Mas seguimos em busca de mais e é aqui que se iniciam os 2 primeiros km pelo asfalto. Como a estrada até ao Rabaçal (pouco mais do que uma casa de abrigo, lavabos e um parque de merendas) é muito estreita e são imensos os caminhantes que aqui acorrem, para além de “a la pata” apenas existe a possibilidade de se efectuar este trajecto através de uma carrinha posta à disposição dos caminhantes pela Câmara Municipal da Calheta, por módicos 2 euros.
No entanto, e como a ânsia de obra pública não pára na ilha, encontra-se prevista a construção de um teleférico que ligue o Paul da Serra ao Rabaçal. O mais sério da coisa é que há quem consiga pensar esta ideia e afirmar que será mantido o enquadramento com a envolvente criando pouco impacto visual na paisagem sem se rir.
Eis a foto da coisa ainda em projecto.
Enfim… com ou sem esta facilidade de acesso, o certo é que esta é provavelmente a caminhada mais popular e é inacreditável o número de turistas e ilhéus que aqui acorrem para viver um bom momento. Novos ou velhos, em forma ou fora de forma, são aos magotes os turistas quase de bengala. O espírito de descoberta e aventura está bem presente. E o que tem esta zona de tão especial? Decisivamente, o aliar uma caminhada agradável, por vezes nem sempre fácil e, por isso, algo desafiadora, a uma paisagem deslumbrante.
Saindo da casa de abrigo do Rabaçal, começamos por descer por uma escadaria com largos degraus com troncos de madeira. Nada de muito difícil mas ficamos logo com um cenário da estafa que iremos sofrer ao subir na volta. Em breve chegamos a uma placa (os percursos estão sempre bem sinalizados) que nos indica 25 Fontes para um lado, Risco para o outro. Seguimos por este último, cerca de 1km, 15 a 20 minutos, numa vereda larga sem dificuldade, que nos deixará bem defronte de uma queda de água de cerca de 100 metros, vinda da Lagoa do Vento (percurso que não fizemos).

Pela ilha fora vamo-nos deparando com um sem número de quedas de água, umas maiores do que outras, algumas apenas uns fiozinhos de água. Mas a altura desta, escondida por entre a intensa vegetação, é impressionante. Existe um miradouro donde podemos apreciar este cenário em toda a sua plenitude e logo de seguida encontramos um carreiro de pedra que nos leva ainda mais próximo da queda de água. Aliás, não é só desde lá de cima que cai a água. Atravessando este curto carreiro levamos um autêntico banho do qual não temos muita vontade de correr, para melhor apreciarmos as paredes das rochas que nos ladeiam e o musgo que lhe está impregnado, os quais foram sendo esculpidos e moldados pela acção da água e da humidade naquele local.
Aqui chegados, e depois de nos deixarmos estar um bom bocado sem preocupações, há que iniciar a volta pelo mesmo caminho, até à tal placa que indica 25 Fontes e atalharmos por aí. Serão cerca de 2,5 km para lá, mais o mesmo para cá. No entanto, aqui faremos o caminho junto a uma levada.

E o que são estas levadas? Pois bem, não são mais do que canais que trazem a água aos vários cantos da ilha para que esta possa irrigar os terrenos. Todavia, a construção destas levadas foi tudo menos fácil. Mãos humanas tiveram que superar os constantes desníveis da ilha e o seu relevo acidentado (note-se que se chega a atingir facilmente os 1000 metros de altitude em quase qualquer ponto da ilha, sendo que o Pico Ruivo, o mais alto, encontra-se a 1862m, não ficando, pois, a dever muito à altitude da Serra da Estrela a 1993m, só superados pela Ponta Pico, nos Açores, a 2351m).
Muitas das vezes houve até que escavar por entre as rochas, criando túneis, para que a água caminhasse confortavelmente por estes canais – os mais modernos em alvenaria, os mais antigos simplesmente em calhas de madeira. Uns mais largos e profundos do que outros. Uns acompanhados por largas veredas e outros quase que encavalitados nas bermas da rocha, deixando um longo e assustador precipício para quem o construiu ou para quem se aventura a percorre-lo anos mais tarde.
São, enfim, cerca de 1400 km de aquedutos em apenas 737 km2 de ilha.
Resumindo, as levadas são parte do património cultural da Madeira e, nessa medida, não estranha que cada vez mais visitantes, e os próprios habitantes, as queiram percorrer e, assim, descobrir todos os encantos da ilha, indo, literalmente, ao seu mais profundo interior.
Retomando o percurso Rabaçal – 25 Fontes, relembro que havia escrito que aqui o caminho é efectuado junto a uma levada e que este nem sempre era fácil. Isto porque grande parte do percurso tem de ser realizado quase que empoleirado na levada, uma vez que nem sempre resta muito espaço entre a dita e o fim da rocha. Daí que muitos guias não aconselhem este passeio a pessoas com vertigens. Não creio, todavia, que esta situação deva ser desmobilizadora, uma vez que os caminhos estão bem conservados e protegidos.
O percurso em si tem todos os ingredientes para fazer desta jornada inesquecível. Enquanto percorremos os estreitos caminhos onde outrora corajosos madeirenses se empoleiraram para levar o bem essencial água aos seus conterrâneos, rodeados de um manto tão verde quanto o possamos imaginar e sob uma vegetação intensa de loureiros e urzes, é impossível não irmos parando para contemplar toda esta beleza. Daí que os 2,5 km não sejam facilmente contabilizáveis em minutos, dependendo não só da passada de cada um mas também do seu grau de deslumbre ante a paisagem o menor ou maior tempo em alcançar o fim do percurso – uma lagoa para onde escorrem as águas das 25 nascentes que se localizam nas rochas nas suas imediações.
O local ideal para, depois de sentir o “gelo” da água nas nossas mãos, descansar sentada numa das rochas e abrir finalmente o farnel enquanto escutamos o barulho da água a cair. Único senão da conclusão desta aventura? O facto de não podermos saborear esta calmaria sozinhos, mas antes com a multidão de caminhantes que compartilhou o destino connosco. Pensando bem, para que são necessários os portugueses do continente por aqui?

Pelos Caminhos da Madeira

Tirando a casa das Mudas e a Piscinas das Salinas, o que mais queria da visita à Madeira era percorrer a pé as suas levadas e veredas. À partida de Lisboa levava algumas ideias de itinerários a percorrer. Lá chegada, e depois de comprar o guia mais popular da região “Levadas e Veredas da Madeira”, de Raimundo Quintal, realizei que irei necessitar de muitas viagens anuais à Madeira até conseguir percorrer todos os percursos lindos que sinto que devo e mereço fazer.
Dada a escassez de tempo da nossa curta viagem, difícil seria fugir às mais populares e, por isso, previsíveis caminhadas.
E quais são elas?
A do Rabaçal – Risco – 25 Fontes; a do Ribeiro Frio – Balcões; e a do Pico do Areeiro – Pico Ruivo.
Disse que estes percursos são populares. Sim, é verdade, mas só entre os estrangeiros e os madeirenses. Porque ouvir falar português com sotaque cubano durante estas caminhadas foi coisa que esteve ausente, daí que se respire como que um sentimento de ser estrangeiro enquanto se pisa território português.

Nova Arquitectura Madeirense

Saindo do Funchal temos uma ilha exuberante no que à natureza diz respeito e, surpreendentemente, encontramos algumas interessantes intervenções arquitectónicas desenvolvidas nos últimos anos e que têm merecido elogios no Continente e não só.

Uma das mais voga é o Centro das Artes Casa das Mudas, na Calheta, da autoria do arquitecto Paulo David. Construído em 2004, desde aí tem ganho diversas distinções de arquitectura, quer nacionais quer internacionais, tendo sido mesmo nomeado para o prémio europeu de arquitectura contemporânea Mies van der Rohe. Não é para menos. Quando se fala e vê a obra, in loco ou através de fotografias, não nos atemos apenas ao seu edifício e suas linhas. Decisiva é a sua localização, no topo de uma falésia que, quando vista cá debaixo, desde a praia da Calheta, parece confundir-se com a dita falésia, como um corpo que a acompanha e dela sempre fez parte. Para essa ilusão muito contribui a sua textura basáltica, a mesma que a das rochas que a circundam, numa plena integração entre a natureza e o homem. Outra originalidade do edifício é a forma como foi construído, de cima para baixo, obrigando-nos a confrontar em primeira linha com o seu tecto (provavelmente inspirado nas muitas casas que vamos encontrando à beira da estrada pela ilha fora e nas quais o acesso é feito através do seu piso superior, normalmente destinado a garagem ou simples terraço), o qual nos oferece a imagem de um jardim cujos caminhos podem ser percorridos.

Descendo aos pisos inferiores, o da cafetaria, auditório, loja e entrada no centro de exposições a cor dura do basalto continua a cercar-nos. No interior do edifício, todavia, as suas salas são profusamente rasgadas pelas janelas que insistem em nos devolver ao profundo azul do Atlântico e ao imenso verde da Ilha. Pena a proibição de se tirar fotografias no seu interior. A propósito de fotografias, uma desilusão. Não concebo ir a um local e não desatar a disparar no gatilho, para mais tarde recordar. À chegada, e face aos chuviscos que caiam, decidi adiar as fotos para quando acabasse a visita, uma vez que pior tempo seria difícil ficar. Que tristeza quando me deparei com o pensamento mais falhado que podia ter. Os chuviscos passaram a senhores pingos e deixou de se ver a um palmo do nariz.

Relativamente à oferta cultural, aqui há uns anos questionar-se-ia o porquê da criação de um centro de exposições fora do Funchal, a única verdadeira cidade da ilha. Ainda para mais, aqui há uns anos a Calheta ficava a 1 hora ou mais daquele núcleo urbano. Todavia, hoje a Calheta, e o seu Centro de Artes, estão a no máximo 30 minutos do Funchal, mais coisa menos coisa o tempo que demoro a chegar de minha casa, na zona oriental de Lisboa (se tiver a felicidade de não apanhar trânsito), ao Centro Cultural de Belém, bem no outro lado da capital. Ainda assim, vozes há que questionam esta, para mim, inquestionável mais valia para qualquer povoação. Falando mais claro, não é necessário quedarmo-nos pelo Funchal para encontrarmos uma interessante oferta cultural que, apesar da grande ajuda que é receber algumas das obras da Colecção Berardo, não se limita aos favores do seu conterrâneo. Na altura que visitamos o Centro das Artes tivemos o privilégio de encontrarmos exposta uma ampla colecção do surrealismo português – Cesariny, Cruzeiro Seixas e outros que tais em abundância de quantidade e qualidade – “O Surrealismo na Colecção Fundação Cupertino de Miranda”. Igualmente, “Tudo Que Não Seja Eu”, de Kimiko Yoshida, as estranhas transformações em diversas personagens de uma japonesa, quer em noiva, em índia, em Rato Mickey, enfim, tudo o que a sua (dela) imaginação permite. Na Galeria das Mudas, o núcleo que primitivamente servia como Casa da Cultura, encontravam-se expostas umas litografias de Paulo Rego.

Outra das obras mais emblemáticas desta “nova arquitectura madeirense”, curiosamente também da autoria de Paulo David, é a “Piscinas das Salinas”, por vezes também referida como “Piscinas do Atlântico”. Esta intervenção teve lugar precisamente na zona das Salinas, em Câmara de Lobos, um dos locais historicamente mais problemáticos da ilha pela pobreza em que vivem os seus habitantes. Quando descemos na sua praça central, junto ao mercado e baia, somos imediatamente confrontados com inúmeros meninos, com look à Cristiano Ronaldo, esticando-nos a mão. Recusada a moedinha vão por ali fora, tão contentes como quando se aproximaram, deixando-nos a dúvida se este gesto não será já uma instituição a preservar e não tanto uma necessidade a prover.

Voltando à intervenção arquitectónica efectuada na zona das salinas, numa primeira fase foi criado o passeio público que ligasse a baia de Câmara de Lobos à Foz da Ribeira dos Socorridos, uns metros além donde se encontram as piscinas naturais das Salinas. Foi partindo destas já existentes piscinas que o arquitecto criou outras duas (uma maior para adultos e uma pequenita para as criancinhas), com acesso directo ao mar, utilizando novamente o basalto nas paredes que servem os equipamentos anexos às piscinas (vestiários), daí resultando uma vez mais uma plena integração na paisagem, nomeadamente no terreno rochoso que as ladeia. Este complexo balnear abriu o ano passado mas, lamentavelmente, parece ter muitos mais anos de uso, tal era o estado de abandono que parecia padecer (bem sei que os equipamentos quando estão encerrados e sem qualquer vestígio de vida – o que era o caso – nos dão umas impressões que podem não corresponder à realidade, mas não sei não…). O certo é que, pelo menos em termos estéticos, não há de haver muitos complexos balneares que possam bater este. Mas a intervenção que teve lugar por aqui não se cinge ao referido passeio público (a estender ainda mais até à Praia Formosa no concelho vizinho do Funchal) e às piscinas. Foram, igualmente, criados um bar com esplanada, um restaurante e, nas suas traseiras, um parque infantil com um jardim que remete directamente para o imaginário da ilha pela abundância de bananeiras que aqui foram plantadas.

Do lado contrário da baia de Câmara de Lobos, ou seja, para o seu lado direito olhando para o mar, uma outra intervenção se encontra ainda em curso, da autoria do atelier Massa Cinzenta, procedendo à requalificação da Praça da República, zona central de Câmara de Lobos, e sua praia. Esta praça possuía uns edifícios bastantes degradados e com esta intervenção tornou-se um espaço revitalizado, virado para o lazer e exclusivamente pedonal, funcionando como um miradouro, tirando assim partido da sua localização privilegiada debruçada sobre o Atlântico.
Na mesma praça, junto à igreja, foi criado um edifício plenamente integrado na paisagem natural e urbana (jogando uma vez mais com as cores do basalto e o branco, típicas na ilha), destinado a comércio e a alguns serviços camarários.

Um pouco mais adiante mas num nível inferior, mais junto à praia, cujo acesso é efectuado pela escadaria ou elevador da torre que serve de estacionamento subterrâneo, irá surgir um novo restaurante e esplanada, uma reconstrução de um anterior equipamento que aí existia.

Uma outra obra digna de elogios, não muito longe daqui, diz respeito ao Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos, mesmo de frente para o Largo da Igreja. Inspirado na paisagem vinícola típica desta zona, as réguas de pinho utilizadas no coberto do exterior do edifício remetem-nos precisamente para a imagem dos prumos da madeira e do arame das latadas. Uma arquitectura muito interessante e um equipamento bem útil para a localidade, uma vez que para além do café instalado no piso ao nível da estrada, existe ainda um auditório e um piso destinado a exposições e biblioteca.

Para concluir, uma informação adicional: as obras referidas surgiram, todas elas, por iniciativa das Sociedades de Desenvolvimento que tutelam as respectivas áreas geográficas. Ou seja, por iniciativa de uma instituição de capital público, ainda que as intervenções possam vir a ser desenvolvidas exclusivamente pelos privados. Deu para entender? Mais ou menos? Bom, o que interessa é que fora Lisboa e Porto (e nem estes se escapam muitas vezes) as intervenções ao nível da requalificação do espaços ou da criação de equipamentos com interesse para as respectivas populações depende quase a 100% da iniciativa pública. Por que é que na Madeira haveria de ser diferente?