Fim de semana em Madrid

Um fim de semana em Madrid, bem planeado, dá para muita coisa.
O objectivo, num fim de semana de Fevereiro que se esperava frio e sem sol, não era passear pelas ruas nem ir de compras. Era, antes, um objectivo duplo: comer e ver exposições.
O sol até apareceu, mas não nos estendemos no Retiro nem caminhamos na Gran Via nem nos juntamos a nenhuma manifestação nas Puertas del Sol.
Atravessámos a Praza Mayor, finalmente vazia do ambiente de feira, para sentirmos o pulsar das gentes e darmos umas trincas nuns pintxos no vizinho Mercado San Miguel. Subimos ao último andar do El Corte Inglês da Callao para degustarmos os pratos de fusão do Street Xo. Demos uns passos na Chueca para confirmarmos o bom ar do Mercado San Antón. E em Salamanca cruzámos umas quantas calles para tapear no Álbora e lambuzar-nos no peruano A&G. Resumo da viagem gastronómica no blogue da mana, aqui http://cantinadossabores.blogspot.pt/2014/03/astrid-gaston-em-madrid.html
Quanto às exposições, um lado de sorte e um de azar. Começando por este último, não arranjámos bilhete para a exposição do Cézanne no Thyssen Bornemisza. Mas, em compensação, centenas de Picassos estavam expostos – gratuitamente – na Fundacion Mapfre. E a CaixaForum expunha fotografias de Sebastião Salgado, sob o título de Génesis. E havia ainda o Matadero. E… Madrid no para.

A Mapfre, no Paseo Recoletos, a poucos passos do eixo nobre da arte que é o Paseo del Prado, tem ainda patente (até 12 de Maio) a exposição “Picasso. En el taller”. São um conjunto de obras que inclui pinturas, desenhos, fotografias e cerâmicas de quase todas as fases da vida artística de Pablo Picasso. Algumas destas pinturas, na sua maioria provenientes de colecções particulares, mas também de museus espalhados um pouco por todo o mundo, haviam sido expostas poucas ou nenhumas vezes em Espanha. Taller, em espanhol, é atelier. Através das naturezas-mortas de Picasso ou das suas modelos, vamos conhecendo o atelier do artista não só como espaço de trabalho, mas também de experimentação. 
A exposição começa com a obra “Autorretrato con paleta”, de 1906, empréstimo do museu de Filadélfia, e o primeiro andar termina com a obra que mais me cativou, “Mujer en sillon rojo”, de 1939, proveniente de colecção privada. Só por esta exposição qualquer passo dado para fora de casa já teria valido a pena. Mais informação aqui http://www.exposicionesmapfrearte.com/picassotaller/es/

A uma agradável caminhada da Fundacion Mapfre fica a CaixaForum, edifício já deste milénio da dupla de arquitectos suíça Herzog & de Meuron. Ao seu lado encontramos uma parede vertical (empena) feita jardim, obra do botânico francês Patrick Blanc. Aqui encontrava-se patente a exposição de fotografias “Génesis”, do brasileiro Sebastião Salgado. São duzentas e tal fotografias a preto e branco de grande formato, resultado de um projecto de 8 anos, iniciado em 2004 nas ilhas Galápagos, e que levou o fotógrafo a todos os cantos do planeta onde existe natureza em estado bruto. Ou, tão somente, povos em estado puro, onde o “homem ocidental” ainda não colocou o seu dedo destruidor. 

A mostra é simplesmente belíssima (o mesmo é concluir, o nosso planeta é belíssimo). Nas palavras de Salgado, “Génesis é um tributo visual à grandiosidade e fragilidade do planeta Terra; uma chamada de atenção a tudo o que nos arriscamos perder”. Preservar o futuro é a palavra de ordem, portanto. Ainda segundo Salgado, “em Génesis, a minha câmera permitiu que a natureza falasse por mim. E foi um privilégio meu escutá-la”. O privilégio também é nosso.

E, por fim, que um fim de semana dá para muita coisa, mas não dá para muito mais, o Matadero. Espaço surpreendente em Arganzuela, arredores do centro de Madrid. O Matadero http://www.mataderomadrid.org é um complexo de edifícios datado de 1911 e que originalmente destinava-se a matadouro e mercado de gado. A sua arquitectura incluía elementos neo-mudejares e após o seu fecho em 1996 acabou por ser convertido no centro de artes que vemos hoje. E que centro de artes! Aqui encontramos uma Casa do Leitor, um Centro de Desenho, uma Cineteca e uma Nave de Música, para além de espaços que recebem diversas exposições. Uma arquitectura deliciosa, bem respeitada, num espaço amplo.

Quando visitámos o Matadero tivemos direito a uma encantadora instalação de um jardim japonês, “Un Jardin Japonés: Topografías del Vacío”, de Esther Pizarro. O chão está preenchido de sal, como se fosse o mar que cerca as várias ilhas do território japonês, sendo o jardim a terra firme, aqui colorida em tons que traçam um contraste certeiro entre os diversos elementos.

E, depois, a exposição “We-Traders, Cambiamos crisis por ciudad”. Verdadeiramente interessante, ainda para mais apresentava exemplos da nossa Lisboa. Mostra-nos exemplos de iniciativas de cidadãos, sejam arquitectos, artistas, desenhadores ou quaisquer outros, que, preocupados com o espaço urbano, metem mãos à obra para dar algo de novo à cidade e sociedade. A Cozinha Popular da Mouraria é uma destas iniciativas, partindo dos cidadãos para os cidadãos, agindo de forma local, mas respondendo a problemas que são também supra locais.
Curiosamente, perto do hotel em que ficámos em Madrid confrontámos-nos com um destes projectos em Madrid, o Campo de Cebada. Apropriando-se de um espaço que estaria devoluto, alguns indivíduos fizeram dele um local informal onde se pode estar a jogar ou a conversar. Discutimos entre nós se este espaço era bonito ou teria dignidade suficiente para existir numa cidade como Madrid. Dividimos-nos nas nossas opiniões. Mas parece-me que numa cidade, que ainda para mais é capital, deve haver espaço para todos os cidadãos e, sobretudo, há que se ser criativo e dar novos usos a espaços vazios. O melhor desta exposição é que ela nos faz pensar e, mais, nos apresenta constantes desafios. Por exemplo, a dado passo confrontámos-nos com duas perguntas simples: dá mais à sua cidade do que ela lhe dá a si? aceitaria receber menos salário para que outros tivessem emprego? Como esta exposição virá dentro de meses para Lisboa, irei ter tempo para reflectir nas respostas.

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