A mais bela corrida do mundo


Na senda de correr em lugares diferentes dos da nossa cidade, desta vez seguimos para a Régua para a disputa da entitulada “A mais bela corrida do mundo”. A propaganda não é pouca coisa, mas como a corrida segue junto às margens do Douro não há que duvidar da sua verdade e justeza.

A Régua é provavelmente das cidades mais feias de Portugal. Tendo acabado de referir a justeza de outro título, não corro porém o risco de proferir injusta afirmação agora. Repito, a Régua é provavelmente das cidades mais feias de Portugal. O que é um feito absurdo, tendo em conta que a cidade se abre para a paisagem deslumbrante do Douro. O que a natureza dá, o homem (quase) consegue estragar. Mas cerrando os olhos a alguns dos monstruosos edifícios que alberga e virando as costas ao edificado, é fácil cair de simpatia pela cidade.


Peso da Régua é fulcral como entrada na Região Demarcada do Douro. À sua volta encontramos uma série de quintas que trazem a fama aos vinhos do Douro. Assim, não espanta que possamos visitar na cidade o Museu do Douro, instalado de frente para o rio na Casa da Companhia. A história desta arte feita de sacrifício na região é nos aqui apresentada. Destaque para um painel onde frases vêm sob a forma de ondas, como os socalcos dos montes que ladeiam o Douro, e para a disposição das garrafas – um Museu a visitar.


Noutro domínio, a arte azulejar é presença constante. Mas para me ater às palavras, relevo para outro painel, desta vez em azulejo, nas traseiras da rua principal, com a representação da figura e citações do omnipresente Miguel Torga

“montes que não deixam crescer, videiras que ninguém pode contar, rio que não pára de correr, pedaço de viril beleza”

“O comboio num vaivém sem descanso, leva e traz anseios, aproxima e afasta esperanças, carrega e descarrega ilusões”

e de Eugénio de Andrade

“Poucas vezes o outono se demorou tanto nestas águas sem as cobrir de névoa”


Curiosa, ainda, a capela da Misericórdia de Peso da Régua, da qual escreveu Paulo Varela Gomes ser uma das mais bonitas do nosso país. Surpreendente encontrar por aqui um monumento religioso que dá ares de um orientalismo, bem vincado na forma e nos tons verdes e vermelhos das suas telhas.

Se da Régua preferimos reter a paisagem do Douro, não escapámos ainda a saborear a sua comida. Por aqui comemos sempre muito bem, sem medo de seleccionar previamente os restaurantes, com confiança em entrar nos que o acaso nos ofereceu.


Pernoitámos numa daquelas aberrações que faz da Régua uma cidade incaracterística. Mas como era uma torre pudemos começar logo de manhã por sentir o ambiente dos corredores lá em baixo. 
A corrida da Meia Maratona do Douro Vinhateiro teve início na estação de comboios da Régua, primeiro sentados à janela do comboio a ver o plácido Douro correr forte, cortesia das chuvadas recentes e da abertura das barragens por parte dos vizinhos espanhóis. O apeadeiro foi a estação da Barragem de Bagaúste, a cerca de 6 kms da meta da Régua. Atravessámos o rio para a outra margem e para cima água calma, para baixo água revoltosa certamente a impedir, ou pelo menos a complicar, a passagem dos barcos (neste ano, nesta época, os barcos não têm ido além do Pinhão). 
Partida.

Esperavam-nos 21 kms e mais uns pózinhos a dar às pernas e a tentar manter o coração no ritmo certo. Seguimos Douro adentro, em direcção à Folgosa, onde pouco depois invertemos a marcha e voltámos para a Régua. Antes de passarmos pelo DOC do chef Rui Paula, lamentando não o termos incluído gastronómicamente na escapada, esses primeiros cerca de 7,5 kms foram fáceis, com percurso sempre plano. Melhor: céu azul, temperatura amena, paisagem absolutamente sossegada, passarinhos a chilrear para quebrar a monotonia da respiração dos corredores a arfar. Como não corria vento, os reflexos da paisagem – montes, casas brancas, comboio a passar – estavam colados na água do Douro, como se de um selo de garantia se tratasse. Antes de voltarmos neste percurso já não tínhamos dúvidas do título: esta é mesmo a mais bela corrida do mundo.

Infelizmente, porém, a abundância de verde por aqui não foi suficiente para que a tarde dissipasse as dúvidas no sentido mais correcto e o título de primeiro em outro campeonato recaísse nos leões verdes. Não chegou haver aqui uma equipa de “lion runners”, o primeiro lugar desta Meia Maratona ter ido parar a um atleta do Sporting e muitos mais a fazer força; a águia que vimos sobrevoar o Douro lá para os lados do Pinhão na tarde anterior foi mais forte e a premonição da maioria dos amigos do nosso grupo trouxe felicidade para eles e (mais um) desgosto para as manas.

Voltando à corrida, a do Douro é mesmo especial. E nem estou a pensar na garrafinha de vinho que ofereceram com a inscrição. Penso antes nas freiras e padres (mesmo que mascarados) que se mantinham à beira da estrada com vista para o rio a apoiar os atletas e a dar-lhes música – nada de rockalhadas vinda de gente urbana, como noutras corridas. O bom ambiente e a boa disposição também marcaram presença.

De volta em direcção à Régua, a boa companhia da paisagem manteve-se e certamente foi um alento para continuarmos em movimento. Já a correr para a meta, tempo e disposição ainda para pensar e apreciar o quanto o rio se encontrava liso e as quintas vinhateiras e os socalcos se sucediam. Na parte final, porém, o rio parecia traduzir o cansaço e misto de emoções dos corredores, euforia e tormenta, desejo de que a enorme ponte da Régua venha para perto da nossa vista, sinal de que nos preparamos para atravessar a outra ponte mais pequena, de deixar a estação de comboios para trás, o Museu do Douto à direita, postal da figura do homem da capa – Sandeman – à esquerda, meta mesmo ali à frente.

Feito. Sucesso. Embora lá comer um javali e repor os líquidos.

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