São Tomé e Príncipe. Uma Viagem ao Equador.

Um país. Duas ilhas. São Tomé e Príncipe. Mais um conjunto de ilhéus. Todos localizados no Golfo da Guiné, em África, bem junto à linha do Equador, a qual atravessa o Ilhéu das Rolas, a sul da ilha de São Tomé.

Pela sua localização, o clima é equatorial, quente e húmido.

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Quando os navegadores portugueses João de Santarém e Pedro Escobar chegaram, em 1470, descobriram uma ilha desabitada. Hoje, o país tem cerca de 190 mil habitantes, o que faz com que, a seguir às Seychelles, seja o país mais pequeno e menos povoado de África.

Até 12 de julho de 1975, quando se deu a sua independência, foi uma colónia portuguesa.

A cana-de-açúcar e o cacau foram introduzidos nas ilhas, contudo apesar de inicialmente ter havido uma boa produção de cana-de-açúcar, vicissitudes várias contribuíram para que só no século XIX a agricultura tenha sido verdadeiramente impulsionada, com o cultivo de cacau e café. Na sequência disso, São Tomé e Príncipe chegou a ser o maior produtor de cacau de toda a África subsariana. Contudo, mesmo antes da descolonização, na década de 60 do século XX, São Tomé e Príncipe viu a sua posição dominante ser ameaçada por outras economias coloniais. Toda a estrutura económica baseava-se nas roças, as quais foram nacionalizadas após a independência, tendo hoje uma reduzida capacidade produtiva.

Ainda assim, actualmente, a economia baseia-se sobretudo na agricultura, pesca e turismo.

Foi a turismo que fomos conhecer a ilha principal desta antiga colónia portuguesa, São Tomé, onde fica a capital homónima.

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O que vimos vão perceber a seguir. Mas avançamos já que o verde e a água estiveram sempre ao nosso redor.

Junto à linha imaginária que divide o mundo entre Norte e Sul, o Equador, não nos imaginámos no paraíso, entrámos várias vezes nele.

Cascata Poço do Inferno

A Cascata Poço do Inferno deve ser um assombro rodeada de neve. O problema é que as quedas de neve na Serra da Estrela vêm muitas vezes acompanhadas por estradas interditas por aquela região. Vai daí, o melhor é aproveitar a ausência de neve e o caminho aberto.

E que caminho. A estrada florestal à saída de Manteigas, um desvio do Vale Glaciar do Zêzere, vale por si só o passeio. Estreitíssima – passam dois carros quando passam e com muita habilidade -, logo adentramos num bosque com uma vegetação intensa ladeado por frondosas paredes de granito e xisto. No Outono, as folhas de diversas tonalidades costumam criar um tapete natural, mas fora dessa época já não tanto.

Estacionado o carro ao fim de uns 5 kms, seguimos pela estrada a pé mais uns metros e logo temos a cascata mesmo ali à beira. Estamos a 1080 metros de altitude e a água da Ribeira de Leandres, afluente do Rio Zêzere, despenha-se de uma altura de 10 metros, cortesia de uma falha na montanha. Podemos subir por umas escadas cravadas na pedra e chegar bem junto à água que jorra forte e barulhenta. Água tão cristalina que a curiosidade de observar uma das minhas mãos sob aquela transparência me deu coragem para a molhar. Como prémio segui a exploração do lugar com ela quase congelada.

A água continua, depois, a correr por ali abaixo, aproveitando os desníveis do terreno em sucessivas quedas e formando outras piscinas naturais. É um lugar para nos deixarmos estar, no meio do sossego da natureza. Beleza pura.

(da Cascata Poço do Inferno segue um trilho pedestre circular de 2.5 kms à volta desta queda de água)

Mercados de comida em Berlim

Berlim é uma cidade com mercados para todos os gostos.

Como fico sempre perdida naqueles lugares onde tudo se vende, meias lado a lado com discos de vinil, dedais junto a posters de filmes antigos, não sou muito fã da coisa. Mas deixo em seguida umas sugestões de alguns destes mercados onde a comida vale, por si só, a viagem.

Para começar, no entanto, eis dois mercados de Natal, um dos pontos altos de qualquer paragem em Berlim nessa época do ano.

O Mercado de Natal do Palácio de Charlottenburg é uma instituição na cidade. Bancas de bratwurst, cerveja, chocolate e queijo ao lado de outras com roupas e artesanato instaladas no meio de distintos edifícios que representam uma era dourada da Berlim imperial. Neste espaço familiar, para além das bancas são instaladas uma espécie de torres donde podemos apreciar a azáfama festiva desde cima.

O Mercado de Natal da Gendarmenmarkt é outro que decorre num lugar cheio de ambiente. Esta praça é uma das mais bonitas e elegantes de Berlim. Por entre a Igreja Alemã, a Igreja Francesa e a Konzerthaus são inúmeras as bancas de mesma temática que a do mercado acima citado que tomam a praça. Não faltam sequer decorações nas árvores e a música também é presença forte.

Vamos, então, aos mercados onde se pode experimentar a comida de quase qualquer canto do mundo. Berlim não é das cidade mais caras no que respeita a comer fora em restaurantes, não sendo, incrivelmente, muito diferente de Lisboa. A este propósito, como explicar que um prato de bibimbap num restaurante coreano da moda em Berlim possa ser o mesmo preço de um prato de bibimbap numa banca de um mercado de Lisboa (no novo Mercado Oriental) onde se anda com um tabuleiro na mão à procura de um dos poucos lugares para se comer sentado? Ou seja, não é pelo preço que precisamos de conhecer um dos muitos mercados de comida de rua de Berlim, é antes pela experiência.

5ª feira é dia de rumar ao Markthalle Neun. Um dos mercados de peixe, carne, vegetais, frutas e flores com mais qualidade em Berlim, todas as quintas-feiras este espaço coberto no bairro de Kreuzberg transforma-se numa babilónia de sabores. Comida de rua de todo o mundo – incluindo uns pastéis de nata de Portugal – é posta à nossa disposição em pequenas bancas onde a maior dificuldade é escolher qual delas provar. Visita imperdível na cena gastronómica de Berlim.

6ª feira (e também às 3ª) é dia de seguir as senhoras vestidas com lenços e de carrinho de compras na mão até ao canal Maybachufer, também no bairro de Kreuzberg. É o Mercado Turco que se estende ao longo do canal com as suas bancas de venda de tapetes, roupa, bugigangas e sabores do Médio Oriente. Não falta o pão, o húmus, as azeitonas, especiarias várias e os meus amados lokums. Os corredores entre as bancas instaladas na rua são muito estreitos, daí que para além da comida há que esperar também uns quantos encontrões.

Sábado é dia de atravessar o rio Spree para conhecer o Mercado da Boxagener Platz. Bem mais acolhedor e tranquilo, à volta de uma praça / jardim de um quarteirão residencial, este pedaço de Friedrichshain transforma-se num género de feira da ladra onde se vendem todo o tipo de antiguidades, roupa, livros e discos aos fins de semana. Sábados de manhã e até ao meio da tarde foca-se nas banquinhas com comida de vários países. Alemanha, claro, mas também produtos espanhóis, franceses, russos e turcos.

Domingo é dia de Mauerpark, o indisputado maior mercado / feira da ladra ao ar livre da cidade. O Flohmarkt, literalmente mercado de pulgas, fica em Prenzlauer Berg, bem perto da Bernauer Strasse, onde temos um fantástico testemunho da presença do Muro através dos diversos memoriais ao longo dessa rua. Mas voltando ao mercado no Mauerpark, para além do imenso bazar que mostra uma infinita quinquilharia, temos também diversas bancas de comida. Com o parque verde mesmo ali (mas também lamacento, dependendo da época do ano), este lugar é ainda ideal para um passeio ao ar livre ou uma paragem para assistir às brincadeiras dos performers de rua ou ouvir música ao vivo. E os domingos trazem ainda as famosas sessões de karaoke popular, à qual qualquer curioso se pode juntar. Infelizmente o dia chuvoso não permitiu que esperasse pelas 3 horas da tarde para mostrar os meus dotes vocais, pelo que terei de fazer nova tentativa na Primavera ou no Verão.

A cena urbana e gastronómica de Berlim é muito criativa e sempre vão aparecendo espaços novos aqui e ali. Por isso, para preencher os restantes dias da semana é só estar atento às novidades.

Para o fim deixo ainda a sugestão de um espaço que não é um mercado mas serve o mesmo efeito. Aberto todos os dias da semana, com excepção do domingo, um almoço ou jantar no Kantini do nada convencional centro comercial Bikini (um conceito pop-up) é não apenas uma experiência do palato mas também visual. Criada há pouco mais de um ano, a praça de alimentação do Bikini, à frente da Igreja Memorial mártir junto à Ku-Damm, é uma aposta na comida, sim, mas sobretudo no design. O mobiliário é fresco e leve, à semelhança das propostas gastronómicas, e as zonas para nos sentarmos levam-nos a crer que estamos no meio de uma paisagem natural. Tudo se presta à fotogenia e ao compartilhamento.

Museus de Berlim – Stasi

E, por fim, no que respeita a museus em Berlim, uma última referência para o Museu da Stasi.

Porque em qualquer visita a Berlim as marcas da sua história recente são presença constante, maxime o seu Muro e o folclore do Checkpoint Charlie, esta é uma boa proposta para se perceber ou recordar a política da antiga RDA. A visita ao Museu da Stasi faz-nos parecer que estamos num filme como o “Adeus Lenine” ou o “A Vida dos Outros”. Todo um mundo que – felizmente – parou no tempo.

A Stasi era o nome pelo qual todos designavam o Ministério da Segurança do Estado da antiga RDA. Com o fim da II Grande Guerra Mundial os comunistas alemães na liderança do país, mas sob direcção dos soviéticos, estabeleceram um regime ditatorial. O partido dominante, a SED, montou um sistema de poder baseado na força, em ameaças e privilégios em que a Stasi, o centro operacional deste sistema, tinha acesso a praticamente todos os aspectos da vida e do dia-a-dia de cada cidadão. O controlo era intenso e os cidadãos eram ensinados a conformarem-se e a contribuírem para este sistema. Quem o fizesse, era agraciado. Quem fosse visto como uma ameaça, seja pelo corte de cabelo, uso de roupa ou gosto musical de influências ocidentais ou qualquer outra conduta subversiva hostil ao socialismo, era reprimido.

O Museu da Stasi está hoje instalado naquele que era o seu antigo quartel general, nomeadamente na Haus 1, onde Erich Mielke, o então ministro, tinha o seu gabinete. Impressiona este quarteirão imenso de prédios enormes mas sem vida. Tirando o Museu e mais um ou outro espaço tudo está incrivelmente vazio. Não é fácil para qualquer povo conviver com a sua história macabra e neste caso os alemães ainda não conseguiram dar destino a esta área brutal que albergou os inúmeros serviços da Stasi. Os últimos habitantes destes prédios, onde ainda se veem cortinas com rendas, foram uns refugiados sírios.

No tempo da Stasi haveria também certamente cortinas. Mas os métodos de impedir olhares estranhos eram outros e mais rebuscados, como este de desenhar uma solução arquitectónica que barrasse a vista para a entrada da Haus 1 sem deixar de lhe dar um cunho modernista.

A exposição do Museu, na tal Haus 1, ilustra e explica a estrutura e o desenvolvimento das operações da Stasi. Os seus ficheiros com informações dos cidadãos chegaram ao número astronómico de 5,4 milhões. Diz-se que dispostos todos em fila, juntos, iriam de Berlim até Varsóvia e ainda retornariam para fazer mais meio caminho. Em 1989 a Stasi tinha oficialmente cerca de 91 mil funcionários, mas muitos mais cidadãos colaboravam com ela. Em proporção com o número de habitantes do país, a Stasi foi uma das maiores polícias secretas do mundo. E aqui no museu são-nos apresentadas algumas das pessoas que para ela trabalhavam e os métodos que empregavam, alguns deles vistos hoje de longe de um arcaísmo incrível. O filme “A Vida dos Outros” é, aliás, exemplar nessa imagem. O escritório de Erich Mielke, o então ministro, lá está, tão preservado com o mobiliário na sua forma original que é impossível não nos sentirmos num filme classe B datado no tempo.

Uma visita guiada a este Museu da Stasi é uma boa ideia, pelo que de histórias nos tem para contar para além daquilo que está exposto.

Museus de Berlim – Arte Contemporânea

No que respeita à arte contemporânea, duas sugestões em dois espaços improváveis.

O primeiro, o Hamburger Bahnhof, Museum für Gegenwart. Arte contemporânea internacional apresentada numa antiga estação de comboios.

Esta estação foi construída em meados do século XIX e ligava Berlim a Hamburgo. Tornou-se obsoleta para as suas funções originais logo em 1884, foi transformada em museu do transporte, mas a separação de Berlim no pós-guerra acabou por deixá-la em terra de ninguém e foi sendo abandonada. Na tentativa de manter um uso a este edifício de fachada neoclássica que serviu de modelo para as estações alemãs que se lhe seguiram, em 1996 abriu com a sua nova face, um dos maiores e mais importantes centros de arte contemporânea do mundo. O seu hall histórico de entrada foi preservado e adaptado para receber instalações temporárias de grande porte. Os armazéns nas traseiras do edifício principal da estação foram renovados pelo arquitecto Josef Paul Kleihues e ligados a este por uma passagem moderna por fora, mas que remete para um design retro no seu interior.

A colecção permanente deste museu inclui obras de artistas como Joseph Beuys, Robert Rauschenberg e Andy Warhol. A obra Mao de Warhol faz parte da colecção deste museu, mas infelizmente para mim não estava em apresentação por altura da minha visita. Estavam outras, daquele género de arte moderna e contemporânea que me faz abrir um largo sorriso.

O segundo, o Sammlung Boros, arte ultra-contemporânea instalada num bunker da II Grande Guerra Mundial. As visitas a esta colecção privada são obrigatoriamente guiadas e em grupos de apenas 15 pessoas, pelo que se impõe uma marcação prévia e com antecedência. Este edifício é também conhecido como M2000 (M de menschen, que significa pessoas), pois foi construído para permitir o acolhimento de 2000 pessoas. No final da Guerra a sua localização caiu no sector soviético e o Exército Vermelho chegou a utilizar o bunker como prisão. No entanto, logo se transformou num armazém de frutas e vegetais e as bananas da América Latina eram muito procuradas. O espaço tornou-se conhecido como o “Banana Bunker” e na fachada podemos ver hoje um graffiti a atestar essa sua antiga faceta.

A versatilidade do bunker continuou após a reunificação alemã e os anos 90 trouxeram também para aqui a desbunda total. Mais de uma vintena de festas chegaram a decorrer ao mesmo tempo nas inúmeras salas do bunker, maioritariamente festas de techno e de sexo, o que levou este espaço a ser conhecido como o “clube mais pesado do mundo”. A loucura terminou com a decisão das autoridades de encerrar o edifício pela sua manifesta falta de condições de salubridade. Até que o novo milénio chegou e a enésima vida do bunker aí está. Em 2003 Christian Boros comprou o edifício e renovou-o, abrindo as portas para a primeira exposição em 2008. Cada exposição fica patente por apenas 3 ou 4 anos e a actual é a terceira em exibição no novo Sammlung Boros.

O bunker é um verdadeiro labirinto e, por isso, à entrada é nos oferecido um cartão de visita com um género de mapa do edifício para o caso de nos perdermos. O que não acontecerá, uma vez que andamos sempre no grupo. Pelas várias divisões do bunker vamos vendo desfilar a arte de artistas contemporâneos consagrados e novos. A arte “estranha”, como caixas de ovos douradas ou asfalto espalhado em montinhos a fazer lembrar outra coisa que também é negra e também costuma ser deixada imprevistamente pelo chão, é o que nos espera. Depois de conhecer o Sammlung Boros dificilmente terei a experiência de apreciar este género de arte num local tão certeiro. As salas do bunker não eram extremamente pequenas e algumas foram abertas quer na horizontal quer na vertical, criando-se mezanines que permitem ver as obras de um ponto de vista elevado. Mas também interessante é perceber as fendas e as marcas intemporais de pastilha elástica no chão, testemunho das vibrantes festas dos anos 90. As paredes do bunker são espessas e de betão puro e duro, certamente inexpugnáveis.

Museus de Berlim – a Ilha dos Museus

Quem gosta de visitar museus e aprender tem em Berlim uma das cidades mais perfeitas para tal. Se pensarmos que até 1990 Berlim era duas cidades de dois países rivais, então é fácil de perceber a quantidade de instituições à nossa disposição. Não é apenas museus a dobrar, é muito mais do que isso.

A selecção apresentada em seguida (dividida em três posts) tem a ver com o gosto pessoal, claro. Gosto esse que passa sobretudo pela arte das diversas épocas e pela história política.

Iniciaremos este percurso pela inevitável Ilha dos Museus, o maior complexo de museus no mundo. Classificada pela Unesco como Património da Humanidade desde 1999, a Ilha dos Museus acolhe 5 edifícios museológicos e apesar de pequeno este coração de Berlim tem ainda espaço para a majestosa Catedral. Estes constituem hoje parte do acervo dos Museus Nacionais de Berlim.

Foi no princípio do século XIX que o rei Friedrich Wilhelm III da Prússia resolveu decretar que fosse estabelecida uma colecção de arte para o público. Com a II Grande Guerra Mundial a Ilha foi atingida e os seus edifícios danificados. O fim da guerra trouxe a divisão da cidade de Berlim e, em consequência, a divisão da colecção de arte presente na Ilha. Como a Ilha dos Museus ficava situada no sector soviético, na parte ocidental foram criadas outras instituições para acolher a parte da colecção atribuída aos demais sectores. Com a reunificação das Alemanhas reuniram-se, finalmente, as colecções então divididas. Hoje, no seu conjunto, estas representam mais de 6000 anos de história artística e cultural, desde a pré-história até ao século XIX.

Actualmente a Ilha dos Museus está transformada em grande parte num estaleiro, com a renovação do Pergamon e a construção de um novo edifício, o futuro James Simon Galerie, para servir de centro de acolhimento aos visitantes, uma entrada comum a todos os espaços museológicos no sentido de melhor integrar os edifícios e colecções. Ou seja, a Ilha transforma-se, cresce, move-se.

Um aviso prévio à visita à Ilha dos Museus: não podemos ter a ilusão de tudo querer conhecer nestes 5 edifícios. Uma vida não seria suficiente, quanto mais um dia. Por isso, o mais sensato é fazer uma selecção das maiores obras-primas a ver em cada um destes museus e deambular por eles para perceber a integração destas obras nestes espaços.

O primeiro edifício a ser construído na Ilha dos Museus para o cumprimento do tal desígnio do rei de disponibilizar ao seu povo uma colecção de arte pública foi o Altes Museum. Karl Friedrich Schinkel, o mais reconhecido arquiteto da época prussiana, ficou encarregue do projecto e o primeiro museu público da Prússia abriu as suas portas em 1830. Altes significa Antigo. Antes de conhecermos a arte que acolhe, a primeira imagem que o Altes Museum nos oferece é o de um exemplo maior da arquitectura classicista. Passadas as enormes colunas na sua fachada que dão para o Lustgarten da Catedral descobrimos então a arte e cultura dos gregos, dos etruscos e dos romanos.

No Altes Museum não se deve perder a escultura com o sorriso encantador do “Menino a Rezar” e dar uma espreitadela aos bustos de Júlio César e Cleópatra, lado a lado.

E confirmar o quão belo era Antinous (Antínoo), o amante favorito do Imperador Adriano.

Mas, sobretudo, admirar a rotunda interior com belíssimas decorações de frescos no seu tecto, enquanto cá em baixo se perfilam as estátuas dos deuses antigos, incluindo um central Vishnu.

Segue-se o Neues Museum, ou o Novo Museu. Construído entre 1843-1855, foi também destruído durante a II Grande Guerra Mundial e restaurado pelo arquitecto David Chipperfield. Desde 2009 voltou em grande e, é incontornável referi-lo, esta é a casa da divina Nefertiti. Se com Antinous já me vinha apercebendo de que é possível apaixonarmo-nos por um rosto que apenas vive em forma de escultura, com Nefertiti confirmo-o. As cores do seu busto são intensas e belíssimas, incrivelmente ainda preservadas e mantidas numa redoma de vidro (para isso, sem fotos, sff). É carisma puro o que esta linda rainha egípcia que terá vivido por volta de 1340 a.C. nos transmite até aos nossos dias.

No mais (haverá mais?), o Neues Museum integra o Museu Egípcio e a Colecção de Papiros, bem como o Museu da Pré- História e da Antiguidade, e a arquitectura interior deste edifício é uma justaposição do antigo com o novo, bem visível na escadaria branca rodeada de parede de tijolo.

O edifício da Alte Nationalgalerie, ou Galeria Nacional Antiga, foi modelado na Acrópole de Atenas. Visto do exterior parece um verdadeiro templo. Construído entre 1867-1876, a sua colecção de arte abrange escultura e pintura do neoclássico, do romantismo e de impressionistas dos primeiros tempos modernos.

O interior do edifício, nomeadamente o seu hall de entrada, escadaria e hall do piso superior são muito bonitos. E as suas salas as ideais para mostrar as pinturas de Caspar David Friedrich com as suas paisagens de natureza românticas. Esta senhora tentou esconder o pequeníssimo monge de Caspar, mas não o conseguiu.

Também está aqui Schinkel na versão pintor e muita arte europeia do século XIX, incluindo os maiores artistas franceses, como Degas, Renoir, Monet, Cezanne e esculturas de Rodin.

Voltando à temática hall de entrada, provavelmente nenhum será tão imponente como o do Bode Museum com a monumental estátua equestre de Friedrich Wilhelm. Este edifício possui a grandeza de um palácio, com a sua distinta escadaria e uso do mármore. Acabei por não ir a tempo de passar do foyer, mas este é o lugar para se visitar obras de várias épocas, desde escultura da Idade Média até ao fim do século XVIII, arte bizantina e uma colecção de moedas.

Mas o mais emblemático e mais visitado de todos os museus da Ilha dos Museus é sem dúvida o Pergamon. Não o visitei desta vez. As filas para a sua entrada eram intermináveis e o tempo um bem escasso quando em viagem. Para além disso, a visita aos 36 metros do seu mais-que-tudo Altar de Pergamon está encerrada até 2023 até total renovação do museu (em alternativa temos uma exibição em 360º da antiga metrópole no Panorama). Mas é possível aqui visitar a Porta de Ishtar da Babilónia, um dos ex-libris de toda a Ilha dos Museus, a par do Altar de Pergamon e do busto de Nefertiti. Este museu acolhe ainda uma colecção de antiguidades do Museu do antigo Próximo Oriente e Museu de Arte Islâmica.

Fora da Ilha dos Museus, mas imediatamente à sua entrada, fica o Museu de História da Alemanha. Em termos de museu, o qual percorre dois milénios de história desde o século I até à reunificação alemã, achei-o algo confuso na sua distribuição, mas muito interessante na forma como integra a cada passo a história alemã no contexto europeu. Em termos arquitectónicos, este Museu são hoje na verdade dois edifícios com um amplo hall coberto com uma bonita estrutura em vidro a ligá-los.

O original, o edifício barroco da Zeughaus, que serviu como arsenal e é datado de 1730 (o que faz dele o mais antigo edifício da Unter den Linden a chegar aos nossos tempos), com um átrio cheio de esculturas, incluindo uma de Lenine.

E o novo IM Pei Exhibition Hall, onde se apresentam exposições temporárias, com a sua já característica espiral em vidro que permite ao interior do edifício receber luz, muita luz, e é cheio de formas e ângulos. Este espaço recebeu o nome do arquitecto que projectou esta pequena maravilha em 2003.

Parques em Berlim

Tirando Portugal e Espanha, a Europa no Inverno é uma quase garantia de não se ver o céu. Ainda assim, decidimos visitar Berlim e aventurarmo-nos por três dos seus frios e despidos parques. Passeámos pelo Tiergarten, pelos jardins do Palácio Charlottenburg e pelo Volkspark Friedrichshain.

demos os passeios por mal empregues.

Tiergarten

O Tiergarten é o maior parque de Berlim. São 207 hectares de inúmeros caminhos espalhados por este parque central, um imenso pulmão verde. Para além desses caminhos infinitos por entre bosques por onde nos podemos perder, a área do Tiergarten abrange lagos, ilhas, estátuas, uma casa de chá, um palácio, uma casa da cultura. E, depois, há que não esquecer a Coluna Vitória, um símbolo de Berlim. O mais interessante é que este dito pulmão é rasgado por uma enorme avenida que quebra aqui e ali a pacatez do parque, mas na maior parte do tempo e espaço, dada a sua imensidão, acaba por não se dar pelo trânsito que o atravessa.

Comecemos, então, este passeio pela Coluna Vitória, a Siegessäule, instalada numa enorme rotunda no meio do Parque. Os berlineses tratam-na carinhosamente por Goldelse, qualquer coisa como a “Else Dourada”. A coluna tem 69 metros de altura e a estátua da deusa Vitória em bronze dourado 8,3 metros. A paisagem que se alcança da plataforma de observação após superarmos a subida das suas 285 escadas é à medida destes números.

Do topo da Goldelse percebe-se como é imensa esta cidade, hoje uma mas em tempos duas. Levantada entre 1864 e 1873 para comemorar as vitórias da Prússia contra a Dinamarca, Áustria e França, originalmente a Coluna estava implantada no centro do que é hoje a Praça da República à frente do Reichstag, tendo sido deslocada para aqui no tempo da Alemanha Nazi. Cá em baixo, praticamente aos pés da Victoria mas rodeada do arvoredo do Tiergarten, fica a portentosa estátua de Bismarck, mais uma homenagem ao poder da antiga Prússia.

Já nessa época o Tiergarten era um parque público, tendo sido criado por volta de 1742. Duvidamos é que por esse século os cidadãos de então fossem além dos piqueniques na relva, estendendo-se desnudados ao sol como o fazem os berlineses desta nossa era. O Inverno não é o mais convidativo para isso, mas nunca mais esqueci os corpos branquinhos completamente nus no Tiergarten num certo Verão de há 20 anos.

O Englischer Garten, a zona mais a noroeste do Parque é, como o nome o indica, o Jardim Inglês, um lago com uma casa de chá que dá ares de chalé onde no Verão se fazem concertos.

Outros edifícios há no Parque. Como o distinto Schloss Bellevue, palácio neoclássico de 1785-1790, hoje casa do Presidente Federal.

Ou a Haus der Kulturen der Welt, projectado em 1957 pelo arquitecto Hugh Stubbins, um presente dos EUA à então Alemanha Federal. Este edifício modernista é também conhecido como a “ostra grávida” pela sua forma peculiar. À sua entrada, como que uma recepcionista, temos uma mega-escultura de uma borboleta.

Esta área do Tiergarten corre junto ao rio Spree e daqui entramos naquele que é hoje o departamento governamental com uma série de exemplares da arquitectura deste século: a Chancelaria Federal Alemã, a Paul-Lobe-Haus, a Marie Elisabeth-Luders-Haus, a Jakob-Kaiser Haus e, claro, o Reichstag. Nem este último escapou à moda da arquitectura em vidro, com a sua cúpula inventada pela intervenção recente de Norman Foster.

E o Tiergarten termina, ainda, na Porta de Brandemburgo, a estrutura construída entre 1788 e 1791 que tomou por modelo a Acropolis de Atenas, com as suas 6 colunas dóricas. Com a Quadriga no seu topo, a carruagem puxada por quatro cavalos guiada por Vitória, a deusa da vitória, o elemento decorativo mais vivo e conhecido da Porta e provavelmente de toda a Berlin. Ou seja, o Tiergarten é o centro da Berlim moderna e na sua fronteira ficam dois dos maiores símbolos da cidade, senão mesmo os maiores: o Reichstag e a Porta de Brandemburgo. A Porta é o mais importante símbolo da reunificação alemã e ponto de celebração ainda hoje, sejam comemorações de títulos mundiais de futebol, festas de fim de ano, paradas de todo o género, enfim, o lugar para se exprimir toda a alegria. Antes da reunificação em 1990 esta era como que uma zona de exclusão, perdida na divisão da cidade promovida pela política e pela ideologia e marcada no terreno pelo Muro. E aqui é onde tem início a ultra famosa avenida Unter den Linden, outrora em território da Berlim Leste.

Voltamos a entrar no Parque pela saída da Porta de Brandemburgo. Com pouca demora logo aparecem no nosso caminho mais memoriais (às letras de Goethe, à música de Beethoven, Haydn, Mozart e Wagner, à realeza da Prússia) e lagos. E ilhas. Algumas tão pequenas que quase não damos por elas, como a ilha Rousseau. Ou seja, a cultura e a história aliadas ao prazer de evasão de caminhar pelo bosque.

Alguns dos locais do Tiergarten só os temos na plenitude na Primavera e no Verão. É o caso do Rosengarten, um pequeno jardim não apenas com a entrada vedada fora desses meses mas também com as flores murchas. Não se pense, porém, que é de evitar o Tiergarten fora dessa época. Não. Muito mais há para conhecer ou tão só deambular por ele. Sem falar que para os adeptos da corrida ou da bicicleta este é um lugar de excelência.

Jardim do Palácio Charlottenburg

O Palácio de Charlottenburg é o maior e mais bonito Palácio da cidade de Berlim (excluindo, pois, o de Sanssouci de Potsdam, nos arredores). Construído como homenagem a Sophie Charlotte, a primeira rainha da Prússia, data do século XVII mas teve de ser reconstruído após a devastação que sofreu durante a II Grande Guerra Mundial. Em estilo rococó, esta era uma das moradas dos Hohenzollern. Daí que numa visita aos vários espaços do Palácio possamos apreciar a riqueza daquela família real. Entre as várias salas deliciosas não esquecerei jamais a Sala da Porcelana, no Altes Schloss, preenchida praticamente na sua totalidade com porcelana a azul e branco do Oriente, a atestar o gosto do rei pela China e pelo Japão.

Mas porque é de jardins que queremos escrever, saíamos do interior do Palácio e sigamos pelos caminhos noutros tempos percorridos pela realeza. Inspirado em Versalhes, este jardim barroco desenhado no final do século XVII tem logo diante do Palácio um largo jardim verde, a que não faltam elementos decorativos em estatutária, seguindo-se um vasto lago ladeado por avenidas em bosque.

A melhor vista do conjunto é do fundo do lago, depois de passada a pequena ponte que o atravessa. Aqui temos até direito a uns belíssimos reflexos. Mas para aqui chegarmos percorremos um caminho que as folhas e cores do Outono tornam ainda mais bucólico.

Nos jardins de Charlottenburg, que se percorrem fácil e apenas demoradamente porque gostamos de nos deixar estar, podemos ainda admirar alguns edifícios. Logo junto ao Palácio fica o Pavilhão Novo.

Mais adiante, já para lá do lago, encontramos como que perdido no meio do verde o delicado Belvedere. Este pequeno palacete / pavilhão servia de casa de chá ao rei, que por aqui ficava a ler e a ouvir música. É todo em tom de azul claro e num estilo rococó tardio, cheio de pormenores na fachada e com uma estatueta dourada sobre a sua cúpula. O seu interior abriga uma colecção de porcelana, mas as visitas apenas são possíveis a partir da Primavera.

O mesmo vale para o interior do Mausoléu construído na outra ala do parque. Este edifício surpreendente em estilo neoclássico com colunas na sua fachada foi construído em 1810 com o propósito de acolher a Rainha Luise, mas entretanto acabou por se transformar como que no jazigo da família real. A sua implantação não é menos surpreendente, rodeada de um jardim alto que protege e garante o eterno descanso dos Hohenzollern.

Volkspark Friedrichshain

Não tão delicado como o Jardim do Palácio Charlottenburg, nem tão imenso e diverso como o Tiergarten, o Volkspark Friedrichshain é mais do género de parque à porta de casa. No bairro de Prenzlauer, os prédios cercam as aforas do parque e os graffitis fazem-nos lembrar que estamos em Berlim, a jovem, urbana e dinâmica capital alemã.

Criado entre 1846-1848, a sua entrada é bem artística, com a esplendorosa Märchenbrunnen – a Fonte de Conto de Fadas – como recepcionista dos visitantes. Esta fonte é do início do século XX e mesmo sem água neste Inverno podemos admirar todos os seus pormenores decorativos. São esculturas de animais e seres encantados, crianças, flores, um sem número de motivos. Destruída durante a II Grande Guerra Mundial, a sua reconstrução acabou por lhe dar uma forma mais simples e algumas das esculturas já não são as originais, mas a sua exuberância continua visível.

Também o parque foi mudando com os tempos e já neste século sofreu beneficiações.

Como elementos de interesse pelos seus caminhos perfeitos para jogging temos um bonito lago onde fica um pavilhão japonês com um sino da paz, presente do Japão à então RDA como homenagem à união contra a guerra nuclear. E ainda um outro lago mais pequeno onde vemos refletidos os rigores do Inverno.

Encontramos ainda uma série de memoriais, desde um monumento a Friedrich II da Prússia, o Grande, outro aos Soldados Polacos e aos Alemães Anti-Fascistas e outro ainda à Guerra Civil Espanhola.

Mas o elemento mais curioso, até estranho, deste Parque do Povo são as duas montanhas artificias criadas com os destroços e as ruínas de bunkers e outros edifícios destruídos durante os bombardeamentos na II GGM. São conhecidas como a “montanha bunker grande”, com 78 metros de altura, e a “montanha bunker pequena”, com 48 metros de altura. Não é difícil subir até qualquer uma delas. E ambas as montanhas parecem hoje, com o passar do tempo, perfeitamente naturais. Da mais alta consegue-se uma boa vista para o centro de Berlim, com a Torre da TV sempre como bússola. A vista perfeita é impedida pelas árvores, o que não é mau, e pelo nevoeiro, que é o que nos espera mais certamente nesta época do ano. Nada que, como se vê, impeça bons passeios.