Por Onde Andámos em 2019

Terminámos Dezembro de 2019 com um triplete de posts sobre uma jornada de bicicleta de Espinho a Aveiro, passando pelos Passadiços da Barrinha / Lagoa de Paramos e pelos caminhos da Ria de Aveiro. Curiosamente, foi pelo distrito de Aveiro, com a sua dramática Serra da Freita e os seus épicos Passadiços do Paiva, que iniciámos Janeiro de 2019 aqui no Andes Sem Parar. Tivemos ainda tempo para uma saltada ao Alentejo, pelas belas vilas e aldeias de Castelo de Vide, Marvão, Ouguela e uma experiência vinícola e arquitectónica na Adega Mayor de Siza Viera.

Fevereiro foi dedicado aos parques, museus e mercados de Berlim, provavelmente a capital mais indie e alternativa da Europa. E acessível para os bolsos portugueses.

Em Março tornei-me também leitora do Andes e viajei à boleia das palavras e fotos da mana por São Tomé.

Abril rumou a norte. Minho e Trás-os-Montes, pelo rio Coura e pelos outros passadiços, os do Sistelo, o “Tibete português” e por aqueles caminhos que são para mim os mais bonitos da Peneda-Gerês: Soajo, Lindoso e Castro Laboreiro. E por aquele que é, igualmente para mim, dos pedaços de terra mais incríveis, Pitões de Júnias.

Em Maio, depois de um dia pela Comporta, inciámos um périplo pelas ilhas do grupo central do arquipélago dos Açores (com excepção da Graciosa) que se estendeu pelo mês de Junho. Tão marcante foi esta viagem que durante 2019 já lá voltámos e temos planos para 2020 o continuar a fazer. No Faial descobrimos o mais novo pedaço de terra portuguesa, fomos até ao centro da ilha, percorremos a sua costa e imaginámo-nos cosmopolitas na sua Horta. No Pico o mau tempo quis domar-nos mas não conseguiu mais do que convencer-nos de que faz parte do ser-se feliz nos Açores. Caminhámos à chuva e ao vento pela Paisagem da Cultura da Vinha do Pico, pela costa, pelos mistérios, pelas vilas e pelas lagoas, sem nunca vislumbrar a montanha do Pico. Mas no final, tivemos a recompensa de ver a maior montanha de Portugal, o Pico, sob várias formas e de várias ilhas. São Jorge, a ilha dragão, a terra das fajãs, seja na costa norte ou na costa sul. A Terceira é onde fica a mais bonita das cidade açorianas, Angra do Heroísmo, e uma das mais bonitas de Portugal de aquém e além mar. A cor da ilha estende-se aos Impérios do Espírito Santo, mas também ao verde do seu interior e ao azul da sua costa. E, claro, não poderia falar um passeio pelos sabores da gastronomia açoriana.

Em Julho, a antecipar as férias grandes, por entre mergulhos no mar da Costa da Caparica fizemos uma pausa no Cais do Ginjal, para contemplar Lisboa desde Almada com o Tejo de permeio. Também em casa, mas agora na Beira Alta, um passeio pelo outro rio de infância, o Alva e seus amigos.

Agosto e Setembro foram dedicados ao México. Na Cidade do México explorámos as ruas da capital antiga e moderna, deliciando-nos com os seus extraordinários murais. Nomes como Tenochtitlán e Teotihuacan entram no nosso léxico arqueológico. Descobrimos as cidades coloniais de San Miguel de Allende, a mais bonita, e Guanajuato, a cidade das praças. Em Oaxaca, a mais carismática das cidades mexicanas, sentimos o poder da Guelaguetza e de mais uma cidade pré-hispânica, Monte Albán. A costa de Oaxaca trouxe-nos a experiência da poderosa onda de Puerto Escondido e o encanto dos seus golfinhos e bioluminiscência da sua lagoa.

Ainda em Setembro, rumámos a Viseu, por cujas redondezas continuámos em Outubro, nas aldeias de Ucanha, Linhares da Beira e mais uns castelos pela Beira. No centro do país deambulámos pelas aldeias de xisto de Casal de São Simão, Gondramaz, da Lousã (incluindo seu castelo), de Góis e de Água Formosa e passadiços do Penedo Furado.

Em Novembro e parte de Dezembro andámos pela Roménia, a par dos Açores o ponto alto das viagens de 2019 a recordar para sempre. Passámos pela capital Bucareste, pela região de Maramures com as suas igrejas de madeira, por Bucovina e seus mosteiros pintados, conduzimos a louca Estrada Transfagarasan, adentramos na Transilvânia, com as suas aldeias e igrejas fortificadas e as cidades de casas coloridas e tradição saxã, como Sighisoara, Brasov e Sibiu.

Um ano de 2019 de grandes passeios. A continuar…

 

 

 

 

 

Os Passadiços de Esgueira

“A alma desta terra é na realidade a sua água. A ria, como o Nilo, é quási uma divindade. Só ela gera e produz.” – Raul Brandão, Os Pescadores

Acordámos na Torreira e pedalámos até São Jacinto, sempre junto ao amanhecer dormente da Ria, com os flamingos ainda a espreguiçarem-se. Como pedalar nas dunas não é para meninas, de São Jacinto retivemos apenas uma espreitadela à sua praia e logo apanhámos o barco até à Gafanha para daí pedalarmos até Aveiro.

Após um breve almoço num dos restaurantes do colorido Canal da Praça do Peixe partimos do Cais de São Roque rumo ao Cais de Esgueira, a menos de 2 quilómetros, ponto inicial oficial dos novos Passadiços de Aveiro. Estes passadiços, mais conhecidos pelos Passadiços de Esgueira, foram inaugurados no Verão de 2018 e são sete quilómetros lineares quase sempre sobre estacas de madeira assentes sobre a Ria até Vilarinho de Cacia.

A paisagem é sempre fenomenal, uma natureza em estado bruto feita de canais, esteiros, charcos, sapal, zonas tão baixas que as mais das vezes os barcos atracados não flutuam, antes estão enterrados na Ria, talvez para a melhor sentir, como que dizendo “este pedaço de paraíso é nosso”.

O percurso é muito fácil e extremamente prazeroso. No caminho temos bancos para descansar ou fazer um piquenique. E por vezes saímos da madeira para pisar a terra adentro na floresta. Mas logo voltamos para bem perto da Ria.

O final destes passadiços, enquanto não forem ligados aos trilhos do concelho de Estarreja, acontece no cais de Vilarinho. Apesar do estaleiro de obras montado por altura da nossa passagem, este é um lugar incrivelmente tranquilo e é aqui que o rio Vouga desagua na Ria. É curioso pensar que há pouco mais de 1000 anos a Ria de Aveiro não existia e os rios desaguavam então directamente no mar, ao invés de primeiro se recrearem neste cordão lagunar paralelo à costa.

Retornando o caminho, repetimos as vistas mas tudo parece sempre novo e a beleza não cansa nunca.

Os barcos que aqui repousam são um espectáculo à parte, compondo de forma perfeita o cenário. Nesta foto vemos inscrita na madeira a expressão “andar à rola” e muitas outras nos aparecem no caminho, para que à experiência pela natureza se junte também umas pitadas da cultura regional.

Mas a natureza, mais especificamente a sua biodiversidade, é a grande protagonista. São dezenas de milhar as aves migratórias que para aqui vêm nidificar, fazendo deste um lugar privilegiado para se observar aves. Deviam estar escondidas à nossa passagem, mas já estávamos de barrigudinha cheia com tanta beleza.

No entanto, de volta ao centro de Aveiro ainda lá cabiam mais uns doces de ovos moles e uma tripa, para repor devidamente as energias dos 136 quilómetros em dois dias a pedalar de bicicleta entre Espinho e Aveiro.

Na Ria de Aveiro pelos trilhos da Murtosa

“A laguna (…) iria formar um acidente único, sem parceiro na Península. Tudo isto se passou nos tempos da formação da nacionalidade. Podemos dizer com orgulho que a Ria de Aveiro e Portugal se formaram ao mesmo tempo. Nasceram simultaneamente por alturas do século XII e poderíamos dizer, fantasiando um pouco, que, enquanto os nossos primeiros Reis e os seus homens iam dilatando as terras peninsulares, a Mãe-Natura ia conquistando ao mar esta jóia prodigiosa que generosamente viria ofertar às nossas terras alavarienses”

Orlando Ribeiro, Origens da Ria de Aveiro

Da Praia de Esmoriz seguimos até à Murtosa. Passámos pelas praias e povoações da Cortegaça e Furadouro (uma das “praias obscuras” de Ramalho Ortigão) ambas, a par da Torreira, com características semelhantes: uma larga avenida que vai dar até ao mar ladeada com edifícios de todo o género. Um ou dois pisos, com ou sem azulejos, varandas ou varadins, uns em art nouveau, outros modernistas, outros até contemporâneos. Uma amálgama total não apenas de épocas construtivas, mas sobretudo de gostos.

Até se chegar ao Canal de Ovar, já a cheirar a Ria de Aveiro, a Cicloria leva-nos a pedalar uma vintena de quilómetros por uma estrada no meio do pinhal, afastada do mar. Não sentimos o odor a maresia, mas o cheiro dos pinheiros não lhe fica atrás em sentimento. Chegados ao dito Canal de Ovar a água passa a acompanhar-nos à esquerda e na estrada chamam-nos a atenção os barquinhos típicos aí atracados e as bancas com as senhoras a vender fruta e legumes. Por ocasião da povoação Quintas do Norte atravessamos a ponte construída estrategicamente no ponto mais curto da Ria e iniciamos finalmente o passeio planeado pelos trilhos da Ria na Murtosa.

O projecto Murtosa Ciclável aproveitou caminhos rurais e ribeirinhos que já existiam e é por eles que seguimos a pedalar partindo à descoberta do coração da Ria. A Ria que Raul Brandão dizia ser “lago e mar ao mesmo tempo”.

A Ria de Aveiro é um acidente geográfico ocorrido há cerca de 1000 anos que resultou do recuo do mar, estendendo-se por cerca de 45 kms desde Ovar a Mira. Aqui desaguam os rios Vouga, Antuã, Boco e Fontão. Em 1808 foi aberto um canal artificial entre as povoações da Barra e de São Jacinto de forma a que a Ria comunicasse com o mar. E é esta ligação estreita, com a inevitável junção das águas, que faz deste espaço um habitat natural riquíssimo, um dos mais importantes ecossistemas húmidos da Europa, com uma enorme diversidade de flora e fauna no estuário e na laguna.

A natureza e as paisagens são grandiosas. De uma serenidade tocante. Os flamingos com as suas elegantes patas assustam-se, sem razão, à nossa passagem e logo abrem e fecham as suas asas vigorosamente, pintalgando de rosa o cenário com fundo azul. Esta foi a primeira imagem que nos tocou ao iniciar o trilho da Bestida e não mais a esqueceremos. Adoptámos os flamingos como mascotes do nosso passeio e sempre que os víamos parávamos e deixávamo-nos estar a contemplá-los em silêncio, para não voltar a perturbá-los.

Mais adiante, a Ria não apenas como espaço natural mas também como espaço de lazer. Uns barcos atracados no cais, outros soltos numa pequena enseada de areia e um papagaio no ar a puxar um homem sobre uma prancha. Estas águas acompanhadas do vento local são ideais para o kitesurf, entre muitos outros desportos náuticos.

Não temos um barco e por isso continuamos a pedalar, agora por um trilho ladeado por canas de feno e milho. Os terrenos da Ria são férteis e em tempos viam-se muitas terras cultivadas não apenas com milho, mas também trigo, feijão, chicória, couves e outras. Inclusivamente, algumas das ilhas da Ria eram usadas para a criação de gado e produção de sal. Hoje já nada disso se passa e é mais fácil ver uma ilha à venda do que gente a trabalhar a terra.

A Ribeira de Pardelhas é um dos lugares mais bonitos deste percurso. Deixamos de seguir junto à Ria por breves 2 kms para trocá-la pela Ribeira onde uns antigos armazéns deram lugar ao Centro de Educação Ambiental e à Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro – com os incontornáveis barcos típicos atracados no cais -, para além de um parque de merendas e de um bar.

Já de volta à beira da Ria, a paragem seguinte é no Cais do Bico, o maior e o mais frequentado da Murtosa, uma vez que é também o mais acessível. Tem até uma praia de areia. Este foi em tempos um lugar de descarga de moliço, sal e materiais de construção, e até chegou a funcionar aqui um estaleiro naval. Nos dias de hoje continua a ser um lugar de poiso e apoio da comunidade piscatória local, mas agora num espaço modernizado.

Não muito distante encontramos novo cais, a Cova do Chegado.

Continuamos a pedalar até ao Cais da Cambeia e daí em diante entramos numa zona de esteiro, cheia de braços estreitos com vegetação rasteira na água. Não muito longe desta zona desagua o Rio Antuã.

Uns curtos passadiços levam-nos ao último cais do passeio, o Cais da Ribeira Nova. A natureza continua a imperar, mas vai sendo deixada para trás à medida que seguimos até ao centro da Murtosa onde fazemos a última paragem antes do término da jornada na Torreira. Da ponte de Varela até ao Cais da Ribeira Nova são à volta de belos 17 kms.

O Museu Municipal da Comur está instalado na antiga fábrica conserveira que marcou toda uma vida da comunidade local e impulsionou a economia da região. Foram as características específicas da Murtosa e da Ria que deram origem a esta fábrica, a Fábrica de Conservas da Murtosa, criada em 1942, mas foi sobretudo o período da II Grande Guerra Mundial, onde a procura por alimentos era imensa, o grande impulsionador do negócio. No museu aprendemos sobre todo o processo conserveiro, desde a chegada do peixe até à expedição das conservas. São diversas espécies de peixe, como a enguia – a imagem de marca da Comur -, mas também berbigão, mexilhão, carapau, tainha, carpa, truta, polvo, choco, lula, bacalhau e atum. Numa época como a de hoje em que o turismo – interno e externo – trouxe de volta antigas formas de saber-fazer e a (re)comercialização de produtos que pareciam esquecidos, é possível adquirir as coloridas latinhas de conservas da Comur em muitas lojas de conservas, incluindo no Museu da Comur e no centro de Aveiro.

Os Passadiços da Barrinha / Lagoa de Paramos

“Estava na carreira de tiro de Esmoriz. Não via o mar, mas sentia-o no peito dilatado. Perto de mim uma mouta de pinheiros novos; e as agulhas escorriam molhadas de fresco. Uma nora, um choupo. Ao longe barracas de madeira agrupadas – Páramos. Uma gaivota pairando sôbre um charco… Para o outro lado campos lavradios com milho rasteiro que sabe a ar salgado, casas de lavradores perdidas entre as sebes, de telhados muito baixos onde secam abóboras amarelas.”

Raul Brandão, Os Pescadores

Conhecidos por ambos os nomes, Passadiços da Barrinha ou Passadiços da Lagoa de Paramos, este pedaço de natureza em Esmoriz passou a estar desde 2017 no mapa das caminhadas.

É um percurso circular de 8 kms à volta de uma laguna com vista para o mar. Podemos percorre-lo a pé ou de bicicleta. Optámos pelas duas rodas, tomando o comboio Lisboa – Espinho e daqui pedalando os menos de 5 kms sempre junto ao Atlântico (não perder a imagem dos estendais no paredão da Praia dos Pescadores, talvez mais junto à areia do que às casas) até ao início dos novos passadiços junto à Praia da Barrinha.

Para a requalificação desta zona lagunar foi preciso esperar décadas pela eliminação da poluição vinda das fábricas das redondezas que aqui descarregavam, valorizando-se um lugar de claro interesse ambiental e beleza. A instalação dos caminhos de madeira que hoje proporcionam o usufruto deste espaço natural por parte de todos nós teve como preocupação a preservação do ecosistema, o qual não é perturbado nem pelos postos de observação de aves, nem pelo mobiliário urbano que vamos encontrando amiúde.

Esta é a maior zona lagunar do norte de Portugal, com 396 hectares. Dunas de um lado, canaviais do outro, água pelo meio. Nos céus, muitas aves. O passeio é feito quase sempre sob o canto dos pássaros, mas infelizmente por vezes esse canto é perturbado pelo zumbido irritante dos motores dos parapentes e avionetas que levantam voo do aeródromo vizinho.

O percurso é sempre plano, fácil portanto. Umas vezes aberto à paisagem, outras envolto na vegetação, com arvoredo de um lado e canavial do outro. Passamos por uma casinha rústica com um barquinho à porta num cais improvisado e, mais adiante, por vivendas com vista para a laguna.

A biodiversidade do lugar é grande e levou à sua classificação como Sitio de Importância Comunitária e integrada na Rede Natura 2000. Entre a fauna característica pode observar-se o pato, garça-real, lagostim vermelho, rouxinol bravo, lampreia-de-riacho, rãs, enguias, ginetas ou morcegos.

São muitos os pontos para se tirar belas fotos, mas a imagem mais icónica da laguna é a da ponte norte-sul de madeira em arco. Sobre ela temos uma vista quase completa de todo o percurso ciclável e sobretudo para o canal que rompe as dunas para ligar a água da laguna à do mar, a água doce à salgada – daí o termo “laguna” ser mais correcto do que “lagoa”. No lugar desta ponte havia uma outra, construída em 1854, que originalmente ligava as margens da Barrinha e à qual Júlio Dinis fez referência na sua obra “O Canto da Sereia”.

Sibiu, a cidade com olhos

Sibiu foi a mais bonita das cidades romenas que visitei. A Capital Europeia da Cultura de 2007 é apaixonante e qualquer apreciador de urbes com praças monumentais, edifícios coloridos e ruas de pedra ficará por ela arrebatado.

E, depois, Sibiu tem uma característica especial: em que outra cidade nos sentimos vigiados e não nos incomodamos com isso? Começo por aqui, pelos olhos de Sibiu. Podem ser dois, cinco ou infinitos os olhos que saem dos telhados das casas de Sibiu, olhar para nós de forma directa ou de esguelha, mas estão sempre lá, atentos. Não é a Transilvânia uma terra de lendas e ficções? Pois deixemos que a imaginação flua e vejamos nestes olhos algo mais do que a sua original função, a de janelas nos telhados dos sótãos que serviam de ventilação à carne, queijo e grão que aí eram armazenados sem que a luz solar neles incidisse em demasia.

Sibiu foi fundada pelos colonos saxões em 1191 e desde logo se tornou uma das mais importantes cidades da Transilvânia. As 19 guildas que chegou a acolher atestam bem o seu desenvolvimento económico e como era procurada pelos mercadores. Alemães, húngaros e romenos sempre partilharam a cidade, que ainda hoje possui uma pequena comunidade de descendentes de alemães, os saxões, donde provém Klaus Johannis, o actual presidente romeno. Compositores como Strauss, Brahms e Liszt tocaram na cidade no século XIX. E a importância de Sibiu revela-se ainda no facto de ter sido pioneira na região da Transilvânia ou até da Roménia em muitos aspectos. Esta foi a primeira cidade electrificada do país, em 1897, e foi aqui que abriu a primeira farmácia também do país, em 1494. E Sibiu foi ainda o lugar da primeira tipografia da Transilvânia, em 1525, e o lugar do primeiro museu da Transilvânia, aberto ao público em 1817 no Palácio de Brukenthal.

Para além dos olhos e do pioneirismo, Sibiu possui ainda outra característica curiosa, a de desenvolver-se em dois níveis, desdobrando-se assim na cidade baixa e na cidade alta, uma a 419 e a outra a 431 metros de altitude. A baixa foi onde a ideia de cidade começou e a alta era uma fortificação que acabou por se expandir e ser incorporada na urbe. Ambas possuíam muros ao seu redor e estavam ligadas por torres e bastiões. Hoje, passagens estreitas e escadarias ligam-nas. A Sibiu mais monumental é a cidade alta, onde historicamente os saxões mais abastados viviam, deixando a cidade baixa para os camponeses nas casas mais pequenas e coloridas. Não podemos deixar de caminhar por estas ruas, descobrindo vestígios da antiga fortificação.

No Parque da Cidadela, no flanco sul da cidade, encontramos também bem visíveis os muros da antiga Sibiu. Num espaço verde aprazível e bem gizado, algumas das antigas torres e bastiões seguem levantados. Outra das curiosidades de Sibiu é que a cada torre correspondia uma guilda da antiga cidade medieval. Assim, para além da função de protecção, cada uma delas estava ligada a um tipo de actividade comercial diferente.

Se as torres pertencentes à fortificação da antiga cidadela possuíam – e possuem – um carácter marcadamente militar, as torres intra-muros da cidade alta de Sibiu que pululam um pouco por toda a parte são mais distintas e delicadas. Refiro-me, claro, às torres das igrejas e à Turnul Sfatului (Torre do Concelho), lugares privilegiados para uma panorâmica belíssima de Sibiu. As fotografias seguintes foram captadas, a primeira, da torre da Igreja Luterana, e as outras da Turnul Sfatului.

A Turnul Sfatului é uma das imagens de Sibiu e serve de passagem para ligar a Piata Mare à Piata Mica, literalmente, a Praça Grande à Praça Pequena. O termo “pequena” é completamente enganador, uma vez que ambas as praças são enormes. Estas são as tais praças monumentais que arrebatam mesmo qualquer ser desprovido de emoções. Só para as ver, só para nelas estar, já merece a pena a viagem até Sibiu. De forma irregular, acompanham-nas uma série de belos edifícios. São, enfim, duas praças abertas aos sentidos.

Este é desde há muito o coração de Sibiu e tudo aqui está cuidado com extremo bom gosto, criando uma perfeita atmosfera medieval em pleno século XXI.

Nestas duas praças existe uma série de restaurantes e cafés, com esplanadas inspiradoras. Sempre foram e são ainda espaços privilegiados para acolher eventos e festividades. Por altura da minha visita a Piata Mica estava ocupada com bancas de artesanato e a Piata Mare tinha um palco para algum concerto.

E em ambas as praças temos uma série de outros edifícios e estruturas, para além da já citada Turnul Sfatului, a que vale a pena dedicar não só o nosso olhar como também o nosso tempo. A Ponte das Mentiras, na Piata Mica, é ideal para se perceber o desnível entre a cidade baixa e a cidade alta. Este é um dos pontos mais populares de Sibiu e conta a lenda que esta ponte tem ouvidos e percebe quem dos que a atravessam é mentiroso, rangendo à sua passagem.

O Palácio Brukenthal, onde está instalado o tal primeiro museu da Transilvânia, é outro dos lugares de visita obrigatória, agora na Piata Mare. Construído para o Barão Samuel von Brukenthal, governador da Transilvânia no século XVIII, este edifício de arquitectura barroca tem um jardim interior tranquilo e salas de exposição de arte europeia e romena. Mas vale, sobretudo, pela sua arquitectura interior e pelo mobiliário palaciano exposto.

E da Piata Mare sai (ou entra, conforme a perspectiva) a Strada Nicolae Balcescu, a rua pedonal por excelência da cidade. Os edifícios que a ladeiam possuem motivos decorativos bastantes para nos continuar a entreter para além da magnificência das praças anteriores.

Umas palavras mais para uma obrigatória visita à Igreja Ortodoxa, com o exterior em estilo bizantino inspirado na Hagia Sofia de Istambul e o interior com uns frescos celestes, e para voltar à Catedral Luterana, da qual já vimos o panorama desde a sua torre. Em estilo gótico, esta construção do século XIV é altiva e a sua torre com 73 metros domina os céus de Sibiu. As quatro pequenas torres à sua volta eram um sinal para os visitantes de outros tempos de que a cidade possuía o direito de condenar à morte os criminosos. É tão grande esta Catedral que o terreiro à sua frente parece exíguo. As casas que a rodeiam são, como não podia deixar de ser, também bem antigas e algumas encontram-se em restauro.

Em épocas festivas, por aqui instala-se uma feira e, por fim, descobrimos por onde andam os roma da Roménia.

Castelo de Bran

No post anterior acabámos a admirar o panorama desde o topo do monte de Tampa. Mas Tampa, já se sabe, não é o único monte em terra de montanhas. Os Cárpatos estendem-se longe e reproduzem-se em elevações, cada uma mais bonita do que a outra.

O destino é agora a povoação de Bran, a 30 kms de Brasov. Pelo meio da viagem passamos por Rasnov e a experiência em Bran haveria de fazer com que lamentasse não ter deixado tempo para a sua fortificação.

Bran, então. Bram Stoker criou o personagem ficcional Conde Drácula em 1897 e fez situar a sua história na Transilvânia. Desde aí, como se de uma bolinha de neve se tratasse, muitas ligações da obra a Vlad, o príncipe da Wallachia, foram tentadas, sem que haja qualquer realidade nos esforços para fazer coincidir o personagem de Stoker com Vlad ou sequer com Bran e o seu castelo. Já se disse aqui, apesar de Vlad ter nascido na Transilvânia (Sighisoara), o real castelo de Vlad não está sequer nesta região, antes na Wallachia, em Poienari, o tal encerrado pela colónia de ursos que presentemente ocupa as suas imediações. Vlad era efectivamente conhecido como dracul mas essa palavra em romeno significa “filho do dragão”. Ainda assim, a cultura popular gosta de lendas e insiste em encontrar nelas um elo com o real. Vai daí, o Castelo de Bran foi o único lugar pejado de turistas que encontrei na minha viagem pela Roménia, mas de tal forma que se tornava insuportável percorrer as salas do castelo sem encontrões. Veredicto final: não gostei.

Foram os Cavaleiros Teutónicos quem em 1212 construíram a primeira fortaleza num castro em Bran. Os saxões chegaram século e meio depois e tomaram o controlo da fortaleza, dando-lhe a forma actual, para a utilizarem como protecção da rota comercial até Brasov, procurando controlar e evitar os tártaros e os otomanos. Tendo a protecção da fortaleza deixado entretanto de ser uma prioridade, esses saxões acabaram por abandonar a aldeia no século XVII, sendo então o local ocupado por pastores vindos de Brasov. Esta breve história da povoação e seu castelo fecha com a doação efectuada à Rainha Maria da Roménia em 1920, tendo a família real aqui residido até 1947. Tornado museu, nos últimos anos a história passa a folclore, com muitas bancas de souvenirs, todas com alusões a Drácula, a terem de ser superadas para se chegar aos jardins que nos deixam face a face com o promontório onde o Castelo de Bran está instalado.

Pese embora todo o descrito, o lugar é lindíssimo e o castelo idem.

Realce para as suas torres e telhado vermelho, caindo em vários níveis e direcções, resultando num efeito visual delicioso, pormenores acrescentados já no século XIX. Em estilo gótico, o seu interior teria piada de ser percorrido – não fosse a companhia de magotes. São inúmeras salas pequeninas com chão de madeira, zigzagueando de forma aleatória, ideais para nos perdermos, todas elas decoradas com o mobiliário da família real. E, depois, quando alcançamos uma janela e a vista fica desimpedida, reconciliamo-nos com a história, o folclore e a realidade e agradecemos por, ainda assim, termos vindo até ao “Castelo do Drácula” e podermos admirar aquelas montanhas.

Brasov

Brasov é uma das cidades mais amadas e visitadas pelos romenos. Carismática e bela, é a sua implantação geográfica que primeiro seduz, rodeada das montanhas pejadas de floresta. Foi neste cenário que os saxões resolveram instalar uma das suas primeiras cidades quando no século XII vieram ocupar a Transilvânia, embora o lugar já tivesse tido ocupação desde o Neolítico. Nessa época ainda não havia por perto o Castelo de Bran nem o Castelo de Peles, nem se caminhava por prazer pelo ar da serra nas montanhas Bucegi. Estes são alguns dos atractivos que tornam inevitável uma passagem por Brasov. Mas acontece que a própria cidade obriga a que nela se fique sem pressas, mergulhando nas suas ruas para admirar os edifícios e igrejas de arquitectura gótica, barroca e renascentista e os bastiões que nos recordam ter sido esta uma cidade-fortaleza medieval.

Cheguei a Brasov ao fim do dia, ainda a tempo de assistir ao por do sol desde a Cidadela, parte do sistema de fortificação exterior e instalado num monte sobranceiro ao centro histórico com vistas amplas e privilegiadas para a tal implantação geográfica de luxo da cidade. Nessa noite ainda deu para sentir o pulso e atmosfera da cidade, com ruas cheias de cafés e restaurantes e animada pelos muitos visitantes.

No dia seguinte, manhã cedo, tinha a cidade quase só para mim e parti a explorar o seu centro histórico. A povoação é cénica, com um ar medieval burguês, quase altivo até. E essa postura virá dos tempos antigos, daqueles em que Brasov estava na intersecção das rotas que ligavam o Império Otomano à Europa Ocidental, o que fez com que os mercadores saxões enriquecessem e ganhassem influência política na região. Daí o seu então nome germânico, Kronstadt, ou seja, “cidade da coroa”. E daí, também, a necessidade de a proteger através de um sistema defensivo de fortificações, com muitas torres, muros e portas, construído sobretudo durante os séculos XV e XVII.

Parte desse sistema está ainda preservado e pela Rua Dupa Ziduri, literalmente “para além dos muros”, conseguimos juntar ao ambiente medieval umas pitadas de bucolismo, caminhando à beira de um fio de água de um ribeiro e sob as frondosas copas das árvores de passagem pela Torre Branca e pela Torre Negra. Delas obtemos boas panorâmicas do centro histórico, com o enorme corpo da Igreja Negra em destaque, e da montanha de Tampa, com o letreiro “Brasov” ao estilo Hollywood por entre os caracóis da vegetação.

Contornada a cidade pelo seu lado ocidental, é agora o momento de entrar por uma das suas portas sul, a bela Porta Catarina ou a Porta Schei.

A palaciana Porta Catarina foi construída em 1559 e era então a principal entrada, sendo a única das portas originais da cidade medieval que ainda resiste.

Já a Porta Schei foi construída em 1827 em estilo neoclássico e era a única que os habitantes do bairro de mesmo nome estavam autorizados a usar para entrar no centro histórico. Era no bairro Schei que viviam os romenos, proibidos pelos saxões de terem propriedades no interior da cidadela, e para a ela acederem não só tinham horários definidos como tinham de pagar portagem. Agora os tempos são outros e podemos livremente caminhar por qualquer rua de Brasov. Incluindo por aquela que é conhecida como uma das ruas mais estreitas da Europa, a Strada Sforii, com uma largura entre 1,1 e 1,3 metros. Originalmente uma passagem entre ruas para os bombeiros, hoje foi transformada num lugar onde os artistas de rua intervêm na pintura das janelas nas fachadas dos edifícios que a sustentam e onde o visitante comum pode deixar o seu apontamento.

Chegamos, enfim, ao coração do centro histórico de Brasov, onde estão a Igreja Negra e a Praça da Câmara.

A Igreja Negra, do século XIV, é a maior igreja gótica da Roménia – aliás, o maior edifício religioso entre Viena e Istambul – e deve o seu nome não ao facto de ser escura – não o é – mas sim a um grande fogo que a atingiu em 1689 e que fez com que as chamas e fumo escurecessem então a sua fachada.

A Praça da Câmara deve ser bonita. E digo deve porque à minha visita estava vedada – o acesso e a vista – para preparação de algum evento. Este é um daqueles factos que me impedirá de ter Brasov para sempre como cidade preferida na Roménia, sentindo que não a conheci na sua plenitude. Mas, enfim, está sempre a acontecer chegar a um lugar e vê-lo entaipado para restauro ou para qualquer outra actividade, restando-nos a expectativa de que um dia voltaremos para completar o serviço.

De qualquer forma, deu para perceber que a Piata Sfatului, o seu nome romeno, é não apenas bonita como está acompanhada de belos edifícios com pormenores deliciosos, ou não constituísse a praça do mercado dos bem instalados saxões.

Continuo, em seguida, a caminhar pelas ruas de Brasov em direcção a montanha de Tampa, sem deixar de admirar a forma dos seus elegantes edifícios.

Passamos mais umas estruturas defensivas, muros e bastiões, e agora é a natureza a grande protagonista. Para se alcançar o topo de Tampa podemos fazê-lo a pé (cerca de uma hora) ou através do teleférico. Mesmo chegando ao cimo de teleférico ainda teremos de caminhar por uns 5 minutos totalmente envolvidos na floresta para alcançarmos o letreiro “Brasov” que já se tinha avistado ao longe: é aqui, a 960 metros de altitude, que todos queremos estar para levantar o prémio da panorâmica mais fabulosa sobre a cidade, o infinito e mais além.