Santorini

Entre as muitas ilhas gregas, e em especial nas Ciclades do Mar Egeu (24 ilhas principais, fora rochedos inabitados), Santorini aparece sempre como a primeira escolha. A escolha de sonho, mesmo.

É provavelmente a ilha mais romântica, a preferida para luas de mel, mas não é preciso viver um romance para se ser feliz na ilha. Um trio de amigas pode divertir-se a valer e deixar-se seduzir pelo branco imaculado das vilas e pelos seus pores-do-sol mágicos.

À partida levava a imagem dos barcos de cruzeiros a descarregarem multidões, acrescentada pelas já esperadas multidões estivais de Agosto, de pouco espaço para circular, dos burros a carregarem turistas velhos e gordos, de preços astronómicos. Nada disso trouxe para casa e nada disso me vem à memória quando penso nos três dias inteiros que passei em Santorini. Sei-o hoje, será uma pena e uma perda se pré-conceitos e pré-juizos nos afastarem de Santorini. Não é a ilha que nos merece. Somos nós que a merecemos.

A beleza de Santorini não está na paisagem natural da sua terra. A principal ilha é conhecida como Thira e esta ilha de origem vulcânica é um autêntico rochedo agreste em toda a sua costa ocidental, chegando os penhascos a tomar 300 metros. Acontece que esse rochedo fica virado para um mar incrivelmente bonito a qualquer hora do dia, terminando com os tais pores-do-sol mágicos, e possui umas vilas absolutamente tocantes.

A história geológica do arquipélago de Santorini é muito curiosa.

Antigamente chamada Strongili, a ilha era uma só e redonda. Uma enorme erupção há cerca de 3600 anos (em 1630 a.C.) fez com que o centro da ilha abatesse e afundasse, desmembrando-a e dando origem a três ilhas: Thira, Thirasia e Aspronisi. Esse centro afundado é hoje a caldeira, para onde os referidos penhascos da parte ocidental de Thira caiem dramaticamente, e aí foram entretanto formadas as ilhas Palea Kameni e Nea Kameni na sequência de novas erupções vulcânicas nos séculos XVI e XVII. Nea Kameni é a ilha-vulcão, a mais recente formação do Mediterrâneo Oriental.

Ultrapassada a era da civilização cicládica, na época daquela grande erupção vulcânica a ilha era habitada por uma civilização próspera similar àquela que ocupava Creta, a Minóica, que com ela possuía relações comerciais. Akrotiri, que não visitámos, é uma antiga cidade Minóica testemunha desse tempo situada a sul de Thira. Pensa-se que esta erupção foi tão grande, provavelmente uma das maiores de sempre, e produziu tais alterações climáticas que terá sido essa a causa que levou ao declínio da civilização Minóica.

Posteriormente e sucessivamente, as ilhas foram tomadas pelo Império de Atenas, pelo romano, pelos venezianos, pelos turcos, até que a Grécia ganhou a sua independência no século XIX. Nos anos 70 do século passado deu-se o boom do turismo e hoje de todos os cantos do globo chegam “invasores”.

Ao contrário do que se possa pensar, a Thira-Santorini de hoje não trata de nos mostrar o luxo. É sobretudo um imenso bom gosto que ela nos oferece. O estilo cicládico de branco e azul está lá, vilas feitas de casinhas empoleiradas desde o topo das encostas vindo por aí abaixo, telhados planos transformados em terraços miradouros com vistas soberbas, ruas estreitas e labirínticas – uma garantia de defesa contra os piratas e elementos como o vento – que se perdem num dos exclusivos apartamentos-cave, muitos deles donos de piscinas infinitas que caem para o mar.

As várias igrejas que nos aparecem no caminho são apenas mais um adereço para tamanho encantamento. Elas lá estão, com as suas cúpulas azuis tradicionais numa linda parceria com as casas brancas que as rodeiam. Ou podem ser elas próprias alvíssimas. Ou até tomar cores em tom pastel. Tanto faz, são sempre belíssimas nesta paisagem idílica.

Não faltam sequer umas buganvílias para compor a paleta.

Em Santorini tudo é simples, elegante e gracioso.

E não há melhor para o comprovar do que caminhar entre Fira, Firostani e Imerovigli, o ponto mais alto da caldeira. As vistas sucedem-se e mesmo que se diga que este percurso demora cerca de 30 minutos de uma vila à outra é bem provável que na verdade gastemos mais de 3 horas para o percorrer, tal é o deslumbre que força a repetidas paragens para a devida contemplação.

Atenas, monumentos, museus, miradouros e bairros

Um anúncio do turismo grego de 2005 dizia: “viva o seu mito na Grécia”.

Caminhando por Atenas podemos imaginar um dos vários mitos gregos, ou até criar o nosso próprio mito, escolhendo o Deus do Olimpo que nos acompanhará.

Mark Twain pode ter passado por aqui rapidamente e não lhe ter achado graça, mas preferimos seguir e acreditar antes em Lord Byron quando afirmava que se era um poeta, ao ar da Grécia o devia.

Atenas é, na verdade, uma inspiração que moldou toda a civilização ocidental.

Muitas das nossa palavras têm origem grega, como arquitectura, filosofia, autonomia, democracia.

Foi na Ágora Antiga que a democracia começou a tomar forma e é por aí que começaremos este nosso passeio pelos monumentos de Atenas.

A Ágora Antiga era o coração da Atenas da Antiguidade, o espaço público onde os atenienses se reuniam para discutir assuntos administrativos, políticos e sociais e comerciar. Aqui o filósofo Sócrates discutiu política e expôs as suas ideias.

Hoje resiste magnificente a Stoa de Attalos, a passarela coberta que, diz-se, foi a primeira arcada comercial. São 45 elegantes colunas dóricas. Para lá delas fica um pequeno mas abrangente museu. Por todo o lado observamos esculturas belíssimas que apesar de poderem não estar inteiras nos encantam. O Templo de Hephaestus ergue-se ainda íntegro.

A Ágora Antiga fica localizada abaixo da Acrópole. E é a Acrópole a grande atracção de Atenas. Literalmente “lugar alto da cidade”, é um autêntico rochedo, a sentinela de Atenas, com ocupação desde o Neolítico. A civilização Micénica também o utilizou como poiso, mas foi quando a ideia de cidades-estado começou a ganhar forma que a Acrópole ganhou importância como lugar defensivo. Foi construída com muros de tal forma maciços que se designavam por Ciclópicos, ou seja, construídos pelos Ciclopes, as criaturas sobrenaturais da mitologia grega. Com a expulsão dos persas no século V, Péricles transformou a cidade por completo e graças ao maior líder que a Grécia jamais voltou a ter pode hoje designar-se a sua como a Época Dourada de Atenas, a deusa a quem dedicou a cidade e prestou culto. Uma época de prosperidade que no campo do teatro e da literatura nos deu Ésquilo, Sófocles e Eurípides, no domínio da história Tucídides e Herodoto e em matéria de filosofia Sócrates, Platão e Aristóteles. Tudo isto apesar das guerras de Atenas com Esparta. Alexandre, o Grande também por aqui passou e depois dele os romanos, em especial o Imperador Adriano. Com a divisão do Império Romano seguiram-se as invasões por parte de diversos povos. Até que chegaram os turcos e o Partenon chegou a ser mesquita e o Erecteion harém. Estes os dois mais impressionantes edifícios da Acrópole que resiste até hoje como o mais importante monumento da antiguidade do mundo ocidental. A cidade consagrada aos deuses, onde não é difícil acreditar nos mitos que nos dizem que eles, deuses, vinham aqui para dançar, passou a ser uma cidade de templos.

A entrada monumental da Acrópole faz-se pela Porta Beulé e a Propylaia e logo à direita, instalado numa espécie de plataforma, temos o simples mas bonito templo de Atena Nike.

O Partenon é considerado o mais bonito edifício jamais construído. O nome Partenon refere-se à divisão que tradicionalmente nas casas gregas era ocupada pelas virgens, as jovens mulheres que ainda não se haviam casado. Dedicado a uma delas, a deusa Atenas, a arquitectura atingiu aqui a sua perfeição e o Partenon viria a servir de modelo para muitos edifícios que se lhe seguiram. A primeira pedra foi lançada em 447 a.C. e foi construído inteiramente em mármore. As suas colunas dóricas são um esplendor. A quantidade de pessoas que o tenta captar o mais próximo possível é imensa e dificilmente aguentamos permanecer no mesmo sítio sem uns quantos encontrões. Missão impossível é captá-lo em fotografia sem pessoas à frente.

O Erecteion, mesmo ao lado da oliveira produzida por Atena, é o templo onde se diz que Poseidon / Neptuno cravou o seu tridente. Este é o parceiro certeiro do Partenon no que respeita a beleza. As cariátides, as figuras de donzelas que servem de colunas de suporte ao pórtico deste templo, mesmo sendo réplicas são do mais belo que se pode observar. Os seus pormenores escultóricos podem ser observados na sua plenitude no Museu da Acrópole, onde estão os originais de cinco destas figuras (a sexta encontra-se no British Museum).

O bilhete passe da Acrópole dá ainda direto de entrada em outros monumentos da cidade. Alguns deles podemos vê-los desde fora, como a Biblioteca de Adriano e a Ágora Romana e Torre dos Ventos.

O mesmo para o Olimpeu, o Templo Olímpico de Zeus. Mas este é tão impressionante, o maior templo da Grécia, que é uma pena deixar de se entrar no seu recinto para chegar o mais perto possível das 15 colunas que ainda restam das originais 104 colunas coríntias com cerca de 17 metros de altura.

O mesmo vale para Keramikos, paredes meias com as antigas muralhas da cidade, o antigo cemitério onde ainda resistem belas tumbas dos mais importantes vultos atenienses de outrora.

Na parte baixa da Acrópole ficam o Teatro de Dionísio e o Odeon de Herodes Ático, onde se apresentavam as grandes comédias e tragédias da dramaturgia grega. Modelo para vários teatros ao ar livre, construídos na encosta dos montes e com a sua característica forma em semi-círculo, a acústica destes espaços é gabada até aos dias de hoje.

Fora do bilhete passe de visita à Acrópole, muito há ainda para percorrer e conhecer da Atenas da Antiguidade. Mas provavelmente nenhum lugar será tão incrível como o Estádio Panatenaico. Encaixado entre pinheiros, com vista para a Acrópole e para o Monte Lykavittos, este é o lugar de um antigo estádio onde desde a Antiguidade se celebravam eventos desportivos e competitivos. Com o cristianismo veio a proibição de celebrações pagãs e espetáculos que entretanto vieram a ser considerados bárbaros como os duelos de gladiadores. O estádio foi perdendo preponderância e importância. Até que os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna tiveram aqui lugar em 1896, revivendo a memória dos Jogos Olímpicos da Antiguidade. A sua reconstrução usando mármore pentélico, o mesmo do Partenon, é sublime. São filas e filas de lugares em mármore, cerca de 68 mil, um estádio numa forma oval quase completa onde na pista tem ainda lugar para umas estátuas de deuses absolutamente expressivas. O nome panatenaico é uma alusão a uma medida de distância usada na Antiguidade equivalente a aproximadamente 185 metros e o actual estádio foi o lugar da chegada da prova da maratona dos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004.

Entre os museus de Atenas, muita escolha há para fazer. E a escolha de deixar os vários Benakis de fora do roteiro foi forçada e não sem lamento. Atenas é um verdadeiro museu a céu aberto, mas ainda assim visitámos os incontornáveis Museu Arqueológico e Museu da Acrópole.

O Museu Arqueológico exibe obras desde o Paleolítico, passando pelas três grandes civilizações que ocuparam o território que hoje designamos por Grécia – a Minóica (a primeira civilização avançada na Europa), a Micénica e a Cicládica -, bem como do período clássico. Vemos ao vivo a Máscara de Agamemnon, as elegantes figuras estreitas cicládicas que inspiraram Amadeo Modigliani, os lindíssimos vasos cerâmicos com cenas do dia a dia ou histórias dos heróis e deuses gregos, a poderosa estátua de Zeus ou Poseidon e esculturas tão perfeitas que detalhes como relevos dos caracóis do cabelo ou da roupa parecem impossíveis. O que não é impossível é apaixonarmo-nos pelo busto de Antinous quase tão arrebatadamente como o Imperador Adriano por ele, Antinous, se apaixonou.

O novo Museu da Acrópole é uma construção recente. Inaugurado em 2009, está situado no sopé da Acrópole e propôs-se substituir um outro museu mais antigo e sem dignidade para acolher todas as maravilhas lá encontradas. É uma construção moderna que assenta sobre ruínas da antiga Atenas, deixando-as ver através do chão em vidro que os visitantes pisam.

O restaurante do museu tem vistas privilegiadas para a Acrópole, bem ali quase à distância de um estender de mãos. Mas é no seu interior, que através das suas amplas janelas deixa ver para o exterior funcionando como um prolongamento à cidade, que encontramos diversas obras-primas.

Desde logo, os originais de cinco das seis cariátides, as tais figuras de donzelas que servem de colunas ao templo Erecteion. Aqui podemos apreciar bem de perto toda a magnificência destas esculturas, uma delas praticamente intacta, desde os vincos das suas roupas até ao intrincado das suas tranças. Vemos ainda a escultura de um busto de Alexandre, o Grande, um apaixonado por Atenas. Mas o ponto alto da visita a este Museu da Acrópole é o piso onde é replicado o Partenon. Houve até a preocupação de que este piso fosse colocado ao mesmo nível do sítio do real Partenon. E aqui apreciamos uma vez mais em detalhe as esculturas do friso de 160 metros de comprimento onde os deuses do Olimpo lutam contra os gigantes. Lembrar, porém, que muito do que foi retirado da Acrópole está aqui neste museu, mas muito pode ainda ser visto no British Museum, em Londres. Poder de colonizador e pilhador assim o permite.

Três montes-miradouro de Atenas são de visita obrigatória.

O Filoppapou, também conhecido como Colina das Musas, tem monumentos e mais vestígios da Atenas da Antiguidade e tem mitos que lhe estão associados, como aquele que nos diz que foi aqui que Theseus e as amazonas travaram a sua batalha. Mas são as magníficas vistas para a Acrópole que nos fazem subir ao seu topo.

Também o Monte Areopagus tem vistas superiores para a Acrópole, ali mesmo ao lado dela. No entanto, são aquelas que se debruçam sobre a Ágora Antiga que nos seduzem.

Ao Monte Lykavittos podemos subir a pé, mas temos a alternativa fácil do funicular. O lugar onde os lobos em tempos passeavam é aquele com as melhores vistas para toda a Atenas. Daqui tudo se alcança, a Acrópole, claro, mas também o Pireu e o mar ao fundo e toda a densidade urbana da cidade, apenas interrompida por diversos rochedos.

O bairro dos bairros de Atenas é a Plaka, o antigo quarteirão turco. É o mais pitoresco, em especial o quarteirão Anafiotika, bem debaixo da Acrópole.

Mas a Plaka é sobretudo feita da multidão que enche as suas ruas estreitas com lojas e restaurantes. É absolutamente turístico, mas registe-se a simpatia dos gregos. De todos eles. Não houve um funcionário de restaurante que não nos dedicasse uma atenção bem disposta e divertida. E ninguém precisou de soltar um “Cristiano Ronaldo” em resposta ao nome de Portugal para percebermos o respeito que mostram pelo nosso país.

A Praça Syntagma, o centro da moderna Atenas, conhecemo-la como o palco das manifestações dos gregos contra as medidas da troika. Para o visitante, a piada da Praça está em assistir ao render da guarda à frente do Parlamento. Os soldados possuem uma fatiota espampanante, o que nos deixa sem palavras para aqueles seus sapatos com pompons e estupefactos com os seus jeitos e trejeitos. A não perder.

Monastiraki é o bairro onde não faltam opções de restaurantes e bares, numa movida incessante. Mas uma das experiências a viver em Atenas é almoçar, jantar ou beber um copo num dos muitos terraços que os seus edifícios oferecem. E, claro, a vista que todos procuramos é aquela que nos dá de bandeja a Acrópole. Duas sugestões: o Café Avissinia (a sua moussaka é deliciosa) e o bar do hotel A for Athens.

Para propostas completamente fora da caixa, o bairro Metaxourgio é a escolha certa. Os gasómetros do Technopolis são um ambiente surpreendente para se instalar uma ideia como o Dinner in the Sky (jantar no céu), uma estrutura a fazer de mesa suspensa a 50 metros de altura através de um guindaste, oferecendo certamente vistas fabulosas (digo certamente porque apenas vi esta experiência de baixo). O cenário alternativo estende-se pelo bairro fora e uma outra proposta é uma refeição no Latraac, misto de café com skatepark.

A cultura urbana marca também presença forte em Exarcheia com os seus inúmeros graffitis. Este bairro é uma síntese perfeita da Atenas deste século, uma cidade decadente e caótica mas jovem e vibrante.

Atenas, a Antiguidade no Século XXI

Atenas é a cidade da arqueologia, da arte, do caos. Caso não lhe agrade nenhuma destas, o melhor é seguir diretamente para o Pireu, o porto donde saem os barcos com destino a uma das inúmeras ilhas sonhadas.

Como Roma, que a seguiu e adoptou os seus deuses, em qualquer canto e recanto de Atenas encontramos vestígios arquitectónicos e arqueológicos que testemunham a grandeza da antiga cidade-estado. O interior dos seus museus guarda as peças que os que nos antecederam viram primeiro, estudaram e recolheram, expondo-nos o legado da civilização que define e caracteriza até hoje o Ocidente.

Inevitável neste século XXI, e em especial neste Verão de 2018, falar da crise que assolou a Grécia. Os turistas inundam a sua capital e os restaurantes estão cheios, à semelhança do nosso país. Mas nunca, em nenhuma cidade do mundo, vi tanta gente a pedir e a dormir nas ruas como vejo agora em Atenas. Famílias, até. Velhos e novos. O edificado mal conservado e os rabiscos dos grafittis constantemente a degradarem a paisagem urbana.

Os contrastes em Atenas são evidentes. Deambulando pela cidade não se chega a sentir estar na Europa e por vezes nem sequer neste século. Temos as colunas da Acrópole e de outros templos, sim, mas temos também as ruas estreitas preenchidas de lojas que mais parecem um souk do oriente.

Atenas não possui prédios altos e talvez por isso é ampla e estende-se até ao mar num contínuo de construções. Monastiraki é o coração da cidade, vibrante, o lugar onde todos se juntam. À sua volta vários redutos, bairros com características próprias, como as esplanadas do Thisio, a criatividade do Metaxourgio, os graffitis da Exarcheia, os museus e palácios da Syntagma, o charme da Plaka e as lojas de luxo de Kolonaki.

E colinas donde se observa toda esta amplitude. A curiosa topografia de Atenas faz com que de repente se elevem pedaços rochosos. O mais famoso deles é, claro, a Acrópole. Mas para vistas soberbas não podemos perder a subida quer ao Monte Philopappos, quer ao Monte Lycabetos.

E, depois, existe uma série de terraços para serem vividos. Atenas é, também, a cidade dos terraços transformados em bares, restaurantes ou até festas espontâneas. Monastiraki pode ser o coração da cidade, perto de todos os demais bairros, lugares históricos, lojas e restaurantes. Mas se queremos passar uma noite de sono tranquila há que pensar duas vezes antes de o escolher como lugar de estadia, sabemo-lo agora: no nosso prédio de 7 andares semi-abandonado com apartamentos a serem progressivamente transformados em alojamento local estava a ser dada uma festa com música alta até às 5 da manhã. Não nos juntámos a ela, quase demos os bons-dias ao sem abrigo que lá permaneceu a dormir depois da festa e quando relatámos o facto a quem nos alugou o apartamento recebemos, juntamente com um encolher de ombros, a resposta de que estávamos em Monastiraki, é Verão, o pessoal gosta de festas.

Em seguida um breve roteiro do que ver e onde estar em Atenas.

Caminha

Caminha é a última povoação na linha de defesa do rio Minho. Ou a primeira, para quem entra desde o Atlântico.

É aqui que o Minho desagua no Oceano Atlântico e é aqui que o Coura desagua no Minho. Um estuário largo onde a água impera, mas também o Monte de Santa Tecla já em terras de Espanha, mas apenas à distância de um breve olhar.

Lugar apetecível, este.

Da antiga fortaleza de Caminha, que juntamente com a de Vila Nova de Cerveira, de Valença e de Monção, bem como outros pontos fortificados por esta linha fluvial do Minho, faziam de guardiões da fronteira noroeste de Portugal restam panos de muralha e alguns baluartes e guaritas.

As muralhas datam de diversos momentos ao longo da nossa história: as mais antigas do século XIII, uma segunda linha de muralhas do século XIV e os baluartes e torreões do século XVII. As muralhas que restam estão sobretudo na cabeça de terra de Caminha que vê o Coura a encontrar-se com o Minho. Para lá das muralhas, um espaço de lazer com passeios largos e áreas verdes com vistas privilegiadas abre-se generoso.

A par de Monção, Caminha é a maior das povoações à beira Minho. E, infelizmente, à semelhança de Monção são muitos os edifícios no centro histórico de Caminha a necessitar de reabilitação. As ruas direitas do antigo burgo medieval da terra que viu Sidónio Pais nascer e que numa das suas paredes ostenta hoje um grafitti do ex-cabeleireiro mais famoso do país, António Variações, são fáceis de percorrer mas não deixamos de nos questionar o porquê de tanto abandono.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, pelo contrário, mantém toda a sua beleza e formosura após as obras de requalificação já neste século. Datada do século XV, são visíveis os vários estilos na sua fachada. Gótico, renascentista e os rendilhados que denunciam o manuelino. Destaque para a sua rosácea e logo acima a figura de um carneiro que sustenta a cruz desta igreja.

Do lado contrário do centro histórico fica a Torre do Relógio, antiga Torre de Menagem e porta de saída ou entrada da velha Caminha, conforme a direcção que tomemos. Parte da antiga e primeira muralha, a torre antes designada Porta de Viana, por ser daqui que se saia em direcção a Viana do Castelo, resiste ao tempo como o único torreão do Castelo de Caminha. O relógio que hoje lhe dá nome foi acrescentado em 1673 e por baixo do escudo de Portugal vemos uma imagem em pedra da Virgem da Conceicao mandada lá colocar por D. João IV após a Restauração. Hoje a Torre do Relógio é o Núcleo Museológico do Centro Histórico de Caminha, onde se pode testemunhar a história da vila ao longo dos séculos.

Da Porta abre-se um largo terreiro, hoje o coração de Caminha. Pitoresco e acolhedor, no centro encontramos o Chafariz em estilo renascentista do século XVI da autoria do mestre vienense João Lopes, o Velho, uma combinação de elementos geométricos e figuras mitológicas.

Voltando à água, elemento dominante em Caminha, a Mata Nacional do Camarido serve de transição do rio ao mar. Espaço extenso e denso, depois de atravessado este pinhal mandado plantar por D. Dinis, damos de caras com o Forte da Ínsua, um dos símbolos de Caminha.

Instalado numa ilhota perto da costa já no Atlântico e à entrada do Rio Minho, é possível a ida de barco até às ruínas do Forte para visita ou, para os locais, para a apanha do mexilhão e caranguejo. Inicialmente foi ocupado pelos franciscanos que aí construíram o Convento de Santa Maria da Ínsua no século XIV. Mais tarde, no século XVII, diz-se que com a própria colaboração dos franciscanos foi construída a fortaleza, hoje em ruínas, num lugar que não precisa de justificação do porquê de ser estratégico.

E Caminha é ainda o lugar ideal para se vir por aí abaixo, percorrendo a Costa Atlântica portuguesa, desde esta Ínsua, no Moledo, até ao Cabo de São Vicente, no Algarve. Projecto ambicioso para se ir fazendo aos passinhos.

Vila Nova de Cerveira

Este texto irá começar pelas conclusões.

Vila Nova de Cerveira é provavelmente a mais encantadora povoação à beira Minho e o Forte de Lovelhe o lugar mais incrível para se visitar.

Começando pelo Forte, instalado à beira rio antes de entrarmos em Vila Nova de Cerveira. Construído entre 1660 e 1662, um período em que se vivia a Guerra da Restauração, o seu propósito era o de reforçar a defesa de Vila Nova de Cerveira e impedir a passagem do inimigo nesta parte do rio. Do outro lado do rio está Espanha, já se sabe, com quem travávamos na época a dita guerra. Acontece que o Forte de Lovelhe acabou por desempenhar um papel mais decisivo num outro episódio da história de Portugal, ao impedir o avanço das tropas do General Soult aquando da Segunda Invasão Francesa em 1809.

Não é no entanto o seu papel na história que causou o meu arrebatamento por este Forte, antes a sua situação de abandono. Sim, o abandono pode deslumbrar e entusiasmar. Esta fortaleza abaluartada com a forma de um trapézio está inteiramente tomada pela vegetação. Mais uns tempos sem limpeza do terreno e os baluartes deixarão de se perceber. Nunca a expressão “envolvido pela natureza” foi tão literal e certeira. De um lado o rio e do outro a montanha. Pelo meio um pequeno forte abandonado e tomado pela vegetação indomável. É o ambiente de aventura, como se explorássemos um lugar histórico mas esquecido pelo Homem, que nos faz render. Julgava-me sozinha por aqui, circundando os muros da fortaleza rodeada de verde por todo o lado, quando avisto dois cães. Susto. Mas logo percebi que estavam acompanhados do seu dono e que este sentiu o mesmo que eu: como se a sua fortaleza, o seu lugar de recato, estivesse a ser invadido. O ambiente sublime chegou, todavia, para os dois.

O que faz do Forte de Lovelhe um lugar tão especial, já se viu, é o seu estado de abandono e as paisagens que o secundam.

O Monte Cristo, o ponto mais alto do concelho, começa a ganhar altura desde aqui e não apenas do Forte de Lovelhe podemos distinguir a figura do cervo que é símbolo da vila quase a tocar o céu. O nome de Vila Nova de Cerveira tem a sua origem, pois, nos cervos que pastavam nas encostas férteis da região.

Fundada por D. Dinis em 1320, este rei logo mandou construir um castelo junto ao rio, mais uma das fortalezas ao longo do rio Minho que constituía a linha de defesa dos ataques espanhóis.

O pequeno Castelo com a forma oval tem dentro das suas muralhas algumas infra-estruturas em estado de abandono. A pousada que ocupava o seu espaço na quase totalidade está definitivamente encerrada e planos para a reconversão e utilização do Castelo aguardam financiamento no âmbito do projecto Revive.

É extra-muralhas que a povoação de Vila Nova de Cerveira se mostra hoje viva. Desde logo, aos sábados é montada uma feira enorme junto às muralhas e sobranceira ao rio. O aglomerado de abarracamento não suscitou nem a minha simpatia estética nem curiosidade pelos seus produtos em venda.

Mas logo à entrada do largo que é o coração de Vila Nova de Cerveira – e onde encontramos a Porta da Vila de entrada no Castelo – vemos alguns elementos interessantes que nos dão as boas vindas.

A Fonte da Vila era onde os habitantes da vila vinham abastecer de água até esta ter passado a ser canalizada. Provavelmente datada do século XVII, veem-se no topo desta fonte as armas reais encimadas por uma coroa e uma cruz e em baixo três bicas em forma de carranca. A Casa verde com a fachada preenchida de azulejos dessa cor fica nas suas traseiras.

E assim entramos no centro do movimentado terreiro de Vila Nova de Cerveira. Aí se ergue uma pirâmide, a Memória, homenagem aos defensores do Minho durante a Guerra Peninsular. Lugar para se deixar estar, aqui fica também a Igreja Matriz e sua fachada barroca.

Uma rua estreita que cerca as muralhas do castelo, sem que o percebamos de imediato, mostra-nos o Solar dos Castros (hoje Biblioteca Municipal), edifício do século XVII com brasão distinto com dois leões a fazer de tenentes, lojas de comércio e uns edifícios restaurados onde se destacam as suas varandas e decoração mimosa.

Antes de atravessarmos a também estreita linha do comboio observamos o panorama desde o Largo de São Sebastião, onde fica a outra porta do Castelo, a chamada Porta da Traição.

A zona ribeirinha de lazer que nos deixa junto ao Minho é um dos ex-libris de Vila Nova de Cerveira. Os pequenos barcos ancorados transmitem todo o sentimento de tranquilidade que aqui se vive.

Mas é do alto da Serra da Gávea que se percebe em absoluto toda a grandeza desta tranquilidade. Não chegámos até ao topo do Monte do Crasto onde fica a famosa escultura do Cervo, da autoria de José Rodrigues. Ficámo-nos pelo lugar da Capela da Senhora da Encarnação, logo abaixo. Daqui contemplamos o rio Minho a rasgar o verde infinito, deixando umas ilhas pelo meio – a Ilha da Boega, maior, e a Ilha dos Amores, mais pequena – numa paisagem recortada por umas erupções de montes na planura junto à água que corre tranquila alheia a toda esta majestade.

Valença

Valença é uma cidade única para os amantes de castelos e fortalezas. Como é o meu caso, já se vê. Juntamente com Elvas e Almeida é um exemplo maior de praça-forte com um centro histórico intra-muralhas bem conservado e cheio de vida que chegou intacto aos nossos dias.

Até ao século XIII a povoação era conhecida pelo nome Contrasta. O “contraste” dizia respeito à sua localização geográfica, situada no lado oposto da fronteira relativamente a Tui. D. Afonso III mudou-lhe o nome e inspirou-se igualmente na geografia: situada num vale, ficou Valença.

Mas antes de os reis de Portugal tomarem decisões na região já esta havia sido ocupada por outros povos. Na antiga estrada de Bracara Augusta para Astorga, via Tui, a passagem dos romanos por Valença tem aqui uma prova e testemunho evidentes: o marco miliário do imperador Cláudio que serviu de pelourinho à vila, ainda hoje localizado em frente à Igreja de Santo Estevão.

Vulnerável ao ataque e invasões por parte dos espanhóis vindos do outro lado do rio, era indispensável que se construísse aqui uma fortaleza.

E aí a temos, uma monumental fortaleza com duas praças-forte distintas unidas por uma ponte estreitíssima que sai pela Porta do Meio.

Aqui fica a principal fronteira terrestre de Portugal e uma coisa não mudou, os espanhóis continuam a invadir-nos. Valença cresceu e expandiu-se, mas o que move o visitante é adentrar nas suas muralhas e… comprar têxteis, lenços, toalhas. São aos magotes os espanhóis carregados de sacos das inúmeras lojas que ocupam o centro histórico de Valença. Um autêntico bazar.

Esqueçamos o comércio. Sigamos por um passeio pela história com paisagens fabulosas (mais umas) por companhia.

Apesar de a fortificação original de Valença datar já do século XIII, a maior parte das estruturas pelas quais caminhamos hoje são do século XVII. É impressionante a sua dimensão e a sua imponência sente-se ainda hoje.

O centro histórico é rodeado de muralhas com 5 quilómetros de perímetro e é não apenas um exemplo de boa preservação em Portugal, mas também de toda a Europa. Este distinto exemplo de arquitectura militar é composto por duas praças-forte, já se disse. A principal, a Praça, com sete baluartes, e a “externa”, a Obra da Coroada, com dois baluartes e três revelins e dois meio baluartes. A muralha dupla com fossos sempre diferentes em profundidade e largura e bastiões vários debruça-se, de um lado, sobre o Rio Minho e, do outro, sobre a cidade nova.

Pelo meio, na Praça, traçado medieval feito de ruas estreitas, na maioria preenchidas com edifícios de cor branca, embora outros revestidos a azulejo nas fachadas. Muitos excedem os dois pisos. E existem ainda diversos exemplares de casas abastadas com varandas em ferro e janelas com formatos ovais. E várias igrejas seculares. Para observar tudo isto há que recolher o olhar dos panos em exposição nas montras e até mesmo nas ruas, tarefa que não se apresenta de todo fácil. O turismo fronteiriço é um chamariz e, sem cinismo, o centro histórico de Valença vale a pena ser sentido da forma que cada um entender.

As vistas do topo das muralhas, por entre baluartes e canhões, são também elas próprias um monumento. O rio está logo ali em baixo, veem-se os campos planos férteis e, mais ao longe e do outro lado, avista-se a Catedral de Tui.

Monção

Monção, juntamente com Melgaço (e outras regiões da Galiza, para lá da fronteira), é conhecida como a terra do Alvarinho, o mais apreciado vinho verde português. Não surpreende, pois, que à aproximação de Monção vindos de Arcos de Valdevez sejam muitas as quintas vinícolas que desfilam no caminho.

A uns 6 quilómetros da entrada na vila é fácil perdermos uma das mais distintas casas senhoriais do país. É o Palácio da Brejoeira, enorme propriedade privada para lá dos muros que dão para a Estrada Nacional 101. Classificado como Monumento Nacional e exemplo de arquitectura residencial neoclássica e neobarroca do início do século XIX, a sua imensa fachada destaca-se de imediato. Mas apesar das visitas públicas que se fazem desde há uns anos, é a sua tradição na produção do vinho da casta Alvarinho que faz a sua fama. Quase metade da área do Palácio e Quinta está plantada com vinha exclusivamente Alvarinho.

Monção não partilha apenas esta casta com a Galiza. O Rio Minho divide as duas províncias, mas a comunhão entre elas é evidente. A dado passo, passeando pela fortaleza junto ao rio, damos com uma quadra do poeta local João Verde, publicada em 1902:

“Vendo-os assim tão pertinho

A Galiza mail’ o Minho

São como dois namorados

Que o rio traz separados

Quasi desde o nascimento

Deixai-os, pois, namorar

Já que os pais para casar

Lhes não dão consentimento”

A Galiza e Espanha ficam no outro lado, ali bem juntinho, depois de uma estreita largura de água azul e uma imensidão de arvoredo verde. Esta foi a primeira de muitas paisagens de tirar o fôlego com que nos deparámos.

Gozando de uma posição geográfica estratégica, Monção foi fundada por Afonso III. Ainda que não seja certo, crê-se que muito antes os gregos lhe tenham dado o nome de Orosion, ou Monte Santo. Daí o nome evoluiu até Monzon e, finalmente, Monção.

O castelo da povoação construído por D. Dinis em 1306 desempenhou um papel importante nas guerras com Castela, mas o castelo original acabaria por se transformar no século XVII na fortaleza poligonal que resiste até hoje. Com uns pontos melhor conservados do que outros, vemos baluartes e muralhas e as portas medievais de acesso ao antigo burgo.

Ruas estreitas entrecruzam-se desalinhadas. Muitos edifícios estão degradados e pressente-se o abandono do centro histórico. Mas muitos outros ali continuam, alguns deles ostentando orgulhosos o brasão das suas famílias ancestrais. A Igreja Matriz surge discreta encaixada nas ruelas, mas não se furta na apresentação do seu elegante pórtico.

Monção é ainda terra de lendas e tradições.

É impossível não nos deliciarmos com a lenda de Deu-La-Deu, a mulher que venceu um cerco castelhano a Monção durante as guerras fernandinas com uma acção simples mas astuta. A sua vila cercada vivia momentos de fome, mas a então mulher do alcaide local atirou aos espanhóis os últimos pães que restavam, levando-os a recuar, criando neles a ideia de que Monção tinha provisões suficientes para continuar a resistir por muito mais. Deuladeu Martins é hoje símbolo de Monção e a sua imagem de meio corpo em cima de uma torre com um pão em cada uma das mãos é parte das armas da vila. Também João Cutileiro se deixou seduzir pela história e criou uma escultura para a imortalizar, onde vemos a marca inconfundível do artista.

Na Praça Deu-La-Deu fica um chafariz encimado por uma outra figura de mulher lendária de Monção. Danaide viveu também tempos de guerra com Espanha e viu o seu marido sair para se juntar à defesa de Portugal. Quando voltou soube que Danaide o havia traído e decidiu que só a perdoaria quando ela terminasse de peneirar toda a água do Rio Minho. Tarefa impossível, já se vê, Danaide nunca conseguiu o perdão do seu marido, mas ficou imortalizada na estátua do tal chafariz da praça principal de Monção, segurando a peneira numa das suas mãos.

E Monção é ainda sinónimo de Festa da Coca. Esta tradição popular que já vem desde o século XVI é celebrada todos os anos no dia de Corpo de Deus e representa a luta do bem contra o mal. São Jorge, o cavaleiro, contra a Coca, o dragão. Acaba sempre com São Jorge a cortar uma das orelhas à Coca e a ganhar o duelo. A palavra “coca”, no Minho, é sinónimo de maldade. Tendo chegado dois dias depois do feriado de Corpo de Deus, apenas pudemos testemunhar os restos da festa que decorre no antigo terreiro de Monção, hoje Praça Deu-La-Deu, vendo ainda a vila engalanada em tons de vermelho e verde para comemorar esta tradição que mescla o religioso com o pagão.

Saindo de Monção em direcção a Valença, desviamos até Lapela à beira do rio. Aqui fica a Torre da Lapela, intitulada “Sentinela do Minho”, antiga torre de menagem de um castelo medieval provavelmente mandado construir por D. Afonso Henriques, o que fará dele contemporâneo da formação de Portugal.

Esta torre ergue-se num pequeno penhasco e a povoação de Lapela cerca-a, num ambiente rural onde uns espigueiros parecem quase desempenhar a função de porta de entrada deste monumento e umas galinhas cacarejam quebrando o silêncio profundo do lugar. Do alto da Torre alcançamos uma vista esmagadora. O rio Minho divide os dois países sob uma intensa vegetação e cá do alto refletimos que custa a crer que alguma vez tivesse existido a necessidade de se invadir o que quer que fosse, como se esta imensidão de pacatez e serenidade merecesse alguma vez ter sido perturbada e não devesse ser por todos fruída.

Após o final das Guerras da Restauração da Independência a maioria das estruturas militares da raia portuguesa ficaram degradas e tornaram-se obsoletas. O antigo Castelo de Lapela foi um dos que ficou em muito mau estado e, por decisão de D. João V, em 1706 começou a ser demolido e a sua pedra foi reaproveitada para a construção da fortaleza da vizinha Monção. A Torre de Menagem foi a única estrutura que chegou aos nossos dias e a sua visita é obrigatória para a compreensão não apenas da história de Portugal, mas sobretudo para se conhecer um dos locais mais sublimes do nosso país.