As vilas amarelas do Alto Alentejo

É típico da paisagem alentejana o casario caiado de branco, quase sempre com riscas coloridas nos rodapés e a envolver as portas e janelas. Há-as de todas as cores, dando uma alegria singular e marcante à passagem por qualquer aldeia ou vila do Alentejo.

Mas em três vilas que destacaremos em seguida, Nisa, Crato e Alter do Chão, é o amarelo a cor que quase sempre sobressai no branco das casas e edifícios públicos. Daí o epíteto que agora lhes damos, o das “vilas amarelas”.

Nisa está instalada entre serras, a Serra de São Miguel, onde fica o ponto mais alto do concelho a 463 metros, e a Serra de São Mamede, a mais alta do distrito de Portalegre a 1025 metros (e a mais alta a sul do Tejo). Antes de passearmos pelo seu casario, um nota histórica curiosa. Foi D. Sancho I quem em 1199 doou à Ordem dos Templários a Herdade da Açafa, que incluía os territórios que hoje conhecemos como Nisa, Castelo de Vide e Marvão. O objectivo desta doação era o de povoar e defender este território até aí despovoado e desde aí perto da raia onde reinavam os “infiéis”. A partir de então foram chegando colonos do sul de França que trouxeram consigo as ideias de morfologia urbana das regiões de sua origem, a “bastide”, uma cidade medieval fortificada instalada junto a uma fortaleza. Assim foi criada Nisa junto à fortaleza erguida pelos Templários. A origem do seu nome vem da cidade francesa de Nice. Assim como as povoações vizinhas de Arêz (Arles), Montalvão (Montauban) e Tolosa (Toulouse) se inspiraram em outras cidades do sul de França.

Da fortaleza Templária e das muralhas do antigo burgo não resta praticamente nada. Excepção para uns poucos panos de muralha a que foram adossadas habitações e duas portas da antiga Nisa. A Porta da Vila é a mais monumental delas, com duas torres com ameias em cada lado e a apresentação de dois escudos a encimar o arco de entrada, um correspondente às armas de Portugal antigo e outro à Cruz de Cristo, uma espécie de eles e nós.

A pitoresca Torre do Relógio fica mesmo junto à Porta da Vila, bem como a Igreja Matriz. Ambas pontuadas a amarelo, como convém para este texto. Subindo alguns degraus da Torre do Relógio o amarelo deixa de dominar e o ocre dos telhados substitui-o. É uma confusão de casas que parece que mal deixa espaço para as ruas. E ao fundo a Serra de São Miguel com a sua forma pouco comum de terminar com o ponto mais elevado.

Descemos e confirmamos que, sim, as ruas são super estreitas criando uma intimidade entre os edifícios. A esmagadora maioria deles tem as tais listas amarelas e alguns preocupam-se em possuir portas e janelas de cor verde. Aqui e ali encontramos ainda detalhes decorativos nas cantarias das porta.

O compacto centro histórico de Nisa percorre-se facilmente até à outra porta que sobreviveu até aos nossos dias, a Porta de Montalvão, virada, precisamente, para a povoação vizinha de mesmo nome. Pelo meio, eis a pequena Praça do Município, onde fica o jardim com Pelourinho, a Câmara Municipal, a Capela da Santa Casa da Misericórdia e o palacete Lopes Tavares. Disse pequena praça, mas pelos vistos cabe muito nela. E para além de pitoresca, aqui ficamos a tentar perceber onde será a entrada principal da Câmara. E antes de atravessarmos o túnel que rasga o edifício em direcção à já referida Porta de Montalvão, apreciamos mais um momento da história, desta vez nossa contemporânea, que nos conta que o último proprietário do palacete Lopes Tavares tendo ficado viúvo deu ainda em vida cumprimento ao desejo de sua mulher de ajudar os pobres e aqui fundou um asilo, sendo hoje esta casa propriedade da Santa Casa da Misericórdia.

Nisa continua para lá do seu centro histórico, procurando ir ao encontro do que se espera das urbes do nosso tempo, de que é exemplo a sua ampla Praça da República. Mas não é isso que procuramos nestas vilas, pelo que seguimos para o Crato.

A caminho, porém, é obrigatória uma paragem para rever a sua aldeia de Flor da Rosa, lugar de mais casinhas pitorescas e do monumental Mosteiro de mesmo nome.

Se Nisa foi doada à Ordem dos Templários, já o Crato foi doado à Ordem dos Hospitalários. Mais tarde, a construção do dito Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa em 1356 fez do Crato a sede desta Ordem em Portugal. E, claro, conta-nos a História que ao Crato está desde aí ligado o nome de D. Álvaro Gonçalves Pereira, o primeiro Prior do Crato e pai de Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, que aqui nasceu. Sobre este mosteiro que parece uma fortaleza e é hoje uma Pousada de Portugal, adaptada de forma magnífica para o efeito pelo arquitecto Manuel Graça Dias, já tínhamos escrito em tempos aqui.

Do passado glorioso do Crato restam alguns elementos para além do Mosteiro. Desde logo, ainda hoje é na vila que se realizam as cerimónias de investidura dos novos Cavaleiros da Ordem de Malta. Do antigo castelo medieval mais tarde adaptado a fortim abaluartado, implantado numa cota mais alta, não restam mais do que ruínas e um baluarte. Mais abaixo, no centro da vila encontramos o seu símbolo mais bonito e elegante, a Varanda do Grão-Prior sustentada por três arcos de volta perfeita, o que resta do antigo palácio do século XVI. Nesta Praça do Município ficam ainda os serenos edifícios dos Paços do Concelho e o Palácio Sa Nogueira, para além do Pelourinho. Junto a ela, um antigo palácio barroco, hoje transformado em museu municipal onde se pode conhecer a história do concelho do Crato desde a pré-história até ao século XX.

No mais, caminhando pelas ruas estreitas e empedradas, com edifícios revestidos pelos “nossos” frisos amarelos, encontramos as costumeiras Torre do Relógio e Igreja Matriz, ambas bem bonitas. Umas janelas com cantaria decorada, muitas cruzes (de Cristo, que da Ordem de Malta não cheguei a perceber) e até apontamentos contemporâneos.

Esta é uma região de presença pré-histórica, como o atestam as diversas antas espalhadas pelo campo. Não desviámos para as visitar e seguimos adiante pela estrada que é uma das mais bonitas do Alentejo.

Alter do Chão é famosa pela sua Coudelaria Real, cujos edifícios, por sinal, têm as cores típicas deste post. À semelhança, claro, do centro histórico da vila, para onde rumamos agora. Apesar da ocupação da região desde os tempos dos romanos, Alter cresceu sobretudo a partir de 1359, data da construção do castelo por iniciativa de D. Pedro I. Inicialmente, este castelo em granito começou por desempenhar funções residenciais, sendo utilizado pelos monarcas da dinastia de Bragança aquando das suas deslocações à região. Mais tarde foi alcaidaria, prisão, loja de ferrador, oficina de carpintaria, celeiro, cavalariças, lagar de azeite e até lixeira. Restaurado no século passado, hoje está aberto a visitas por onde podemos apreciar a sua arquitectura e história.

Não há melhor lugar para perceber a sua implantação geográfica do que uma subida às muralhas e torre de menagem. Erguido num sítio plano, o casario branco e amarelo estende-se aos seus pés. Mais distante na paisagem vemos ao fundo no alto de um pequeno afloramento rochoso o Castelo de Alter Pedroso que, diz a lenda, chegou a estar ligado ao Castelo de Alter do Chão por um túnel. Outra estória dá-nos conta da existência nas proximidades de uma “cova da moura encantada” onde todo o homem que se aproximasse ficaria preso aos encantos da moura, enquanto que as mulheres teriam de saltar o buraco – se não caíssem, a felicidade amorosa estaria assegurada, se caíssem, seriam infelizes.

De volta à realidade e à actualidade, a Praça da República para onde dá o castelo é um espaço tranquilo com um coreto e bancos de jardim. Ao seu redor destaca-se o Palácio do Álamo, um solar barroco do século XVII que é hoje museu municipal. O seu jardim, diz que igualmente digno de nota, estava fechado para restauro aquando a minha visita.

O coração da vila estende-se para as traseiras do chafariz renascentista em mármore de Estremoz na Praça da República. As ruas, mais uma vez, são estreitas e sinuosas. Passamos por diversas casas brasonadas e igrejas e atentamos na decoração das entradas dos edifícios com esculturas de cavalos.

Uma última palavra para o Convento de Santo António, exemplo do barroco alentejano, hoje parte igreja e parte hotel. Ideal para uma noite bem dormida e um acordar relaxado na serenidade da planície do Alentejo.

Passadiços do Alamal

Os Passadiços do Alamal já cá andam há muitos anos, mas desde os incêndios de Agosto de 2017 que assolaram a região ganharam uma nova cara, nomeadamente no que à acessibilidade para todos diz respeito, incluindo aqueles com mobilidade reduzida.

Obra premiada do gabinete de arquitectura Proap, encomendada pela Câmara Municipal do Gavião, o Parque Fluvial da Quinta do Alamal é uma pequena maravilha no Tejo.

Para lá chegar descemos um vale encaixado nas colinas graníticas onde à natureza se juntou uma barragem que fez inundar um pouco mais o Tejo. Estamos na margem esquerda do rio e na praia fluvial, onde encontramos o Alamal River Club, a unidade de alojamento que ocupa, precisamente, a antiga quinta.

Da praia fluvial, onde não falta sequer uma língua de areia branca, parte um percurso sobre passadiços de madeira de cerca de 1800 metros de comprimento, até à ponte de Belver, com o seu característico tabuleiro metálico verde. Este percurso, que a câmara pretende ver prolongado, é parte do PR1, “Arribas do Tejo”, mais longo, circular e com passagem por ambas as margens do rio. Mas nos passadiços caminhamos sempre pela margem esquerda do Tejo. E quase sempre com a companhia da imagem fabulosa do belo castelo de Belver na margem contrária.

O passadiço, encostado muitas vezes à rocha de granito que faz parte da paisagem juntamente com o rio, vai ganhando forma, curvando onde tem de curvar e estendendo-se livremente onde pode. A vegetação sobre ele vai variando, com árvores, flores ou canas, zonas mais protegidas ou mais abertas. Encontramos até um pequeno e discreto curso de água a rolar sobre umas pedras com musgo verde.

Mas é, no entanto, a água do grande Tejo que vai dominado a paisagem. E o castelo, claro. Uma beleza natural (bem) moldada pelo homem.

Uns castelos pelo Tejo

O rio Tejo em território de Portugal é pontuado pela presença de uns castelos aqui e ali. Um bem óbvio para quem mora na capital, como é o caso do Castelo de São Jorge, outro uma visita de sonho para quase todos nós, como é o caso do Castelo de Almourol plantado numa ilhota. Pelo meio temos ainda o Castelo de Santarém e as suas vistas maravilhosas para a lezíria.

Porém, desta vez passearemos pelos outros castelos sobranceiros ao Tejo, os de Abrantes, de Belver e da Amieira, deixando o de Vila Velha de Ródão para uma próxima viagem, fiéis ao princípio de deixar sempre algo para ver como desculpa para voltar.

A situação geográfica do rio Tejo e a sua acessibilidade e navegabilidade não foram, claro, alheios à decisão de se implantar estas estruturas defensivas em cada um destes lugares. No entanto, cada uma destas estruturas da Linha Defensiva do Tejo acabou por desempenhar diferentes papéis na história do nosso país.

Comecemos pelo Castelo de Abrantes. Depois de tomada Abrantes aos mouros, D. Afonso Henriques mandou construir nesse mesmo século XII o castelo para defesa da linha do Tejo. Estávamos então no contexto da Reconquista Cristã e o castelo que no século XVIII acabou por tomar a forma de fortaleza foi, antes disso, palco de diversas batalhas entre mouros e cristãos. As muralhas exteriores não são muito imponentes e este século trouxe-lhe um quê de infantilidade com a instalação de um parque de jogos à sua entrada.

Mas um passeio pelo seu interior permite-nos ainda perceber a sua configuração e papel histórico. Aqui temos a Igreja de Santa Maria. A primitiva igreja era contemporânea da construção do castelo, mas no século XV acabou por ser remodelada e passar a panteão dos Almeida, cujos membros da família eram condes de Abrantes. O interior do castelo possui ainda o Palácio dos Governadores, muito alterado ao longo dos séculos, e a Torre de Menagem. Esta Torre de origem medieval, do século XII, também foi objecto de reconstruções várias ao longo dos tempos, mas no seu caso por força do terramoto de 1531 que a deixou em ruína até ao século XIX, século este que viu ainda passar pela vila e castelo as tropas napoleónicas.

Não precisávamos de subir à Torre para vistas enormes, uma vez que da muralha do castelo já as tínhamos, mas não resistimos a mais um ponto de vista. E que vista.

Uns 30 kms Tejo adentro, ainda na sua margem direita, a norte, surge no caminho um dos mais fantásticos castelos portugueses. Depois da apresentação quase burocrática do Castelo de Abrantes, este início de boas-vindas ao Castelo de Belver faz com que as expectativas se elevem. Mas não há que temer pela felicidade numa visita a este Belver. Esta é garantida.

Instalado no topo mais elevado de um monte granítico junto ao rio, o Castelo de Belver tem o cognome, à semelhança do de Almourol, de “sentinela do Tejo”. Vivia-se a época da Reconquista Cristã quando por volta de 1194 D. Sancho I doou à Ordem dos Hospitalários (hoje Ordem de Malta) um território que incluía, entre outras, as terras que logo passariam a ser a povoação e castelo de Belver – o Tejo era então um espaço de fronteira e havia que fazer face a ambas as necessidades de povoamento e militares. Até aqui a Ordem dos Hospitalários tinha uma função assistencial e com a construção desta estrutura defensiva assumirá a sua vocação militar. O castelo terá ficado construído em 1212 e figuras históricas passaram por lá. O Condestável D. Nuno Álvares Pereira mandou reconstruir as primitivas defesas, a princesa Santa Joana fez daqui sua residência após a peste de Aveiro em 1476 e fala-se, ainda, de um eventual exílio de Camões em Belver. O castelo sofreu com os terramotos de 1531 e de 1755 que deixaram a sua Torre de Menagem em ruína, mas o século XX veio dar um novo rumo no seu estado de conservação com os trabalhos de restauro por parte das autoridades do Estado.

Feito o contexto histórico, adentramos neste reduto de muralhas medievais e descobrimos a pitoresca ermida de São Brás aninhada junto à Torre de Menagem. O espaço interior do castelo é pequeno e subimos ao alto da Torre. As vistas para lá das muralhas não podiam ser mais sublimes. As águas azuis do Tejo serpenteiam rasgando a terra coberta do verde da relva rasteira e das oliveiras. Uma tranquilidade imensa é o que se sente do alto da torre do castelo de Belver.

Um pouco mais ainda adentro pelo Tejo, mas mais longe por estrada, há de surgir o Castelo da Amieira, a meio caminho do Gavião e Nisa. Não está mesmo junto ao Tejo nem este se avista do castelo, mas sente-se. Amieira do Tejo era uma das doze vilas da Ordem de Malta. Neste território, que hoje faz a transição entre a Beira e o Alentejo, mandou construir em 1359 D. Álvaro Gonçalves Pereira (prior da ordem de Malta e pai do Condestável D. Nuno Álvares Pereira) um castelo integrado na linha defensiva da margem sul do Tejo. Três anos antes a sede da Ordem tinha sido transferida para a Flor da Rosa, ali perto, e tendo o Tejo boas condições de navegabilidade e, no caso específico da Amieira, um bom porto fluvial, foi então escolhido o lugar para se implantar novo castelo. Como curiosidade, o castelo não está num ponto cimeiro, pelo contrário, como que se desce na aldeia para se ir ter com o castelo, avistando-se a Capela do Calvário mais acima.

O Castelo da Amieira foi um dos primeiros exemplares de castelo gótico em Portugal, tendo-lhe sido construída uma barbacã inovadora com características modernas. Com planta quadrangular e quatro torres em cada um dos cantos ligadas por muralhas, a maior dessas torres teria a função de torre de menagem mas acabou sobretudo por ser a residência do fundador do castelo, D. Álvaro Gonçalves Pereira. Uma volta pelo exterior do castelo saindo pela Porta da Traição e uma vista do alto das suas muralhas deixa-nos face a face com mais um pedaço de tranquilidade, feita de contornos suaves da serra e mais uma série de oliveiras.

Entre muitas outras, duas curiosidades deste castelo que foi residência de alcaides, prisão e cemitério. Primeiro, a sua cisterna possui ainda e desde sempre água, facto que não é assim tão comum. Segundo, a Capela de São João Baptista, construção do século XVI, apresenta pinturas no seu tecto efectuadas com a técnica decorativa do esgrafito. A temática destas pinturas é profana, com a justaposição de motivos grotescos e vegetalistas, reflectindo talvez a decadência das funções defensivas do castelo e a especial devoção a este santo por parte dos hospitalários. Também nas torres podemos ver vestígios de pinturas, o que é invulgar nas fortificações medievais portuguesas.

A Doçaria Portuguesa

Não sei fazer doces. Só entendo de comer doces, e isso muito bem. A maior parte das vezes devoro-os com tal intensidade que não me chego a aperceber dos seus ingredientes. Mas sinto o seu guloso sabor. Mas também não me importo de olhar para eles, nem que seja em fotografias ou ilustrações, e deixar-me ficar com água na boca.

Daí que a trilogia de livros “A Doçaria Portuguesa” tenha vindo mesmo a calhar. A primeira edição, dedicada ao Norte, saiu em 2016 e a segunda, dedicada ao Sul, no ano seguinte. No final de 2019 chegou a edição, a maior, dedicada ao Centro do país (e planeia-se uma próxima dedicada às ilhas). É um inventário da doçaria portuguesa, um trabalho de sapa de Cristina Castro com muitas horas no terreno a procurar e investigar a origem e tradição de doces conventuais, regionais e populares. Mas não apenas dos doces, mas também das pessoas e histórias das práticas doceiras, muitas delas curiosas e herdadas e passadas de geração em geração. Não são precisas receitas para degustarmos estes livros.

No prefácio da segunda edição, a do Sul, Maria de Lourdes Modesto escreve que “Portugal é um país doce”. Já Edgar Pacheco, no prefácio à edição do Centro, questiona-se “como é que um povo pequeno e pobre criou tanto doce a partir de três ou quatro ingredientes-base”.

Há doces para todos os gostos e feitios, uns mais seculares, outros criados há poucos anos. Quase todos eles momentos de inspiração dos seus criadores. E os seus nomes são igualmente inspirados: há o Bolo Podre e o Bolo Rançoso (é explicada a origem do nome deste último); há as Lesmas de Silves, as Mijoninhas Alpalhão e o Tecolameco do vizinho Crato; se há a Enxarcada também pode haver a Enxovalhada; os Casadinhos, os Bons Maridos e os Beija-me Depressa são capazes de conviver bem numa mesma casa; e as Rotundinhas? Um doce para quem adivinhar o lugar da sua origem.

Estas três edições têm ilustrações da minha amiga Ana Gil que, nem de propósito, produziu uns belos desenhos da Aletria – da terra da minha avó materna – e das Cavacas – da terra da minha avó paterna. Rio Tinto e Aldeia das Dez não fazem de igual forma parte das minhas referências geográficas. Em Rio Tinto nunca estive, mas adoro a doçura da aletria legada pela avó Quina; a Aldeia das Dez volto sempre, mas evito a secura da cavaca feita pelas conterrâneas da avó Mariazinha. Antes prefiro o Pão de Ló desta última, de cuja preparação acompanhava atentamente à espera de rapar a gemada que restava na tigela. Ou os Pançudos. Ah, onde estão os Pançudos de Aldeia das Dez neste inventário? Aqui fica mais uma ideia de doce para uma futura edição.

Livros para a Quarentena

Melhor do que viajar, só mesmo ler. E, se se puder aliar os dois, perfeito. Em seguida, algumas sugestões de livros que nos fazem conhecer um pouco mais os lugares desde o nosso sofá (alguns deles tiveram direito a um post aqui no blogue).

Começamos por Portugal:

– As Praias de Portugal – Guia do Banhista e do Viajante, de Ramalho Ortigão

– Viagem a Portugal, de José Saramago

Os Pescadores, de Raul Brandão

As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão

– Longe do Mar, de Paulo Moura

Urban Sketchers em Lisboa, Desenhando a Cidade

Europa:

– Viagem a Itália, de Johann Wolfgang Goethe

– As Ilhas Gregas, de Lawrence Durrell

– Istanbul, Memórias de uma Cidade, de Orhan Pamuk

Ásia:

Maximum City, de Suketu Mehta

– Deli, de Khushwant Singh

– Grande Bazar Ferroviário, de Paul Theroux

A Estrada para Oxiana, de Robert Byron

– Paisagens da China e do Japão, de Wenceslau de Moraes

– Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto

– Onde os Rios têm Marés: viagem pelo Norte do Paquistão e Estrada do Karakorum, de Ana Isabel Mineiro

América:

– Na Patagónia, de Bruce Chatwin

A Conquista do Inútil, de Werner Herzog

– Rio de Janeiro, de Ruy Castro

– Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac

África:

– Ébano, de Ryszard Kapuscinski

– África, de Paul Theroux

Aya, Life in Yop City

Oceânia:

– O Canto Nómada, de Bruce Chatwin

– Trilhos: No Deserto Australiano com Quatro Camelos e Um Cão, de Robyn Davidson

Pelo Mundo:

– O Livro dos Viajantes, de Eric Newby

– Planisfério Pessoal, de Gonçalo Cadilhe

– Alma de Viajante, de Filipe Morato Gomes (oferta da versão ebook aqui)

Alcatrão, de Luís Brito

High Tide – A Surf Odyssey, de Chris Burkard

Andes Mágicos

Este blogue leva como nome “Andes Sem Parar”. Porque pretendíamos não nos cansar de andar por aí e porque foram os Andes quem primeiro começou por nos fascinar.

Em 1998 viajámos pela primeira vez até aos Andes. À Patagónia. Desde aí fomos subindo, tomando o norte até ao último contacto com os Andes em 2016, já aos pés das Caraíbas, na Colômbia. Nunca pensei que essa viagem inicial de há 22 anos viesse a ser até hoje a única até à Patagónia, para mim ainda hoje o lugar mais fantástico e sonhado dos Andes.

É precisamente em Ushuaia, a cidade mais austral do planeta, que tem início a série documental “Andes Mágicos”, disponível em streaming na Netflix. E é aí que começa a Cordilheira dos Andes, o nosso primeiro amor de viagem, a maior cadeia montanhosa do nosso planeta, com a extensão de 7500 kms que rasgam a América do Sul de sul a norte.

Ao assistir, agora, aos 6 episódios desta série, um guia para os Andes que vai desde o sul glaciar da Patagónia argentina ou chilena até aos trópicos das Caraíbas colombianas, percebi o tanto que já tive oportunidade de conhecer, mas também as saudades de rever muito e a vontade de visitar muito mais.

É de uma enorme diversidade de paisagens e culturas de que se trata. Para além dos glaciares e da selva, pelo meio temos vulcões ora adormecidos ora atentos, desertos de sal branco e outros de terra vermelha, montanhas de diversas formas e lagos de diversas cores, rios tranquilos ou revoltos à vez. Até vistas para praias no Pacífico. Um paraíso para aventureiros, sejam eles amantes da canoagem, pesca desportiva, bicicleta, escalada ou simples caminhantes contemplativos. As condições de vida inóspitas, como o frio, o vento, a falta de luz, o calor, a remotidão, não foram nem são suficientes para impedir que a região seja povoada desde há muito e tenha visto florescer povos como os mapuches, os quechua ou os incas, com povos nativos que até hoje preservam as suas tradições ancestrais, com a veneração da montanha à cabeça, elemento de ligação com a madre tierra que dá a vida, a Pachamama.

A natureza por aqui pode ser dura e hostil, mas como diz alguém em dado momento num dos episódios desta série “quando sai o sol tudo se esquece”.

Voltando aos incas, é protegido pelas montanhas dos Andes que encontramos um dos maiores sonhos de quase todos os visitantes: a antiga cidade de Machu Picchu, o centro daquela civilização. Mas os símbolos dos Andes não se ficam pelos incas. Aqui é o lugar da mais alta montanha da América e a mais alta fora dos Himalaias, o Aconcágua, com os seus 6960m. O deserto mais árido do mundo, o Atacama, e o maior deserto de sal, o Salar e Uyuni, também ficam nos Andes. Bem como o lago navegável mais alto do planeta, o Titicaca. E onde fica a mais alta capital do mundo? Nos Andes, pois claro, na incrível La Paz, a 3700m de altitude, no entanto, nada comparado com o seu subúrbio El Alto, a 4150m, ou o seu protector Chacaltaya, a 5421m.

As cidades dos Andes, como La Paz e Medellin, por exemplo, são ainda únicas por terem desenvolvido engenhosos e modernos sistemas de transporte através de teleférico para vencer a dificuldade de movimentação pelas suas montanhas. E no Lago Titicaca, por sua vez, as comunidades que se estabeleceram pelas suas águas, fazem-se transportar por barco.

Este é ainda o lugar em que as mulheres preservam a tradição com os seus trajes coloridos e trancinhas como adorno. Mas que, ao mesmo tempo, vestidas com esse mesmo traje tradicional, não deixam de jogar futebol, mostrando que guerreiras também podem divertir-se.

A fauna dos Andes não é menos mítica, com o Condor, a maior ave do mundo, como maior símbolo. As serpentes e os pumas são ainda mais difíceis de ver, felizmente. Mais fácil e amoroso é darmos com uma vicunha, lama ou alpaca ou um flamingo.

E esta é ainda a terra que permite mais de 3000 variedades de batata ou o cultivo de café e a plantação de vinha.

Ao longo desta série, os seus personagens, habitantes e amantes dos Andes, vão tentando traduzir em palavras o que é para eles os Andes. Que são um monumento natural, fascínio, vida e paz, uma benção. Mágicos.

Séries e Documentários para a Quarentena

Como a muitos outros, também a mim me tocou uma pausa forçada no trabalho, permanecendo em casa para, em conjunto com milhões, combater a Pandemia Covid-19. As viagens limitam-se agora ao sofá, na companhia de muitas leituras e séries. E esta é a melhor era para ter tudo ao alcance da vista e da mão. Já tinha(mos) o RTP Play, mas agora assinei a Netflix por um mês, gratuitamente. Se a situação continuar por muito mais tempo, temos ainda disponíveis a HBO e a Amazon Prime nos mesmos moldes. O difícil será dar vazão a tanta informação. Em seguida, alguns documentários e séries que já valia a pena conhecer, mas que com o isolamento em casa se tornam obrigatórios.

Mar, a Última Fronteira – Disponível no RTP Play, este documentário em 6 episódios dá-nos a conhecer o nosso país de uma forma incrível totalmente nova e acessível in loco apenas a muito poucos. Os mergulhadores e cineastas marinhos saem rumo às águas portuguesas nas suas expedições, filmando Portugal de norte a sul, incluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira e até o Banco Gorringe, a maior montanha submarina da Europa, algures no Atlântico português. Não esquecer que 97% de Portugal é mar. No continente visitamos os cavalos-marinhos da Ria Formosa, os tubarões-azuis de Sesimbra e os tubarões pata-roxa de Cascais, terminando em mais um mergulho no que resta de um submarino alemão da II GGM em Matosinhos. O intenso azul do fundo do oceano nos Açores é, no entanto, a imagem que mais fortemente guardo na minha memória, mais do que a sua belíssima fauna marítima. Aprendemos a reconhecer uma série de espécies marinhas para além das mais “óbvias” baleias e tubarões, como as jamantas de Santa Maria, os meros do Corvo, o “malvado” peixe-porco que bicou a cabeça do cineasta subaquático Nuno Sá, os lírios e tantos mais tão belos em paisagens brutais, todos eles testemunhos da riqueza e biodiversidade das águas portuguesas.

Tales by Light – Esta série iniciada em 2015 é uma parceria da National Geographic com a Canon e tem todas as 3 temporadas disponíveis na Netflix. Em cada episódio somos guiados por um fotógrafo num périplo por um ou mais cantos do mundo onde nos mostram e contam o seu muito pessoal ponto de vista. Estes artistas vão a todas, desde o fundo do mar ao topo da montanha, fotografando desde animais no seu mundo natural a humanos em celebração das suas tradições. As imagens são fabulosas e as histórias inspiradoras.

O Nosso Planeta – Esta série documental da Netflix foi estreada em 2019 e conta com a narração de Sir David Attenborough, o historiador da natureza britânico. Esta mega-produção é belíssima. Propõe-se a celebrar as maravilhas da natureza que chegaram aos nossos dias e alerta-nos que temos de fazer mais para as preservar. O primeiro episódio mostra-nos o nosso planeta em geral, iniciando com uma “cabala” entre as aves marinhas e os golfinhos para apanhar um cardume de cavalas. Dificilmente esquecerei a graciosa cena do flamingo a correr. Ou da anunciada violência dos mabecos (cães) face aos gnus (bois) na savana africana, mais tarde reproduzida pelos lobos face aos caribus na floresta boreal. Ou da tocante dança dos multicoloridos pássaros como cortejo a uma fêmea. Ou do aviso: os ursos polares estão a deixar de ter focas para comer, uma vez que o gelo marinho onde elas costumavam parar está a desaparecer. A mensagem é clara: a estabilidade da vida do nosso planeta está em causa. Tudo isto apenas no primeiro episódio. Os restantes 7 episódios de “Nosso Planeta” exploram os habitats mais importantes e celebram a vida que eles ainda sustentam.

Sex and Love Around the World – Nas nossas viagens visitamos os locais e voltamos para casa sem realmente conhecermos grande parte da vida do dia-a-dia de quem nos cruzámos, quanto mais a sua intimidade. Neste documentário, Christiane Amanpour, jornalista e apresentadora da CNN, ajuda-nos a perceber um pouco dessa intimidade em cidades como Tóquio, Deli, Beirute, Berlim, Accra e Xangai. E à sua boleia caminhamos pelas ruas e adentramos nas casas de mulheres e homens, jovens ou menos jovens, ficando a perceber mais acerca das culturas e tradições de cada um e da diversidade do nosso mundo sob um ponto de visto raramente abordado e explorado. Por exemplo, sabia que os casais japoneses raramente se abraçam e não têm por hábito beijar-se sequer em privado?

Chef’s Table – Original da Netflix, estreado em 2015, vai já na sua 6ª temporada e é uma das séries de comida mais aclamadas. Comida é o pretexto para se mostrar a beleza. A beleza dos ingredientes que hão de resultar num prato, sim, mas sobretudo a beleza de tudo o que os rodeia, desde a sua origem, o seu processo de transformação nas mãos de verdadeiros artistas até ao produto final – neste caso uma bonita história contada em cada um dos episódios. Histórias de chefs originais – os mais talentosos da cozinha mundial e outros que aspiram a sê-lo – que com imaginação e perseverança têm feito com que a comida seja hoje considerada uma arte. Arte mostrada com arte por este Chef’s Table.

Street Food Ásia – Dos mesmos autores de Chef’s Table, esta é também uma série da Netflix, estreada em 2019, com 9 episódios (Banguecoque, Osaka, Deli, Yogyakarta, Chiayi, Seoul, Ho Chi Minh, Singapura e Cebu). A comida de rua está na moda, todos a queremos provar. O que não sabemos são as histórias por trás da criação das deliciosas iguarias, muitas vezes simples e humildes como a vida dos seus autores. Ou seja, são também histórias de superação que nos são contadas à boleia da imagem das bancas de rua de cidades vividas e coloridas e alguns dos episódios até puxam à lágrima. Mas o que fica é a vontade de saborear aqueles pitéus tão estranhos e diversos.

Turismo Macabro – Esta é uma série cuja existência e pertinência tem sido questionada, com via aberta para as discussões do politicamente correcto e da moral e da ética. Mas podemos sempre decidir não assisti-la. Iniciei o primeiro episódio, dedicado ao turismo macabro na América Latina, e pretendo continuar a assistir aos restantes 7 episódios. Isto mesmo tendo passado por Medellin, a cidade colombiana onde Pablo Escobar nasceu e viveu deixando como legado uma violência sem limites e o narcoturismo – representado neste primeiro episódio -, dizia, mesmo tendo passado por Medellin e não tendo tido a mínima vontade de visitar qualquer local ligado à El Patron. Mais, tendo achado este tipo de turismo um disparate e de profundo mau gosto. A série Turismo Macabro baseia-se, precisamente, numa ideia de muito mau gosto, a de procurar visitar de um ponto de vista turístico locais malditos e permitir aventuras onde tantos sofreram (e sofrem) e morreram (e morrem) na vida real. David Farrier, o jornalista da Nova Zelândia protagonista desta série da Netflix, assume ser um ávido admirador deste género e avisa logo de início que esta série contém mais de 80% de morte na sua busca incondicional pelo louco, macabro e mórbido. É bizarro e estúpido, mas há que assistir para tirar as nossas conclusões acerca de um nicho do mercado de turismo que está aí um pouco por toda a parte.