Melgaço

Melgaço é o concelho mais a norte do nosso país, situado na raia com Espanha, onde o rio Minho faz de fronteira natural entre os dois países.

Já tinha estado em Caminha, Vila Nova de Cerveira, Valença e Monção, mas faltava-me Melgaço.

Esta é uma vila medieval com um castelo ao redor do qual se desenvolveu um pequeno núcleo urbano histórico. A vila entretanto cresceu e estendeu-se e hoje até acolhe a Escola Superior de Desporto e Lazer do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Famosa pelas suas termas e pelo Alvarinho, na região é de visitar ainda Castro Laboreiro (o que fiz) e a Branda da Aveleira (o que ficará para uma próxima).

A minha visita à vila ficou bastante comprometida por ter sido feita a uma segunda-feira. Explique-se: o Castelo encerra às 2ªs feiras, o Museu de Cinema Jean Loup Passek encerra às 2ªs feiras e o Espaço de Memória e Fronteira encerra às 2ªs feiras. Mas como as ruas da vila nunca encerram, lá entrei pela Porta da Vila onde à entrada nos recebe Inês Negra e caminhei pela Rua Direita e pelo seu casario.

Implantada numa colina, Melgaço é feita de ruas estreitas que se vão cruzando, tipicamente medievais. Logo passamos pelo Solar do Alvarinho. Este edifício era a antiga Casa da Câmara, Tribunal e Cadeia. Distinto, na sua fachada destacam-se os arcos e o alpendre. O seu interior é reservado para as provas do vinho Alvarinho.

Pouco mais adiante surge a Igreja Matriz ou de Santa Maria da Porta, construção do século XIII. Já fora da cerca de muralhas (de que pouco resta nos nossos dias), a Praça da República tem a sua graça. Uma fonte hiper-decorada rouba a atenção, enquanto que as portas ogivais de um dos seus edifícios desviam da serenidade da Praça.

Mas é o Castelo, com a sua Torre de Menagem que se destaca na paisagem desde ao longe à aproximação de Melgaço, o ex-libris da vila. Curiosamente, quando caminhamos pelo centro histórico, do qual a Torre é parte integrante, esta não se percebe assim tanto, não porque os edifícios que a rodeiam sejam também eles altos, pelo contrário, mas porque tudo é tão compacto que não chegamos a perceber a sua forma na plenitude. Ainda para mais, como já referi, o Castelo estava encerrado.

O Castelo de Melgaço é uma construção do século XII, data também da primeira carta de foral concedida por D. Afonso Henriques. De forma oval, esta fortificação era parte da linha estratégica de defesa do rio Minho. O seu papel era, no entanto, curioso: enquanto na posse dos portugueses, desempenhava um papel de castelo de detenção contra Leão durante a Reconquista, enquanto que para os castelhanos servia de lugar de penetração em conjunto com as outras conquistas na mesma linha.

Fora do núcleo urbano, mas a ele contíguo, destaque para os vários pontos de vista que se abrem aos vales recortados e verdejantes do Minho. E destaque, igualmente, para a Igreja e Convento das Carvalhiças. A igreja deste convento franciscano estava fechada (seria por ser 2ª feira?), mas vale a pena admirar o equilíbrio da sua fachada branca em estilo maneirista e barroco.

Mais afastado do centro, o Parque Termal do Peso e a zona do Centro de Estágios com diversas infra-estruturas desportivas, uma Pousada da Juventude e o Hotel e Spa Monte Prado, representam zonas verdes de luxo. Ambas estão ligadas por um percurso pedestre de pouco mais de 3 kms que segue em grande parte marginal do rio Minho.

Depois de ter visitado as 5 principais povoações do Minho fronteiriças à Galiza, tenho assente que o que mais me encanta por aqui é, precisamente, o rio Minho. A possibilidade de vê-lo, acompanhá-lo, tocá-lo ou, tão só, senti-lo. E se em Melgaço esta presença é menos próxima do que nas outras povoações e, assim, menos evidente, nem por isso deixa de lá estar. Sentimo-lo, sempre.

Soajo e Lindoso, espigueiros e muito mais

Os espigueiros fazem parte da paisagem do norte do nosso país. Andamos por montes e vales e nem precisamos de entrar numa povoação para encontrarmos um exemplar à beira da estrada. Eles vão-se sucedendo, uns maiores do que outros, mas quase sempre elegantes.

Chamemos-lhes espigueiros ou canastros, estes elementos de arquitectura popular são na sua maioria de forma rectangular (mas também os há quadrados ou redondos), elevados no solo, de madeira ou de pedra, com cobertura de telha ou de palha e de ornamentação variada. Só a sua função parece não variar: pequenos celeiros para guardar o milho e protegê-lo das intempéries e dos roedores.

Em lugar nenhum do nosso país podemos vê-los em tão grande número e tão concentrados como no Soajo e no Lindoso, em pleno Parque Natural Peneda-Gerês.

Comecemos por uma paragem no Soajo.

Já foi vila, passou a aldeia e desde 2009 voltou a ter a distinção de vila. Instalada na Serra do Soajo, cujo cume mede 1416 metros de altitude, esta povoação feita ainda de muitos edifícios de granito, ruas estreitas e inclinadas, abre-se altaneira para o recorte dos montes que a rodeiam, onde não faltam os terrenos dispostos em socalcos. À entrada um monumento erguido ao Cão Sabujo da Serra do Soajo faz-nos saber que “daqui partiram, todos os anos, para os reis de Portugal cinco grandes e valentes cães do Soajo. Por tal, nos séculos da monarquia, os soajeiros beneficiaram da isenção de impostos e de outros admiráveis privilégios”. Igualmente, abaixo de um brasão numa das casas da vila, com elementos como o dito cão e outros animais e uma árvore, está inscrito “Serra do Soajo, Parque Natural d’ el Rei”. A vila ganhou foral em 1514 e o orgulho dos seus habitantes pelo seu papel na história do país é manifesto.

Ainda que não restem já edifícios dessa remota era, alguns dos seus edifícios mais típicos seguem de pé e são bons testemunhos de arquitectura tradicional.

A praça principal é disso exemplo. Aqui ficam a oitocentista Casa da Câmara, os antigos paços municipais, a quinhentista Casa do Largo de Eiró (o nome da dita praça principal), o seiscentista Pelourinho e a Igreja Paroquial com o seu estreito campanário a que se acede por uma escadaria.

Quase sempre em granito, as casas são normalmente de um ou dois pisos, e o superior pode conter um alpendre em madeira ou balcão em pedra a que se acede por uma escadaria. A Casa do Largo é distinta pela sua arcaria e gárgulas de canhão.

O Pelourinho é muito curioso. Não é certa nem a sua origem nem o seu significado, mas o rosto sorridente e solar lá está, a encimar a coluna.

Vale a pena passar para lá da Igreja e caminhar pelas ruelas irregulares da vila antes de seguir para a Eira Comunitária do Soajo, o lugar que lhe dá a fama e que chama a maior parte dos seus visitantes.

Sobre um afloramento de granito ergue-se um conjunto de 24 espigueiros, todos eles em pedra. Alguns destes espigueiros são ainda hoje utilizados pela população e o mais antigo deles data de 1782.

Estas estruturas seculares de arquitectura agrícola, dispostas desordenadamente no cimo deste penedo cheio de desníveis e com uma vista fabulosa para os montes e vales que formam a Serra do Soajo, representam ainda assim um conjunto harmonioso. Possuem uma forma rectangular, são estreitos e inteiramente de granito, incluindo a sua cobertura, e apenas a sua porta é de madeira. São elevados para permitir uma melhor secagem dos cereais e assentes numa espécie de pés também eles feitos de lajes de granito. As suas paredes têm umas fendas verticais. Estas frestas pequenas servem para arejar o cereal no interior do espigueiro, ao mesmo tempo que o poupam dos estragos quer do clima quer dos animais. As suas portas estavam fechadas e não dava para perceber o que estes espigueiros guardavam por esta altura do ano, mas o vento que soprava forte e entrava por ali adentro fazia o seu interior ganhar vida, remexido pelo ar e pelas portas a ranger. Este ambiente levemente agreste condiz com a rudeza destas construções vernáculas.

A sua ornamentação basta-se com as cruzes dispostas na frente ou na traseira, ou em ambas, do telhado do espigueiro. A cruz é o símbolo de proteção contra a maldição e, ao mesmo tempo, abençoa o milho. Ou seja, ao contrário do que um olhar menos atento poderia julgar, não se tratam de estruturas funerárias, pelo contrário, representam a vida, o sustento das famílias.

Antes de deixarmos a vila do Soajo não o podemos fazer sem uma visita – ou, se o clima o permitir, um mergulho – ao Poço das Mantas e, especialmente, ao Poço Negro, um recanto travestido de piscina natural no caminho do rio Adrão, o qual há-de desaguar no rio Lima um pouco mais adiante.

Do Soajo para Lindoso são cerca de 15 kms. Há um caminho mais directo, mas optámos por seguir pelo lugar de Ermelo, pequeno ponto no mapa mas ainda assim terra de um Monumento Nacional na figura do seu Mosteiro do tempo do Românico, à beira do rio Lima. E é também à beira deste rio que a dado passo na estrada vemos despenhar-se com surpresa uma queda de água do alto de um monte.

Porque as surpresas nesta região não param de acontecer, vale a pena estarmos atentos ao caminho para que antes da entrada em Parada do Lindoso possamos desviar à direita para o Poço da Gola. Estacionamos o carro e vemos cá de cima o rio a vencer os desníveis e a romper as pedras pelo meio da vegetação. Continuamos mais um pouco a pé, procurando acompanhar o seu curso, e aí a surpresa é total. A uma antiga casinha de pedra em ruínas segue-se uma ponte de madeira e, cereja no topo do bolo, mais uma piscina natural de água claríssima, num conjunto verde perfeito.

O Lindoso, por fim.

Diz a lenda que D. Dinis, ao ver o castelo, “tão alegre e primoroso o achou, que logo lindoso o chamou”. O Castelo do Lindoso foi, no entanto, construído pelo seu antecessor, D. Afonso III, no século XIII. A sua implantação é primorosa, no alto de um pequeno penedo rochoso sobranceiro ao rio Lima, a 468 metros de altitude, em plena Serra Amarela. Espanha está a apenas 4 kms, daí que o objectivo primeiro da sua construção tenha sido o de defesa e vigia da fronteira. Mais tarde, o Castelo do Lindoso viria a desempenhar também um papel importante nas Guerras da Restauração, mais uma vez como linha de defesa contra o vizinho espanhol. O seu uso foi sempre estritamente militar, nunca tendo servido de residência.

No século XVII, curiosamente, foi construído um forte a envolver o castelo, que ocupa a praça interior. Hoje restam a torre de menagem, baluartes e canhoneiras. Mas o ambiente é já totalmente tranquilo no que a guerras, invasões e disputas diz respeito. A rudeza queda-se pelo isolamento da região e pelo cinzento do granito que nos cerca. O granito do terreno, o granito do castelo e o granito dos espigueiros.

Mesmo junto ao castelo fica a eira comunitária com cerca de 64 espigueiros (no total da freguesia serão mais de 120, o que faz dela a possuidora do maior aglomerado de espigueiros da Península Ibérica). É também esta a beleza deste Castelo do Lindoso, o facto da sua localização ser estratégica e paisagísticamente imaculada e ter como vizinhos imediatos um dos maiores expoentes da arquitectura rural do Minho: os espigueiros.

À semelhança do que acontece no Soajo, e em muitas das povoações do distante e montanhoso norte de Portugal, o espírito comunitário tem aqui uma forte presença. E também à semelhança dos espigueiros do Soajo, os do Lindoso são estreitos e rectangulares, em pedra, com acabamentos nas cantarias muito perfeitos e, mais uma vez, ornamentados apenas com um cruz no seu telhado. Alguns deles têm inscrita a data da sua criação e o mais antigo data, tal como o do Soajo, do século XVIII.

Vale a pena circular pelo espaço da eira, com os espigueiros distribuídos ao acaso, mas quase sempre com o topo traseiro virado a sudoeste, pensando na orientação do sentido da chuva, rodeando-os e apreciando-os de perto. Eles são aqui largos e de pouca altura, quase sempre de mesmas dimensões, e estas características comuns indiciam um equilíbrio na distribuição da propriedade agrícola na região.

A atestar a importância dos espigueiros enquanto símbolo etnográfico, a Imprensa Nacional Casa da Moeda lançou em 2018 uma moeda comemorativa (Espigueiros do Noroeste) com a imagem dos espigueiros do Soajo e do Lindoso, enaltecendo o património e a cultura identitária dos seus povos.

Sistelo, o outro Tibete e os outros passadiços

A primeira vez que ouvi falar dos passadiços do Sistelo foi enquanto caminhava pelos passadiços do Paiva. Alguém, então, dizia que os outros, os do Sistelo, eram ainda mais incríveis. Curiosa, mas sem querer entrar em comparações, fui investigar.

Sistelo é uma aldeia do concelho de Arcos de Valdevez e para se chegar lá há que subir a bom subir, curvar pelas estradas, descer a bom descer. O vento não assobiava, antes gritava, assustador, e só me vinha à mente que estas é que deviam ser as Terras do Demo. Mas é isso, o demo, tal como o seu rival, está em toda a parte.

Antes de entrar na aldeia do Sistelo tentei ir até lá acima, à Bandra do Alhal, mas o meu carrito derrapou na subida íngreme e pensei que antes de investir num bólide decente me devia ficar apenas pelo miradouro dos Socalcos.

Brandas e socalcos, eis dois elementos que marcam a paisagem e a vida das gentes desta região e que moldaram o seu carácter, essencial para vencer as agruras e dificuldades do lugar em que nasceram e cresceram.

As bandras são os terrenos que serviam de apoio à pastorícia no Verão e onde foram construídas habitações rústicas para se passar essa época do ano. Assim como que uma segunda habitação, não de veraneio, mas de trabalho árduo. Abrigos sazonais para pastores e seu gado.

E os socalcos são a forma como o Homem vem aqui moldando a natureza em seu benefício desde há séculos com o objectivo de aumentar a área de cultivo, criando diversos terraços e patamares no terreno ao mesmo tempo que se vence os seus declives. As águas alimentam os campos de cultivo através de um sistema de regadio que as conduz pelas levadas. Milho, feijão e pecuária fazem parte da economia do lugar.

É a construção destes socalcos que dá forma e fama ao epíteto de “pequeno Tibete português” desta região.

Coube, aliás, à Paisagem Cultural da Aldeia do Sistelo o privilégio de ser a primeira a merecer a distinção entre nós enquanto tal e de ser classificada como monumento nacional, por ser “composta por um espaço natural de superior qualidade paisagística, natural e ambiental, ao qual se soma um notável património etnográfico e histórico cuja preservação e autenticidade é fundamental garantir”.

A aldeia do Sistelo é pequenina mas bem pitoresca. Não apenas pelo belo enquadramento do seu parco casario no vale íngreme rodeado de socalcos onde ao fundo corre o rio Vez. Mas também pelos vários elementos de arquitectura popular que a compõem. O distinto castelo – na verdade um palacete do século XIX que pertenceu ao Visconde do Sistelo -, a igreja, o chafariz e diversas casas em granito, quase todas elas restauradas e bem recuperadas. Não falta um ajuntamento de espigueiros, presença constante nesta região nos limites do Parque Peneda Gerês.

Mas porque o objectivo da visita ao Sistelo era caminhar, ponhamo-nos, então, ao caminho.

Na praça principal da aldeia, junto ao cruzeiro, estão colocadas uma série de placas com a indicação de múltiplos trilhos. Uma confusão. Se não soubéssemos ao que íamos ainda agora lá estaríamos a decidir que direcção tomar.

Era pela Ecovia do Vez que queríamos seguir. Mas porque na sua totalidade o trilho ao longo do rio Vez tem mais de 30 kms, a melhor ideia é percorrer “apenas” os cerca de 11 kms que ligam a aldeia do Sistelo à ponte romana de Vilela (e daqui esperar por boleia ou ligar para um dos números de táxi que vamos vendo inscritos no caminho para nos levar de volta ao nosso ponto inicial). Caso estes 11 kms sejam demais, há sempre a óptima possibilidade de se condensar esta caminhada épica nos 2 kms circulares que descem a aldeia até ao rio, atravessam-no, percorrem parte dos passadiços e voltam a subir à aldeia.

A primeira parte da Ecovia do Vez saindo do Sistelo é feita numa descida sobre um desagradável amontoado de pedras, mas na verdade este é um contacto autêntico com a paisagem cultural materializada numa calçada medieval. Assim como medieval é a ponte sobre o Vez que atravessamos logo em seguida. À nossa volta campos cultivados, vinhas, socalcos, vacas e uma densa vegetação. A paisagem ao nosso redor é grandiosa.

Logo surge a zona fluvial e de lazer do Sistelo, o primeiro dos lugares onde podemos banhar-nos e merendar. Na outra margem avista-se a Capela do Senhor dos Aflitos. E logo chegam os passadiços, elevando-nos sobre o Vez e tornando o nosso passeio mais encantador.

Caminhado sobre a madeira clara, umas vezes por passadeira outras por degraus, ficamos completamente envolvidos pela natureza, rio ao nosso lado esquerdo e abaixo, vegetação por todo o lado. De surpresa, surge a primeira cascata no nosso caminho. As quedas de água vão-se sucedendo ao longo percurso, muitas vezes anunciadas pelo barulho do jorrar das suas águas.

Mesmo o Vez, umas vezes corre sereno, águas em espelho perturbadas apenas por umas pedras formosas, outras em redemoinho procurando ultrapassar os empecilhos que se lhe atravessam.

O trilho é feito de vários pisos: a pedra, a madeira, a terra e por vezes até água que inunda o caminho. E quase 1 km em asfalto, num desvio para a estrada um pouco mais afastada do Vez, enquanto não se completam os passadiços ainda em construção.

Mas, depois disso, a volta até à margem próxima do Vez faz-se em grande estilo descendo até à Praia Fluvial do Poço das Caldeiras. O lugar ideal para um descanso relaxado à beira Vez.

A partir daqui são mais as povoações perto do trilho, daí que a rotina agrícola e pecuária esteja mais próxima. As ovelhas sucedem-se, as medeiras idem. A palha disposta em forma de cone é característica da região, de forma a protegê-la dos elementos.

E na parte final do percurso, quase a chegar à ponte de Vilela, os exemplares de azenhas e moinhos instalados na margem do rio tornam-se mais frequentes. A maior parte em ruína, vêem-se ainda as mós que testemunham esta tradição de moagem de cereal que tirava partido da força da água do rio para funcionar. A zona da Azenha e Poldra da Chã mostra-nos e ensina-nos ainda o que é uma poldra – as pedras dispostas no rio como forma de o atravessar pedonalmente.

Este percurso pela Ecovia é na sua maioria plano, com uma descida aqui e uma subida ali feita sobretudo pelos passadiços. Daí que seja relativamente fácil. A ponte medieval de Vilela, fim do caminho, é o remate certeiro para esta jornada. Elegante na forma, antiga na história, este é mais um elemento nesta justaposição de paisagem cultural e natural, feita de tradições e evasões.

Pelo Rio Coura

O rio Coura nasce na Serra do Corno de Bico, a quase 900 metros de altitude, e segue por cerca de 50 kms até desaguar no rio Minho, em Caminha. A Estrada Nacional 301 acompanha-o em grande parte nesse percurso e foi por ela que seguimos.

Antes de sair de Caminha, subimos ao miradouro de Santo Antão para poder observar a foz do Coura como só os pássaros o fazem. O nevoeiro cerrado, porém, não o permitiu.

A primeira paragem deu-se em Vilar de Mouros. Esta povoação é pouco mais do que um ponto no mapa com muitas igrejas e capelas, uma ponte românica de granito em estilo gótico e uma praia fluvial idílica.

Só que este ponto saiu definitivamente do mapa em 1971 com a realização do 1° Festival de Vilar de Mouros. Custa a crer que um sítio tão pacato possa ser invadido numa determinada época do ano por milhares de festivaleiros. Mas o extenso manto verde à beira Coura e com a silhueta dos montes a emoldurá-lo que se transforma no recinto do festival no Verão parece ter lugar para toda a gente. No resto do ano, a aldeia não é invadida por mais do que pescadores recreativos de truta ou raros curiosos, como eu.

Meio quilómetro para além da ponte de Vilar de Mouros encontramos a praia fluvial das Azenhas, um pouso lindo com uma pequena língua de areia de frente para uma azenha e com um açude que quebra a monotonia.

O topónimo “Vilar de Mouros” dever-se-á ao facto de por volta do século VIII aqui se ter instalado um núcleo de mouros, sendo que a palavra “vilar” é a palavra árabe para aldeia. Mas antes disso ter-se-ão aqui instalado também os romanos, os celtas e os suevos, todos eles encontrando refúgio nesta terra recolhida.

De Vilar de Mouros até Covas a estrada acompanha sempre o Coura de perto. Nem sempre o vemos mas vamos sentindo a sua presença e o seu odor. Algumas abertas por entre o arvoredo denso deixam ver pedaços do rio com tons de azul cobalto.

Antes da chegada à aldeia de Covas aparece-nos uma barragem de águas calmas, com o Coura a tornar-se mais largo. A estrada que corta para a direita sobe até às antigas minas de volfrâmio e tungsténio de Vilares, hoje desactivadas, e é uma das portas de entrada da Serra de Arga. Cortando para a esquerda atravessamos a moderna ponte sobre o Coura e com pouca demora entramos em Covas. Subindo pela serra abre-se o miradouro do Canal do Coura e ganhamos uma outra visão da paisagem.

Junto a Covas existem uns lugares para se tomar banho no Coura. A Zona de Lazer de Covas representa dois mundos opostos. A água vem tranquila para, ao cair sobre o açude e as pedras, logo se tornar rebelde. O barulho é ensurdecedor. A Azenha de Pagade, logo adiante, é mais um recanto do Coura e mais um testemunho dos moinhos de água implantados à beira deste rio.

Até Paredes de Coura não seguimos sempre junto ao rio. Uma placa aponta o desvio para Romarigães, a Casa Grande de Aquilino, mas seguimos o objectivo de acompanhar o Coura até quase à sua nascente.

Paredes de Coura é a outra povoação do Coura mundialmente famosa por receber mais um festival de verão. A Praia Fluvial do Taboão possui, à semelhança da de Vilar de Mouros, um extenso relvado. Mas nesta é mais fácil aceder ao rio em muitas das suas zonas e está mais preparada para receber os candidatos a mergulhadores ou nadadores.

O rio é aqui um pouco mais largo, as suas águas calmas e a vegetação intensa. Mesmo Paredes de Coura, sede de concelho, é já uma povoação mais crescida, mas o montão de igrejas continua. Destas, vale a pena conhecer (por fora, porque por dentro já se sabe que as igrejas do nosso país estão sempre fechadas) a Capela Ecce Homo e a sua formosa fachada rococó.

Até porque o rio passa aqui perto e a Praia Fluvial de Casaldate é um dos últimos pontos para se experimentar da água do Coura antes de chegarmos à sua nascente. Neste vale vacas pastam, insensíveis ao rio e ao cenário de montanha que as rodeiam. Aliás, vacas são com quem mais nos cruzamos nas estradas neste final de viagem pelo Coura. Os espigueiros são um dos poucos testemunhos da vida humana por aqui. Bem como as medeiras, forma típica da região de empilhar a palha.

A Paisagem Protegida Regional de Corno de Bico, com aldeias como Cristelo, Bico, Vascões e Lamas, é todo um mundo à parte daquele em que nos habituámos a viver. Um mundo natural e rural profundo e distante. Reduto de uma fauna e flora bem conservadas, nesta zona montanhosa, com o Corno de Bico a 833 metros de altitude, abundam os grandes blocos de granito. Chega a ser um lugar inóspito, até porque não nos cruzamos com ninguém. Só nós e a natureza. E, algures, o Coura a tornar-se rio e a preparar o seu caminho.

Aldeia da Mata Pequena

Da aldeia de Anços são cerca de 2 kms de carro numa estrada de terra batida (mas acessível) até à Aldeia da Mata Pequena. Atravessamos o estreito Rio Lizandro e passamo-lo a ter ao nosso lado esquerdo. Subimos um pouco e eis que temos mesmo à nossa frente uma espécie de aldeia-museu no alto de um monte verdejante.

A Aldeia da Mata Pequena é na verdade um empreendimento turístico. Alguém se propôs recuperar as edificações de um lado e do outro da pequena – e única – rua desta povoação e colocá-las à disposição de qualquer um de nós para aqui podermos passar um dia ou dias de ruralidade às portas de Lisboa.

Pode parecer algo artificial, esta ideia de alojamento turístico e não casas ocupadas pelos seus habitantes tradicionais, mas as casinhas estão todas bonitas no seu exterior, sendo fácil deixarmo-nos encantar pelas suas cores, elementos decorativos e pátios. O resultado é que a arquitectura tradicional da região saloia tem aqui um exemplo que dá gosto visitar.

A dita rua é empedrada e as suas casas caiadas com frisos ora azuis, ora amarelos, ora vermelhos. Os telhados com telhas de cor ocre protegem do céu azulíssimo e do verde dos terrenos que circundam a aldeia. Janelinhas e vasos com flores nas fachadas, uma mó, um cântaro e um regador aqui e ali, esculturas em porcelana, muitos são os apontamentos da vida rural. Não faltam burros, galinhas, coelhos e até o porco Guedes fez questão de espreitar para dar as boas-vindas.

Aqui perto da Aldeia da Mata Pequena fica o Penedo do Lexim, zona arqueológica num antigo vulcão agora extinto. E a poucos quilómetros mandou D. João V erguer o Palácio Nacional de Mafra, então bem longe de Lisboa. Hoje tudo é mais perto, mas o ambiente, esse, continua a todo um mundo de distância.

Cascata de Anços

Às portas de Lisboa existe uma sucessão de quedas de água tão incrível que custa a acreditar que não esteja toda a gente a falar dela. Parece que já foi até cenário de telenovela, mas continua e continuará escondida pela vegetação e a depender do passa palavra para ser visitada.

No vale da ribeira do Mourão, a Cascata de Anços passa totalmente despercebida a quem segue pela estrada vindo de Montelavar ou de Negrais. Há que cortar para a rua da Laranjeira, e é por isso que esta também gosta de ser conhecida como a Cascata da Laranjeira. Mais, exige ser conhecida por esse nome, assim mo afirmou o guarda-cascatas local. Por sorte o Tóino dos Bigodes serviu-me de guia para adentrar pela natureza deste pedaço precioso de propriedade particular que até há pouco tempo tinha o acesso totalmente vedado aos forasteiros. Hoje podemos percorrer o trilho pouco pisado mas fácil de identificar. Algumas ruínas de edifícios esquecidos pelo tempo, incluindo mós dos moinhos, são testemunhos da presença do Homem por aqui. Mas é a natureza a grande dominadora do lugar.

Encaixada no dito vale corre, então, a Ribeira do Mourão, afluente do Rio Lizandro. É um fio de água, mas o suficiente para no seu ponto mais exaltante cair de um desnível da rocha de uma altura considerável. Diz o Bigodes que se pode ir até lá cima e aí ficar em sossego em total isolamento. Não sou de escaladas e muitas aventuras e, para além disso, a vista desta cascata desde cá de baixo e a beleza da piscina natural que se forma ao seu redor são suficientes para encher as medidas e recordar este lugar e desejar voltar.

Um tronco no meio do caminho que o guarda-cascatas tornou transitável permite-nos atravessar a ribeira para o outro lado. Continuamos envolvidos pelo bosque e acompanhamos o percurso da ribeira sempre com o seu som como música de fundo. A água é fria, claro, bem guardada pela vegetação. Algures por aqui fica, desculpe o segredo, o frigorífico do Bigodes, um buraquinho na rocha perfeito para acondicionar uma garrafinha de tintol para se usar a qualquer altura do dia enquanto se relaxa neste recanto.

Os desníveis do vale vão-se sucedendo, formando novas quedas de água, umas mais acessíveis do que outras. Quem for aventureiro tem-nas todas para si.

Para além da surpresa das várias cascatas, este vale em Anços é especial também pela enorme e formosa parede rochosa do penedo que o ladeia. Diz o Bigodes que esta é terra de ouro e titânio. Pode até ser, mas hoje a busca deste lugar faz-se por outros motivos mais simples mas também valiosos: o de ali se passar um bom momento, em plena tranquilidade e comunhão com a natureza.

Palácio Nacional de Mafra

O Palácio Nacional de Mafra é imponente a todos os níveis. Desde logo pela forma como se afirma na paisagem da região. De longe já o estamos a observar seja qual for a direcção que tomemos para chegar a Mafra. Primeiro como um longo corpo com torreões e cúpula, depois como um real palácio e convento. Real de verdadeiro, mas ao mesmo tempo real de realeza.

Foi D. João V que na primeira metade do século XVIII mandou construir em Mafra um convento como cumprimento do voto que fizera para conseguir sucessão no seu casamento. Mas este convento viria a ser muito mais do que apenas um convento. Para além de integrar também um Paço Real, uma Basílica e uma Tapada, é hoje encarado como uma afirmação do poder absoluto e de legitimação da Casa de Bragança numa então época pujante do Império Português. E acabou ainda por entrar na história e na cultura do nosso país, inspirando José Saramago no seu mordaz “Memorial do Convento” com as marcantes personagens Blimunda Sete-Luas e Baltasar Sete-Sóis.

Tudo no Palácio é em grande.

Desde logo, a sua extensa fachada, com 220 metros de comprimento, um torreão em cada lado e a Basílica no eixo central, numa simetria cativante. Na traseira fica o antigo Convento, o qual após a extinção das ordens religiosas em 1834 veio a ser ocupado por diversos regimentos militares, sendo hoje sede da Escola de Armas. Mas sobretudo pela bela e equilibrada arquitectura deste monumento barroco e pela superior qualidade e uso dos seus materiais, maioritariamente mármores.

A direcção desta obra monumental ficou a cargo de João Frederico Ludovice, que buscou inspiração na Roma de Bernini e de Borromini.

Este Paço Real, apesar de então distante da sede do reino, era visitado amiúde pela família real, que gostava de aqui celebrar festas religiosas e de caçar na Tapada. Foi aqui, aliás, que D Manuel II, o último rei de Portugal, passou a sua última noite antes de deixar o reino rumo ao exílio na sequência da Implantação da República a 5 de Outubro de 1910. Logo no ano seguinte o conjunto tomou a designação de Palácio Nacional de Mafra e foi transformado em museu.

A entrada é efectuada por uma porta à esquerda da Basílica e logo temos os claustros diante de nós. Não são certamente os seus claustros que fazem a fama merecida do Palácio de Mafra. São discretos e pouco monumentais, mas não desiludem porque muito de belo haveremos de ver em seguida.

Subida a escadaria para acesso ao Piso Nobre do Palácio, surge diante nós a Sala de Diana. As pinturas do tecto a representar Diana, a deusa da caça, são belíssimas e esta é uma excelente ante-sala para a Sala de Audiência (ou do Trono) que se lhe segue. Esta sala destinava-se às audiências régias e apesar da pouca luz percebe-se que este é mais uma sala com pinturas fantásticas. O tecto tem representada uma alegoria à Lusitânia e as paredes pinturas com as oito virtudes reais.

Os aposentos do rei e da rainha estão cada um do seu lado, os dele no Torreão Norte, os dela no Torreão Sul. A separa-los têm a Galeria da Frente, um enorme corredor com os tais 220 metros. É este corredor que constitui a longa fachada a amarelo, interrompida pelo branco da Basílica, que vemos do Terreiro D. João V, praça central do monumento. Lá do alto, na Sala da Benção do Piso Nobre, há uma varanda para o terreiro de onde o rei costumava saudar o seu povo. Para o interior, umas janelas abrem-se para a Basílica e permitem-nos vê-la por dentro e de uma posição elevada.

Este corredor que atravessa diversa salas é austero e imponente, com muito mármore e pedra lioz. Já as salas que se seguem aos aposentos da Rainha, passado o Torreão Sul, são delicadas e com a ostentação apenas necessária.

Temos a Sala da Música, ou Sala Amarela, onde nos dizem que eram recebidos os convidados e fica fácil imaginá-los entretidos a conviver e sentados no banco em forma de concha enquanto alguém tocava ao piano de cauda.

A Sala da Caça é um assombro. Assim, sem mais. É ir ver o significado da palavra “assombro” ao dicionário e escolher se o sentimento perante esta sala há de ser positivo ou negativo. Como não seguidora das teses fundamentalistas dos direitos dos animais, esta foi a sala que mais fantasia me proporcionou, toda ela preenchida com mobiliário elaborado com hastes e pele de animais vindos da Tapada, como gamos, veados e javalis, e com uma colecção de pratos e azulejos com cenas de caça, animais e flores.

Mas o deslumbre total fica guardado para o final do Piso Nobre. É lá que está uma das bibliotecas mais importantes do mundo e cuja beleza é presença assídua em todas as listas do género. Do século XVIII, a Biblioteca tem no seu acervo cerca de 36 mil volumes e dele constam exemplares únicos considerados obras-primas e raridades. Até mesmo livros proibidos à época pelo index da Igreja Católica, situação apenas possível pela autorização através de Bula Papal de Bento XV datada de 1754.

As capas seculares deste mar de livros preenchem as estantes em estilo rocaille com decorações visualmente exuberantes. O salão da biblioteca tem a forma de cruz, com 85 metros de comprimento e 9,5 metros de largura, e o pavimento é todo em mármore. Outra das curiosidades desta biblioteca é a sua colónia de morcegos que, inimiga das traças e amiga dos livros, os tem ajudado a conservar ao longo dos séculos. Felizmente que me pouparam ao susto do seu voo aquando da minha passagem pela biblioteca.

A antiga enfermaria do Convento fica no piso intermédio. Aqui se veem a Cozinha, a Botica e a Enfermaria dos Doentes Graves. A Botica era o lugar onde se preparavam e armazenavam os medicamentos feitos das ervas e raízes vindos da horta conventual ali mesmo ao lado. Quanto à Enfermaria destinada aos doentes graves, esta tem a particularidade de ter as camas viradas para o altar para que os doentes pudessem assistir à missa e por cima de cada uma das camas veem-se uns painéis em azulejo com imagens de Cristo e da Virgem Maria.

A visita à Basílica é outro dos pontos altos do Palácio e Convento de Mafra. Já a tínhamos visto desde cima, mas antes de a adentrarmos para a sentir verdadeiramente passamos pela sua entrada com uma galilé majestosa. São diversas as belas figuras escultóricas de santos e o seu tom azul divino.

A Basílica segue o estilo barroco italiano e é toda revestida a pedra lioz da região e a nobreza destes mármores cria um ambiente faustoso e cerimonioso. Tem forma de cruz latina e o seu zimbório, com 65 metros, foi a primeira cúpula construída em Portugal. Refira-se, ainda, a maravilha que são os seus dois carrilhões, actualmente em restauro, o maior complexo sineiro histórico mundial. A propósito de melodias, notícia recente deu-nos conta da confirmação da transferência do Museu Nacional da Música para o Palácio Nacional de Mafra.

O Jardim do Cerco fica colado ao Palácio e às dependências dos militares. Confina com a Tapada mas para a visitarmos há que pegar no carro e seguir uns quilómetros adiante.

A entrada no espaço verde murado da Tapada Nacional de Mafra faz-se pelo Portão do Codeçal e aqui podemos escolher um de vários percursos pedestres que percorrem parte dos cerca de 1187 hectares desta tapada. Seguimos pelo Percurso Amarelo, 8 kms de caminho fácil feitos em cerca de 2h 30m.

Ficamos no meio da natureza. Um pequeno curso de água, paisagem levemente acidentada, flora e fauna para descobrir. Por entre pinheiros, carvalhos e sobreiros, logo a meio da subida avistamos uns gamos ou veados (não veríamos nem os javalis nem as aves de rapina que fazem a fama deste espaço junto daqueles). Neste primeiro encontro a desconfiança é mútua. Queremos chegar perto para melhor os percebermos mas ao mesmo tempo não os queremos perturbar; da parte deles sente-se que não esperavam forasteiros tão cedo pela manhã.

A primeira parte do percurso é toda a subir. No ponto mais altaneiro admiramos a envolvente tranquila. Quando descemos vamos vendo algumas ruínas de antigos apoios à Real Tapada de Mafra, como um tanque de água e um forno de cal. Fundada no século XVIII como parte do conjunto do Palácio e Convento, era para aqui que a família real e seus convidados vinham passear e caçar, para além da Tapada servir igualmente de fornecedora de diversos produtos para o Palácio.

O Pavilhão da Caça do Rei D. Carlos lá permanece, recuperado em tons rosa. Por aqui se passeiam mais uns gamos e veados (cheguei ao fim do passeio sem os conseguir distinguir ao certo), agora mais habituados às visitas.