São Jorge, um passeio pela costa sul

Velas é a principal povoação da ilha de São Jorge. É bem simpática e pitoresca. Chega até a ser monumental, com o devido grau de grandeza que pode ser conferido a algo numa pequena ilha quase perdida no Atlântico, embora bem acompanhada pelas suas camaradas Faial, Pico, Terceira e Graciosa. Em dias de boa visibilidade, qualquer uma destas ilhas do grupo central pode ser avistada desde São Jorge e é talvez em São Jorge que faz mais sentido o afirmado por Raul Brandão, segundo o qual “o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente”.

A dita monumentalidade de Velas começa na forma com que recebe os visitantes que chegam ao seu porto – o Portão do Mar, encimado com as armas reais de Portugal, é o que resta da antiga fortaleza de defesa da vila. Vila pequena e compacta, a igreja matriz fica logo acima e uns metros mais adiante o belo edifício barroco da câmara municipal que dá para o Jardim da República. É aqui que o encanto de Velas melhor se percebe.

Este pequeno jardim está bem arranjado, com decorações quer de canteiros quer de árvores, e no centro tem aquele que costuma ser descrito como um dos mais bonitos coretos de Portugal. Os seus apontamentos em tom vermelho, como também se veem no edifício da câmara, produzem um contraste mágico com o verde do jardim e o verde que vemos galgar a encosta da vila por trás de um conjunto interessante de edifícios onde desfila até um com fachada em art déco.

A branca Velas é ainda abalada, mais acima, pelas cores alegres do Império Bairro da Conceição e pelo amarelo do edifício do Auditório Municipal e Centro Cultural das Velas. Em forma de vela de barco, à beira mar pousa esta quase embarcação que traz atrás de si, já para além do Canal, o Pico com o Piquinho descoberto. Foi aqui, na marginal de Velas, onde ficam umas piscinas naturais envolvidas pela pedra escura vulcânica, que obtive um dos mais magníficos cenários de toda esta minha viagem pelas ilhas do grupo central do arquipélago dos Açores. Um fim de tarde de pura tranquilidade, nevoeiro cerrado em São Jorge, mas como compensação uma vista grandiosa para o Pico.

O porto de Velas está situado a uma cota baixa, claro, mas a vila desenvolve-se morro acima. Os miradouros do Canavial e de Velas deixam perceber a sua implantação, entre morros e baías, com muito verde da vegetação e azul do mar ao redor.

A noroeste de Velas fica a Ponta dos Rosais. Passei a povoação de mesmo nome, ainda sem nevoeiro, e, depois, nada. Gostaria de ter caminhado pelo Parque Florestal das Sete Fontes e daí seguir até ao cantinho mais ocidental da ilha, mas nada, não se via um palmo à frente.

Meia volta, rumo ao centro da ilha. Na globalidade, novamente sem muita sorte com o clima, ainda consegui algumas abertas para avistar a paisagem da costa sul, com o aeródromo em primeiro plano, desde o miradouro das Macelas.

Não vale a pena mais lamentos, resta reter o intenso verde da ilha (diz-se que a mais verde do arquipélago) e a imagem ora de prados ora de relevos na paisagem cheia de cones vulcânicos revestidos a tapete liso verde com uns adereços mais verdes ainda que tornam, aqui e ali, esses tapetes felpudos.

A Urzelina é mais uma povoação à beira mar na costa sul da ilha. O seu atípico nome deriva de urzela, a planta tintureira que abunda nas rochas do seu litoral. Este litoral é feito de rocha negra vulcânica, no qual se vão formando algumas piscinas naturais. Mas aqui na Urzelina essas rochas tomaram umas formas tais que levaram a que se formassem uns arcos por onde a água entra e se mantém, umas vezes tranquila, outras certamente mais bravia. É uma paisagem estranha, desolada, até, e nem o Pico em frente – uma vista constante quando na costa sul – e o canto das aves nos confortam.

Em 1808 aconteceu uma erupção vulcânica do Vulcão da Urzelina que destruiu grande parte da povoação. Milagrosamente, dizem os relatos da época, quando a torre da então igreja se preparava para ser engolida pela lava, esta recuou e a Torre Velha aqui está, até aos nossos dias, em pé para contar parte da sua história.

E a Urzelina é ainda famosa por Francisco de Lacerda, compositor e maestro, um dos nomes maiores das artes portuguesas, aqui ter vivido. Nascido na não muito distante Ribeira Seca, foi para a casa de família da Urzelina que optou por vir viver após uma temporada em Paris.

Seguindo sempre junto à costa, passamos por Manadas e a sua Igreja de Santa Bárbara, classificada como Monumento Nacional. Um pouco mais adiante avistamos desde cima a Fajã das Almas. O Pico da Esperança fica nesta direcção, lá bem cima, e neste momento continuava fechado.

A Calheta é uma das principais povoações da ilha. Aqui fica a Indústria Conserveira Santa Catarina. Como fã das suas conservas de atum com os mais variados temperos, não pude deixar de a visitar e tentar adquirir alguns dos seus produtos. Mas não, que não os podiam vender porque o sistema informático estava em baixo. Como detesto queijo, não pude sequer resguardar-me numa alternativa como o tradicional queijo da ilha, originário desta mesma ilha, São Jorge – são cerca de 20000 as vacas leiteiras que pastam por qualquer canto, conhecidas como as vacas mais felizes do mundo. Restou-me, mais tarde, uma passagem pela Dulçores, abastecendo-me de “espécies”, o doce típico de São Jorge, umas rosquinhas de massa tenra com especiarias como ervas doces, canela e pimenta.

Continuando pela costa, após passarmos a Ribeira Seca em direcção à Fajã dos Vimes, uma série de pontos de vista panorâmicos abrem-se na paisagem. Este foi, para mim, o mais bonito trecho na costa sul. A estrada tem à sua direita o mar e à esquerda as encostas cerradas de vegetação. Veem-se rasgos nas arribas que deixam cair várias linhas de água das ribeiras que nascem na Serra do Topo e que hão de desaguar no Atlântico. Em alguns pontos podemos parar para refrescar junto a umas casinhas de pedra bem recuperadas. E em outros pontos assistimos ao recorte único da ilha.

A Fajã dos Vimes, bem como a Fajã dos Bodes um pouco mais adiante, repousa sossegadamente aos pés das ravinas. Longe de ser a mais isolada das fajãs, com espaço para se cultivar alguns rectângulos de terra e até para plantar café – caso raro em terras europeias -, não deixa, no entanto, de se viver aqui espremido entre a enorme rocha e o infinito Atlântico e sujeito aos humores da natureza, sejam terramotos, tempestades ou enchentes. Nesta Fajã encontramos o Café Nunes e as Colchas da Fajã dos Vimes, duas instituições da ilha. As colchas em lã de ponto alto com motivos geométricos eram feitas nos antigos teares de madeira de pedais. Nos dias de hoje esta arte é apenas mantida por uma ou duas senhoras, mas podemos ver seus exemplares numa pequena loja de artesanato da povoação.

Pela estrada que se chega à Fajã dos Vimes, assim se sai dela. Ou seja, há que voltar à Ribeira Seca e tomar a estrada principal que nos há-de levar até à outra ponta da ilha. Antes, porém, uma paragem na Reserva Florestal de Recreio da Silveira, para mais uma imersão no verde e na cultura da ilha.

Passamos a Serra do Topo e o costumeiro nevoeiro traz velhos receios. Conseguirei ver alguma coisa da Fajã de São João?

Arrisco a descida e, sim, ali está ela e leva logo o segundo prémio da mais bonita fajã (porque o primeiro, esse, já estava entregue ex-aequo para outras parceiras da costa norte). Vê-se uma vez mais a língua de terra saída da arriba para beijar o mar e umas quadrículas de terras de cultivo – para além da produção de vinho, a Fajã de São João era reconhecida pelas suas boas plantações de figos, nozes, laranjas, ananases e também café. A estrada até à Fajã de São João é das mais aterradoras. Curvas fechadas e estreitas, paisagem a pique. De repente a estrada deixa de ser de asfalto e passa a terra. Recuo e subo tudo em direcção ao nevoeiro. De volta à estrada pergunto a uns locais se vale a pena seguir até à Ponta do Topo. Que sim, que logo à frente o nevoeiro deixa de existir. E não é que aconteceu isso mesmo? Estes açorianos são uns experts em clima.

À costa oriental da ilha não se vem (só) pelas povoações de Santo Antão e do Topo. A estrada até lá é belíssima, a lembrar que não é o destino que importa, antes o caminho que se toma. E, depois, chegados à Ponta do Topo damos com um raso ilhéu à nossa frente, o Ilhéu do Topo, até onde no Verão as vacas nadam para pastar no seu prado verde, apoiadas numa corda puxada pelos homens no barco. O céu estava incrivelmente limpo. Procurei, mas sem encontrar não achei a Terceira, a ilha onde aterraria daí a umas poucas horas.

São Jorge, as fajãs da costa norte

Chegada finalmente a São Jorge, atrasada pelo mau tempo do Pico e do Canal, tinha pressa de começar a passear. Segui diretamente para a costa norte, onde me esperavam algumas fajãs.

Antes de chegar à Fajã do Ouvidor já a temos aos nossos pés num fantástico miradouro. Até aí a estrada regional pouco tinha deixado ver para a costa, apenas umas vacas nos prados verdes. Mas, depois, de repente, aí temos o primeiro grande postal da costa de São Jorge. Um pedaço de terra suspenso sobre o mar, casinhas brancas por entre o verde dos terrenos cultivados, mar revolto deixando muita espuma branca no azul da água.

Numa estrada inclinada mas fácil de percorrer, rapidamente chegamos lá abaixo, à fajã. Esta fajã deve o seu nome ao facto de a maior parte das suas terras ter pertencido em tempos ao Ouvidor do Capitão do Donatário. Hoje é conhecida pelo seu restaurante “O Amílcar” e pelas suas poças. A origem vulcânica da ilha criou aqui formas geológicas diferentes que produzem piscinas naturais. Junto a esta costa o contraste da água do mar deixa de se fazer com o verde das terras para ser feito com o preto da rocha. A Poça Simão Dias é a maior e a mais incrível de todas estas poças.

Logo ao início do caminho em direcção ao farol avista-se de cima um corte na rocha com uma piscina de águas tranquilas em baixo. Seguindo no sentido contrário ao farol, muitos outros recantos hão-de surgir. Não tive, no entanto, a sorte de poder apreciar o lugar na sua máxima fama. O mar estava muito mexido, não consegui perceber se era por a maré não estar favorável, mas o facto é que por aqui não se viam as tais águas serenas para se nadar por entre o negro do basalto. Havia, sim, um lugar agreste, cheio de pedras soltas e rochas pontiagudas, em que o barulho das ondas num vazio de pessoas tornava o ambiente arrepiante. Ou seja, um lugar sem as famosas piscinas mas uma experiência natural ainda assim incrível.

No restaurante Amílcar come-se bom peixe e boa carne com vista para o mar. E daqui, o simpático Sr Amílcar pode indicar-nos um táxi que saia de Velas e nos vá buscar à Fajã dos Cubres para nos deixar na Serra do Topo. Confuso? Em São Jorge há algo imperdível de ser fazer: a caminhada Serra do Topo – Caldeira de Santo Cristo – Fajã dos Cubres.

Deixamos o carro na Fajã dos Cubres, descendo uma estrada de pendente e curvas assustadora. Mas aquele cenário… Sem palavras para descrever a beleza deste trecho da costa de São Jorge. Mas o melhor da coisa é que as próximas horas vão continuar a deixar-nos sem palavras, só com espaço dentro de nós para uma enxurrada de felicidade pela beleza dos lugares que percorremos. O táxi espera-nos, então, lá em baixo, na Fajã dos Cubres e daí subimos a estrada que antes havíamos descido para mais uns 15-20 minutos de caminho até à Serra do Topo. A 700 metros de altitude iniciam-se algumas caminhadas, mas esta será feita em direcção à costa norte.

Nevoeiro na Serra do Topo não é fenómeno estranho e impede de assistir a umas das maiores vistas que se podem ter da ilha. Mas assim que iniciei o trilho para a Caldeira de Santo Cristo o nevoeiro dissipou-se. E logo aos primeiros metros, quando se começa a descer pelo vale, senti logo que esta seria uma das caminhadas mais bonitas que jamais havia feito. Sem explicações, apenas o senti.

Começamos a descer a serra e um vale imenso e cheio de formas abre-se para o Atlântico. Feito de uma vegetação natural rica e variada, no momento em que percorri este trilho não era ainda a época das hortênsias em flor, pelo que tudo à volta era verde. À medida que vamos descendo, num caminho sempre fácil, ficamos totalmente imersos no vale e aí percebemos como são altas as montanhas que nos rodeiam. São lombas e ravinas, que alternam o seu revestimento entre mato e arvoredo e pastagens. São muitas as vacas que aqui se deixam estar. Daí que se encontre uma série de cancelas de madeira no caminho, sempre com a indicação para as deixarmos como as encontrarmos – para que as vacas não fujam de casa.

Depois de descermos a bom descer, começamos a ouvir o som da água a correr. São Jorge é rica em ribeiras. Sabia que no caminho iria encontrar uma cascata e a ansiedade por a descobrir junta-se à felicidade pela paisagem encontrada até aí.

Vê-se um pequeno caminho de água por entre pedras, mas não há desnível para comportar aqui uma cascata.

Espreita-se por entre a vegetação que se torna mais densa e vislumbra-se um fio de água a cair, mas também não deve ser por aqui.

Até que ao atravessar um bosque, passa-se uma ponte e percebemos que é por aí que a famosa cascata repousa. Uma placa com a indicação de um desvio não deixa que ela nos escape. É uma queda de água vigorosa que cai para uma pequena lagoa, cenário praticamente escondido pela vegetação cerrada.

Voltando ao trilho, a ansiedade agora passa a ser a de alcançar a vista que desde o início imaginamos e perseguimos, a da Fajã da Caldeira.

E ela aparece, enfim, no final do bosque: ravinas à direita, Fajã da Caldeira de Santo Cristo à esquerda. Esta vista é sublime, natureza em estado bruto, a felicidade maior.

Continuamos a descer mais um pouco e finalmente fincamos pé na Fajã da Caldeira. O recorte da paisagem envolvente torna-se mais perceptível e mais fantástico.

Vemos muita pedra por todo o lado, utilizada para fazer os muros que dividem os terrenos e, sobretudo, servindo como paredão natural que o mar foi empilhando.

A pequena Ermida do Senhor de Santo Cristo, ainda hoje lugar de culto para toda a população da ilha, passa a roubar as atenções, especialmente, pelos reflexos fabulosos que permite na também pequena lagoa à sua frente. Nas suas costas aparece, então, a grande lagoa pela qual é conhecida esta fajã, a caldeira. Esta lagoa é um habitat natural de avifauna e é o único lugar no arquipélago onde se produzem e comercializam amêijoas.

A Fajã da Caldeira de Santo Cristo foi criada pelo grande terramoto de São Jorge, ocorrido em 1757, também conhecido pelo “Mandado de Deus”. A violência e destruição foram enormes. Os deslizamentos de terra deram, então, origem a várias fajãs, entre as quais a da Caldeira. Durante o século XIX chegou a contar-se em mais de 100 os seus habitantes permanentes, tendo sido criada uma escola primária, um posto público de telefones e uma mercearia e instalada a rede eléctrica. O terramoto de 1980 (o mesmo que destruiu grande parte de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira) viria a destruir tudo isso e a levar a uma debandada geral da sua população. A fajã viu os seus dois acessos cortados pelas derrocadas de terra, ficou isolada durante três dias, a sua população foi evacuada e como resultado temos ainda hoje apenas 10 os seus residentes permanentes. Mas esse número multiplica-se amiúde durante o ano. A fajã tem um boa dinâmica em termos turísticos. Várias casas têm sido reconstruídas, dispõe de um Centro de Interpretação (apenas aberto aos fins de semana fora da temporada que vai de Maio a Setembro), é lugar do mítico Café Borges e é um autêntico surf camp.

Pelo menos fora da época alta, é um paraíso de tranquilidade onde dificilmente a conjugação dos elementos naturais pode ser mais intensa e perfeita. Infelizmente não dormi na fajã e, logo, não acordei nela, nem dei um mergulho no mar. Porque há que ter sempre algo para se sonhar e fazer de novo. Mas, isolada no meu cantinho, sentei-me no seu extenso paredão a contemplar toda a excelência e perfeição que a força destruidora da natureza nos pode oferecer.

Neste momento já tinha percebido que as 2h e 30m indicadas para este trilho eram impossíveis, mesmo que se passe a correr pela Fajã da Caldeira, o que, pelos motivos acima expostos, é também impossível. Atenção, pois. A totalidade do trilho de cerca de 10 kms não se faz em menos de 4h.

Deixo a Caldeira e mais pedra aparece no caminho. São os poios, o resultado dos muitos deslizamentos. Deixo escapar a Furna do Poio, atravesso a Fajã dos Tijolos e a Fajã do Belo. Esta última também chegou a ter mais de 100 habitantes e hoje vêem-se algumas casas reconstruídas e muitos trabalhos ainda em andamento.

Não se consegue deixar de olhar para trás sem dizer um último adeus à Fajã da Caldeira.

As ravinas e as veredas parecem tornar-se mais temerosas e algumas moto4 passam pelo caminho estreito – para além do barco e a pé, só de moto se chega à Fajã da Caldeira desde a Fajã dos Cubres, o destino final desta caminhada.

E eis que se começa, então, a avistar a Fajã dos Cubres, também com a sua lagoa de água salobra. Cubres é o nome de uma planta de flores amarelas que inundam as encostas desta região. Tal como a da Caldeira, a disposição geográfica desta fajã é irreal. Um lugar paisagisticamente privilegiado, com as típicas vaquinhas e igrejinha. Pouco mais é necessário para compor o postal perfeito.

Para despedida, subo uma vez mais a estrada que nos ligará ao mundo – felizmente também ele ainda feito de muita natureza -, e deixo-me estar mais um pouco a observar a costa norte de São Jorge, com a certeza de que este está entre os lugares mais extraordinários do nosso planeta.

São Jorge, terra das fajãs

A ilha de São Jorge é conhecida como a ilha das fajãs. Há quem já tivesse contado cerca de 80 fajãs espalhadas um pouco por toda a ilha, mas com maior predominância na costa norte.

Esta ilha do grupo central do arquipélago dos Açores tem uma forma como nenhuma outra. Um rochedo alto com montes no interior e vertentes escarpadas. Ao longo dos séculos, a sua costa foi sendo moldada por abatimentos vários que deram origem a aluimentos de terra e lava que formaram pequenas planícies, espécie de plataformas costeiras, que se espraiam no mar e com a falésia abrupta às suas costas. Há-as de diversas formas: rasas, redondas, pontiagudas; com a companhia exclusiva do mar ou coadjuvadas por lagoas; com habitantes em permanência ou abandonadas aos elementos. O acesso a estes pedaços de terra nem sempre é fácil. Ou é feito por mar ou por estradas em “s” que serpenteiam a dita falésia ou, pura e simplesmente, a pé. São verdadeiros recantos, apartados do mundo. Visitamos qualquer uma delas e pensamos: “que lugar irreal, ficaria por aqui uns tempos”. Mas, depois, o céu põe-se negro, o mar bravio, lembramos a origem vulcânica da ilha e pensamos melhor: “conseguiria aqui viver por mais de uma semana, tão isolado de tudo?”. Ou seja, desconfiamos que a vida nas fajãs nem sempre será tranquila e sossegada. Derrocadas de tempos a tempos trazem ainda mais isolamento às povoações das fajãs. Então, por que razão o Homem se estabeleceu nestas línguas de terra e porque insiste em fazê-lo? A sobrevivência do Homem desde o início do povoamento da ilha de São Jorge, no século XV, está na base desta bela história geográfica e etnográfica. Como a ilha de São Jorge é muito alta, a terra “lá em cima”, sujeita a ventos fortes, é pobre em termos agrícolas. Já nas fajãs, “cá em baixo”, abrigadas pelo vento, a terra é mais fértil e propícia a vários tipos de cultivos. É por isso que em quase todas as fajãs podemos ver pequenos terrenos agrícolas perfeitamente delimitados e até o aproveitamento da terra por meio de socalcos.

A maioria das fajãs é de ocupação sazonal. A tradição das “Mudas” vem de há muito. Na época do Inverno, quando o clima é mais desfavorável nas zonas altas, e no final do Verão, pelas vindimas, os jorgenses transpõe na totalidade da sua vida nas casas altas das freguesias para as casas das fajãs. Historicamente, as casas das fajãs foram construídas com a rocha das arribas e com a madeira de barcos encalhados que deram à costa ou de árvores cortadas dos matos que enchem as suas encostas. A roupa dos habitantes era feita dos materiais que se produziam na própria fajã, como a lã e o linho, trabalhados nos antigos teares de pé. E nas fajãs sempre se produziu alimentos, legumes e frutos, o peixe está mesmo adiante e até amêijoas se encontram. Para transportar bens mais pesados cá para baixo, quando não se queria sobrecarregar o burro ou não havia – ou ainda não há – acesso por veículo às fajãs, um sistema de cabos instalados ao longo da costa faz descer e subir os bens necessários.

Nos dias de hoje, há fajãs bem acessíveis e largas, onde não se sentirá tanto o esmagamento da natureza, e outras totalmente remotas onde já ninguém chega a não ser depois de muito caminhar. E, depois, outras há que, embora de acesso difícil e apenas pedestre, abriram-se ao mundo sem deixar de preservar a sua paisagem e tradições, acolhendo os turistas com agrado e vendo nesta nova economia um novo modelo para a sua sobrevivência.

“Deixei o meu relógio algures numa fajã.

Onde não contam horas nem minutos.

É o tempo de Deus.”

Emanuel Félix, in Habitação das Chuvas

Para saber mais sobre este povoamento único e típico das fajãs, eis o documentário “Fajãs do Tempo”, da Secretaria Regional do Turismo dos Açores.

São Jorge, o dragão

São Jorge, a ilha, já teve a sua forma descrita com o recurso à imagem de diversos animais. Um lagarto boiando no mar ou um crocodilo disfarçado na bruma, segundo João de Melo. Até um navio de pedra.

É um rochedo verde, longo mas esguio, a segunda ilha mais longa do arquipélago. Da Ponta dos Rosais à Ponta do Topo são cerca de 53 quilómetros de estrada e de norte a sul não são mais de 7 os quilómetros.

A costa norte da ilha nem sempre é de fácil acesso e é onde estão a maioria das 80 fajãs, o acidente geográfico que dá fama a São Jorge e a única forma de povoação a norte. Mas, para nossa felicidade, também na costa sul encontramos algumas das deliciosas fajãs. E o caminho a sul dá-nos ainda um bónus: a imagem companheira da montanha do Pico, no outro lado do canal. Pelo meio, um centro da ilha que tem no Pico da Esperança a sua maior elevação, com 1053 metros.

Infelizmente, o costumeiro nevoeiro não me permitiu explorar esta zona da ilha. Nem a Ponta dos Rosais. Se já tinha visto a minha estadia na ilha de São Jorge ficar reduzida para metade, para pouco mais de 24 horas, por conta do mau tempo no canal, o seu próprio nevoeiro ainda me vedou a possibilidade de passear livremente à volta dos seus verdes cones vulcânicos. Com estas borbulhas rugosas, voando de São Jorge para a Terceira pude, por entre algumas nuvens, perceber o porquê da ilha se assemelhar na verdade a um dragão.

O Pico

Antes de chegar ao Pico já andava enamorada da sua montanha.

Com 2351 metros que irrompem desde o mar, esta é a maior elevação de Portugal.

Tive a sorte de a ver inteira da vizinha ilha do Faial, com o Piquinho nevado à espreita. Quando cruzei o Canal rumo à ilha do Pico ainda a vi a caminhar para o céu acompanhada da sua fiel e imensa nuvem. Depois disso, nunca mais a encontrei. Mais, duvidei mesmo que ela por ali andasse.

Até que, quando me preparava para deixar a ilha do Pico rumo à ilha de São Jorge, voltei a ver parte da montanha, desta vez com o Pico envolto na mítica auréola, espécie de capote. Que imagem fabulosa. Aqui deixei a fase de enamoramento para um quase rastejar a seus pés. Isto foi por um momento… logo o Pico voltou à sua companheira fiel.

Um dia mais tarde, já na ilha de São Jorge, voltei a vê-lo por inteiro uma última vez, novamente do outro lado do Canal. E confirmei: este esbelto elemento é tímido e sem a companhia das nuvens só se deixa ver à distância, protegido pelo mar.

Pelo interior da ilha do Pico sem vislumbrar a montanha do Pico

Os meus planos para a ilha do Pico começaram logo com alterações à chegada à ilha. Era suposto chegar de barco vinda do Faial até ao porto de São Roque, mas, ao invés, o barco aportou na Madalena. Teria, então, que seguir de carro da Madalena até São Roque nesse final de tarde. A estrada mais óbvia a tomar é a regional. Mas porque o óbvio nem sempre quer alguma coisa comigo e porque também não tenho muito jeito na escolha das estradas, como primeira impressão da ilha do Pico tive logo o seu interior e uma das suas estradas de montanha. Ao percorrê-la via a montanha do Pico fechada e, do outro lado do Canal, a Ilha do Faial com o seu topo também atravessado por nuvens e ambas me pareceram, aí, estranhamente parecidas. À medida que o dia caia, os coelhos saiam da toca e era vê-los destemidos a atravessarem-se no meu caminho.

Mal sabia que nos dois dias seguintes não veria rigorosamente nada da montanha do Pico. Mas o que acontece com o clima nos Açores é que vai mudando constantemente num mesmo dia. Por isso, nestes dois dias de tempo horrível consegui, ainda assim, algumas paisagens desafogadas, o suficiente para concluir que o interior da ilha do Pico é verde e lindíssimo, com poucos ou nenhuns vestígios do negrume da lava que faz a fama da ilha.

Na esperança de que o céu à volta da montanha do Pico pudesse estar também ele liberto de nuvens, ainda subi até à casa de abrigo onde começa o trilho até aos 2351 metros da maior elevação de Portugal, mas nada a não ser um nevoeiro cerrado me esperava. Por isso, esta viagem pelo interior da ilha do Pico não mencionará mais o Pico.

Para além da estrada regional circular que corre toda a costa da ilha, o Pico tem também a incrível Estrada Longitudinal que corta a direito metade da parte central da ilha e, depois, tem ainda a Estrada Transversal e uma série de estradas rurais de montanha, quase sempre transitáveis por carro.

O Pico é a ilha com o maior número de cavidades vulcânicas conhecidas dos Açores, cerca de 129. Raul Brandão escreveu que a ilha era “cheia de crateras inofensivas e roxas, abrindo as bocas diante mim, com um pouco de azul lá dentro”. Por isso, o que nos espera num passeio pelo interior da ilha é uma série de montes cônicos, os cabeços, cada um de forma distinta mas sempre formosa. A paisagem é magnífica. Tapetes verdes preenchidos aqui e ali por uma fiada de arvoredo onde a única presença animal parece ser a das vacas que pastam nos prados delimitados por uns muros feitos da pedra do costume.

A dado passo, contraste perfeito entre o verde e o azul, o mar do Atlântico passa a acompanhar-nos lá bem em baixo, cheio de carneirinhos, indício de que o barco não sairia mais uma vez nesse dia.

Mas o mais surpreendente neste interior da ilha do Pico são as turfeiras (pequenos charcos) e as incontáveis lagoas que aparecem subitamente no nosso caminho. Serão mais de 30 as lagoas, guardando serenamente a água das chuvas e do nevoeiro e para onde muitas aves migratórias vêm descansar.

A Lagoa do Capitão será a mais famosa por daqui se conseguir, em dias de sorte, uns reflexos incríveis do omnipresente mas naquele dia invisível Pico. Mas para memória futura ficará, ainda, a Lagoa Seca (nome mentiroso) e a vizinha Lagoa do Caiado.

E muitas mais lagoas das quais perdi o nome mas guardo a fotografia e retenho no coração o encanto.

Volta à ilha do Pico

Nunca tinha visto chover e ventar tanto, mas mesmo assim saí estrada fora para uma volta de carro pela ilha do Pico. Em dois dias, foram cerca de 300 os quilómetros percorridos nesta que é a segunda maior ilha do arquipélago dos Açores. Em alguns dos locais abaixo descritos o clima venceu-me por KO e apenas os visitei uma vez; em outros recuperei e não consegui resistir a repetir a visita.

Saindo de São Roque, a primeira paragem foi na frente marítima, junto às suas piscinas naturais. O mar estava alteroso e o vento furioso. Quando coloquei os pés pela primeira vez fora do carro ia literalmente voando, daí que não tive coragem para me aproximar muito da água. Por aqui vi pela primeira vez a cor vermelha dos moinhos e dos portões a contrastar forte com a pedra escura de que é feita a ilha.

A chegar ao centro da povoação vemos numa pequeníssima encosta com vista para o mar o edifício longo do Convento de São Pedro de Alcântara. Antigo retiro dos frades franciscanos, hoje acolhe a Pousada da Juventude e vale a pena conhecer os seus claustros.

De São Roque segue-se rumo à Madalena pela estrada regional, mas optei por seguir pela estrada secundária que corre sempre junto ao mar tormentoso com a sua beira de lava petrificada. Cabrito, Arcos, Lajido, Cachorro e Vila Barca são as pequenas povoações na zona norte que se encontram dentro dos limites da área de Paisagem Protegida da Cultura da Vinha distinguida pela Unesco (ver post anterior).

Em Vila Barca fica um dos mais recentes símbolos da ilha, o Cella Bar, o bar mais bonito do mundo. Distinguido pelo portal de arquitectura Archdaily como “edifício do ano 2016” na categoria “hospitalidade”, este bar tem uma forma que apela à nossa múltipla imaginação. Contemplando-o, bem como o lugar onde está implantado, à beira do Atlântico com vista para o Faial, ficamos na dúvida se estaremos perante uma pipa, uma baleia ou um vulcão. O seu nome parece levar-nos para uma das celas conventuais dos frades que se estabeleceram na ilha. Seja como for, este lugar é único quer na paisagem, quer na arquitectura e no imaginário para o qual remete.

A primeira vez que passei pelo Cella Bar mal consegui abrir a porta do carro, tal era o vento (e chuva). E a primeira vez que passei pela Madalena nem me apercebi que a montanha do Pico estaria mesmo nas suas costas. Mas assim é. A igreja da principal povoação da ilha do Pico tem um guardião fabuloso e genioso, que se deixa ver apenas quando quer.

Na Madalena fica o Museu do Vinho. Para além da história do vinho no mundo e na ilha e uma explicação multi-sensorial das castas que aqui são produzidas, bem como um miradouro belíssimo para os currais de pedra, neste espaço que foi em tempos o Convento do Carmo, onde os frades carmelitas se dedicaram desde séculos ao fabrico do vinho, podemos admirar sem nos cansarmos um grande bosque de dragoeiros, alguns destes exemplares centenários. Esta espécie típica da Macaronésia é espontânea no Pico e a resina desta planta tintureira é conhecida como sangue de dragão. Eis uma planta verde que alude a dragões na terra de pedra negra que vê passar as baleias.

Junto à Madalena fica a Reserva Florestal de Recreio da Quinta das Rosas, mais um recanto verde na ilha para contrariar a sua fama de negrume. Como fã de jardins, não podia perder a hipótese de conhecer e passear por mais um deles. Este parque é uma espécie de mini jardim botânico, com uma boa diversidade de espécies vegetais, algumas algo raras até, uma zona de merendas, uma ermida, um pequeno lago com uma mimosa ponte vermelha, um roseiral e um miradouro com vista para o Faial.

Voltando à Madalena, no seu jardim temos um exemplo de maroiço, os quais vemos com mais insistência no lugar vizinho de Valverde. Os maroiços são um dos enigmas do Pico. Também conhecidos como as “pirâmides da vinha do Pico”, estas estruturas de pedras amontoadas na vertical, chegando a atingir quase os 10 metros de altura, terão tido como objectivo a obtenção de uma maior área de cultivo. No entanto, prospecções e estudos efectuados já nesta década levaram alguns arqueólogos a analisar estes montes de rocha e a avançar com uma tese de que poderiam estar ligados a usos funerários e que datariam de antes da chegada dos portugueses à ilha em 1427. Esta tese é polémica, claro está, uma vez que com base em fontes históricas credíveis está assente que quando os portugueses aqui chegaram as ilhas estavam desabitadas. Ou será esta mais uma manifestação do poder místico do Pico?

Passamos a Criação Velha, zona da vinha do Pico com todos os exemplos da arte e arquitectura popular ligadas a esta tradição secular, com a vista enorme para os típicos currais da vinha do Pico.

E logo chegamos ao Pocinho, com a sua piscina natural (medo!) e o elegante turismo rural do Pocinho Bay.

Passamos a Candelária e São Mateus, com as suas não menos elegantes igrejas com a inscrição na fachada do nome do orago a quem são dedicadas.

E já na vertente sul da ilha saímos, então, da área da Paisagem Protegida da Cultura da Vinha distinguida pela Unesco. Nos lugares do farol de São Mateus e do moinho da Ponta Rasa avista-se um horizonte de mar infinito (clima assim o permita). Nesta zona da ilha não encontramos nenhuma outra ilha nem nenhum outro pedaço de terra que nos faça companhia.

Em seguida tinha a intenção de ficar a saber o que é isso dos “mistérios”, mais uma expressão típica do dicionário local. O clima não deixou e a zona do Mistério de São João foi atravessada sem se ver mas com lamento.

O mesmo para a vila das Lajes do Pico, porto baleeiro por excelência. É daqui que é usual saírem os barcos para o mar para as visitas turísticas às baleias, agora que a sua caça está proibida. E nas Lajes fica o Museu dos Baleeiros, encerrado às segundas-feiras. Bingo.

De volta a São Roque, visitada toda a costa ocidental da ilha do Pico, o dia seguinte seria dedicado à restante costa e centro da ilha.

Antes, porém, uma vista ao seu Museu da Indústria Baleeira. A par com o Museu do Vinho, na Madalena, e com o Museu dos Baleeiros, nas Lajes, este é um dos três polos museológicos do Museu do Pico. Instalado na antiga Fábrica da Baleia Armações Baleeiras Reunidas, Lda, constituída em 1942, e que se dedicava à pesca da baleia (cachalote) e à produção dos seus derivados, bem como à sua comercialização, este foi o primeiro museu industrial público dos Açores. Nele vemos sobretudo a maquinaria e o modo como se processava o desmancho e a transformação dos cachalotes de forma a aproveitar a sua matéria – ossos para farinha e óleo para tudo e mais alguma coisa. Indivíduos mais sensíveis na forma como os animais são tratados poderão não gostar da exposição. Mas a verdade é que a caça da baleia foi uma actividade tradicional e central e fonte de emprego no arquipélago e, em especial, na ilha do Pico. Raul Brandão escreveu sobre os homens do Pico: “Os picarotos são os mais destemidos homens do Mar do arquipélago, tisnados, secos, graves e leais”. E, antes dele, já Herman Melville, no seu Moby Dick, havia escrito sobre o homem açoriano: “Muitos destes caçadores de baleias são originários dos Açores, onde os navios baleeiros de Nantucket que se dirigem a mares distantes atracam frequentemente para reforçar a tripulação com os intrépidos camponeses dessas costas rochosas. Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que os ilhéus são os melhores caçadores de baleias.” Só que, com a entrada de Portugal na CEE a caça à baleia ficou proibida, esta unidade fabril fechou portas em 1984 e o picaroto e o açoriano tiveram que deixar esta actividade que fez a sua fama.

Neste dia o céu já nos oferecia algumas abertas, bem aproveitado para uma visão da costa noroeste da ilha, com São Roque lá em baixo. Visto assim não há dúvida: o Pico não é só negro, é também verde e azul.

A Ponta do Mistério é um dos lugares mais interessante e mágicos da ilha e aqui está o Mistério da Prainha. Mistérios, “lepra que corrói a terra”, como ao fenómeno certeiramente se referiu Raul Brandão, não são mais do que as erupções históricas ocorridas na ilha. Como naquela época os seus habitantes não sabiam explicar a razão das escoadas lávicas vindas das erupções, usavam a palavra “mistério”. O da Prainha é o resultado da erupção histórica de maior duração dos Açores, acontecida entre 1562 e 1564 (temos ainda o já referido Mistério de São João, de 1718, o Mistério de Santa Luzia, do mesmo ano, é o Mistério da Silveira, de 1720). A imagem que a erupção e correspondente lava deixou neste Mistério da Prainha é a de uma substância preta que atropelou e se colou a um terreno verde. Daí as expressões negrume, torresmo e lepra para descrever a ilha do Pico. Mas o mais interessante é ver que aqui, das duas uma, ou a lava não chegou inteiramente ao mar ou a capacidade regenerativa da Terra já lhe trouxe novamente vida materializada em alguma vegetação.

Na Ponta do Mistério existe um agradável Parque Florestal de Recreio da Prainha, mais uma zona de merendas. Despido de gente, o lugar é pura floresta cerrada, o que só adensa o clima de mistério. E da Ponta do Mistério, ponto elevado, obtém-se um belo panorama da Baía de Canas, logo abaixo, e da ilha de São Jorge, do outro lado do Canal.

Logo após passarmos o desvio para Santo Amaro, povoação que era o centro da indústria da construção naval na ilha, passamos pelo miradouro da Terra Alta, lugar privilegiado para se ver desfilar a silhueta de dragão que parece ser a alongada ilha de São Jorge. Acontece que neste ponto do passeio estava num estado de quase pânico com o vento e mal me aproximei do dito miradouro. Momentos antes, a subir de Santo Amaro pela zona de frente de mar da Terra Alta, levei com uma estrada estreita e em curva de terra batida com sulcos e uma pendente que só de si já metia medo. Por azar o carro parou no sulco e ficou inclinado na subida de terra em curva com o mar lá em baixo e o vento por todo o lado. Ainda hoje acordo no meio da noite a pensar na situação e um suor frio me invade. Resultado, para além do vento que me abanava levei também as pernas a tremer para o miradouro da Terra Alta.

Ala, que se faz tarde.

Antes de chegar à Calheta de Nesquim passei ainda pela Ponta da Ilha, na Mantenha, onde existe ainda em funcionamento um farol e onde é suposto avistar-se bem São Jorge. Esta é mais uma região de vinha e de pedra, muita pedra e lava. E esta é a costa mais a leste da ilha, logo, o lugar onde o sol nasce primeiro.

Para se baixar à Calheta de Nesquim percorremos umas canadas íngremes mas com vistas fabulosas para o dolce far niente à aproximação do Atlântico. Esta povoação foi o primeiro centro baleeiro da ilha e daqui saiam em tempos os botes para a caça à baleia. O seu pequeno porto continua pitoresco, bem acompanhado por alguns edifícios, como a Casa dos Botes, a igreja, o coreto e um império do Divino Espírito Santo e ainda, mais adiante, uma zona balnear. O curioso nome Calheta de Nesquim dever-se-á ao facto de no século XVI a esta pequena enseada – calheta – numa noite de tempestade terem chegado três náufragos de um barco à deriva guiados pelo seu cão de bordo de nome Nesquim.

Da Calheta de Nesquim às Lajes do Pico são quase uma vintena de quilómetros, os únicos da estrada regional circular que não percorri. Era chegada a hora de ir ter com o centro da ilha, na certeza, porém, de que as vistas de mar me acompanhariam.