Séries e Documentários para a Quarentena

Como a muitos outros, também a mim me tocou uma pausa forçada no trabalho, permanecendo em casa para, em conjunto com milhões, combater a Pandemia Covid-19. As viagens limitam-se agora ao sofá, na companhia de muitas leituras e séries. E esta é a melhor era para ter tudo ao alcance da vista e da mão. Já tinha(mos) o RTP Play, mas agora assinei a Netflix por um mês, gratuitamente. Se a situação continuar por muito mais tempo, temos ainda disponíveis a HBO e a Amazon Prime nos mesmos moldes. O difícil será dar vazão a tanta informação. Em seguida, alguns documentários e séries que já valia a pena conhecer, mas que com o isolamento em casa se tornam obrigatórios.

Mar, a Última Fronteira – Disponível no RTP Play, este documentário em 6 episódios dá-nos a conhecer o nosso país de uma forma incrível totalmente nova e acessível in loco apenas a muito poucos. Os mergulhadores e cineastas marinhos saem rumo às águas portuguesas nas suas expedições, filmando Portugal de norte a sul, incluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira e até o Banco Gorringe, a maior montanha submarina da Europa, algures no Atlântico português. Não esquecer que 97% de Portugal é mar. No continente visitamos os cavalos-marinhos da Ria Formosa, os tubarões-azuis de Sesimbra e os tubarões pata-roxa de Cascais, terminando em mais um mergulho no que resta de um submarino alemão da II GGM em Matosinhos. O intenso azul do fundo do oceano nos Açores é, no entanto, a imagem que mais fortemente guardo na minha memória, mais do que a sua belíssima fauna marítima. Aprendemos a reconhecer uma série de espécies marinhas para além das mais “óbvias” baleias e tubarões, como as jamantas de Santa Maria, os meros do Corvo, o “malvado” peixe-porco que bicou a cabeça do cineasta subaquático Nuno Sá, os lírios e tantos mais tão belos em paisagens brutais, todos eles testemunhos da riqueza e biodiversidade das águas portuguesas.

Tales by Light – Esta série iniciada em 2015 é uma parceria da National Geographic com a Canon e tem todas as 3 temporadas disponíveis na Netflix. Em cada episódio somos guiados por um fotógrafo num périplo por um ou mais cantos do mundo onde nos mostram e contam o seu muito pessoal ponto de vista. Estes artistas vão a todas, desde o fundo do mar ao topo da montanha, fotografando desde animais no seu mundo natural a humanos em celebração das suas tradições. As imagens são fabulosas e as histórias inspiradoras.

O Nosso Planeta – Esta série documental da Netflix foi estreada em 2019 e conta com a narração de Sir David Attenborough, o historiador da natureza britânico. Esta mega-produção é belíssima. Propõe-se a celebrar as maravilhas da natureza que chegaram aos nossos dias e alerta-nos que temos de fazer mais para as preservar. O primeiro episódio mostra-nos o nosso planeta em geral, iniciando com uma “cabala” entre as aves marinhas e os golfinhos para apanhar um cardume de cavalas. Dificilmente esquecerei a graciosa cena do flamingo a correr. Ou da anunciada violência dos mabecos (cães) face aos gnus (bois) na savana africana, mais tarde reproduzida pelos lobos face aos caribus na floresta boreal. Ou da tocante dança dos multicoloridos pássaros como cortejo a uma fêmea. Ou do aviso: os ursos polares estão a deixar de ter focas para comer, uma vez que o gelo marinho onde elas costumavam parar está a desaparecer. A mensagem é clara: a estabilidade da vida do nosso planeta está em causa. Tudo isto apenas no primeiro episódio. Os restantes 7 episódios de “Nosso Planeta” exploram os habitats mais importantes e celebram a vida que eles ainda sustentam.

Sex and Love Around the World – Nas nossas viagens visitamos os locais e voltamos para casa sem realmente conhecermos grande parte da vida do dia-a-dia de quem nos cruzámos, quanto mais a sua intimidade. Neste documentário, Christiane Amanpour, jornalista e apresentadora da CNN, ajuda-nos a perceber um pouco dessa intimidade em cidades como Tóquio, Deli, Beirute, Berlim, Accra e Xangai. E à sua boleia caminhamos pelas ruas e adentramos nas casas de mulheres e homens, jovens ou menos jovens, ficando a perceber mais acerca das culturas e tradições de cada um e da diversidade do nosso mundo sob um ponto de visto raramente abordado e explorado. Por exemplo, sabia que os casais japoneses raramente se abraçam e não têm por hábito beijar-se sequer em privado?

Chef’s Table – Original da Netflix, estreado em 2015, vai já na sua 6ª temporada e é uma das séries de comida mais aclamadas. Comida é o pretexto para se mostrar a beleza. A beleza dos ingredientes que hão de resultar num prato, sim, mas sobretudo a beleza de tudo o que os rodeia, desde a sua origem, o seu processo de transformação nas mãos de verdadeiros artistas até ao produto final – neste caso uma bonita história contada em cada um dos episódios. Histórias de chefs originais – os mais talentosos da cozinha mundial e outros que aspiram a sê-lo – que com imaginação e perseverança têm feito com que a comida seja hoje considerada uma arte. Arte mostrada com arte por este Chef’s Table.

Street Food Ásia – Dos mesmos autores de Chef’s Table, esta é também uma série da Netflix, estreada em 2019, com 9 episódios (Banguecoque, Osaka, Deli, Yogyakarta, Chiayi, Seoul, Ho Chi Minh, Singapura e Cebu). A comida de rua está na moda, todos a queremos provar. O que não sabemos são as histórias por trás da criação das deliciosas iguarias, muitas vezes simples e humildes como a vida dos seus autores. Ou seja, são também histórias de superação que nos são contadas à boleia da imagem das bancas de rua de cidades vividas e coloridas e alguns dos episódios até puxam à lágrima. Mas o que fica é a vontade de saborear aqueles pitéus tão estranhos e diversos.

Turismo Macabro – Esta é uma série cuja existência e pertinência tem sido questionada, com via aberta para as discussões do politicamente correcto e da moral e da ética. Mas podemos sempre decidir não assisti-la. Iniciei o primeiro episódio, dedicado ao turismo macabro na América Latina, e pretendo continuar a assistir aos restantes 7 episódios. Isto mesmo tendo passado por Medellin, a cidade colombiana onde Pablo Escobar nasceu e viveu deixando como legado uma violência sem limites e o narcoturismo – representado neste primeiro episódio -, dizia, mesmo tendo passado por Medellin e não tendo tido a mínima vontade de visitar qualquer local ligado à El Patron. Mais, tendo achado este tipo de turismo um disparate e de profundo mau gosto. A série Turismo Macabro baseia-se, precisamente, numa ideia de muito mau gosto, a de procurar visitar de um ponto de vista turístico locais malditos e permitir aventuras onde tantos sofreram (e sofrem) e morreram (e morrem) na vida real. David Farrier, o jornalista da Nova Zelândia protagonista desta série da Netflix, assume ser um ávido admirador deste género e avisa logo de início que esta série contém mais de 80% de morte na sua busca incondicional pelo louco, macabro e mórbido. É bizarro e estúpido, mas há que assistir para tirar as nossas conclusões acerca de um nicho do mercado de turismo que está aí um pouco por toda a parte.

Joanna Lumley na Índia

Neste tempo de pandemia em que alguns são obrigados a permanecer em casa, não cessa a sugestão de livros e filmes. É nessa boleia que aproveitamos para ver (ou rever) o documentário “Joanna Lumley na Índia”.

Filmado em 2017, a atriz inglesa leva-nos à sua Índia natal ao longo de três episódios. Podemos ver o primeiro episódio na RTP Play e os restantes dois episódios nos próximos domingos, na RTP2, às 19:05.

Neste documentário o aviso vem logo às primeiras imagens e falas: é impossível conhecer a Índia toda. País imenso e diverso, ainda assim Joanna tenta percorrê-lo.

O início deste primeiro episódio de “Joanna Lumley na Índia” acontece em Madurai, a capital do estado Tamil Nadu no sul da Índia. E é também o início do assombro de cor e confusão das ruas que acontece um pouco por todo o sub-continente. O hinduísmo é igualmente uma constante – a maior religião em terra de muitas outras religiões – e por isso impõe-se uma primeira alusão ao Templo Meenakshi. São tantos os templos fabulosos da Índia que não dá para dizer que este é mais do que qualquer outro. Mas de um dos históricos templos indianos nunca se poderá dizer que é apenas mais um.

Do sul há ainda oportunidade para falar do facto da região ser maioritariamente vegetariana e contribuir para que a Índia seja um dos países com o menor consumo de carne. E umas imagens da bela e em muito intocada paisagem dos Ghats Ocidentais, a cordilheira que rasga o sudoeste da Índia, lugar de plantações de chá e de elefantes.

Em Hyderabad é nos dado a ver o brilho das jóias provenientes das minas de Golconda. O brilho dos diamantes para quem pode, sim, mas também o brilho das braceletes que toda a mulher indiana faz questão de usar.

Temos aqui já uma série de imagens que todos nós facilmente imaginamos da Índia: os templos, a confusão, a cor, o chá e os elefantes. Falta o cinema, neste caso o de Tollywood, de língua telugu, uma das muitas indústrias de cinema da Índia. Num dos maiores e mais avançados estúdios do mundo, instalado às portas de Hyderabad, aqui tudo se cria virtualmente, incluindo tigres a lutarem com seres humanos sem que nem uns nem outros sejam reais.

A jornada deste primeiro episódio continua, agora por Calcutá, durante muitas décadas a capital do Império Britânico na Índia. E aqui, para além de nos ser apresentada uma série de “micro-empresários”, os donos das muitas bancas da deliciosa comida de rua que tem uma forma própria de se comer, é-nos repetida outra imagem da Índia, a pobreza.

Este primeiro episódio termina no Siquim, um dos estados mais pequenos e menos habitados da Índia, terra de fronteira com uma localização estratégica nas montanhas dos Himalaias. Apesar de este ser um périplo em muitos pontos pessoal (Joanna nasceu em Srinagar, na Caxemira, e os seus familiares moraram em Gangtok, no Siquim) e de se recorrer a diversos clichés, esta é uma viagem visual com muito para confirmar e muito mais para descobrir.

Treetop Walk Serralves – caminhar nas árvores

Serralves é sempre uma visita obrigatória numa passagem pelo Porto. Mas desde Setembro do ano passado há mais uma desculpa para lá voltar. Centro de Arte Contemporânea e lugar para se apreciar arquitectura de excelência, há que não esquecer que Serralves é também em grande parte o seu parque. E se já nos encantava perdermo-nos nos muitos caminhos do seu parque, temos agora a possibilidade de caminhar ao nível da copa das suas árvores.

O Treetop Walk de Serralves, criado no ano em que a Fundação celebrou os seus 30 anos, tem apenas 250 metros de passadiços de madeira, mas cada passo sobre eles é dado sob um prazer imenso e sem fim. É uma experiência verdadeiramente diferente de usufruto da natureza, levando-nos a percorre-la através de uma perspectiva única.

O projecto foi desenvolvido pelo arquitecto Carlos Castanheira em colaboração com o arquiteto Álvaro Siza Vieira, e em primeira instância pretende sensibilizar os visitantes para a protecção e a preservação da biodiversidade do ambiente natural do Parque de Serralves. Vamos ficando ao nível das copas dos carvalhos, ciprestes e sequoias, caminhando sob o canto dos pássaros, enquanto que lá em baixo, no lago, vemos os patinhos a desfilar. A altura dos passadiços chega a tomar 25 metros. Um pouco mais distante apreciamos os prados de Serralves e uma nuvem de prédios mais ao fundo. Diz-se que até o mar se chega a avistar, mas não nos tocou essa vista.

Estes passadiços foram construídos no respeito e integração com a natureza, com o uso de madeira reciclada, e os seus pilares, por exemplo, foram instalados de forma a permitirem que as raízes das árvores cresçam naturalmente, sem barreiras.

Ao caminhar no alto, junto aos ramos das árvores, apreciamos ainda melhor as suas cores. Cores essas que, graças às estações do ano, ganham novas tonalidades a cada temporada. O preço do bilhete de Serralves, mesmo que apenas para visitas ao seu Parque, é puxadinho, mas sendo a entrada nas manhãs do primeiro domingo de cada mês gratuitas não há desculpas para não vir caminhar sobre as árvores. Repetidamente.

Palácio Nacional de Queluz

O Palácio Nacional de Queluz fica hoje bem perto de Lisboa, com o infame IC19 mesmo à sua porta. No século XVIII estaria igualmente perto da capital, mas o suficientemente afastado para ser considerado um lugar de veraneio, um recanto face ao bulício da corte.

As suas origens estão na antiga Casa de Campo de Queluz, parte da Casa do Infantado de que D. Pedro foi o seu 3° senhor. Em 1747 esta Casa foi transformada num palácio de verão por este D. Pedro, que viria a ser rei consorte por casamento com a futura rainha D. Maria I. Não surpreende, pois, que seja o monumento Rainha D. Maria I, rodeada pelos continentes, a receber-nos à entrada do hoje Palácio Nacional de Queluz. À sua frente, a cénica e azul Torre do Relógio, hoje Pousada D. Maria I.

Este Palácio, que no início foi pensado como residência de verão, acabou por vir a servir de residência permanente da Família Real entre 1794, data do incêndio no Palácio da Ajuda, e 1807, data da partida da corte para o Brasil em fuga das invasões francesas. O Rei D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil), por exemplo, nasceu e morreu aqui. Integrado no património do estado em 1908, é na ala mais recente do Palácio, o Pavilhão D. Maria, que os chefes de estado estrangeiros em visita oficial a Portugal ficam hospedados.

Conhecido como o “Versalles Português”, o Palácio Nacional de Queluz foi sendo construído ao longo de cerca de dois séculos, reflectindo o gosto da corte de cada uma das épocas de que foi testemunha, pelo que vamos vendo apontamentos de estilos como o barroco, o rococó e o neoclássico, com claras influências francesas e italianas. Há quem considere que o conjunto que daqui resultou carece de harmonia. Quanto a mim, se os tons de azul e amarelo das várias fachadas chegam para cativar, reconheço que quer a sua arquitectura exterior quer a decoração das suas salas, na generalidade, não superam o deslumbre de um Palácio Nacional da Ajuda, de um Palácio Nacional de Mafra ou de um Paço Ducal de Vila Viçosa. Mas quanto aos jardins, bem, aí não há concorrência.

Comecemos, no entanto, esta visita pelo interior do Palácio.

O que primeiro começa por impressionar são os lustres esplendorosos. Eles vão-se sucedendo, sala a sala, e roubam sempre a atenção. Dominam, igualmente, os espelhos. Algumas salas estão forradas a papier maché e com tectos que merecem um olhar demorado.

A primeira sala a deslumbrar é a Sala do Trono. Tem os tais lustres, espelhos e tectos decorados que traduzem a elegância e majestade que esperamos de um palácio real.

A Capela não poderia faltar, com uma estrutura barroca e decoração rococó.

Após algumas salas mais intimistas, onde a nossa imaginação nos transporta para a vida do dia a dia da realeza, atravessamos o Corredor das Mangas, a única sala revestida a azulejos, com a representação das quatro estações e dos quatro continentes e cenas da mitologia clássica e de caça, bem como chinoiseries.

Subindo ao piso de cima, onde fica a Biblioteca de Arte Equestre, podemos apreciar uma bela vista dos jardins e de um dos pátios interiores do Palácio.

É então que, de volta ao piso inferior, chega o momento mais fantástico da visita ao interior do Palácio Nacional de Queluz: a Sala dos Embaixadores. Na verdade mais parece uma sala do trono. Ou de dois tronos, um em cada ponta desta sala com pavimento de mármore com quadrados pretos e brancos. Aqui D. Pedro e D. Maria organizavam concertos e no tecto pode observar-se uma fantástica pintura representando a família real a participar num serenim.

Depois desta bela Sala dos Embaixadores segue-se uma das mais emblemáticas divisões do Palácio, o Quarto de D. Quixote. Decorado com pinturas que remetem para aquela obra literária, não é, no entanto, esse facto que torna esta sala um ponto alto da visita, antes ter sido este o lugar de nascimento e morte de D. Pedro IV.

Saímos, finalmente, para o exterior pelo Pavilhão Robillion – a ala do Palácio onde nos encontrávamos, obra do arquitecto francês de mesmo nome que sucedeu nos trabalhos arquitectónicos ao português Mateus Vicente de Oliveira, entretanto requisitado pelo Marquês de Pombal para a reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755. A imagem da Escadaria dos Leões deste pavilhão é uma das mais famosas do Palácio, apreciando-se na sua fachada de inspiração romana colunatas que sustém a varanda balaustrada.

Daqui temos uma vista privilegiada para o Canal dos Azulejos, mais um momento portentoso deste conjunto formado pelo Palácio e Jardins que fica aos nossos pés assim que descemos a referida escadaria Robillion. Este canal esta revestido de belos painéis de azulejos com representação de cenas de galanteio, paisagens bucólicas e de caça. No canal, uma espécie de lago artificial, os membros da Família Real passeavam de gôndola enquanto ouviam música tocada no Pavilhão da Música mesmo à sua beira.

Estamos já nos jardins – um dos muitos – que tornam a visita ao Palácio Nacional de Queluz uma delícia. É deambulando por eles que percebemos na perfeição a harmonia entre a arquitectura e a paisagem neste palácio. De influência francesa, com longas alas que vão formando corredores, cortadas aqui e ali por jogos de água como lagos, fontes e cascatas (a água era conduzida para o Palácio e Jardins por dois aquedutos), era neles que a Família Real promovia as suas festas.

Nesta ala que vai desde o Pavilhão Robillion até às antigas Cavalariças da Rainha D. Amélia (hoje Escola Portuguesa de Arte Equestre), vemos uma série de estátuas inspiradas na mitologia clássica, como aquelas de Abel e Caim no Lago dos Dragões e a do Rapto de Prosérpina um pouco mais adiante.

Uma longa avenida com vários caminhos que se interceptam transportam-nos pelo Lago das Medalhas, passando pela Fonte de Neptuno até ao Tanque do Curro. À volta, num terreno quase a perder de vista, temos o pomar e a mata.

Não chegámos até ao Jardim Botânico e atalhámos pelo jardim de buxo mesmo de frente para uma das fachadas do Palácio, o Jardim do Labirinto, passando ainda pela Horta dos Príncipes. No final da longa (mais uma) avenida que segue em direcção ao IC19 encontramos a Cascata. Diz-se que esta foi a primeira cascata artificial construída em Lisboa, e é uma cascata monumental esculpida em pedra mármore e ornamentada no cimo por uma carranca e duas fénix laterais donde jorrava a água.

Mas os jardins mais cénicos são aqueles que adentramos pelo Pórtico da Fama, o Jardim Pênsil e o Jardim de Malta, os dois jardins parceiros das fachadas interiores do Palácio Nacional de Queluz.

A simetria dos canteiros de buxo no Jardim Pênsil, mais elevado em relação ao de Malta, é perfeita, perfeição essa ainda mais alcançada pela estatutária e lagos ornamentais que o preenchem. O Jardim de Malta, por seu lado, tem vindo a ser restaurado no sentido a ganhar a sua forma mais próxima do original, mas mesmo assim é um deleite observá-lo em contraste com os tons macios das fachadas do Palácio.

Não há melhor forma de nos despedirmos de Queluz do que esta de percorrermos estes seus espaços decorativos de excelência.

Da Vila de Sintra ao Castelo dos Mouros

Não há melhor forma de circular por Sintra do que a pé. Em tempos já tínhamos escrito aqui sobre a jornada até ao Palácio da Pena desde o centro da vila através do caminho da Vila Sasseti. Desta vez seguimos caminho com partida desse mesmo centro com passagem pela entrada do Palácio da Pena, visita ao Castelo dos Mouros e volta ao ponto inicial, de forma circular, aproveitando as “Pequenas Rotas” do PR2 (Percurso da Pena) e PR3 (Percurso do Castelo). Coisa para uma manhã em cheio.

Saímos do largo do inigualável Palácio da Vila, o mais antigo palácio português, com origem no primitivo paço dos antigos governadores mouros da Sintra do século X, já com o Castelo dos Mouros sob mirada lá no alto, com alguns dos palacetes que fazem a fama de Sintra sob o seu colo.

E logo tomámos as estreitas ruas da vila, cheias de cotovelos, até chegarmos ao miradouro da Ferraria. Daqui, uma vista diferente mas igualmente próxima do Palácio da Vila, com as suas distintas chaminés. Ultrapassado mais um chalet apalaçado e damos com a Fonte da Sabuga.

São muitas as fontes que se vão vendo pelos caminhos de Sintra, mas esta fonte medieval reconstruída no século XVIII será a mais chamativa e célebre das fontes de Sintra, reconhecida ainda pelos seus poderes milagrosos. Está decorada com um tom azul e o dourado do sol que a encima retém a nossa atenção, bem como a pedra de armas de Sintra logo acima.

Após uma breve subida com vista para a planície das terras de Sintra, chegamos a um recanto mais recolhido da vila, onde ficam a Igreja de Santa Maria (do século XII, em estilo românico-gótico), a Casa do Adro (onde em 1866 viveu Hans Christian Andersen) e o Convento da Santíssima Trindade (hoje residência particular sem visitas ao público). E pelo meio uma casa com uma fachada curiosa.

Mais umas centenas de metros e a São Pedro de Penaferrim vê-mo-la lá em baixo. A estrada continua e segue-se um trilho com algumas árvores caídas, certamente consequência de temporal recente, que nos leva ao topo do Monte Sereno com seu castelo particular. Daqui avista-se já do outro lado o Castelo dos Mouros. E com pouca demora perceberíamos que do Castelo dos Mouros também se observa livremente o castelinho do Monte Sereno, como se mantivessem ambos um diálogo próximo e constante.

Na subida pela Calçada da Pena encontramos, por fim, veículos motorizados, carros particulares, autocarros e tuk-tuks, muitos tuk-tuks. Mas aqui encontramos também a vegetação cerrada da Serra de Sintra. Passamos pela entrada do Palácio da Pena, apreciando o colorido do seu edifício pintado num céu azulíssimo, e um pouco mais adiante eis o Castelo dos Mouros. Ao invés de seguirmos directamente para a sua entrada, vale a pena espreitar a casa do guarda junto à segunda cintura de muralhas (para incremento da área fortificada e protecção da população e bairros que se instalaram na vertente), com bar esplanada, e deambular pelo caminho que descerá até ao centro da vila para mais um miradouro com belas vistas.

De volta em direcção ao Castelo, não nos cansamos de apreciar as formosas rochas que são também elas parte da paisagem de Sintra.

Imediatamente antes da entrada do Castelo dos Mouros recebe-nos a Capela de São Pedro com o seu Centro de Interpretação da História do Castelo dos Mouros, um pequeno museu com achados arqueológicos. Nas imediações da capela percebemos umas estruturas escavadas na rocha que serviram há séculos para armazenamento e conservação de cereais e leguminosas. Por aqui estava o primitivo bairro medieval islâmico, mais tarde lugar de uma necrópole cristã, hoje transformado numa área arqueológica.

A passagem pelo pano de muralha mais imponente do Castelo dos Mouros faz-nos entrar num outro mundo, transportando-nos pela história.

Corria o século VIII quando, numa vertente mais elevada da Serra de Sintra, a cerca de 400 metros de altitude, os muçulmanos decidiram construir aqui uma fortificação de defesa do seu território após a conquista da Península Ibérica aos visigodos. O castelo terá funcionado como atalaia de controle da costa atlântica e dos territórios a norte, desempenhando a função de posto avançado da cidade de Lisboa. Mas, após anos de disputas, quer a fortificação quer o território acabaria por ser perdido para os cristãos no século XII, com a conquista definitiva por D. Afonso Henriques em 1147, tendo nessa época sido edificada a primeira capela cristã de Sintra, dedicada a São Pedro. As muralhas foram objecto de restauro no período romântico, por volta de 1860, sob a direcção Dom Fernado II, que arborizou igualmente os espaços envolventes. É interessante aprender que a vegetação intensa que caracteriza a Serra de Sintra dos nossos dias é um fenómeno recente. E nisso, como em muitos outros aspectos em Sintra, com destaque para o Palácio da Pena, a acção de D. Fernando II, o Rei Artista, foi decisiva. Nessa época a Serra tinha um aspecto nu, sem a vegetação primitiva de carvalhos, provavelmente em consequência da expansão de actividades como a pastorícia e a agricultura e da exploração florestal pela procura de lenha, carvão e madeira. Só no século XIX, com a chegada de D. Fernando II, inspirado pelo Romantismo, foi a Serra de Sintra reflorestada, com a introdução de espécies exóticas, tendo igualmente dado início à moda da criação dos jardins “à inglesa”. A paisagem de Sintra transformou-se no que vemos hoje e, para além dos muitos palacetes e seus jardins, ao lado dos autóctones carvalhos temos acácias, araucárias, plátanos, fetos, pinheiros, eucaliptos e ciprestes.

E porquê esta referência à paisagem de Sintra quando dizíamos ter entrado no Castelo passando pela sua porta muralhada? Porque o Castelo dos Mouros, não desfazendo a sua história, tem tudo a ver com paisagem. São vistas e mais vistas, todas elas fabulosas, fazendo-nos pensar que a vida se resume a isso: a uma paisagem, a paisagem de Sintra.

Ao caminhar pela muralha quase nunca perdemos de vista o Palácio da Pena, mas enquanto que da Alcáçova e Torre de Menagem temos a vila de Sintra aos nossos pés, contornando-a para seguirmos, subindo, até à torre do lado contrário, a Torre Real, ficamos com a Quinta da Regaleira e Seteais à nossa beira e o mar, esse, com todo o Atlântico da costa de Sintra sempre no nosso horizonte próximo.

É, pois, um prazer caminhar pela muralha do Castelo dos Mouros. Prazer maior ainda é deixarmo-nos estar na Torre Real, imitando D. Fernando II na sua época a contemplar a Pena, mas não a pintar a Serra.

Descendo a muralha, ao invés da passagem pelo extenso terreiro da Praça de Armas optamos pelo caminho rodeado de vegetação e grandes e bonitas rochas para chegar até à saída do Castelo.

Já cá fora, a volta ao centro da Vila inicia-se com uma curta passagem pelo interior da Tapada dos Bichos. Há que seguir a caminhar com atenção para não perder as vistas quer para o Palácio da Pena quer para o Castelo dos Mouros, por entre as árvores.

Depois o percurso segue por estrada, pela Rampa da Pena, cheia de curvas e mais curvas. E vários chalets, como o Chalet do Relógio e o Chalet Biester com os seus torreões a lembrar um palacete. No fim da descida da Rampa da Pena aí temos, então, o final da nossa jornada com a chegada ao centro histórico de Sintra. E aí termina o sossego e a sensação de solitude que vivemos antes, quando estivemos embrenhados na Serra.

Uma caminhada pela Peninha

São incontáveis os percursos pedestres que se podem inventar pela Serra de Sintra, mas alguns deles estão oficialmente demarcados. Assim, embora da Peninha possamos sair a caminhar em direcção a cada um dos pontos cardeais, o PR10 está montado para nos por a caminho da natureza e do património de forma circular por cerca de 4,5 kms. São menos de duas horas a gastar a sola, incluindo paragens demoradas para gastar os vários sentidos.

Até chegarmos ao estacionamento do Santuário da Peninha, onde tem início esta caminhada, seguimos de carro pela estrada totalmente protegidos pela vegetação carregada. Umas abertas, logo transformadas em miradouros, permitem-nos ir acostumando à paisagem que teremos lá de cima. Primeiro uma vista para as águas da albufeira do Rio da Mula e Palácio da Pena, depois uma vista para o Guincho e Cascais.

O trilho inicia-se com uma breve subida com o Santuário à nossa direita a confundir-se com as rochas e ramagem de ambos os lados. E, de repente, deixamos de ter a protecção dessa ramagem e tudo se revela. O cenário imenso da costa do Guincho aos nossos pés.

Estamos a uns 466 metros de altitude, a literatura científica não revelou ainda qualquer efeito desta altitude na falta de oxigénio, mas, de qualquer das formas, a nossa respiração é facilmente cortada com esta paisagem do recorte da costa em conjugação com o azul do mar.

Subimos a escadaria do Santuário da Peninha, instalado num penedo a 486 metros de altitude, e daqui de cima as vistas conseguem ser ainda maiores, porque agora se abrem para todos os lados, do Cabo Espichel às Berlengas, passando pelo Cabo da Roca, numa imensidão total. Podemos não identificar quer o Espichel quer as Berlengas, mas em dias de céu azul as vistas desde Lisboa à Ericeira são garantidas.

A Capela de Nossa Senhora da Penha confunde-se, no seu exterior, com o cinzento das rochas, já se disse, mas alguns acrescentos posteriores de edifícios anexos, nomeadamente um palacete, têm um tom amarelo vivo que ganha um relevo muito grande na paisagem. As origens do lugar, onde foi instalada uma primitiva ermida, remontam ao século XII, mas a capela tal como a conhecemos hoje começou a ser edificada no século XVII. Se a sua arquitectura exterior vale mais pelo seu lugar de implantação, diz que o seu interior é, esse sim, um deslumbre só por si. O Santuário está votado ao abandono e a capela fechada, impedindo-nos assim de conhecer os mármores e azulejos azuis e brancos que revestem o interior da Capela de Nossa Senhora da Penha.

Deixado o Santuário para trás, após passarmos pela Ermida de São Saturnino escondemo-nos da paisagem e envolvemo-nos numa mata cerradíssima, num pequeno trilho conhecido como trilho da Viúva. São apenas cerca de 500 metros sempre a descer e pensamos que ainda bem que o trilho é circular e não o teremos de subir. Isso para bem das nossas pernas, porque de resto não nos importaríamos de aí voltar vezes sem conta.

O lugar é belíssimo, todo ocupado com árvores sem deixar ver o céu, um daqueles pedaços onde se sente todo o poder e magia da natureza. Lugar fresco e escuro com raios de sol a tentarem penetrar, a humidade faz-se sentir e pingos da água soltam-se das árvores e plantas e caem sobre nós. Esta é uma zona de cupressal, com cedros do Buçaco plantados na tentativa de reflorestação da Serra de Sintra, muito sujeita a incêndios, e encontramos ainda fetos e folhas de hera.

Quando acaba a descida mágica viramos à direita na estrada florestal. O denso arvoredo mantém-se, passamos por um pequeno lago com algas verdes e logo chegamos a uma mata com mesas para piqueniques. Um pouco mais para lá dela e encontramos o desvio para Adrenunes.

A vegetação não nos larga, mas é incrível constatar como ela vai variando na sua forma. Agora é como se o arvoredo nos fechasse, formando um túnel natural onde em alguns pontos nos temos até de agachar. E, passado um tempo, a vegetação deixa de nos cobrir, sentimos o sol forte sobre nós e ganhamos a vista de mar ao fundo.

A Anta de Adrenunes está classificada como Monumento Nacional. No entanto, ainda não é claro se este conjunto de rochas é uma formação natural ou obra do Homem, o que leva alguns a considerar que é errado designá-la por anta. Terá, todavia, sido utilizada como necrópole, facto que induz a que o considerem um monumento megalítico. O que é claro é que este amontoado de rochas perdido no meio da vegetação da Serra de Sintra é esbelto. Não é fácil circundá-lo, precisamente pela vegetação que tomou o lugar, e é impossível adentrá-lo – não há espaço na rocha. Mas com perseverança subimos as suas rochas empilhadas e percebemos o marco geodésico que foi instalado no seu topo. Daqui a nossa vista alcança o Palácio da Pena, o Santuário da Peninha e o Cabo da Roca e a Adraga.

A Anta de Adrenunes é ainda um lugar de nidificação de aves.

No caminho de volta apreciamos mais uma vez a vegetação rica em plantas medicinais e aromáticas e voltamos a entrar na zona de mata de volta ao ponto de partida, com os carvalhos e as acácias a dominarem. Antes da chegada, porém, uma passagem e paragem pelas Pedras Irmãs.

É mais um lugar com uma aura misteriosa, com as imensas e formosas rochas preenchidas de musgo verde e rodeadas de ciprestes e carvalhos a darem mais um contributo para o encanto que costumeiramente é reconhecido à Serra de Sintra.

Evoa

O Espaço de Visitação e Observação de Aves – Evoa – está instalado em Vila Franca de Xira, em plena Reserva Natural do Estuário do Tejo e lezíria, uma zona de pura paisagem natural.

Para lá chegarmos seguimos por alguns quilómetros em estrada de terra batida na companhia de pastagens e arrozais. Sem perder de vista os equipamentos industriais que são a imagem de Alhandra, em terra firme numa das margens do Tejo, e a castiça igreja de Alcamé, em plena lezíria. Pura paisagem natural? Sim, mas a presença do Homem faz-se notar, e bem, num interessante convívio contrastante.

Inaugurado em 2012, o Evoa é o resultado de uma parceria entre a Companhia das Lezírias (dona dos terrenos) e a Brisa. À entrada do Evoa recebe-nos o seu belo Centro de Interpretação, numa arquitectura bem integrada na paisagem. Projecto de Maisr Arquitectos, o edifício desenvolve-se em plataformas e utiliza a madeira como material, remetendo para a ideia de juncos e paliçadas e de ambiente natural. Lá dentro, a exposição permanente dá-nos um enquadramento da história e do ecossistema da lezíria. Ficamos a saber que a abundância de recursos, o clima ameno e a localização do estuário e da lezíria atraíram desde sempre tanto as aves como o Homem. A fertilidade da lezíria, graças ao rio Tejo, era já gabada na Antiguidade e tem permitido diversas actividades como a pesca, a agricultura, a pecuária, a apanha de ostras e a extracção de sal. E o sapal e a dinâmica das marés são decisivas no equilíbrio deste ecossistema.

Mas porque ao Evoa vimos para observar aves, vamos então a elas. No dia em que o visitámos, antes de sairmos rumo à descoberta de parte dos 70 hectares das 3 lagoas de águas doce – a Principal, a Rasa e a Grande – que vão até à Ponta da Erva, na confluência dos rios Sorraia e Tejo, tivemos a sorte de ver libertar uma ave. Um guarda-rios tinha caído logo de manhã na rede propositadamente existente no Espaço para permitir a apanha das aves e seu posterior anilhamento, de forma a monitorizar os seus percursos, permitindo saber quantos quilómetros percorrem estas aves migratórias e até onde vão, incluindo a velocidade média que gastam a ir de um ponto para o outro. Com isso ficámos a saber que algumas das aves, se apanhadas pelos radares das nossas estradas, seriam imediatamente multadas ao voarem a mais de 180 kms/h.

Voltando ao guarda-rios, um passarinho com umas cores lindas, foi primeiro colocado na palma da mão de uma das responsáveis do Espaço onde se aninhou até sentir o conforto e a confiança para iniciar a sua jornada.

O Evoa é um importante ponto na rota das migrações das aves. É a mais importante zona húmida de Portugal e uma das mais relevantes da Europa e aqui se podem ver as aves no seu habitat. São mais de 120 mil aves e 200 espécies diferentes que aqui têm um lugar de refúgio e nidificação.

Existem vários percursos pedestres e outro em carrinho eléctrico – apenas com este último atingimos a Ponta da Erva, o lugar mais distante do centro de interpretação, onde se avista bem ao longe Lisboa com a sua Ponte Vasco da Gama. As visitas podem ser guiadas ou não, mas para leigos em avifauna, como eu, a visita guiada é totalmente aconselhada. Vejamos, já quase passei o estágio de distinguir um melro de uma melra pelo tom do bico, mas como identificar um banal rouxinol, seja pela silhueta ou pela cantoria? Com guia somos alertados quer para a presença física quer sonora das diversas aves. Ao rouxinol, no Evoa, ouvi-mo-lo, embora não o tenhamos visto.

O primeiro desafio na observação das aves é saber usar os binóculos. No Evoa há aves em abundância, mas elas não são facilmente apreciadas de perto e a olho nu. Há que usar os binóculos e até o telescópio em cada um dos postos de observação junto a cada uma das lagoas ou a céu aberto. Depois é aguardar que as aves, incluindo águias, voem sobre nós ou apontar os binóculos para aquelas que se deixam estar pacatamente pelas zonas húmidas. E aí, o melhor momento para as observar é na maré cheia do rio, quando elas deixam o estuário para se recolherem nas lagoas artificiais do Evoa. Quanto à época do ano, embora o Inverno reúna mais diversidade de espécies, é na Primavera que as aves aparecem em maior quantidade.

O guia lá vai descobrindo e anunciando a localização exacta de determinadas espécies, depois melhor identificadas pelos visitantes. Patos são aos magotes, em especial na Lagoa Rasa. O que não sabíamos é que havia assim tantos tipos de patos, incluindo um com o nome pipoca de marrequinha. Mas a ave de que mais gostei de observar foi o abibe, com a sua poupa elegante. Deu ainda para apreciar o pernilongo com suas patinhas fininhas alaranjadas, o alfaiate com o seu fato branco com listinhas pretas e as sempre esbeltas garças, igualmente com montões de espécies dentro delas. Vimos ainda o cartaxo, gerando a confusão de como de Vila Franca se pode observar o Cartaxo. Infelizmente não pude vislumbrar o colhereiro e seu bico em forma de colher. A piada de observar aves é ver as diferentes especificidades que tomam e também apercebermo-nos dos curiosos nomes que lhes atribuem.

Um lamento, porém. Para registar fisicamente estas encantadoras espécies há que dispor de equipamento adequado, ou seja, uma máquina fotográfica com objectivas de longo alcance, o que não é, pode ver-se pelas fotos, manifestamente o meu caso. Fica o registo da paisagem que as acolhe, igualmente imensa.

Um passeio por terras de Vila Franca de Xira

Depois da vista de pássaro desde o miradouro do Monte Gordo, donde se observa a paisagem imensa do Estuário e Lezíria do Tejo (e até um enormíssimo palácio em ruína nas suas costas, o Palácio de Farrobo perdido na ruralidade), começamos o nosso passeio pela cidade e alguns pontos do concelho de Vila Franca de Xira (VFX) pela sua marina.

Foi nos antigos estaleiros de Povos, ainda hoje a dois passos do centro, que foi construída a armada que levou Bartolomeu Dias a dobrar o Cabo da Boa Esperança, tendo esta saído do porto de VFX em Agosto de 1487 para cumprir o seu histórico destino.

Muitos séculos depois haveria de ser outro tipo de embarcações a ganhar protagonismo. Já no século XX, era a bordo de um dos vários barcos de pesca varinos típicos desta frente ribeirinha que opositores ao Estado Novo se reuniam para conviver e conspirar, aproveitando a inspiração que o Tejo lhes trazia. Aqui, navegando as águas do rio, podiam falar à vontade sem receio da PIDE. A Câmara Municipal comprou um destes barcos que tradicionalmente tinham por função não a conspiração mas antes o transporte de mercadorias e pessoas, deu-lhe o nome “Liberdade” e organiza passeios de puro desfrute do Tejo.

Seguindo ainda pela lezíria, palavra derivada do árabe “al-jazirâ“, com o significado de “ilha”, o Evoa – Espaço de Visitação e Observação de Aves é uma paragem de destaque. A provar que a lezíria não é feita apenas de campos férteis, mas também de uma rica avifauna, este é um espaço privilegiado para a observação de aves em plena Reserva Natural do Estuário do Tejo.

À porta do centro da cidade de VFX fica a pitoresca Alhandra, instalada à beira Tejo. É uma terra de tradição de desportos náuticos que, já se disse no post anterior, honra os seus, como Baptista Pereira, nadador de travessias, e aqueles que a adoptaram, como Soeiro Pereira Gomes, autor de “Esteiros”.

Por detrás da escultura que é dedicada aos seus “homens que nunca foram meninos” vê-se, altaneira, a igreja matriz São João Baptista. Daqui do adro da igreja obtém-se uma boa vista para o casario de Alhandra, mas é mais acima que a panorâmica se torna grandiosa.

Do lugar onde se construiu o Reduto da Boa Vista, parte das fortificações que constituíam as Linhas de Torres de defesa aos ataques das tropas de Napoleão do início do século XIX, foi levantado em 1883 um Monumento a Hércules e aos Defensores das Linhas de Torres Vedras. Temos Alhandra logo abaixo (e a monstruosa fábrica da Cimpor), VFX mais esquerda, a Ponte Vasco da Gama bem ao fundo à direita e a Lezíria por todo o lado.

É curiosa a forma que a terra toma aqui. Não muito longe do rio a encosta agiganta-se e os montes vão-se sucedendo, quebrados aqui e ali por vales. Nomes como São João dos Montes e Subserra marcam a toponímia.

É por aqui que encontramos a Quinta Municipal de Subserra. Mandada erguer em 1633 por Diogo da Veiga, um mercador das Índias, o terramoto de 1755 destruía-a em grande parte, mas acabou por ser reedificada em 1821. À medida que vamos subindo a serra vamos percebendo uma longa fachada branca e ficamos convencidos de que estamos no bom caminho para a alcançar. O edifício do seu palácio destaca-se de imediato, mas depois percebemos que tem a companhia de outros edifícios mais pequenos, hoje disponíveis para eventos e até para alojamento turístico, e de uma vasta área de vinha instalada numa das vertentes.

Daqui do alto temos mais uma vez umas belas vistas para a Lezíria, agora acompanhadas pelo latido incessante dos cães das povoações à volta. A alta nobreza de Lisboa do século XIX procurava esta zona pelas suas águas e bons ares, mas pelos vistos a acústica do lugar também não lhes fica atrás.

Outra quinta hoje tornada municipal não muito longe da Subserra é a do Sobralinho. Construída no século XVII como residência de veraneio do Conde de Vila Flor, era aqui que a aristocracia, incluindo a família real, se juntava nos seus momentos de lazer fora da capital. Esta é para mim a mais bonita das quintas de VFX que chegaram intactas aos nossos tempos. Tem um palacete pintado a rosa vivo que sobressai no meio do verde que o rodeia, nomeadamente do jardim e da mata.

E tem uns apontamentos artísticos como os azulejos que decoram os muros / bancadas – com cenas do quotidiano e ao gosto chinoiserie – e uns apontamentos bucólicos materializados no pomar, em especial nas laranjas. No seu interior, para além do tranquilo pátio, as salas possuem os tectos e paredes forrados com pinturas. Tão irresistível é o lugar que, diz-se, até Salazar tinha aqui um esconderijo secreto enquanto mantinha Portugal sob ditadura.

Em região de muitas quintas e palacetes, outra em destaque é a Quinta Municipal da Piedade, já na Póvoa de Santa Iria. Antigo latifúndio com olival, vinha e pomar criado em 1318, a povoação da Póvoa foi-se desenvolvendo à sua volta. Hoje o espaço é ainda generoso em termos de área circundante ao palacete do século XVIII que, diz-se, chegou a ter mais 20000 azulejos entre palácio e quinta. Aqui funcionam alguns serviços da Câmara Municipal, uma galeria, um bar, uma Quinta Pedagógica com animais e espaços verdes recreativos com vista para o Tejo.

Com tantos palacetes não espanta que antes de ser Vila Franca de Xira, Vila Franca fosse da Rainha. Com o golpe de estado de 1823 que ficou conhecido na História por Vilafrancada o seu nome chegou a mudar episodicamente para Vila Franca da Restauração, mas logo voltou a Xira. A palavra “xira” derivará do português arcaico “cira”, sinónimo de matagal, por referência a um bosque de castanheiros que dominava a região. Outros, ainda, atribuem a toponímia a uma derivação da palavra árabe “as-Shirush”.

Não podemos deixar VFX sem dedicar umas palavras à tauromaquia. A cultura tauromáquica está por todo o lado, desde o monumento ao toureiro instalado no Largo da Estação de Comboios, passando pela Casa Museu Mário Coelho dedicada ao toureiro local que foi amigo de Pablo Picasso e pelo busto dedicado ao matador Júlio José à frente do Mercado, continuando pelo monumento ao campino no centro da cidade, terminando com a icónica e já centenária Praça de Touros Palha Blanco à entrada de VFX.

Vila Franca de Xira, um pouco de história e cultura

Vila Franca de Xira (VFX) é para mim um dos concelhos mais agradáveis e interessantes da área metropolitana de Lisboa. Paisagem, lazer, cultura, tradição – com a tauromaquia e a gastronomia à cabeça -, aqui tudo encontramos. Desenvolvendo-se à beira Tejo, o rio sempre foi um elemento fundamental nestas paragens, quer pela sua riqueza em recursos naturais quer enquanto via de transporte.

Para além da natureza ter criado a navegabilidade do Rio Tejo, permitindo uma comunicação fluvial com mais de 1000 kms, também desde a Antiguidade uma longa via romana que atravessava o território hoje conhecido como Vialonga permitia um acesso mais facilitado à região. Apesar de vestígios arqueológicos atestarem a ocupação humana na região desde o Neolítico, os esforços numa ocupação mais forte aconteceram, no entanto, apenas a partir da conquista de Santarém e de Lisboa aos mouros, em 1147, quando cruzados ingleses receberam de D. Afonso Henriques a doação de terras no que hoje conhecemos como VFX como recompensa pela ajuda nas conquistas. O povoamento não foi fácil nem imediato, mas foi se fazendo ao longo dos séculos, muito graças às terras férteis do lugar. E nos dias de hoje, já se sabe, a Auto-estrada do Norte, a A1, começou por ver o seu primeiro troço de 25 kms, construído em 1961, a ligar Lisboa a VFX.

Servem estes dados para se perceber a localização estratégica do lugar. E a eles podemos acrescentar o seu papel decisivo na protecção de Lisboa e da linha do Tejo aquando das Invasões Francesas, tendo sido construído entre 1809 e 1812 um conjunto de fortificações para essa defesa, o que ficou conhecido como as Linhas Defensivas de Torres Vedras, construções essas ainda hoje visíveis e visitáveis em vários pontos do concelho de VFX.

E, depois, a região foi há séculos procurada pela nobreza, atraída pela proximidade da corte e pelos bons ares do Tejo e serras que o acompanham, para estabelecer aqui as suas quintas de recreio. Vários exemplos seguem de pé, nomeadamente alguns transformados em quintas municipais, e muitos outros em ruína. A eles voltaremos em post seguinte.

Em tempos dedicámos um post https://andessemparar.com/2018/09/14/a-frente-ribeirinha-de-vila-franca-de-xira-de-vila-franca-de-xira-a-povoa-de-santa-iria/ à fantástica frente ribeirinha de VFX, quase toda ela ciclável, e outro https://andessemparar.com/2015/11/13/a-povoa-e-o-rio/ à relação da sua Póvoa de Santa Iria com o Rio, mais especificamente enquanto terra de migrações de Varinos e Avieiros, respectivamente pescadores de Ovar e pescadores de Vieira de Leiria, que no século XVIII e XIX aqui se estabeleceram sazonalmente como comunidades piscatórias em busca do sustento que não encontravam nas suas povoações de origem durante os invernos rigorosos. O cais palafítico da Póvoa aí está para nos lembrar esse passado imortalizado por Alves Redol na sua obra “Avieiros”, aqueles a quem chamou os “ciganos do rio”. Em Gaibéus, a sua obra mais famosa, já Redol, nascido em VFX, se tinha dedicado a dar-nos conta da dureza do trabalho dos camponeses ribatejanos e beirões na lezíria. A fertilidade das terras da lezíria, que para além da pesca é rica em cereais como trigo e centeio e azeite, trouxe também alentejanos e até transmontanos. Outro escritor para sempre ligado a VFX, embora nascido em Baião, foi Soeiro Pereira Gomes, que residiu em Alhandra. Em “Esteiros” debruçou-se sobre a vida dos “homens que nunca foram meninos”, um grupo de crianças que nunca foram à escola mas trabalhavam como gente grande sem que saíssem do ciclo da pobreza. Uma dessas crianças foi inspirada em Baptista Pereira, o mítico nadador de travessias que Alhandra até hoje faz questão de homenagear.

As obras literárias de Alves Redol e de Soeiro Pereira Gomes são marcadamente de oposição ao regime do Estado Novo, opressor e cego relativamente à pobreza que se vivia na região. Ambos os autores eram comunistas e fizeram-se ler e ouvir quanto à exploração dos mais fracos pelos mais fortes. Não surpreende, pois, que seja em VFX que encontramos o Museu do Neo-Realismo, um movimento não apenas literário mas também de outras expressões artísticas, como as artes plásticas e o cinema, de resistência e oposição política e afirmação estética que emergiu na Europa nos anos 30 do século passado.

A ideia de criar um Museu do Neo-Realismo foi sendo desenvolvida na década de 1980 e em 2007 ganhou um belo edifício projectado pelo arquitecto Alcino Soutinho mesmo no centro da cidade. Para além de arquivo de documentos e obras da corrente neo-realista e da exposição residente, aqui decorrem exposições temporárias, como a que no ano passado pudemos apreciar dedicada a Cândido Portinari, o meu amado neo-realista brasileiro. No interior do edifício, numa parede de alto a baixo, vemos um enormíssimo desenho com o traço de Júlio Pomar.

Outro dos novos edifícios na paisagem arquitectónica da cidade é o da Fábrica das Palavras, a biblioteca mesmo à beira Tejo. O lugar é incrível. A antiga fábrica de descasque de arroz deu lugar a um ícone projectado pelo arquitecto Miguel Arruda que está ao nível dos grandes escritores neo-realistas acima citados, aos quais podemos juntar ainda outro dos grandes nomes de VFX, Álvaro Guerra. O pequeno largo deste edifício, que tem uma ponte elevada que liga directamente a cidade ao rio, passando sobre a linha do comboio, foi pensado para ser um lugar de convívio e recreio, integrando na perfeição o casco antigo com as linhas contemporâneas da nova biblioteca.

Terminamos este texto com uma sugestão de filme, A Fábrica de Nada. O comboio que na segunda metade do século XIX iniciou a ligação de Lisboa ao Carregado, passando por VFX, trouxe à boleia a chegada da indústria. Muitos dos edifícios onde as fábricas de várias actividades se instalaram são hoje apenas ruínas, mas outros continuam o seu labor. É lembrar a fábrica da Cimpor que qualquer um de nós já deu conta quando atravessa a A1 pela zona de Alhandra. O movimento operário sempre foi activo. E o filme Fábrica de Nada representa, precisamente, esta decadência inexorável da indústria, mas, sobretudo, a força e a persistência dos operários que teimam em não deixar desaparecer os seus empregos. A não perder, se se quiser saber mais sobre a carismática VFX.

Santarém

“Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crónica. Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas.”

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra

Não me lembrava se já havia estado em Santarém, mas tinha a certeza de não conhecer Santarém. A meros 45 minutos de Lisboa, ia adiando sempre a visita. Mas então surgiu o pretexto perfeito: tinha de renovar o passaporte com alguma pressa e a Loja do Cidadão de Santarém era a mais próxima em data. Obrigada serviços do Estado por andarem tão entupidos.

A primeira impressão que Santarém me deixou foi uma comparação com Goa. Pensei, um lugar com tantas igrejas só na Velha Goa, mas depois pensei melhor e caminhando pelas ruas do Chiado decidi incluir o bairro lisboeta no concurso “quem tem mais igrejas por m2?”.

Diz-se que em Santarém chegaram a coexistir 14 conventos e 36 igrejas e, por isso, é inevitável começar este passeio por uma igreja. Mas apesar de esta ser a “capital do gótico” vamos começar pela , a Igreja do Colégio dos Jesuítas, que de gótico não tem nada e foi construída entre o século XVII e XVIII, numa época em que Santarém não estava já no seu apogeu. Na Praça Sá da Bandeira, coração da cidade, a sua fachada maneirista é belíssima. O interior da igreja é o deslumbre a que os jesuítas e o barroco nos habituaram, com reluzente talha dourada e mármore nos altares e capelas. Aqui pode ainda visitar-se o Museu Diocesano de Santarém.

À Praça Sá da Bandeira acede-se pelo Jardim da Liberdade ou pelo Jardim da República, e à sua entrada temos logo mais outra Igreja, a do Rosário (pequena, bonita, aconchegante e colorida). Desta Praça harmoniosa, com todos os seus edifícios de cor branca, incluindo um com uma discreta janela manuelina, saem diversas ruazinhas que irradiam para configurar aquele que é o centro histórico da cidade. Ruas estreitas de traçado irregular, com uma série de becos, edifícios maioritariamente de dois pisos, nem sempre bem conservados, comércio e restauração aqui e ali. Por aqui fica o Teatro Sá da Bandeira e mais uma mão cheia de igrejas.

Andemos, porém, aos ss por Santarém e escrevamo-lhe um pouco de história, porque, como escreveu Almeida Garrett, “Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poética parte das nossas crónicas está escrita”.

Scalabis foi instalada num morro fortificado, o Escalabicastro, elevado face ao Rio Tejo e à fértil lezíria. Terra muito antiga, antes dos romanos foi lugar dos fenícios. Conquistada definitivamente pelos reis de Portugal aos mouros em 1147, a partir daqui viveria a sua época de maior esplendor, ao que não foi alheio o facto de ser a vila favorita de muitos reis e a aristocracia a escolher para as suas caçadas, com a construção de igrejas que são verdadeiras obras artísticas. E também ao facto de este ter sido o período áureo dos descobrimentos que trouxe o desenvolvimento a todo o país. Foi a partir de finais do século XV e ao longo do século XVI que Santarém viria a perder parte da sua relevância, não só pelo porto de Lisboa nessa época ter alcançado um grande desenvolvimento, mas também pela morte acidental do herdeiro do trono. Os seus pais, D. João II e D. Leonor, não mais quiseram voltar a Santarém, optando antes por Almeirim. Mais tarde, com o advento do liberalismo em meados do século XIX e o fecho dos conventos, o abandono de Santarém passou a ser uma realidade e apenas a inauguração em 1881 da ponte D. Luís, ligando Santarém a Almeirim, e a chegada do comboio lhe voltaram a trazer algum crescimento e progresso. De qualquer forma, foi aqui que D. João II foi aclamado rei, foi esta a cidade transformada em quartel-general para defesa das Invasões Francesas e de D. Miguel nas lutas liberais e foi de Santarém que, na madrugada do 25 de Abril, saiu a coluna militar de blindados comandada por Salgueiro Maia rumo ao Quartel do Carmo para derrubar a ditadura que há décadas perdurava em Portugal.

E por que terá mudado a antiga Scalabis de nome para Santarém? Diz a lenda que uma bela noviça de Tomar era disputada por vários rapazes, entre os quais o príncipe Britaldo que, conformado, havia aceitado a sua decisão de se devotar a Deus. Mas quando este soube que a rapariga tinha quebrado os seus votos e mudado de decisão para se entregar a outro rapaz, o príncipe, inconformado, assassinou-a e o seu corpo, lançado à agua, foi transportado pelos rios Nabão, Zêzere e Tejo, até pousar na Ribeira, incorruptível. O milagre fez com que a povoação passa-se a Santa Irene e, com o tempo, o nome evoluísse para a actual Santarém.

Feito um breve apanhado histórico, resta a memória. E o que é mais visível dessa memória são, lá está, as igrejas monumentais da cidade, sobretudo as que fazem de Santarém ser reconhecida como a “capital do gótico”.

A Igreja de São João de Alporão foi construída no século XII, uma das primeiras da época medieval, e terá sido esta que inspirou o historiador Vergílio Correia no apodo “capital do gótico”, embora aqui coexistam não apenas influências góticas, mas também românicas. A sua rosácea é belíssima. Ao seu lado encontramos a Torre das Cabaças, ou Torre do Relógio, do século XV. O seu nome dever-se-á ao facto de sete vasilhas de barro ocas, as cabaças, terem disso colocadas no cimo da torre representando as cabeças ocas de quem havia mandado construir um sino na torre que era para ser do relógio.

A Igreja do antigo Mosteiro de Santa Clara e o Convento de São Francisco, situados numa das saídas da cidade, são dois exemplos do gótico mendicante. Ambos do século XIII e ambos com a característica rosácea na fachada, no último visitei os claustros e as ruínas da sua imponente mas austera igreja, despida de quaisquer elementos e onde apenas se faziam ouvir as pombas para lá dos tapumes.

Mas a mais fantástica das igrejas góticas de Santarém é a de Santa Maria da Graça, considerada uma obra-prima do gótico flamejante. Pertencente à Ordem de Santo Agostinho, a sua construção iniciou-se em 1380 mas foi concluída apenas no princípio do século seguinte por dificuldades financeiras suplantadas pela família Teles de Menezes, que aí mandou erguer o seu panteão. Atente-se, uma vez mais, à sua exemplar rosácea na fachada.

O interior é majestoso e impõe respeito. Aqui encontramos vários túmulos com belos motivos decorativos. Mas o túmulo mais famoso e procurado é aquele onde jaz Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil que faleceu em Santarém em 1520. Na outra esquina da Igreja da Graça fica a Casa do Brasil, um edifício setecentista construído sobre um outro que pertenceu à família de Pedro Álvares Cabral. Hoje este é um espaço museológico que se propõe a dar a conhecer a relação de Santarém com os Descobrimentos.

Continuado o périplo pelas igrejas, menção mais para a Igreja de Marvila com o seu portal manuelino (fechada à minha passagem, mas o seu interior é quase totalmente revestido a azulejo) e para a Igreja do Santíssimo Milagre, a que se acede vindo da Igreja da Graça por uma ruazinha com uma escadaria (interior renascentista com vários quadros). Mas, sobretudo, para a Igreja da Misericórdia, o melhor exemplo renascentista de Santarém. Construída no século XVI, o seu interior é austero, mas belíssimo, ao estilo das igrejas-salão.

À sua frente, do outro lado de uma rua estreita, vemos um edifício com motivos arabescos e ao seu lado uma varanda quinhentista em cunha.

Com as palavras de Miguel Torga em mente, “O Ribatejo deve ser visto das Portas do Sol de Santarém, num dia de cheia, ou das bancadas de uma praça de touros numa tarde de Verão”, mas sem que pudesse cumprir todos os elementos, seguimos agora em direcção ao Jardim das Portas do Sol. Passamos pelo edifício do Cine-Teatro Rosa Damasceno em ruína e pela Avenida 5 de Outubro e seus chalets e palacetes do princípio do século XX, alguns deles hoje decadentes. Ao contrário da soberba vista que a alcáçova do castelo conquistado por D. Afonso Henriques aos mouros nos dá, a qual nunca ruirá ou decairá. Do miradouro das Portas do Sol assiste-se a todo o esplendor da situação geográfica da antiga Scalabis e da actual Santarém em relação à lezíria. São campos verdes de agricultura a perder de vista, apenas interrompidos pelo corte que o Rio Tejo lhes provoca.

O Jardim é aprazível e podemos caminhar por parte das muralhas do antigo castelo.

A não perder, ainda, o Miradouro de São Bento, mais uma vista privilegiada desde uma das várias colinas da cidade, agora com Santa Iria da Ribeira de Santarém e a estação mesmo abaixo de nós, mas com os mesmos protagonistas que o anterior miradouro, a lezíria e o Tejo.

Não abandonamos Santarém sem uma paragem no seu mercado. O Mercado de Santarém é obra do arquitecto Cassiano Branco e um exemplo do modernismo na cidade. Construído em 1930 no antigo Chão da Feira, é uma longa estrutura em ferro com a sua fachada revestida com painéis de azulejo representando os monumentos e cenas do quotidiano da região. As cenas tauromáquicas não poderiam faltar, claro, e elas fazem-se representar ainda num registo mais contemporâneo no Jardim da Liberdade, onde deixamos a capital do Ribatejo.