Bucara é considerada a cidade mais sagrada da Ásia Central, um centro religioso e cultural, e uma das mais antigas. A sua história remonta a meados do primeiro milénio a.C. e durante séculos habituou-se a ser ponto de paragem obrigatório na Rota da Seda, por ela desfilando caravanas de mercadores que com os seus produtos ligavam o oriente ao ocidente. Muitas das suas estruturas medievais estão preservadas e nela podemos testemunhar e apreciar a delicadeza e grandeza de monumentos distingidos pela Unesco como património da humanidade, de que são exemplo o Minarete Kalyan, a Fortaleza-Cidadela Ark, o Chor Minor e restos de um antigo complexo de mercados. E o Lyabi-Hauz, um dos poucos lagos a resistir até aos nossos dias, num lugar que foi em tempos abundante em água. Um oásis rodeado de deserto.

Tornada capital do império Samanida nos séculos 9 e 10, Bucara sucumbiu a Gengis Khan no século 13 e viu Samarcanda sobrepor-se-lhe no século seguinte, embora tenha sido durante o reinado de Timur que Bucara começou a tornar-se um centro religioso. Durante todo este tempo, grandes figuras da cultura visitaram-na, como o monge budista Xuanzang, no século 7, e o matemático e poeta Omar Khayyam, a quem se credita o Rubayat, no século 11. Mas foi com a dinastia Xaibânida, turco-mongol, que no século 16 emergiu, tornando-se a capital do khanato de Bucara, de que Samarcanda passou a fazer parte com papel menos relevante. Foi resistindo autónoma, embora mudando de mãos diversas vezes, e só em 1924 foi finalmente integrada pelos soviéticos. Foram estes que levaram a efeito o projecto de drenagem da cidade, que possuía uma rede de canais e cerca de 200 lagos que, como a água não era mudada, originaram uma série de pragas ao longo dos tempos. Hoje resta o Lyabi-Hauz, uma imagem popular e pitoresca rodeada de restaurantes e madraças. Começamos por aqui o nosso passeio por Bucara, à qual chegámos num instante à boleia do recente comboio rápido, que a liga a Samarcanda em menos de duas horas.

Ao contrário do que nos tocou em Samarcanda, o céu esteve completamente limpo à nossa passagem por Bucara, e assim os azuis dos elementos arquitectónicos tornaram-se ainda mais azuis. Mas, à semelhança da anterior, logo constatámos que também nesta cidade muitas das madraças foram transformadas em museus e lojas de artesanato e souvenirs. Ao redor do Lyabi-Hauz está um trio de edifícios monumentais. Espelhada na água do lago, a khanaka Nadir Divan-begi era onde os sufis se reuniam e rezavam, tendo o interior sido transformado em museu, embora mantendo o mihrab. O seu portal, grande, está revestido com mosaicos com motivos geométricos.


Do lado contrário do lago está a madraça Nadir Divan-begi, construída em 1623, a qual começou por servir de caravancerai para alojar os viajantes e só depois de escola religiosa. O seu portal majestoso tem uma decoração raramente vista no islão, a representação de dois seres com asas e um sol de rosto humano. E o pátio, apesar de as suas divisões estarem ocupadas com lojas, é bonito, vendo-se as portas de madeira bem trabalhadas.



O terceiro edifício é o mais antigo deles, a madraça Kukeldash, construída em 1569. Uma das maiores madraças do tempo dos xaibânidas, não está tão bem conservada como as vizinhas, mas o pátio volta a ser um lugar bonito, onde decorria um ensaio musical, rodeado por 160 dormitórios e com uma torre em cada um dos cantos, uma espécie de minaretes. Talvez não fosse suposto, mas subimos até ao segundo andar e daí até ao terraço, onde pudemos perceber com mais precisão a forma desta e das estruturas vizinhas, uma confusão de telhados.

No jardim junto ao lago encontramos a escultura mais estimada da cidade, representando Hoja Nasreddin em cima do seu burro, uma personagem parte do folclore do mundo muçulmano, um sábio contador de histórias que conjugam humor e sátira.

Uma das imagens mais icónicas de Bucara é a das quatro torres azuis em forma de cúpula do Chor Minor. Construído em 1806, o seu nome quer dizer, precisamente, “quatro minaretes” e este mimo da arquitectura da cidade deve-se a um comerciantes turcomano que andou pela Índia e aí buscou a influência estética que depois trouxe para Bucara (uma imagem à entrada do Chor Minor mostra o palacete indiano que lhe terá servido de inspiração), embora este estilo não seja de todo estranho à região. Não se sabe, porém, qual a função que esteve na sua base, talvez madraça, talvez porta monumental, assim como não é certo que seja verdadeira a costumeira interpretação das suas torres como símbolos das quatro religiões, Cristianismo, Budismo e Zoroastrismo, para além do Islão.

Bucara, enquanto centro histórico, pareceu-nos mais cidade do que Samarcanda, mais compacta e mais diversa em termos de monumentos. Saindo do lago Lyabi-Hauz, para além das referidas madraças encontramos a Mesquita Magok-i-Attari, uma das poucas estruturas de Bucara construída antes das invasões mongóis do século 13 e, diz-se, a mesquita mais antiga da Ásia Central a chegar até aos nossos tempos. Antes dela, no local haveria um templo do Zoroastrismo dedicado ao fogo, anterior à chegada do islão. Implantada hoje num plano inferior relativamente à estrada, da mesquita do século 12 já pouco resta, dadas as muitas alterações que foi sofrendo desde aí. Sobrevive, porém, o portal a sul. O seu nome remete para um antigo bazar próximo: Magok vem do nome do bazar (assim denominado em honra de um rei) e Attari (de significado “perfume”) das fragrâncias que aí eram vendidas. E o interior desta mesquita foi transformado em museu das carpetes, uma boa hipótese de conhecer alguns exemplares, sua evolução e diferenças entre regiões e padrões.




Ao redor da mesquita estão dois dos bazares que faziam parte de uma rede maior de mercados, construída no século 16 no auge da dinastia Xaibânida. Tanto o Toqi Sarrofon (dos cambistas) como o Toqi Telpak Furushon (peles, turbantes, chapéus) são cobertos e distinguem-se pelas suas cúpulas, com o interior cheio de arcos; hoje vendem, sobretudo, artesanato e roupas, daí resultando um colorido típico do imaginário dos bazares orientais.




Mais adiante, há ainda o Toqi Zargaron (de jóias), o mais antigo deles, junto ao qual estão mais duas madraças, a Mirzo Ulugh Beg e a Abdal Aziz Khan. Ambas seguem o plano típico das madraças da região, com um portal que antecede um corredor para além do qual se abre um pátio rectângular rodeado dos quartos para os estudantes. No entanto, a madraça Ulugh Beg, mandada construir em 1420 pelo então príncipe, neto de Timur, numa época em que Bucara vivia na sombra de Samarcanda, acabou por representar um revivalismo cultural da cidade, muito deixada para trás com a destruição provocado pelas invasões mongóis do século 13. Assim, com esta madraça, Bucara passou a atrair estudantes e cientistas de todo o mundo muçulmano, tornando-se num centro de conhecimento. Este é, aliás, um dos poucos edifícios desta época na região. Destaque para o seu belo portal, com mosaicos majólica e inscrições árabes na fachada. Cerca de 130 anos depois, o governante Abdal Aziz Khan construiu um outra madraça, mesmo diante da anterior, prática comum na Ásia Central, conhecida por kosh. Mais parece uma fortaleza, a ver pelas suas torres nos cantos.

As ruas de Bucara são agradáveis de percorrer. Os edifícios estão restaurados, muitos deles adaptados para hotéis (diz que é nesta cidade que encontramos os mais interessantes boutique-hotéis, muitos deles anteriormente madraças e caravanserais), e existem algumas casas de chá (imperdível a Silk Road Teahouse) e galerias de arte.


Mas o mais inesquecível dos monumentos de Bucara é o Minarete Kalyan. Parte do conjunto designado por Po-i-Kalyan, que tem ainda a mesquita de mesmo nome e a Madraça Mir-i-Arab, o Minarete Kalyan foi a única parte sobrevivente da mesquita destruída pelas tropas de Gengis Khan, no século 13. Construído em 1127 e com 46,5 metros de altura, é uma torre elegante de uma beleza ímpar, decorada com padrões geométricos e inscrições religiosas. Os minaretes são símbolos da arquitectura islâmica e terão a sua origem ou nas torres de observação gregas ou nas torres das igrejas da Síria. No início, os muezzins chamavam para a oração desde os terraços, mas com a construção dos minaretes, adjacentes às mesquitas, passaram a fazê-lo deste ponto mais elevado, assim alcançando mais fiéis. E de elemento de orientação, o minarete passou a elemento identitário.




Ao seu lado está a Mesquita Kalyan, que serve de Mesquita de Sexta-Feira, a principal da cidade. É capaz de acolher 12 mil crentes ao mesmo tempo, sendo uma das maiores da Ásia Central. Construída em 1514, em substituição daquela que havia sido arrasada pelos mongóis, foi um dos primeiros edifícios levantados pelos xaibânidas e serviu de impulso para o renascimento de Bucara, embora tenha buscado inspiração para a sua arquitectura na mesquita Bibi Khanum, de Samarcanda. Mais um magnífico portal serve de entrada para um enorme pátio, no final do qual está a sala de orações, com o mihrab na direcção de Meca, encimado por uma cúpula de um azul vivíssimo.



Do outro lado da praça Po-i-Kalyan está a Madraça Mir-i-Arab, de significado “príncipe dos árabes”, dialogando face a face com a mesquita, em perfeita harmonia. Possui mais um imponente portal, igualmente decorado com maestria com mosaicos geométricos em penetrantes tons de azul. Mas desta vez tem a ladea-lo duas cúpulas do mesmo azul vivíssimo. Construída em 1536, a madraça foi encerrada na sequência da Revolução Russa de 1917, mas conseguiu voltar às suas actividades educativas após a II Grande Guerra Mundial, tendo sido a única em funcionamento na União Soviética até ao seu desmembramento. Desde aí, e já com o Usbequistão independente, mantém as suas aulas, daí que a visita ao interior não seja possível.




Outro dos símbolos de Bucara é a antiga fortaleza Ark, que constitui o mais antigo monumento da cidade, instalado numa colina artificial. A poucos passos do seu coração, trabalhos arqueológicos mostraram que no lugar exista uma construção defensiva já no século 4 a.C. e que a primeira mesquita de Bucara foi aqui levantada logo no século 8, ocupando o lugar de um antigo templo do fogo zoroastra. Os muros da fortaleza escondem uma cidadela – a palavra ark vem do persa arg, de significado cidadela – que foi a principal residência dos governadores de Bucara até 1920, quando foi parcialmente destruída pelos russos. Historicamente, por ela passaram o filósofo Avicena, o poeta Rudaki e o matemático Omar Khayyam e o lugar possuía um palácio, salas de recepção, biblioteca, mesquita e muitos outros edifícios. Juntamente com o governador, sua família e harém, chegaram a viver na cidadela 3000 pessoas, entre eles servidores públicos e militares. Hoje restam alguns edifícios, transformados em museus. E há uma enorme área, ainda sujeita ao trabalho arqueológico, que serve de incrível miradouro para a mesquita e minarete Kalyan, bem como a restante cidade.



No entanto, no Ark impressiona a forma e material de construção da sua muralha ao redor dos quase 4 hectares da estrutura militar e cidadela. Começou a tomar esta forma no século 16, com a dinastia Xaibânida, a tal época áurea de Bucara. A magistral Porta do Registão sobreviveu intacta, e dela saem os formosos muros de adobe da cidadela, cuja altura varia entre os 16 e os 20 metros.




E, a confirmar que Bucara é uma cidade extremamente interessante, para lá do Ark encontramos ainda mais monumentos que confirmam a sua diversidade. O primeiro, mesmo diante da fortaleza, é a Mesquita Bolo Hauz, originalmente construída em 1712, tendo servido de mesquita da sexta-feira. O emir chegou a frequentá-la, em substituição da própria mesquita no interior da Ark, usando estes momentos para mostrar aos súbditos a cerimónia e pompa do seu governo, para o efeito estendendo-se no chão da rua uma fileira de carpetes, para que que os seus pés não pisassem a sujidade. Bolo Hauz significa “por cima do lago”, por referência ao plano de água diante da mesquita, e a sua arquitectura é mais uma delícia. O seu iwan, o espaço exterior coberto que antecede a sala de orações, só foi acrescentado no início do século 20 (assim como o minarete, isolado), mas esta característica das mesquitas de influência persa é aqui muito curiosa e atraente: tem 20 pilares de madeira de nogueira, ulmeiro e choupo, formados por dois troncos de árvores, para mais robustamente suportarem esta espécie de alpendre. Esta solução deve-se ao facto de o clima de Bucara ser muito diverso, com verões quentes e invernos frios, daí a necessidade dos iwans, por forma a proporcionarem ventilação e sombra nos meses de maior calor.


Fora do centro, a não perder ainda o Mausoléu Chasma Ayub, sagrado tanto para muçulmanos como cristãos, por se crer que a sua água é benta, e, diante deste, o memorial Imam Al-Bukhari, de arquitectura moderna.

Atravessada uma generosa área verde, que é também parque de diversões, chegamos ao Mausoléu Samanida. Construído por volta do final do século 9 ou princípio do 10, para servir de lugar de enterro para os elementos desta dinastia de origem persa que então governou Bucara, é a única estrutura que resta dessa época. E é um dos primeiros exemplos da arquitectura funerária do mundo islâmico que, aliás, não era muito favorável à construção destas estruturas, por defender uma igualdade entre os homens na morte. De qualquer forma, esta é uma obra de arte da arquitectura em tijolo, só possível pela riqueza que a Rota da Seda então trazia. O seu plano terá ido buscar influências aos templos do fogo dos Sassânidas, tomando a forma rectângular, com 4 portas em arco em cada um dos 4 lados e uma cúpula a encimá-lo. Com excepção desta cúpula, toda a fachada do mausoléu está decorada com o recurso aos tijolos rendilhados, dispostos sobre várias formas, como círculos, quadrados, rectângulos e arcos, daqui resultando um grandioso trabalho artístico que visualmente é uma maravilha. Como curiosidade, este túmulo foi descoberto apenas na década de 1930, tendo estado até aí coberto pela lama e, talvez por isso, tenha sobrevivido tão bem.




Nos arredores de Bucara há mais para visitar e, assim, a caminho percebe-se um pouco da cidade para além do seu centro histórico, a qual é considerada a menos soviética na sua arquitectura. Char Bakr é uma necrópole, a maior da Ásia Central. Esta “cidade dos mortos” foi construída no século 16 e nela estará Abu Bakr Said, um dos 4 (Chor) Bakrs descendentes do Profeta Maomé. Possui dois lagos, uma mesquita e khanaka com dois enormes portais (construídas no século 19) e vários pátios murados que acolhem os túmulos, muitos deles decorados com mosaicos policromados. Visitámos o Usbequistão numa época relativamente baixa do turismo (Outubro) e neste lugar estava ainda menos gente, pelo que pudemos passear pelo complexo quase sozinhas, o que lhe deu um ambiente ainda mais especial.






E, por fim, o Sitora-i Mokha Khosa, o palácio de Verão de Seyid Alim-khan, o último emir de Bucara. Originalmente, o seu bisavô havia construído aqui um palácio no século 19, de que apenas resta o nome dado ao lugar: Sitora-i Mokha Khosa Saroy tem o significado de “o palácio de uma estrela como a lua”, em homenagem à sua amada mulher. O portal de entrada, por sua vez, é obra de seu neto e a decoração, cheia de cor, é um misto de mosaicos tradicionais majolica com a geometria russa. E em 1917 o último emir construiu o palácio tal como o vemos hoje, tendo ido buscar influências culturais quer europeias quer orientais (elementos russos e de Bucara), daí resultando uma mescla de estilos que reúne num mesmo espaço o barroco e o neo-mourisco. O exterior é obra de russos e o interior de artistas locais. A decoração das várias salas do palácio é visualmente estimulante, sendo o Salão Branco a mais elegante e menos kitsch, com o uso de materiais como alabastro e vidro e pinturas a estuque. Há ainda o pátio do palácio, um pavilhão (com exposição de fotografias e porcelana), uma área de jardim e, ao fundo, o harém com uma piscina diante si. Conta a lenda que o emir gostava de mirar as concubinas desde a plataforma e escolhia a sua companhia nocturna atirando-lhe uma pedrinha, sendo a escolhida, depois, lavada com leite de burro e entregue na sua cama. Histórias das mil e uma noites, a companhia indispensável para os viajantes do século 21 por terras da Rota da Seda, que na falta de aventuras nos nossos dias se entretém a crer nas vividas pelos khans e emires.