Bairro de Santa Cruz, Sevilha

Sevilha é uma cidade feita para se conhecer a pé. 
Caminhando pelas suas ruas é fácil encantarmo-nos pelo seu casario feito de praças e pátios onde dá vontade de deixar-nos estar.
Para além do centro, muitos mais bairros (Arenal e Macarena, e Triana que não visitei), monumentos e palácios (Torre del Oro, Hospital de la Caridad, Antiga Fábrica de Tabacos, praça de touros Maestranza, Casa de Pilatos e Palácio Lebrija) e jardins (Alcázar, Murillo, Parque Maria Luísa com a monumental Praça de Espanha) há a visitar e percorrer.

A zona envolvente à Alameda de Hercules (considerado um dos jardins públicos mais antigos de toda a Europa e até há pouco lugar mal frequentado) tem vindo a tornar-se o ponto eleito pelos locais para sair para comer e divertir à noite, em forte concorrência com o Bairro de Santa Cruz.
O bairro de Santa Cruz continua, no entanto, o bairro de Santa Cruz e nele qualquer viajante se perderá em qualquer sentido. Primeiro, porque as suas ruas labirínticas não nos permitem senão deixarmo-nos ir sem orientação; depois, porque este bairro é do mais castiço e pitoresco que possamos imaginar numa cidade europeia.
Este bairro pequeno é feito de mitos e verdades, contribuindo ambos para a aura que flui à sua volta. Há que dizer desde entrada que tal como o vemos hoje não é tão antigo assim e alguns arquitectos há que o consideram apenas folclore e do mais desinteressante, pitoresco mas demasiado ostentatório, acusando-o de falta de autenticidade. 

Na realidade, o bairro de Santa Cruz foi objecto de uma reforma no princípio do século XX, no sentido de restaurar o estilo urbanístico andaluz e sevilhano, reforma essa que procurou introduzir natureza no bairro e dar uma dimensão mais humana às suas ruas e praças. 
O que parece ser inequívoco é que o bairro tem vida e por aqui abundam as galerias de arte, livrarias, lojas de artesanato e tabernas da moda. 
É um prazer percorrer as suas ruas estreitas, observando as casas nobres de outros tempos, com as suas portadas e janelas distintas, os pátios que se nos abrem e convidam a uma espreitada intrusiva e demorada, as praças que se sucedem, cada uma mais encantadora do que outra. 

Tudo isto num ambiente de enorme tranquilidade, uma vez que o bairro é maioritariamente residencial e pedonal e, apesar de colado ao centro da cidade, não é atravessado por vias de tráfego. O resguardo é, pois, quase total, mesmo se o bairro de Santa Cruz fica imediatamente atrás da Giralda e Alcázar, para lá do Convento de la Encarnación e seu campanário branco, estendendo-se até aos jardins de Murillo e do Alcázar. 
Ou seja, partindo da Plaza de la Virgen de los Reyes todo um outro mundo surpreendente nos aguarda.
Um pouco de história acerca da evolução do bairro e suas características.  
Já no tempo dos romanos havia ocupação na área a que hoje designamos por bairro de Santa Cruz. As colunas nas ruas Aire y Mármoles, talvez testemunho de um templo antigo, servem de sinal e outras duas da mesma época foram transladadas para a Alameda de Hércules na Sevilha renascentista.
Com a chegada dos muçulmanos uma nova concepção de urbanismo surgiu e o racional e as formas geométricas rectas deram lugar a ruas estreitas e tortuosas, resultando no traçado irregular que ainda hoje subsiste. À planificação dos romanos sucedeu a espontaneidade dos muçulmanos. Mas com sentido. Afinal, as ruas estreitas protegiam os caminhantes do sol demolidor andaluz, permitindo a criação de sombras. Outra novidade foi a introdução do factor mistério, cortesia da casa virada para o interior, não deixando a fachada despojada aferir a condição social de quem a habitava. Nessa época muçulmana faltavam praças e espaços públicos amplos. Mas os becos que abundam ainda hoje vêm daquele tempo, servindo então as ruas sem saída, que eram fechadas por um portão, para protecção dos moradores.
Da época dos califas muçulmanos restam hoje partes do antigo Alcázar (o palácio do governador), bem como uma extensa parte da muralha e seus arcos, ainda que reconstruída.
Após a reconquista cristã aos mouros, o bairro de Santa Cruz passou a lugar dos judeus. A tolerância dos reis cristãos, por contraposição aos anos de intolerância dos almoravidas, fez com que se seguisse um período de auge da comunidade judaica na cidade, uma comunidade rica e na época a segunda maior em importância atrás da de Toledo. Mesquitas foram convertidas em sinagogas. 
Depois, com o ódio que os negócios usurários praticados pelos judeus começaram a provocar nos cristãos, levando a actos de violência e anti-semitismo, a partir de 1391 os judeus começaram a ser perseguidos e foram obrigados a converter-se ao cristianismo.
Em sequência, no século XV o bairro deixou de ser um bairro judeu, passando antes a ser habitado por convertidos e cristãos. As sinagogas converteram-se em igrejas, conservando-se ainda hoje a de San Bartolomé e a de Santa María la Blanca, embora ambas tenham sido sujeitas a muitas alterações. Uma das sinagogas convertidas em igreja passou a chamar-se Santa Cruz e a parte da judiaria próxima a esta igreja passou a designar-se bairro de Santa Cruz.

Igrejas e conventos inundaram o bairro – ainda hoje são presença forte.
Muitos foram construídos sob o estilo da arquitectura mudejar, como o Convento de la Encarnación e a Casa de Olea. 
No século XVI Sevilha estava no centro do mundo com a descoberta da América por Colombo. Muitos humanistas habitavam então Sevilha e consideravam-na a nova Roma, propondo-se a mudar o seu aspecto externo. A abertura de ruas direitas e mais amplas vem desta época, mas o bairro de Santa Cruz manteve-se alijado da confusão do centro (com trânsito ainda incipiente, obviamente), preservando o seu traçado. Verificou-se, todavia, uma alteração nas casas do bairro. A casa islâmica, virada para dentro e com sinais mínimos para o exterior, passou a abrir-se à rua. Para além de terem sido, então, abertas diversas janelas na fachada, a porta de entrada tornou-se toda uma fachada aberta ao exterior com um pátio que a prolongava para o interior. Há quem defina esta novidade como uma “extroversão da casa renascentista num urbanismo medieval”. E essa extroversão hoje dá origem à curiosidade de quem passa, e são tantos os pátios belamente decoradas e totalmente escancarados que não há como evitar a devassa dos intrusos, nós.  
Foram construídos palácios da nobreza em estilo gótico, mudejar e renascentista, como é exemplo o Palácio de los Pinelo, hoje sede das Academias de Buenas Letras y Bellas Artes. Esta mescla de estilos é na verdade uma constante na arquitectura de Sevilha, e não exclusivamente do bairro de Santa Cruz.

A introdução de fontes públicas é também uma transformação desta época. Assim como o é a transformação que a Giralda sofreu em 1558, com a introdução de sinos renascentistas baixo uma torre almóada. A nova imagem pretendia-se que fosse o símbolo do triunfo de uma Sevilha emergente e poderosa.
Cervantes chamou então à Sevilha elitista “Roma triunfante em ânimo e grandeza” e “amparo de pobres e refúgio de excluídos, que em sua grandeza não apenas cabem os pequenos”. Sevilha e o bairro de Santa Cruz aparecem em várias das novelas daquele que é considerado o maior escritor da língua espanhola e um pouco por toda a cidade encontramos lápides feitas em cerâmica de Triana com frases de Cervantes, colocadas em 1916 por ocasião da comemoração do tricentenário da sua morte.
Já depois das fachadas do casario do bairro terem ganhado cor, do terramoto de Lisboa de 1755 ter feito os sinos da Giralda tocarem sozinhos, tal foi a sua intensidade, e as invasões francesas derrubarem parte do bairro para construção de uma cidade ao estilo europeu de avenidas largas e longas, no século XIX foi a vez dos viajantes românticos chegarem a Sevilha e ao bairro de Santa Cruz e a tomarem como sua. O escritor Washington Irving (que voltou a colocar o Alhambra no centro do mundo) terá vivido no bairro e não falta uma placa a testemunhá-lo no Callejón del Agua, o muro que levava a água ao Alcázar. Federico Garcia Llorca também por cá passou e semanas antes de morrer havia lido no Alcázar a sua “A Casa de Bernarda Alba”. 

Quando por aqui passaram, os escritores que ajudaram a tornar o bairro de Santa Cruz no mito que nos encanta hoje encontraram um bairro não muito diferente do que é hoje, sobretudo após a reforma do princípio do século XX a que aludi no início deste texto. Os problemas de salubridade foram ultrapassados e o bairro passou a ter mais entradas. As praças foram reformadas e nem a acusação de maquiagem e pitoresco ao extremo nos envergonha de eleger a Praça Dona Elvira como a mais mimosa de todo o bairro. 

Pequena e acolhedora, envolvida por edifícios cheios de vida e cor que quase não conseguimos ver tal é a densidade do seu arvoredo, sabe mesmo bem sentar num dos seus bancos de jardim decorados com azulejos e estendermo-nos a ler sobre a história do bairro. 
Mas muitos mais recantos há a descobrir. Como a Plaza Alfaro, onde domina uma casa com portada barroca e delicioso balcão, não sem antes, na sua esquina, perscrutarmos sem vergonha mais um pátio com um jardim a que não falta uma gruta é uma fonte maneirista. 

A Praça de Santa Cruz é outro lugar especial. Cercam-nas mais misturas de estilos, desta vez uma casa neo-barroca com coluna com capitel visigodo. Ao centro do seu jardim encontramos a cruz em ferro forjado que dá nome à praça e ao bairro.

E depois é caminhar sem destino, procurando estar atento aos edifícios e pormenores das suas fachadas, para que nada nos possa escapar. Mas escapa sempre tanto. 
Nada resta hoje da antiga judiaria (mas existe aqui um Centro de Interpretación Judería de Sevilla), mas a absorção das várias épocas e estilos, como o renascentismo, barroco, regionalismo andaluz, fez com que possamos apreciar uma bela conjugação entre o traçado árabe e casas barrocas, numa perfeita unidade urbanística. Permanecem as ruas tortuosas, estreitas e becos. É tudo pitoresco, sim, mas o veredicto é que o bairro de Santa Cruz entusiasma, tranquiliza e encanta.
Fonte: El Barrio de Santa Cruz de Sevilla, María José Guerrero Martínez, Editorial Everest, SA, 1982

As laranjas de Sevilha

Muitas histórias se podem contar acerca da conjugação Sevilha + laranjas, mas uma que facilmente acreditamos quando caminhamos pelas suas ruas é a de que a capital da Andaluzia é a cidade do mundo onde existem mais laranjas (mais de 40000). 

As laranjas são parte integrante da paisagem urbana. 
Encontramo-las junto à Catedral, junto à Giralda, junto ao Parasol, nos jardins do Alcázar, em qualquer pátio ou praça, a jogar às escondidas com os edifícios. 

Mas atenção: de tão amargas que são não se devem comer, são antes boas para delas fazer doces, como a famosa marmelada de Sevilha que os ingleses tanto admiram. 
Não foi à toa que o Naranjito foi escolhido como mascote oficial do Mundial de Futebol de Espanha de 1982. Dizem que as laranjeiras de Sevilha são do tempo dos romanos, que vieram da China, que foram os muçulmanos os primeiros a usá-las como ornamentação. 
O que mais gosto de acreditar é que os muçulmanos a usavam porque trazia felicidade ao seu dono.
É isso. Sevilha é uma cidade feliz e as laranjas contribuem para esse estado de espírito. 

O Parasol de Sevilha

O Metropol Parasol foi inaugurado em 2011, projecto de Jürgen Mayer H. Architects. 
Não é exagero considerar-se que faz já parte da lista dos símbolos de Sevilha, daqueles que reconhecemos pertencer a uma dada cidade sem que nunca a tenhamos visitado.

Não foi sem polémica que a sua construção prosseguiu e ainda hoje o mundo sevilhano se divide entre os seus detratores e os seus admiradores. A verdade é que a intervenção na Plaza de la Encarnación constituiu um corte profundo e radical com o pré-existente e em qualquer lugar do mundo tal seria susceptível de divisão. A possibilidade desta intervenção ter sido levada a efeito numa cidade tradicional como Sevilha só mostra a sua vontade de olhar para o futuro e desejo de continuar viva e no centro do mundo, como acontecia na época dourada dos séculos XVI e XVII.

Como descrever, então, o Parasol? 
É uma estrutura enorme que ocupa todo o perímetro da Plaza de la Encarnación. Pode ser um pára-sol ou, antes, seis pára-sóis. Ou seis cogumelos (setas, em espanhol). 
Entra-se na Plaza e não se acredita, tal a enormidade da situação, quer na dimensão quer na estética absolutamente futuristica da “instalação”. 

O seu ondulado é sensual e isso é ainda mais perceptível do cimo. Sim, Las Setas são também um mirador. E logo o melhor mirador da cidade. Pelo seu traçado curvo, que nos deixa suspensos no céu, vamos caminhando com toda a cidade aos nossos pés por uma passarela de 250 metros, ponte do Calatrava de um lado, Giralda do outro. Estamos apenas a 28 metros de altura, mas aqui captamos decisivamente toda a estrutura e arquitectura de uma cidade. O branco é a cor dominante, não só do casario, como também do novo monumento de Sevilha. 

Não parece, mas o Parasol é uma estrutura de madeira, feita da junção de 3000 peças micro laminadas, e este conjunto de painéis qualquer leigo entende ser uma obra exigente de engenharia e, porque não, uma obra-prima. 
Para além deste mirador fantástico, a construção do Parasol colocou a descoberto restos arqueológicos da época romana encontrados durante a obra e que hoje podem ser visitados na piso inferior. Aqui existe também um mercado e lojas e no último piso um restaurante panorâmico.
Os ganhos para a cidade parecem ser evidentes. Para além da Plaza de la Encarnación propriamente dita, temos também uma praça elevada na qual nos podemos abrigar debaixo dos pára-sóis e toda uma nova dinâmica que foi criada à sua volta. A revitalização da área acabou por criar um novo centro urbano, excelentemente vivida por todos.

A Sevilha monumental da Catedral, Giralda e Real Alcázar

Cidade monumental, Sevilha é ao mesmo tempo castiça e carismática.
Bairros de ruas estreitas, edifícios à vez imponentes e populares, pátios que se nos oferecem um pouco por todo o lado e praças acolhedoras. As laranjas são omnipresentes e dão ainda mais cor a uma cidade que já a tem de sobra.
Mas, visita de um dia apenas pode suspeitar disso, uma vez que os dois maiores símbolos de Sevilha ficam na mesma Plaza del Triunfo e são capazes de nos ocupar um dia inteiro, liberando-nos para pausas para tapear. São eles a Catedral e sua Giralda e o Real Alcázar.

A Catedral de Sevilha é também conhecida como a Catedral Santa María de la Sede de Sevilla. 
É nos logo à partida apresentada como a maior catedral gótica do mundo e a terceira maior catedral do mundo, apenas atrás da de São Pedro, em Roma, e da de São Paulo, em Londres. 
No entanto, a sua história não começa com a devoção ao cristianismo. Na verdade, é anterior à tomada de Sevilha aos mouros, quando estes, sob o comando dos almóadas, se decidiram pela construção de uma mesquita em 1172. Apenas em 1401 (data incerta), e depois da mesquita passar a ter sido utilizada pelos cristãos como catedral, apesar do seu mau estado de conservação, é que surge a ideia de construir uma nova catedral. 

A ambição era desmedida e o objectivo desde o início era a “construção de uma igreja tão deslumbrante que a ela nenhuma se compare; uma obra de tal envergadura e esplendor que quem a contemple pense, eram decerto loucos!”. 
A conclusão aconteceria em 1506, mas ao longo dos séculos, porém, a catedral foi sofrendo diversas alterações e ampliações, sempre obedecendo ao espírito e estilo da época, de tal forma que todas essas acções contribuíram para que o conjunto abranja elementos almóadas, mudejares, góticos, renascentistas e barrocos. 
O seu interior é, como não podia deixar de ser, grandioso. Circulamos por diversas pequenas capelas até ficarmos face à face com a Capela Maior, cujo altar-mor tem de altura 27,80 metros e de largura 18,20 metros, preenchidos de inúmeras figuras. Os tectos e abóbadas são outra maravilha, mas o deslumbre acaba por recair por inteiro no Coro, constituído por elementos góticos e mudejares. No meio da Catedral podemos encontrar ainda o Túmulo de Colombo, embora seja matéria de muita discussão se são os seus restos mortais que lá estarão na realidade. 

Da mesquita pré-existente sobre a qual foi construída a Catedral chegou aos nossos dias parte do Pátio de los Naranjos e a muito admirada Giralda, o antigo minarete dos almóadas. 
Entre os símbolos de Sevilha, a escolher apenas um tem de ser a Giralda. A torre moura feita campanário é pura elegância. 
Construída em pedra e tijolo, a Giralda é o exemplo perfeito da evolução da cidade enquanto agente aglutinador e assimilador das culturas e religiões de que foi palco. A sua construção teve início em 1184 e desde essa época o trabalho delicado de decoração mantém-se pronto a ser desfrutado pelo nosso olhar, despertando todas as nossas emoções. Da rua podemos apreciá-lo, mas diz que da visita que se pode fazer aos pisos superiores da Catedral (e não apenas ao seu interior) se obtém uma percepção mais completa desta obra de arte que mais parece filigrana. Na sua fachada encontramos uma decoração com motivos geométricos (losangos) entrelaçados, janelas geminadas e arcadas falsas. Uma perfeição e um deleite. 

Este “primeiro arranha-céus do mundo”, como os andaluzes gostam de se lhe referir, consagrado à eternidade, tinha originalmente 70 metros. Construída em três fases, foi objecto de duas remodelações que hoje fazem a torre da Giralda chegar aos 90 metros. Numa primeira remodelação, em 1400, a sua cúpula foi substituída por um campanário acompanhado de um a cruz; depois, entre 1558 e 1568 foi-lhe acresçentado o topo que vemos hoje, em estilo renascentista, com o Giraldillo a encimá-la.

Desde o interior da Catedral é possível subida à Giralda para uma panorâmica fantástica da cidade.
À saída da Catedral temos as ciganas e a sua insistente oferta de ramos de alecrim. A compor o postal castiço e típico não faltam as charretes para um passeio diferente. 

Mas a Plaza do Triunfo tem algo mais para admirar antes de dirigirmos o foco para o Real Alcázar, situado num dos lados da praça. É o enorme e belo edifício do Arquivo das Índias, construído entre 1585-1598 para servir originalmente como bolsa de comércio. Mais tarde, no século XVIII veio a tomar as funções que hoje desempenha, as de arquivo geral de documentos relativos à história dos descobrimentos do novo mundo.
O Real Alcázar de Sevilha, enfim. 
Este é o mais antigo dos palácios europeus que até hoje continuam a desempenhar a função de residência real (quando os reis de Espanha vêm a Sevilha é aqui a sua residência oficial; a infanta Elena casou na Catedral e realizou a boda no Alcázar).
Um Alcázar não é mais do que um palácio intra-muralhas. Mas este é muito mais do que isso. 
À semelhança de muito em Sevilha, aqui também houve uma constante evolução deste monumento, feita de contributos de todas as culturas e estilos dos povos que por aqui foram passando ao longo dos últimos séculos e que, em cada época, escolheram dos melhores artistas para tornarem este “mini-Alhambra” a beleza e a delícia que é. 
A origem do Alcázar pode ser traçada ao tempo do califado de Córdoba, quando em 913 o seu governador mandou construir uma fortaleza-palácio, de que ainda se conservam parte das muralhas originais. 
Foi ainda com os mouros, mas já no século XI com o taifa dos Banu Abbad, que se verificou a primeira ampliação do Alcázar. A sua porta de entrada é desta época, bem como o Pátio do Leão que se lhe segue, embora com alterações. O nome “leão” vem da figura do leão representada na cerâmica que encima aquela porta, sendo o leão o símbolo medieval da realeza.

No século XII, com os almóadas, a grandeza e esplendor arquitectónico tomaram uma força maior e, para além da mesquita (depois Catedral) e seu minarete (a Giralda), foi novamente ampliado o Alcázar. O Pátio de Yeso é desta época. 
Um século mais tarde, Sevilha foi conquistada aos mouros por Fernando III, o Santo, e o Alcázar foi convertido na sua residência, tendo mais tarde o palácio sido ampliado pelo seu filho. Foi, no entanto, na segunda metade do século XIV que se deram as maiores alterações no Alcázar, tendo este tomado a forma que se conserva até hoje, embora com algumas alterações. 

Por exemplo, em 1364 o Rei D. Pedro I, conhecido à vez como “o cruel” ou “o justiceiro”, mandou construir o seu palácio, o qual leva hoje o seu nome. Nele trabalharam os mais talentosos artesãos do reino e a sua fachada é prova disso. Monumental, com laterais simétricas e uma galeria superior ao centro com janelas, a sua decoração é deliciosa. 

O deslumbre aumenta à medida que adentramos palácio fora rumo ao Pátio das Donzelas e ao Salão dos Embaixadores, onde se destaca, grandiosa, a sua cúpula, continuando no acolhedor Pátio das Bonecas, onde encontramos trabalhos em estuque que são uma verdadeira obra-de-arte, bem acompanhados por uns encantadores arcos.

Depois destas construções, em 1526 Carlos V casou aqui com Isabel de Portugal. No piso superior ao Pátio das Donzelas visitamos o Palácio Gótico, com salões bem diferentes daqueles construídos pelos cristãos segundo uma arquitectura e pormenores grandemente influenciamos pelos muçulmanos. A pompa aqui é outra. E somos informamos que parte desta área sofreu com o Grande Terramoto de Lisboa de 1755. Mas não falta o escudo do nosso país a decorar um dos salões. 

Também no piso superior do Palácio de D. Pedro I fica o Quarto Alto, a tal ala ainda hoje usada para receber a família real quando está em Sevilha. É possível a visita ao Quarto Alto com a aquisição de um bilhete à parte. Este acaba por ser um palácio mais comum, sem surpresa de maior ao olhar europeu, embora obviamente com mobiliário que deslumbra pela sua imponência e formalismo.

Até aqui já não temos dúvidas em relação à mescla de estilos que o Alcázar nos oferece. Almóada, gótico, mudejar, renascentista, todos eles estão presentes sem que deixem de nos passar uma total harmonia.
E ainda falta falar dos jardins, outro ponto alto da visita ao Real Alcázar. A sucessão de pátios, fontes, azulejos e laranjeiras continua. O deleite também continua. Os jardins são imensos e parece ser impossível não nos perdermos neles. Faltará sempre um canto para conhecer. No entanto, não podemos deixar de visitar o Jardim do Lago e sua estátua de mercúrio, obra de Diego Pesquera do século XVI. As estátuas de leões à volta do lago estão de vigia. 

Por cima fica a  Galeria del Grutesco, um fragmento da antiga muralha almóada transformado em passarela mirador. Daqui do alto alcançamos uma ideia mais exacta da extensão dos jardins do Alcázar e seus elementos e desenho. 

O Pavilhão Carlos V é um deles, envolto no jardim de mesmo nome e prova provada da influência que a arquitectura islâmica continuou a ter desempenhar muito após a saída dos mouros da cidade: a fonte e a água, elemento essencial à vida. 

Uma dica para a visita tanto à Catedral como ao Alcázar: se se pensar visitar Sevilha em época alta é de todo aconselhável a compra dos bilhetes de entrada para estes dois monumentos com antecedência. De contrário, espera-nos certamente uma fila que nos tirará o precioso tempo para nos deixarmos perder no muito mais que a cidade tem para oferecer. 

Sevilha

Sevilha é uma verdadeira surpresa. 

Palmeiras pelas avenidas, casas com riscas amarelo torrado a dominarem o casco antigo, um sem número de laranjeiras em ambiente urbano (diz-se que serão mais de 30 mil). Toda uma realidade que mais parece própria de uma qualquer cidade colonial da América Latina. 
Mas não. Sevilha fica a apenas cinco horas de viagem de carro desde Lisboa. 
A capital da Andaluzia está situada no vale fértil do Guadalquivir. Apesar de ter sido fundada pelos romanos (a Hispalis), apenas a partir de 1040 começou a emergir como o taifa mais forte da região, em detrimento de Córdoba, quando os almorávidas chegaram para combater a ameaça cristã e acabaram por derrotar Castela e tomar também o Al-Andaluz. Após o poder almorávida seguiu-se o dos almóadas, ambos muçulmanos. 
Em 1248 Sevilha foi conquistada por Fernando III, o Santo, e os muçulmanos acabaram por se remeter a Granada, estabelecendo aí o Emirado Nasrid, o último bastião islâmico na Península Ibérica. 
Com a reconquista cristã o esplendor da era dos almóadas manteve-se e aumentou ainda mais com a descoberta da América por Cristóvão Colombo em 1492, tendo Sevilha vindo a ganhar o monopólio oficial espanhol do comércio com o novo mundo, com abundante entrada de ouro e prata. Resultado? A ascensão de Sevilha ao posto da cidade mais rica e cosmopolita do mundo.
Todavia, o passado islâmico não foi apagado e apesar da reconquista aquele serviu de base para as fundações da nova cidade, de tal modo que a influência islâmica ainda nos dias de hoje está presente na arquitectura e cultura da cidade. Os dois maiores monumentos / símbolos de Sevilha são disso exemplo: a Catedral e sua Giralda foram erguidas a partir das anteriores mesquita e minarete e o Real Alcázar é o somatório de um conjunto de intervenções ao longo dos séculos.
O romano, o islâmico, o gótico, o renascentista e o barroco convivem lado a lado. 
O grande encanto de Sevilha é precisamente esse, o de conseguir preservar e mesclar na perfeição vários estilos, várias épocas, vários ambientes, tendo como resultado um enriquecimento absoluto. Difícil mesmo será não conseguir sentirmo-nos atraídos por alguma das suas muitas personalidades. Ao lado das centenas de igrejas e festas católicas (Semana Santa, Feira de Abril e O Rocio), que deixam em êxtase os locais e os visitantes, encontramos a paixão pelos touros e pelo flamenco que revelam toda a alma desta cidade. 
Uma cidade claramente feminina, como a designou James Michener na sua obra “Iberia”, publicada em 1968. Uma cidade que parece viver na rua, pelas ruas pedonais das compras como a Calle Sierpes, rua estreita a respeitar a identidade das cidades da Andaluzia, ou pelos incontáveis bares de tapas. 

Uma cidade antiga e tradicional, sim, mas sem medo de encarar o futuro como o fez com a organização da Expo 92 e mais recentemente, em 2011, com a construção do Metropol Parasol, paradigma da coragem em romper consciências sem medo de abraçar o futuro e a modernidade. 
E, depois, para o ambiente de alegria e boa disposição que se sente um pouco por cada canto da cidade muito contribui o clima que aqui calhou em sorte. Se no verão o termómetro sobe a insuportáveis 40 e tal graus, no Inverno, mais especificamente na última semana de 2015, consegue manter-se nuns inimagináveis 20 graus durante parte do dia, com a luz natural a abandonar-nos apenas por volta das 18:30. Que mais pedir para uma escapada de inverno na Europa?
Um aviso prévio à descrição de parte do melhor que Sevilha nos tem para oferecer: não se pense que dois dias são suficientes para se conhecer bem a capital da Andaluzia. Com as filas intermináveis de turistas, dá para ver a zona monumental (Catedral e Giralda e Real Alcázar), tapear e pouco mais. A nós, entre muito mais, ficou pelo menos a faltar um passeio pelo bairro de Triana (o antigo bairro de pescadores na outra margem do Guadalquivir) e a visita ao Museu de Belas Artes e ao Centro Andaluz de Arte Contemporânea.

A Andaluzia pela A92

A Andaluzia é famosa pela sua Costa do Sol, paraíso dos reformados da Europa do norte endinheirada, e pelo seu passado mouro. Historicamente, o poder e cultura islâmica tiveram lugar primeiro em Córdoba, entre 756 e 1031, seguidamente em Sevilha, entre 1040 e 1248, e, por fim, em Granada, entre 1248 e 1492. Até hoje nestas três cidades testemunhamos o seu legado materializado em palácios, mesquitas, jardins e mercados. Todo um mundo de deslumbre feito de elegância e delicadeza.

Os fenícios, os romanos (Itálica, uma das cidades mais ricas do império romano, situada às portas de Sevilha, foi lugar de nascimento dos imperadores Trajano e Adriano), os visigodos e depois os muçulmanos (que aqui chegaram na sequência da disputa do trono visigodo por várias facções godas rivais), para além de árabes, berberes, judeus e espanhóis do norte, todos eles se podem considerar os ancestrais dos andaluzes. Todas juntas, estas civilizações legaram-nos diversos estilos de arquitectura, não sendo difícil encontrar num mesmo lugar uma mescla de elementos mudejares, góticos, renascentistas, barrocos ou neoclássicos. 
Se a Costa do Sol, Atlântico a transformar-se em Mediterrâneo com África à espreita, seduz muitos, a outros são as marcas do Al-Andaluz que encantam – “Al-Andaluz”, a designação que os muçulmanos atribuíram a esta região, tendo aqui exercido o seu poder por cerca de oito séculos, criando a cultura mais sofisticada e evoluída da época medieval na Europa.
Até que a reconquista cristã chegou no século XIII (e os muçulmanos remeteram-se a Granada) e, logo depois, em 1492, os reis católicos patrocinaram Cristóvão Colombo na sua busca de descoberta de novas rotas de comércio com o Oriente. O navegador deu antes com a América e a Andaluzia, sobretudo Sevilha, emergiu como uma plataforma no comércio mundial. A prosperidade da nova era permitida pelo ouro, prata e outros bens que chegavam das novas colónias espanholas do Novo Mundo tocou não apenas a Sevilha – a maior cidade espanhola até ao fim do século XVII e uma das mais ricas do mundo – mas também a vários povoados vizinhos. 
Ainda hoje, percorrendo a A92 (autopista sem portagens e de qualidade equivalente às auto-estradas pagas portuguesas) que liga Sevilha a Granada, diversas cidades há à sua beira que merecem mais do que uma breve paragem. 
Apesar de esta região ter sido habitada por inúmeros povos, foi após a descoberta da América por Colombo que cidades como Antequera e Osuna se desenvolveram e tornaram ricas, de tal forma que a opulência de outrora é ainda hoje visível.
Com o fim do século XVII veio um afrouxar desta história de pujança da Andaluzia. Má estratégia, guerras na Europa, escasseio da prata, epidemias, fracas colheitas, assoreamento do rio Guadalquivir levaram a que Cadiz, na costa andaluza, assumisse o controlo das rotas de comércio mas sem a mesma força que Sevilha havia desempenhado noutros tempos.
Nos dias de hoje a Andaluzia é mais conhecida pelo carácter expansivo das suas gentes, de quem se diz que serão pouco dadas ao trabalho (mas quem consegue trabalhar sob 45 graus sem se dedicar a umas horas de siesta pelo meio?) e mais à festa. O estigma está criado. 
A principal economia da região é o turismo, mas para além de turistas em busca da sua diversidade cultural e cosmopolitismo, a Andaluzia é terra de muitos imigrantes, prosseguindo a sua história de acolher diversas culturas e raças. 
Antes, porém, outros se deixaram encantar e inspirar por esta terra de paixão – seja pela religião católica vivida na Semana Santa, pela aficion pelos touros ou pelo flamenco dos gitanos. Sevilha é palco de “Don Juan”, de Lord Byron, e da ópera “Carmen”, de Bizet; em Sevilha nasceu Velasquez (e Felipe Gonzalez); Irving Washington voltou a colocar Alhambra no mapa com o seu “Tales of Alhambra”; Granada é a cidade de Federico Garcia Llorca e onde este morreu fuzilado durante a Guerra Cilvil espanhola; Ernest Hemingway também passou pela Andaluzia e em Ronda escreveu dos capítulos mais fortes de “Por Quem os Sinos Dobram”. 
A visita a Ronda estava nos planos iniciais desta viagem, mas foi deixada cair para um futuro passeio pela costa andaluza. Assim, para além de Sevilha e Granada, ficámo-nos por Antequera e as três mais pitorescas vilas / cidades de La Campiña: Osuna, Écija e Carmona.

Antequera fica situada numa planície entre Sevilha e Granada e é mesmo boa ideia fazer um desvio da autopista para a ir conhecer e sentir (de Sevilha a Antequera são cerca de 160km, sensivelmente 2 horas de caminho). Embora por aqui se encontrem vários exemplos de dolmens do neolítico e da idade do bronze e graças à sua excelente localização estejam presentes elementos das três maiores influências da Andaluzia (romanos, islâmicos e espanhóis), Antequera é um testemunho perfeito do esplendor e riqueza vividos entre os séculos XVI e XVIII. 

Cidade monumental, aqui encontramos as marcas típicas da Andaluzia: povoado branco, ruas estreitas, pátios recolhidos, janelas adornadas, laranjeiras em abundância. E um castelo numa colina da qual se obtém uma vista de tirar o fôlego, cidade lá em baixo onde as torres das igrejas irrompem pelos céus em número quase ainda maior do que as laranjas. Os telhados vermelhos são os coadjuvantes perfeitos neste belo cenário.

Podemos começar o passeio indo directos à colina que forma a parte alta da cidade, onde está a Alcazaba do tempo dos muçulmanos e a Colegiata de Santa Maria Mayor e a sua fachada renascentista. Descendo desde aí, por ruas inclinadas e estreitas com nomes como “Cuesta de San Judas”, as igrejas a visitar são inúmeras, com destaque para além desta para o Convento e Igreja de Carmen (possuidor de um extraordinário retábulo) e para o Museu Conventual de las Descalzas. Já cá em baixo fica a Plaza de San Sebastian com a torre de mesmo nome, aquela que se vê e sente de quase qualquer lugar por aqui. A arquitectura desta bela torre é de estilo barroco-mudejar, só para provar, se preciso fosse, que aqui todas as culturas e estilos convivem bem uns com os outros.
A região de La Campiña está situada numa planície onde se veem largos campos cultivados, não muito longe de Sevilha. Écija e Carmona foram vistas a correr debaixo de chuva (sem fotos, portanto) e não deixo de o lamentar. Écija é conhecida como “a cidade das torres” pois, à semelhança de Antequera, são muitas as suas igrejas. Desta vez as suas torres estão maioritariamente decoradas com mosaicos de cores vivas. O esplendor de outrora desta cidade para onde os comerciantes abastados dos séculos XVII e XVIII se recolhiam é ainda visível pelos palácios que aqui construíram, em estilo gótico, mudejar e barroco.
Carmona está situada numa colina donde se avista um extenso vale. Passando a monumental Puerta de Sevilla vamos caminhando pelo seu centro compacto, feito de mansões enormes, e avistamos ainda troços da muralha da antiga cidade que vem dos tempos muçulmanos, bem como a Alcazaba. Curioso que a cor dominante desta cidade parece ser já não o branco, mas antes a cor dourada dos seus palácios.
Osuna é talvez a mais bonita e encantadora das cidades de La Campiña. Situada a 90 km de Sevilha, pouco mais de uma hora de caminho, diz-se que aqui está a segunda rua mais bonita da Europa e as expectativas logo se tornam elevadas. A distinta rua é a Calle San Pedro, onde Franco Zefirelli filmou o seu Maria Callas. Os palácios sucedem-se e a exuberância do barroco é marcante.
Dois exemplos:
O edifício da Cilla del Cabildo Colegial tem na sua fachada uma representação da torre Giralda, de Sevilha, ladeada pelas mártires sevilhanas Santa Justa e Santa Rufina.
O Palácio Marqués de la Gomera, adaptado a hotel de charme, tem o brasão da família originalmente sua proprietária na fachada. O balcão que dá para a estreita rua pertence à suite do palácio / hotel.
Já na Calle Sevilla, a qual se alcança logo depois de deixarmos a Plaza Mayor, fica o Palácio de Puente Hermoso e a sua fachada com pilares entrelaçados com cachos de uvas e folhas de videira neles esculpidas.
O ornamento pode ser excessivo, mas o bom gosto e equilíbrio não deixam de ser uma realidade.

Osuna é uma cidade pequena, mas concentra um grande número de igrejas e palácios civis senhoriais. As janelas de piso térreo são outra das suas delicias. 
Assim como o arco da Calle Hornillo.
Osuna foi cidade ducal dominada pela família Téllez nos séculos XVI e XVII, os quais aqui se dignaram fundar uma universidade em 1548 (que perdurou até 1842). No topo da cidade está, imperial, como se guardasse o povoado, a Colegiata de Santa Maria de la Asunción (que não visitei, mas a qual guarda quadros de Ribera e uma capela do Panteão Ducal que dizem ser uma obra-prima).
Uma curiosidade mais apenas. Como se chamam os habitantes de Osuna? Ursaonenses, por supuesto.

Correr em Madrid

Para a primeira internacionalização juntámos seis corredores. 
A cidade eleita foi a vizinha Madrid e a distância os 21 km da Meia Maratona.
Objectivo confessado: correr; objectivo real: ver a capital espanhola a correr, sim, mas também tapear.
Depois de um inacreditável embarque – fomos tartarugas de manhã e quase ficávamos em casa – o segundo impacte foi uma não menos inacreditável fila de praticamente duas horas para levantar os nossos dorsais nos arredores de Madrid. A visita ao Mercado de São Miguel ficou para o lanche. Queijo e presunto para os três rapazes, mais conhecidos como os rústicos, tapas a atirar para o gourmet com sabores inovadores para as três raparigas, mais conhecidas como as cosmopolitas. À noite partilhamos todos, em verdadeira comunhão, as pequenas porções do Yakitoro da Gran Via. Pelo meio uma caminhada pelo Bairro das Letras e Praça Maior, sem faltar uma paragem na esplanada para uns churros com chocolate quente.
A manhã do decisivo domingo começou cedo. O pequeno-almoço aconteceu num daqueles bares-restaurantes perto da Atocha / Rainha Sofia, lado a lado com os retardatários da noite anterior que seguiam teimosamente na via das copas. Não se calaram a noite toda, num movimento de pessoas e carros completamente louco. Quem diz que os tempos da movida dos anos 80 já eram?
Caminhámos pelo Passeio do Prado até à zona da partida para a meia maratona – nossa prova – e maratona, um pouco antes da Praça Cibeles. Logo encontrámos um representante dos Cágados, o primeiro de muitos portugueses com quem haveríamos de partilhar as calles de Madrid a correr.
A chuva miudinha mal se notava na espera para a partida e nem sequer deu para arrefecer. O boletim meteorológico previa chuva forte e trovoada, por isso dávamo-nos por contentes. O tiro de partida logo veio e com isso as primeiras passadas soltas. Aos rapazes do grupo deixámos de os ver mesmo antes de poder encontrar à direita a Porta de Alcalá. Os Passeios sucediam-se, primeiro o de Recoletos, depois o da Castellana. À passagem pelo Estádio Santiago Bernabéu não se ouviu um pio – nem um singelo Cristiano, nem sequer um dale Madrid ou até dale Atlético. Fosse em Lisboa e os gritos pelos clubes da capital seriam incessantes. 
Mas como não era em Lisboa, e apesar da chuvinha se fazer sentir, as pessoas estavam nas ruas a gritar antes pelos atletas, em maior número sobretudo junto aos pontos de música – este evento faz parte das corridas Rock’n Roll Series.
Até aqui ia desfrutando do cenário, junto com as outras duas meninas, e deu até para observar em pormenor a inclinação das Torres KIO, ou Torres Puerta de Europa, quase que uma debruçada sobre a outra. Um pouco depois destas Torres retornamos. E um pouco depois, também, sem entender muito bem porquê, lá para o quilómetro 11 fiquei cheia de cãibras na barriga e perdi-me do meu grupo, agora acrescido por um dos rapazes. Até ao quilómetro 16 foi um bocado de sofrimento o que senti, tentando correr e sendo obrigada a parar por três vezes. 
Ainda assim, muitas mais sensações ocorreram. Ouvi o grupo alegre que ia cantando a correr, vi o rapaz com a t-shirt da Palestina e pés descalços a passar rapidamente por mim, qual Zola Budd, pude ouvir e ver correr os muitos estrangeiros que partilhavam as ruas comigo. 
O momento mais emocionante de toda a corrida deu-se nesta fase dorida: um pouco antes do quilómetro 14 foi impossível conter uma lágrima quando maratonistas se separaram dos meia-maratonistas sob o aplauso destes últimos, eu incluída. 
Ânimo!, gritava a muita assistência e assim passámos nós a gritar também.
Seguimos pela Calle Ortega Y Gasset, em pleno bairro de Salamanca, eu ainda meio dobrada mas com o cérebro a funcionar e pronto a lembrar as palavras do filósofo “Podemos pretender ser quanto queiramos, mas não é lícito fingir que somos o que não somos” e ” Eu sou eu e a minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”.
Eis senão quando, redentoramente retornei à corrida, sem dor, passo largo e “rápido” e quando ao quilómetro 16 começamos a contornar o Parque Retiro não havia chuva nem subidas que me afectassem. Nem sequer me juntei ao coro de “Coño, que carajo de subida é esta?” a menos de dois quilómetros da meta.
Os últimos quilómetros foram, assim, os mais fáceis para mim, fisicamente bem e com o bónus de ver a meta cada vez mais ao alcance. A uns 800 metros do fim, já com um dos companheiros ao meu lado, fomos ultrapassados pelo primeiro maratonista, queniano, pois claro, Ezekiel Kiptoo Chebbi de seu nome. 
Foram 2h 13m a correr, para mim, um minuto menos para ele, mas com o dobro dos quilómetros percorridos.
A chuva e o frio – que parada finalmente notava – fizeram com que a ida para um duche quente no hotel fosse rápida. Até porque mais mercados e tapas nos esperavam pela tarde. O eleito para o almoço foi o Mercado San Ildefonso, na Fuencarral. Tudo óptimo, a pensar numa sesta no entanto. Mas ainda com ânimo para a exposição de Raoul Dufy no Thyseen-Bornemisza e um passeio até à Praça de Santa Ana, provavelmente uma das mais bonitas de Madrid.